O Livro de Jó

Atualizado: Mar 13

Jó 1-7


Consideramos como sendo quase um milagre que este livro tão antigo tenha sido aceito pelo povo de Israel como parte dos “oráculos de Deus” (ARA), que foram “confiados” em suas mãos (Rm 3:2). Jó deve ter sido contemporâneo de Abraão, mas certamente não era de origem abraâmica e, portanto, era um gentio, e ainda assim nos foi apresentado com palavras de louvor que dificilmente achamos concedidas a qualquer filho de Israel. Além disso, no livro não há alusão à lei na qual o judeu se vangloriava. Portanto, não havia nada que atraísse particularmente o judeu, mas sim aquilo que poderia ofendê-lo. No entanto, através dos séculos, o livro permaneceu e chegou até nós.


Nisso vemos não só a sabedoria de Deus, mas a Sua misericórdia também. Assim que o pecado entrou no mundo, um problema desconcertante se apresentou na morte do justo Abel. Por que os piedosos deveriam sofrer? Se a vida de um homem realmente agrada a Deus, por que esse prazer não poderia ser indicado por um bem estar especial na vida desse homem? Existe, é claro, o problema inverso: Por que os ímpios prosperariam? Isso é tratado no Salmo 73. Porém, muito antes dos dias dos salmistas, Deus achou conveniente em Sua misericórdia resolver o enigma para nós, permitindo que uma extrema catástrofe viesse sobre Jó, e fazendo com que a história fosse registrada e preservada num relato inspirado. A solução foi dada assim que “os oráculos de Deus” começaram a aparecer.


No primeiro versículo, o escritor inspirado – quem quer que tenha sido – deixa muito claro o caráter excepcional de Jó, e no versículo 8 ele registra que uma descrição precisamente semelhante dele havia saído dos lábios do próprio Jeová, mas com o acréscimo de que, em sua piedade, ele superou seus contemporâneos, pois “ninguém há na Terra semelhante a ele”. De todos os homens, portanto, aqui estava o homem sobre quem o sorriso do Todo-Poderoso deveria descansar.


E, de fato, ele havia prosperado bastante na providência de Deus. Ele tinha uma família muito favorecida e imensos rebanhos de animais, os quais representavam riqueza naqueles dias. Ele foi o maior de entre os homens do Oriente, assim como o mais piedoso. Sua piedade abrangeu sua família, assim como a si próprio, pois ele oferecia holocaustos por seus filhos nos dias de suas festividades, para que não houvesse, de nenhuma forma, alguma ofensa. Essa é a imagem apresentada desse homem notável.


Nos versículos 7-12, nos é concedido um vislumbre nos bastidores deste mundo. Satanás, embora sendo uma criatura caída, ainda tem acesso permitido à presença de Deus. Sua expulsão, sendo lançado à Terra, mencionada em Apocalipse 12, ainda é futura. Ele é mencionado nesse capítulo como “o acusador de nossos irmãos”, e é exatamente isso que o vemos fazendo aqui: ele não muda. Ele acusou Jó de egoísta em sua visível piedade: em outras palavras, que ele era em grande parte um hipócrita – exatamente o que encontraremos os seus três amigos insinuando. Satanás praticamente desafiou Deus a testar Jó por alguma catástrofe, quando a piedade profunda de Jó seria derrubada e ele amaldiçoaria o Deus a Quem Jó professava considerar.


O Senhor aceitou o desafio de Satanás e permitiu ao adversário agir contra tudo o que Jó tinha, mas não contra ele mesmo. Satanás agiu prontamente e as catástrofes vieram com um efeito devastador.


Foi uma cena muito instrutiva. Percebemos três causas e dois efeitos. A primeira grande causa é Deus. A segunda causa inferior é Satanás. A terceira causa ainda menor – ou antes, as causas – os sabeus (v. 15), os caldeus (v. 17) e o que os homens chamariam de forças da natureza (vs. 16, 19). O primeiro efeito foi uma varredura completa de toda a família e posses de Jó: o segundo e derradeiro efeito foi um golpe esmagador contra Jó.


O que deve ter se tornado tão esmagador para Jó foi o fato de que quatro agentes diferentes foram empregados. Se uma calamidade gigantesca tivesse atingido tudo, o efeito em sua mente provavelmente não teria sido tão grande. Mas quatro calamidades separadas, todasem um dia, e duas delas sendo o que poderíamos chamar hoje de “atos de Deus”, devem ter feito da ação maliciosa de Satanás algo desestruturador além de todos os nossos pensamentos ou palavras. Arriscamo-nos a pensar que esse conjunto de catástrofes, caindo sobre um homem em um dia, nunca foi igualado em toda a história do mundo.


A piedade de Jó se provou ser não meramente superficial. Deus sabia como sustentar Seu verdadeiro servo, e ele resistiu à prova e não amaldiçoou a Deus. Satanás foi demonstrado como um mentiroso e derrotado. As palavras de Jó “o Senhor deu, e o Senhor tirou” (AIBB) têm sido repetidas milhões de vezes por santos entristecidos, que também bendisseram a Deus em vez de amaldiçoá-Lo, assim como Jó.


Satanás, no entanto, retornou à acusação, embora Deus pudesse novamente dar Seu testemunho ao notável caráter de Jó. Ele sabia muito bem que o próprio corpo de um homem é mais chegado e mais estimado do que tudo o que ele possa possuir, então ele disse: “Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida”. Esta observação do diabo foi uma vez citada em tribunal por um advogado, na intenção de favorecer sua causa. Antes de citar esse versículo ele fez a seguinte introdução: “Como uma grande autoridade disse...”, sentindo que estava bastante seguro quanto ao seu poder de convencimento uma vez que citou a Bíblia! O juiz, que conhecia sua Bíblia melhor do que o advogado, disse calmamente: “Estou interessado em observar quem o sábio advogado cita como sendo ‘uma grande autoridade!’”


Será útil, portanto, lembrar aos leitores de que, neste livro, citamos não apenas as palavras de Satanás, mas também muitas palavras de homens, algumas delas verdadeiras o suficiente, como mostram outras escrituras, mas outras muito abertas a questionamentos. Nenhum desses homens que falaram foram inspirados em suas declarações, embora tenhamos um relato inspirado do que eles disseram, para que a imagem apresentada seja perfeitamente verdadeira. Nunca devemos ignorar a diferença entre revelação e inspiração. Toda a Escritura é inspirada por Deus, mas nem toda palavra encontrada nela é uma revelação de Deus. Quando Salomão escreveu, por exemplo: “Não há nada melhor para o homem do que comer, beber” (Ec 2:24), ele não estava proferindo uma revelação de Deus, mas sua própria tolice – inspiradoa registrá-la para nosso aviso.


Mas, voltando à nossa história, com a permissão dada por Deus, Satanás afligiu o pobre Jó com uma doença tão virulenta como jamais registrada, embora não tenha tido permissão para tirar a vida dele. Seu estado se tornou tão assustador e repulsivo que sua própria esposa o incitou ao pecado que Satanás havia planejado para que ele cometesse. Apenas ela foi poupada da família e, assim, tornou-se, talvez sem querer, uma incentivadora do desígnio de Satanás. Mas, novamente, apoiado por Deus, Jó resistiu à prova e não pecou com os lábios. O registro da reação de Jó é desta vez mais negativo do que positivo, notamos que Satanás ainda foi derrotado e, a partir desse ponto, ele desaparece da história.


Aqui, portanto, a história poderia terminar, se o objetivo dela fosse apenas nos mostrar como o poder de Deus triunfa sobre as ações malignas do adversário. Isso é de fato claramente manifestado, mas havia outro ponto; o de demonstrar como esse mesmo poder, juntamente com Sua bondade perscrutadora, triunfou na consciência, no coração e na vida de Seu santo provado, transformando finalmente a catástrofe mais tenebrosa em rica bênção, tanto espiritual como materialmente.


Como um primeiro passo nessa direção, os três amigos de Jó apareceram em cena. No final de Jó 2, eles são apresentados e o que é registrado indica que eles vieram cheios de empatia e com a melhor das intenções. O registro das calamidades de Jó e o horror de seu estado corporal os levou às lágrimas, e os surpreendeu tanto que, durante uma semana inteira, ficaram sentados em sua presença, sem palavras. A realidade de tudo isso excedeu em muito o que eles ouviram. Terrível deve ter sido isso a ponto de reduzi-los a essa condição sem palavras. As expressões de empatia que eles pretendiam proferir se congelaram em seus lábios.


Mas a semana do silêncio teve que terminar. A presença deles, as lágrimas, os mantos rasgados, o pó sobre a cabeça afetaram Jó e finalmente o levaram a quebrar o silêncio. Ele abriu a boca e amaldiçoou o seu dia. Ele não amaldiçoou a Deus, note-se. Ele lançou uma maldição no dia em que nasceu; deplorando o fato de ele não ter morrido quando sua mãe lhe deu à luz. Ele antecipou que, se nunca tivesse visto a luz, estaria “deitado e quieto” (cap. 3:13 – TB) e não nessa aflição terrível. Nos dias de Jó, não havia muita luz quanto ao mundo invisível, mas ele sabia que a morte não significava extinção do ser, mas para o descanso dos santos e liberdade dos problemas causados pelos ímpios, como os que ele experimentara dos sabeus e caldeus. “Ali os ímpios cessam de perturbar (Jó 3:17 – AIBB); de perturbar outras pessoas, não de serem perturbados. Lá aqueles cuja força está esgotada estão em repouso.


Entre a humanidade quase universalmente, um aniversário é uma ocasião de lembrança e gozo. Para o pobre Jó, pareceu um momento para ser deplorado e amaldiçoado. Nos seus dias de prosperidade, ele temia que algum tipo de adversidade pudesse sobrevir. Agora isso o atingira com uma força incomparável. Sua expressão agonizada, registrada em Jó 3, certamente provoca nossa empatia enquanto a lemos, cerca de quatro mil anos depois de ter sido falada.


O silêncio de uma semana sendo quebrado, Elifaz se comoveu a falar. Suas primeiras palavras, no início de Jó 4, têm um espírito gentil e atencioso. Ele reconheceu que Jó havia sido um ajudador e provedor de outros, mas fez uma pergunta pertinente no versículo 6, onde J. N. Darby traduz como: “Não tem sido tua piedade a tua confiança, e a perfeição dos teus caminhos a tua esperança?”


Aqui, acreditamos, Ele colocou o dedo no ponto fraco de Jó, como é mostrado no restante do livro. O caráter e os modos de Jó eram excelentes, certificados pelo próprio Deus, mas, sendo assim, quão sutil é a armadilha para torná-los a base da confiança e esperança de alguém e construir tudo sobre isso, tanto diante de Deus quanto diante dos homens. É o que vários santos muito piedosos têm feito desde os dias de Jó.


Mas em seu próximo parágrafo (vs. 7-11), Elifaz entende mal toda a situação. Ele pergunta: “Quem sendo inocente pereceu?” (cap. 4:7 – JND) Sem dúvida, ele não conhecia Gênesis, aquele livro provavelmente não tendo sido escrito em seus dias, mas as coisas antigas eram conhecidas pela tradição cuidadosamente preservada. O que dizer de Abel? Ele pereceu sendo inocente. Ora, a primeira tragédia registrada depois que o pecado entrou no mundo invalida a posição que Elifaz assumiu. O justo Abel foi cortado. Daí a ideia, que ele elaborou usando a imagem dos leões, se desfez. O resultado da catástrofe não significa necessariamente que aqueles que o colhem “lavram iniquidade e semeiam o mal”.


Do versículo 12 em diante, o ponto de vista de Elifaz vem mais claramente à luz. Ele começa a relatar uma experiência bastante aterradora pela qual passou, quando viu alguma aparição de um espírito, e recebeu uma palavra de advertência quanto à fragilidade e impureza do homem na presença de seu Criador. O que ele ouviu é perfeitamente verdade. Nenhum homem mortal pode ser mais puro ou mais justo do que Deus. Em ambos os aspectos, ele fica infinitamente aquém da glória de Deus.


Quando abrimos em Jó 5, encontramos Elifaz continuando com essa nota e novamente ele se refere ao que havia visto. O versículo 3 começa: “Bem vi eu... E se formos para Jó 15, onde está gravado seu segundo discurso, novamente o encontraremos dizendo: “te contarei o que tenho visto (cap. 15:17 – TB). É evidente, então, que seu argumento se baseia principalmente no valor de sua própria capacidade de observação. Ele confiava nessas capacidades, para formar sua opinião quanto ao significado das calamidades que caíam sobre Jó.


Algumas das palavras de Elifaz neste capítulo são perfeitamente verdadeiras: por exemplo, “homem nasce para o enfado, como as faíscas das brasas voam para cima” (cap. 5:7 – ARA), neste mundo de pecado. Novamente, sem dúvida é verdade que Deus “apanha os sábios na sua própria astúcia” (v.13) e que “bem-aventurado [feliz – TB] é o homem a quem Deus corrige” (v.17 – AIBB). Mas podemos ver que todos esses fatos progridem de uma maneira que os fez se colocarem contra o pobre Jó. Ele viu homens lançar raízes e, de repente, amaldiçoados, mas estes eram “os loucos [tolos – JND]. Além disso, seus filhos foram feridos e ladrões tragaram suas posses. É óbvio que todas essas observações levaram uma insinuação contra Jó. Ele parecia ser sábio, mas agora fora levado por sua astúcia – assim parecia a Elifaz.


O conselho dado no final de seu discurso foi bom. Jó não deve desprezar o castigo do Todo-Poderoso, mas sim aceitar a correção, e então a maré do mal se transformaria e a bênção apareceria. Os versículos finais falam da libertação de Deus chegando – de uma prosperidade renovada. O versículo 24 diz: “Saberás que a tua tenda está em paz, visitarás o teu rebanho, e nada te faltará”. O versículo 25 fala de uma numerosa posteridade e o versículo 26 do próprio Jó chegando ao seu fim na velhice.


De fato, essas coisas marcaram os últimos dias de Jó como sabemos, mas a insinuação era que a ausência de tal prosperidade naquele momento era punição de Deus por seu pecado que havia permanecido oculto em sua vida no passado. Elifaz encerrou sua fala afirmando com confiança a verdade de seus comentários. “Assim é”, declarou ele, pois ele já o havia inquirido e visto por si mesmo.


Com tudo isso, no capítulo 6 Jó foi instigado a responder, e ele começa reconhecendo que as flechas que o feriram eram do Todo-Poderoso, mas esses amigos não tinham um senso adequado do peso de sua calamidade e tristeza. Animais saciados não expressam angústia por zurros ou mugidos, de modo que ele não clamou sem uma causa ampla. Ele estava sendo alimentado com “comida repugnante” (v. 7 – ARA) e desejava que Deus terminasse com ele completamente, em vez de prolongar sua miséria.


Dos versículos 14-23, Jó censura seus amigos. Ele era o aflito a quem seus amigos deveriam ter pena, se desejassem andar no temor de Deus, mas, pelo contrário, estavam começando a tratar com ele de maneira enganosa. Eles eram como riachos que se secavam pelo calor, exatamente quando eram mais necessários pelas caravanas de Tema ou Sebá.


No versículo 24, começa um apelo mais direto. Ele desafiou seus amigos a deixarem vagas insinuações e darem lugar a acusação direta. Que lhe mostrassem onde errou, para que, ensinado por eles, Jó pudesse se calar. Ele observou com razão: “Oh! Como são persuasivas as palavras retas!” (ARA), mas o que produziu as “censuras” ou “repreensões” de Elifaz? Quantas vezes entre os irmãos em Cristo há vagas insinuações, ou mesmo acusações, que causam estragos, onde “palavras certas”, baseadas em fatos específicos, teriam se mostrado persuasivas e produziriam o bem.


A resposta de Jó continua em Jó 7, e aqui seu discurso parece se dividir em duas partes; versículos 1-10 e 11-21. Não se pode ler a primeira seção sem ser comovido pelos seus apuros. Ele próprio os sentiu profundamente e, portanto, expressou-os de maneira comovente. “meses de desengano” e “noites de aflição [cansativas – JND] eram sua porção, de modo que, assim como um empregado ou trabalhador ansiava pela sombra da noite e pelos salários, ele ansiava pelo fim. Como a lançadeira do tecelão, seus dias fugiram e ele ficou sem esperança. Seu comovente estado é descrito de maneira mais vívida e seus amigos deveriam estar mais cheios de compaixão.


Mas na segunda parte, Jó evidentemente voltou-se para Deus e começou a se dirigir a Ele com sua amarga queixa. Ele percebeu sua própria pequenez. Ele não era algo grande como um mar ou um monstro marinho, e, nos versículos 13-16, ele clama que suas próprias noites são um tormento com sonhos e visões de terror que, ele sente, vêm de Deus. Ele abomina sua vida presente e diz a Deus que deseja morrer.


Mas é perceptível como o tom de sua queixa e clamor muda, quando ele se volta para Deus a partir da presença de seus amigos. Ele é imediatamente levado a perceber a insignificância e até a pecaminosidade da humanidade. Seu clamor é: “Que é o homem...?” (v. 17) e embora ele não pudesse responder à pergunta com a luz mais clara concedida a Davi no Salmo 8, ou com toda a luz do Novo Testamento, ele sabia o suficiente para admitir que o homem não é o que deveria ser, e que é uma maravilha que Deus movesse Seu coração para com ele.


No versículo 20, ele vai ainda mais longe. Ele percebeu que Deus não o deixaria em paz e ele confessa pecar. A tradução de J. N. Darby traduz o versículo: “Pequei, o que faço para ti, o Observador dos homens?” e entendemos que “Observador” e não “Guarda” é a tradução correta. Ele sabia que estava sob o olhar de Deus, Aquele que podia perceber o erro onde Jó mal estava ciente disso. E por que Deus não concedeu perdão e removeu o peso de sua carga?


Assim, desde o início, Jó admitiu alguma consciência de culpa, mas, ainda assim, fortalecido por uma vida de piedade e retidão exterior, ele não percebeu a magnitude de sua culpa. Deus estava começando o processo que o levaria a ver quão profunda e tenebrosa era.


O que temos visto dessa mesma coisa em nós mesmos? Temos chegado à confissão de Paulo: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18)?


Jó 8-14

Quando Jó encerrou sua resposta a Elifaz, ele confessou: “Pequei”, percebendo que Deus é o Observador da humanidade. Poderíamos esperar que Bildade, quando começasse a falar, fizesse alguma alusão a isso, mas parece que ele não fez. Em vez disso, ele acusou Jó de proferir palavras como o sopro de um vento impetuoso e, para manter a retidão de todos os julgamentos de Deus, insinuou que os filhos de Jó deveriam ter sido tirados como punição da transgressão deles. Deve ter sido um golpe amargo em Jó, já que ele oferecia sacrifícios com muita regularidade por eles. Mesmo assim, ele aconselhou Jó que, se ao menos ele fosse reto e buscasse a Deus, seria abençoado em seus últimos dias.


Nos versículos 8 a 10, Bildade revelou seu próprio ponto de vista no argumento que estava desenvolvendo. Ele deu grande importância aos tesouros acumulados da sabedoria humana. Mesmo nesses tempos remotos, era possível pesquisar nos registros preservados desde os tempos ainda mais remotos. Se Elifaz argumentou a partir de sua própria observação – o que ele pessoalmente tinha visto – Bildade argumentou por tradição – o que poderia ser aprendido com os registros dos dias passados. Ele desconfiava de uma dedução da experiência pessoal de alguém, já que os dias de um homem na Terra são apenas “uma sombra” (TB).


Por isso, no restante do capítulo, ele resumiu o que a tradição ensinaria, ilustrando seu ponto de vista pelas coisas da natureza, como o junco e a teia de aranha. Ele alegou que toda a história mostrou que Deus retribuiu o homem de acordo com os méritos deles. Se for mal, é cortado. Se for bom, é próspero. Dizer a Jó que “a esperança do hipócrita perecerá” foi um golpe desta vez não nos filhos de Jó, mas no próprio Jó.


Isso fez brotar em Jó as palavras marcantes registradas no capítulo 9. Ele começou reconhecendo a retidão dos caminhos disciplinares de Deus, mas levantou a importantíssima questão sobre como um homem poderia ser justo para com Deus. Em nossos dias, a frase conciliatória “Acertar-se com Deus” tem sido usada para despertar o interesse pela mensagem do evangelho. Pode muito bem provocar a resposta: “Sim, mas como isso deve ser alcançado?” Essa é apenas a pergunta feita por Jó no versículo 2, e o restante do capítulo revela quão sério e sincero ele era ao indagar isso, pois sugeriu e examinou quatro respostas possíveis. Cada sugestão começa com um “Se”.


A primeira é, obviamente, o versículo 3. Suponha que o homem adote uma atitude desafiadora e contenda com Deus; o que sucederá então? Fracasso e nenhuma justificação! O pecado transformou os homens em rebeldes; portanto, desafiar a Deus é seu primeiro instinto. Mas Jó viu como essa atitude seria desastrosa. Deus é tão infinitamente grande que nenhum rebelde pode prosperar, e até o versículo 19 ele continua esse tema. A Terra e os céus com suas constelações proclamam a grandeza e a glória do Criador.


No versículo 20, Jó sugeriu outra resposta possível: Como ele poderia ser justo para com Deus? Bem, poderia ele se justificar? Isso significaria pelo menos um abandono da atitude desafiadora e a admissão interior de estar errado, e, portanto, a necessidade de ser justificado. A justificação própria é uma proposta muito atraente, mas Jó apenas a citou para descartar a ideia como impraticável. Ele sabia que tinha apenas que abrir a boca para se condenar. Além disso, aquele que fosse se justificar diante dos olhos perscrutadores de Deus deveria ser capaz de poder demonstrar sua própria perfeição. Nada menos do que isso iria satisfazer, como mostra o versículo 20. Ele continuou afirmando que, mesmo que fosse perfeito, Deus o julgaria e o destruiria, pois ele conhecia a perfeição como é estimada de acordo com os padrões humanos.


No versículo 27, encontramos o terceiro “Se”. Ele não podia desafiar o Deus do céu, nem poderia se justificar: então deveria desistir da esperança, abandonar sua busca pela resposta e entregar-se à negligente procura do prazer? A natureza humana não mudou, pois muitos de nós seguimos apenas a linha de pensamento que Jó divulgou aqui; só que ele imediatamente descartou a ideia, percebendo o quanto era inútil. Se negligentemente esquecermos, Deus não esquece. O pecador não escapa ao julgamento de Deus, recusando-se a enfrentar a questão.


O quarto “Se” ocorre no versículo 30. Jó descartou três sugestões de respostas para sua pergunta; a sugestão de desafio, de justificação própria e de negligente esquecimento. E quanto a uma senda de aperfeiçoamento próprio? Será que isso ajudaria na solução da questão? Ele apenas a declarou para rejeitá-la com igual decisão. Ele sabia que a neve derretida daria água destilada do tipo mais puro, possuindo o maior poder de absorver e remover a contaminação. A figura que ele usou é muito viva. Se ele conseguisse algo assim em seu próprio caráter e vida, então o que aconteceria? Ora, Deus o submergiria em um fosso imundo como o único lugar adequado para ele. E mesmo assim, ele mesmo, por baixo de suas roupas, seria mais sujo do que elas! A contaminação estava em si e não em seus arredores. Sua rejeição da ideia de alcançar justificação por um processo de aperfeiçoamento próprio não poderia ser mais decisiva.


Quão evidente é que Jó sabia que ele era uma criatura pecaminosa diante de seu santo Criador, e que ele não possuía meios de se tornar justo. Sendo assim, sua única esperança estava na intervenção de um mediador; mas nenhum mediador, ou “árbitro”, era conhecido por ele. Seus três amigos não podiam desempenhar o papel, nem qualquer outro homem, uma vez que o árbitro devia ser grande o suficiente para impor uma de suas mãos sobre o Deus Todo-Poderoso, e gracioso o suficiente para impor a outra sobre o pobre Jó doente e pecador.


Quão comoventes são as palavras que encerram este capítulo! Se ao menos houvesse um intermediário eficiente, quão diferente seria; mas, diz Jó, “assim não é comigo” (JND). Já agradecemos a Deus com o fervor suficiente de que assim é conosco? O fato é que, embora ele não soubesse disso, Jó estava suspirando pelo advento de CRISTO. Agora podemos nos alegrar no Único “Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem” (1 Tm 2:5). Por Ele, o preço do resgate foi pago, para que seja possível que um homem seja justo diante de Deus.


Mas, para Jó, não havia uma resposta aparente à sua pergunta; portanto, não estamos surpresos que Jó 10 seja preenchido com suas palavras adicionais de queixa e tristeza, juntamente com comoventes apelos a Deus. Ele havia acabado de dizer a respeito de Deus: “Ele não é um homem, como eu sou” (JND), portanto, sabia que não era nada diante de Seus olhos santos, que sondavam Jó por completo. No versículo 2, ele pediu a Deus que lhe mostrasse a razão pela qual Ele contendia com ele por meio dessas catástrofes. No versículo 6, ele novamente admitiu “iniquidade” e “pecado”; no entanto, no versículo seguinte, ele disse: “Bem sabes Tu que eu não sou ímpio”, usando esse termo evidentemente no sentido em que Elifaz o usa quando chegamos a Jó 22:15.


No entanto, ele sabia que os padrões de Deus eram muito mais altos do que os dele, e, portanto, aflição viria sobre ele se fosse ímpio, e que mesmo se fosse justo, não poderia levantar a cabeça na presença de Deus. Ele estava cheio de confusão; sua aflição aumentou; mais uma vez ele reclamou de ter nascido e, quanto ao futuro, não tinha luz. A morte era para ele como “a terra das trevas”, (ARA) como vemos nos versículos 21 e 22. Temos que passar para os dias do Novo Testamento para obter uma palavra como aquela: “já a verdadeira luz alumia” (1 Jo 2:8).


Ainda hoje existem muitos que consideram a morte como um “salto no escuro”. E, de fato, é assim para aqueles que negligenciam ou rejeitam o Cristo que é apresentado a eles no evangelho. Para um tal, não há desculpa, enquanto para Jó havia toda desculpa. Mais uma vez, afirmamos que a melancolia deste excelente santo dos tempos do Velho Testamento deveria nos levar a muitas ações de graças a Deus, que nos tirou “das trevas para a Sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9).


Em Jó 11, temos o breve discurso de Zofar, o terceiro amigo de Jó, e, lendo-o, notamos que o tom dele é um pouco mais severo até mesmo do que foi o de Bildade. Possivelmente ele estava irritado com o fato de Jó não ter aceitado as acusações e argumentos dos outros dois, mas estava ultrapassando o limite e não estava sendo amigável ao acusá-lo com uma “multidão de palavras”, de ser “falador”, de pronunciar “mentiras” e de zombaria. Nem ele alegou ser “limpo” aos olhos de Deus. Zofar ainda não revelou o ponto de vista do qual ele fala, mas verbalmente declarou que Jó realmente merecia o severo castigo das mãos de Deus que estava recebendo. Vendo que o sofrimento dele excedeu qualquer outro dos quais temos registrado, e que a discussão se concentrou nas tratativas disciplinares de Deus nesta vida, e não olhou para a eternidade, isso novamente nos parece severo e dogmático ao extremo.


Do versículo 7 em diante, no entanto, ele disse algumas coisas impressionantes nas quais há verdade, como mostram outras Escrituras. De fato, é verdade que o homem não pode, por sua busca, encontrar Deus. É igualmente verdade que o homem, sendo pecador, é “vão” ou “vazio” ou “falto de entendimento” e nasce como “a cria do jumento montês”. Zofar evidentemente sentiu que Jó precisava reconhecer essas coisas, sem muita consciência de como elas se aplicavam a si mesmo. Se os homens deste século XX[1] as reconhecessem, isso perfuraria seu inflado orgulho. Eles podem descobrir meios de destruir vidas humanas às centenas de milhares, mas não podem encontrar Deus. Ele só pode ser encontrado em Cristo, que O revelou.


As palavras finais de conselho de Zofar (vs. 13-20) também têm verdade nelas. O versículo 14 diz: “se lançares para longe a iniquidade da tua mão” (ARA); isto é, ele novamente assume, como os outros, que, afinal, Jó é um homem mau, fortemente amarrado aos seus pecados. Aqui ele estava errado, embora seu conselho de repudiar o mal e se voltar para Deus fosse bom, e sua descrição do feliz resultado de se fazer isso fosse correta o suficiente.


No capítulo 12, o tom de dogmatismo extremo, tão perceptível na expressão de Zofar, sem dúvida levou Jó a começar sua resposta com uma nota bem sarcástica. Suas palavras: “na verdade, que só vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria”, quase passaram a ser um provérbio, a ser usado contra o dogmatismo da presunção. Ele alegou ter entendimento igual a seus amigos e, no versículo 5, lembrou-lhes de que ele, que estava naquele lugar escorregadio, brilhava como uma lâmpada de advertência, apenas para ser desprezado por aqueles que estavam em circunstâncias fáceis e confortáveis, como seus amigos estavam.


No versículo 6, Jó desafiou a posição predominante que seus amigos haviam assumido. Eles afirmaram que Deus sempre recompensa os piedosos com prosperidade terrenal e inflige tragédia sobre a cabeça dos ímpios. Jó sustentou que não era assim, mas que havia casos em que os assoladores prosperavam e aqueles que provocavam a Deus estavam seguros. Como prova disso, ele se referiu ao que podia ser visto na criação inferior – animais, pássaros e peixes. Ele aludiu, supomos, à desordem que o pecado do homem introduziu mesmo ali, para que os mais fracos encontrem tragédia e destruição pelos mais fortes, e tudo isso com a permissão de Deus. Assim como o paladar prova o alimento, os ouvidos de Jó provaram as palavras de seus amigos e as considerou inúteis.


Do versículo 13 até o final deste capítulo, Jó reconsiderou as maneiras de Deus ao lidar com os homens. Ele reconheceu que d’Ele são “a sabedoria e a força”, assim como o “conselho e entendimento”. No entanto, ele sentiu que o exercício de Deus dessas maravilhosas qualidades estava cheio de mistério. Reiteradamente aqueles que são grandes e sábios – conselheiros, juízes, reis, príncipes – são corrompidos e rejeitados. Ele viveu nos dias em que, após o dilúvio, surgiram as nações. Ele tinha visto tal crescimento e depois destruição. Homens, que haviam sido tão sábios a ponto de se tornarem chefes do povo, subitamente perdem o entendimento e apalpam no escuro sem luz, ou cambaleiam como um homem bêbado. Ora, por que isso?


Elifaz havia baseado sua condenação sobre Jó no que ele próprio havia observado. Bem, Jó também tinha capacidade de observação, e ele tinha visto todas essas coisas das quais acabara de falar, como afirmou nos versículos iniciais de Jó 13. Ele não alegou ser superior a seus amigos, mas, de qualquer forma, não era inferior a eles, mas reconheceu que os tratos de Deus o confundia, estando muito acima e fora de sua percepção. Portanto, como o versículo 3 indica, o que ele desejava era falar com o Todo-Poderoso e argumentar com Deus, em vez de gastar seu tempo discutindo com seus amigos.


Ainda assim, lá estavam seus amigos, e podemos ver que, a essa altura, Jó já havia sido instigado a revidar de uma maneira mais agressiva. O que ele queria era verdade para sua mente e cura para seu corpo. Eles eram apenas “inventores de mentiras” e “médicos que não valem nada”. Ele os aconselhou a que se calassem e ouvissem o que ele tinha a dizer; e até o versículo 13 ele continuou nesse tom. Ele sentiu que eles conversaram como se estivessem falando em nome de Deus e, ao fazê-lo, haviam representado a Ele incorretamente. Nisso, sem dúvida, Jó julgou corretamente.


Nos versículos 14-19, Deus está diante da mente de Jó ao invés de seus amigos. Podemos discernir dois elementos conflitantes. Por um lado, havia um notável espírito de fé, que o levou a receber tudo o que havia acontecido de Sua mão e a não se preocupar com os agentes das calamidades, que haviam cessado antes que Jó morresse. Ele desejava morrer, e se Deus respondesse a esse pedido e o matasse, ele não perderia a confiança, mas ainda confiaria n’Ele. Isso realmente era excelente, mas, ao mesmo tempo, Jó revelou seu real ponto fraco em sua determinação de “defender” seus próprios caminhos diante d’Ele. Portanto, vemos que, em um santo verdadeiro, pode existir uma fé muito verdadeira em Deus, e ainda assim ser prejudicada por uma medida muito determinada de autoestima. É isso que dá um valor tão grande a este livro notável, uma vez que a carne em nós, que somos santos hoje, é exatamente a mesma de Jó, cerca de quatro mil anos atrás.


Assim é que Jó proclamou que Deus seria sua salvação e que, por fim, ele seria justificado. Mas no versículo 20 ele se dirigiu mais definitivamente a Deus. Ele aceitou suas tristezas como vindas da mão de Deus e pediu que Sua mão fosse tirada dele, para que ele pudesse ficar diante d’Ele em termos mais fáceis. O versículo 23 mostra que, assim que Jó se sentiu estar diante de Deus, ele reconheceu iniquidade e pecados. Ele desejava saber quantos eram, pois sentia, como revelam os versículos seguintes, que o castigo que estava sofrendo ia além do que realmente merecia. Ele era como um homem com os pés no tronco, e, portanto, um alvo fácil para aqueles que desejavam atirar coisas nele.


Ao lermos suas palavras, não podemos deixar de nos comover com elas e não ficamos surpresos com seu clamor de lamentação, que inicia Jó 14. Nos dias longínquos de Jó, a vida humana era talvez três vezes mais longa do que é hoje; mesmo assim era afinal “de bem poucos dias” e eram dias “cheios de inquietação”, como é hoje, de modo que, visto à luz do Deus eterno, ele é apenas como uma flor se murchando ou uma sombra passageira. Jó estava consciente disso em relação a si mesmo e, portanto, sabia que não poderia suportar a inspeção divina, nem comparecer perante Ele em julgamento. Além disso, ele sabia que não era limpo aos olhos de Deus, e tinha certeza de que ninguém poderia produzir o puro daquilo que era imundo.


A tradução de J. N. Darby do versículo 4, coloca a palavra “homem”, em itálico – “Quem pode tirar um homem limpo dos impuros?” Essa é outra das tremendas perguntas que Jó faz, e desta vez ele responde – com razão também. Ninguém pode realizá-lo por si mesmo e muito menos alcançá-lo para os outros. Além disso, quando nos voltamos para o Novo Testamento, descobrimos que Deus não Se propõe fazê-lo. O erro que incomodou os gálatas foi a ideia de que a lei havia sido dada para limpar os homens e, assim, até os Cristãos deveriam se submeter a ela e aceitar a circuncisão como sinal dela, a fim de levar uma vida limpa. A palavra enfática que corrige isso é: “em Cristo Jesus nem a circuncisão é coisa alguma nem a incircuncisão, mas o ser uma nova criação” (Gl 6:15 – TB). O crente não é o “velho homem” limpo. Ele foi novamente criado em Cristo, com uma natureza que, em seu caráter essencial, “não pode pecar”, como afirmado em 1 João 3:9.


Sendo o homem de poucos dias, sua vida neste mundo deve terminar na morte, e o tempo em que ele se vai é determinado por Deus, como o versículo 5 declara. Mas o que aconteceria então? Jó sentiu que era como um assalariado completando seu dia e desejava que Deus lhe desse descanso até que chegasse o fim. Mas novamente, o que aconteceria então?


Temos que passar para o versículo 14 antes de encontrá-lo realmente declarando a terceira tremenda pergunta que ocupou sua mente, mas evidentemente já estava emsua mente quando ele iniciou seu argumento no versículo 7. Ele não sabia como um homem poderia ser “justo” ou “correto” para com Deus. Ele sabia que nenhum homem poderia produzir o que é puro daquilo que é impuro. E agora vem a pergunta: “Morrendo o homem, porventura tornará a viver?” Até agora, neste ponto, nenhuma luz clara e decisiva estava brilhando diante dele e em seu coração.


Sendo assim, ele começou a pensar no assunto. Ele usou a analogia de uma árvore que havia sido derrubada quando por muito tempo sua raiz esteve na terra. Ele viu os anos passarem e o tronco cortado que restara começara a se deteriorar. No entanto, uma mudança havia chegado. Algo aconteceu, um tremor de terra talvez tenha rachado as rochas e aberto um novo canal de água para alcançar suas raízes. Então, como consequência, a árvore morta voltou à vida e brotou novamente. A esperança de Jó era que algo assim estivesse diante da humanidade.


Evidentemente também era mais do que uma esperança, pois no versículo 12 ele deduz que os homens “acordarão” e “se erguerão de seu sono”, mas que isso não iria acontecer “enquanto existirem os céus” (ARA). Como vemos que isso é verdade, quanto às massas da humanidade que morrem em seus pecados, quando lemos Apocalipse 20:11-15. Devemos nos lembrar de que o fato de haver a ressurreição dos justos mil anos antes da ressurreição dos injustos, não havia sido trazido à luz nos dias de Jó. O versículo 13 torna manifesto que Jó em sua mente relacionava o fato da ressurreição com a manifestação da ira de Deus, da qual ele desejava se esconder, e preferia ser lembrado com misericórdia.


As palavras de Jó nos versículos 14 e 15 são muito notáveis. Muitas vezes, podemos ter nos perguntado como a fé de Abraão abraçou as coisas que estão registradas em Hebreus 11:10 e 16, visto que em seus dias não havia revelação pública dessas coisas celestiais, no que diz respeito ao registro da Escritura. Então, foi assim com Jó aqui. Ele reconheceu que tinha um “horário marcado”, quando sua “mudança” chegaria; que haveria um “chamado” divino ao qual ele “responderia”, na medida em que era uma “obra” das mãos de Deus. Ao falar assim, ele foi ensinado por Deus, como podemos ver à luz do Novo Testamento.


Paramos para perguntar se alguma vez agradecemos a Deus de alguma maneira adequada por andarmos à luz da ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo de entre os mortos? Já demos peso suficiente em nossa alma à declaração do apóstolo Paulo em 2 Timóteo 1:10, que na tradução de J. N. Darby diz: “nosso Salvador Jesus Cristo, que anulou a morte e trouxe à luz a vida e a incorruptibilidade pelas boas novas”. Imortalidade não é a palavra aqui. Acreditava-se nos tempos do Velho Testamento que a alma do homem sobreviveria à morte e que a ressurreição aconteceria no futuro, como as palavras de Jó aqui mostram, e como o Senhor deixou claro na controvérsia com os saduceus de Seus dias. O que não foi feito conhecido era que, para o santo, a ressurreição significará entrada em uma ordem nova e incorruptível de coisas. Isso foi demonstrado quando nosso Senhor ressuscitou dos mortos. Portanto, não precisamos discutir o assunto e raciocinar sobre ele, como Jó faz aqui. Toda a verdade disso foi claramente revelada.


Assim, Jó tinha uma certa medida de esperança e expectativa, mas, como mostram os versículos finais do capítulo, tudo estava por um momento engolido pelas misérias de sua situação de então. Mais uma vez, o discurso de Jó termina com uma nota melancólica. A última frase do capítulo é: “e sua alma lamenta por si mesmo”.