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Palavras de Edificação 42

(Revista bimestral publicada originalmente em Setembro/Outubro 1993)

 

ÍNDICE

Editorial – M.Persona (1955)

O Egoísmo do Homem e O Amor de Deus – George Cutting (1843-1934)

Perguntas e Respostas – Bible Witness and Review

 

EDITORIAL


"O MAIOR ESPETÁCULO DO MUNDO"

Quase todos os circos do mundo anunciam assim. Ninguém pensaria em anunciar o "menor espetáculo", pois certamente não haveria platéia interessada em tal coisa. É um apelo eficaz ao homem que busca sempre mais; que procura aquilo que traga satisfação à sua carne, encha seus olhos e enalteça o ser humano. "Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo" (1 Jo 2:16). Concupiscência é o desejo ardente de alguma coisa. No Éden, Eva foi levada pela concupiscência – “a árvore era boa para se comer (concupiscência da carne), e agradável aos olhos (concupiscência dos olhos), e árvore desejável para dar entendimento (soberba da vida) (Gn 3:6). A resposta do coração do homem, àquilo que apelava aos seus sentidos, foi suficiente para afastá-lo de Deus.


Vivemos numa época de ruína na Cristandade. Aquilo que Deus desejou que fosse a "casa de Deus" (1 Tm 3:15), nas mãos dos homens tornou-se numa "grande casa" com todo tipo de vasos: "uns para honra, outros, porém, para desonra" (2 Tm 2:20). Em cada esquina, no rádio e na TV, pretensos pregadores anunciam os seus espetáculos expondo Cristo como um remédio para todos os males desta vida. Shows evangélicos concorrem com o que há de melhor no mundo do entretenimento. E dos seminários afloram os "doutores em divindade", "eclesiólogos", "paracletólogos" e uma infinidade de títulos à semelhança das profissões e cargos deste mundo. O apelo ao que é grande aos olhos do mundo é muito forte. "A maior igreja do mundo". "O maior templo do mundo". "O maior espetáculo do mundo". "Tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre" (1 Jo 2:16-17).


Ao buscar o homem perdido, Deus não usou de nenhum artifício que pudesse atrair a carne, ou que pudesse encher os olhos, ou ainda que pudesse inflar a soberba humana. Cristo "não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós para Ele, nenhuma beleza víamos, para que O desejássemos" (Is 53:2). Ele, que teve por berço uma manjedoura, durante Sua vida não teve onde reclinar a cabeça. Foi recliná-la, por fim, sobre Seu próprio peito, morrendo pregado numa cruz como um criminoso qualquer.


Será que alguém deseja um tal Salvador? Existirá, para o homem natural, qualquer coisa em Cristo que seja um atrativo para a carne? Certamente que não. Mas quando o próprio Deus abre nossos olhos para que enxerguem além do que é natural, "vemos, porém, coroado de glória e de honra Aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos" (Hb 2:9). Bendito Senhor! É este o meu Salvador; é este o Salvador de todo aquele que n'Ele crê. Nada para a minha carne; nada para meus limitados olhos carnais; nada de que eu possa me gloriar em mim mesmo. Mas, por outro lado, tudo o que eu necessitava para ser tirado do poder das trevas e ser transportado "para o reino do Filho do Seu amor" (Cl 1:13). Será este o Salvador e Senhor que você procura?

M.Persona (1955)

 

CRISTO

para meus pecados

CRISTO

para meus cuidados


 
 

É uma coisa maravilhosa pensar na realidade da intimidade com a qual o Senhor interagiu com as pessoas neste mundo – Seus modos, e Suas maneiras com elas – e Quem é Ele. Na verdade, isso muda todo o nosso pensamento sobre Deus.


Ele visitou os homens antes do dia do juízo, e nós O encontramos dando, e não julgando – tratando com os homens de um modo bem diferente do esperado. Ele, que será o Juiz, teve que vir de antemão para ser o Salvador; veio em graça, buscando adoradores; veio para visitar o coração dos homens – coração desobediente; no próprio lugar onde os homens estavam, veio, não para julgar absolutamente, mas para tratar de nossa alma sobre os mesmos pecados pelos quais Ele teria que nos julgar. Se O vejo dessa forma, descubro que Ele já cuidou de meus pecados de uma maneira totalmente diferente. Certamente, confirma o julgamento – coloca, com a maior ênfase, o selo do testemunho de Deus sobre tal julgamento; mas, ao mesmo tempo faz-me saber e entender que a questão toda já foi decidida de um modo totalmente oposto àquele que era de se esperar. Em vez de vir cobrar a dívida, Ele vem para pagá-la; isto prova, de uma forma ou de outra, que a dívida existia, mas a maneira de tratar com ela é completamente diferente.


Assim, Ele vem e trata com pecadores de um modo totalmente oposto à cobrança da dívida, e Ele trata com eficácia, e isso é o evangelho. "E vimos, e testificamos que o Pai enviou Seu Filho para Salvador do mundo" (1 Jo 4:14). É de um Salvador que temos que falar, e eu não poderia estar aqui falando assim se Ele não fosse um Salvador que executou uma salvação eficaz. Então vem o exercício do coração e a descoberta, por Sua Palavra, daquilo que somos, para operar em nós o arrependimento; mas a Palavra nos diz que somos salvos. "A tua fé te salvou: vai-te em paz" (Lc 7:50). Foi totalmente às custas de Si mesmo que Ele pôde dizer aquilo; e não voltou atrás no que disse à mulher e nem a enganou. Podemos ir em paz? Se Ele já disse: "Vai-te em paz", saímos daqui em perfeita paz com a consciência de que vamos apoiados na garantia do próprio Senhor, sem nada a temer quanto às consequências do pecado.


Portanto, Ele envia a Sua Palavra aos filhos de Israel, "anunciando a paz por Jesus Cristo" (At 10:36), e que "em Seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém" (Lc 24:47).

 

"Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz" (Jo 16:33)

 

Amados, vocês têm paz? Você têm aquilo que Ele anunciou e enviou para ser pregado? De nada adianta você me dizer que não pode ter paz. Ela está disponível. Deveria ser pregado e não para ser crido? Deus deseja que sejamos contentes Consigo mesmo, e por isso, Ele envia o testemunho de paz. Não se trata de algo leviano, pois Ele fez a paz por meio do sangue da Sua cruz; e sendo justificados pela fé, temos paz com Deus. Trata-se de algo real, algo eficaz, algo divino, fundamentado naquilo que já foi feito com perfeição. Se eu creio, entro no gozo disso para desfrutá-lo. É que Deus nos visitou para nos trazer paz. "Tenho-vos dito isto, para que em Mim tenhais paz; no mundo tereis aflições" (Jo 16:33). Por isso Deus dá a Si mesmo, vez após outra, o nome de "Deus de paz" (Fp 4:9). É o nome de Sua predileção que Ele dá a Si próprio. Ele nunca chama a Si próprio de Deus de gozo, pois o gozo pode mudar, mas a paz é estabelecida eternamente.


Vemos como Ele tratou a “mulher de Samaria” (Jo 4:7). Foi por meio da graça. "A salvação vem dos judeus" (Jo 4:22). Eles tinham a lei, o templo, tudo o que pertencia a Deus, como o irmão mais velho de Lucas 15:31. Mas os judeus O lançam fora, e Ele deve passar por Samaria. Esse era o início de Seu ministério. Os fariseus tinham inveja d'Ele, então Ele sai e deixa esse lugar que, segundo a promessa, era um lugar de salvação. É a terrível condição do mundo: que o Filho de Deus tenha vindo, e os homens O tenham lançado fora. Ele veio e foi rejeitado e, portanto, o testemunho é de que o mundo inteiro jaz no maligno. O mundo não apenas pecou, mas rejeitou Aquele que veio a ele quando o homem pecou – o mundo que cresceu desde que Deus expulsou o homem do Éden. Se me denomino Cristão, estou professando que o mundo expulsou e crucificou o Filho de Deus. Mas ainda assim a graça segue adiante. Deus usou disso como o meio e a ocasião para expressá-la. É isso que é tão glorioso na cruz: aquilo que era a perfeita expressão da inimizade do homem, foi a perfeita expressão do amor de Deus. Foi o ponto de encontro entre a ira do homem contra Deus, e o soberano amor de Deus para com o homem. O Senhor ainda não havia chegado na cruz, mas andava na graça e no espírito disso.

 

"Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo" (2 Co 5:19)

 

Aqui, rejeitado da Judéia, Ele deve passar por Samaria, e tomamos posse da bendita verdade de que Deus está acima de todo pecado, pois Samaria era a mais detestável. Ele pode exercer o Seu amor no cenário daquilo que Ele abomina. "Deus prova o Seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm 5:8). Ele deu o Seu Filho bendito, Um Consigo mesmo, entregando-O à morte, e levando-O a beber o cálice da ira por aqueles que não passavam de pecadores. "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2 Co 5:19).


Agora, preste atenção para outra coisa que temos aqui: nós O encontramos como Homem em sua totalidade, descendo a este mundo – "mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens" (Fp 2:7). Oh! que algum coração pudesse se apossar disso! Falo agora da forma como Ele veio – falarei de Sua morte novamente – “que sendo rico, por amor de vós Se fez pobre” (2 Co 8:9). Isso é revelado nas circunstâncias desta história. No calor do dia, cansado de Sua jornada, Ele Se aproxima da fonte e senta-Se onde pode encontrar repouso. Nosso coração realmente acredita que Este era o Senhor? Por que estava Ele numa condição para estar cansado? Por que estava ali? Era o perfeito amor. Ele desce para tomar este lugar. Ele passa pelo mundo – O Santo que não poderia ser contaminado – e usa isto para passar por um mundo de pecadores para trazer-lhes o amor que desejavam.


Isto foi expresso na forma mais amável no caso do leproso em Lucas 5:12, que "prostrou-se sobre o rosto, e rogou-Lhe, dizendo: Senhor, se quiseres, bem podes limpar-me". O leproso estava certo do poder, mas não sabia do amor que havia ali. Ele direciona Seu amor para o leproso, "estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero; sê limpo" (Lc 5:13). Se alguém tocasse um leproso, ficava imundo e era expulso do arraial. Mas Ele não pode ser contaminado. Esta é uma figura da maneira como o Senhor Se encontrava aqui. A Santidade, imaculada e incontaminável, leva aos pecadores o amor que necessitam.

 

"Trouxe-Lhe porventura alguém de comer?" (Jo 4:33)

 

"Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-Se assim junto da fonte" (Jo 4:6), e os discípulos foram encontrar comida. Oh! pensarmos no próprio Senhor, ao qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu, mas que era o Senhor da glória, sentado cansado junto à fonte, com sede, e dependente deste mundo para um gole d'água – “o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu” (Jo 1:10); – "Veio uma mulher de Samaria tirar água; disse-lhe Jesus: Dá-me de beber" (Jo 4:7), tendo Ele que depender dessa mulher para receber água. É exatamente nisto, que ela descobre que havia algo de notável n'Aquele Homem. Era algo extraordinário que um judeu falasse com ela, uma mulher de Samaria, e seu pensamento é atraído a isso.


Deixe-me dizer uma palavra sobre esta mulher, tão cheia de interesse abençoado por nós, por haver motivado o coração do Senhor. Ela era uma pobre, vil criatura – sozinha ali. Lemos da hora em que as mulheres iam buscar água, juntas, conversando sobre todas as coisas que se passavam; mas ela não vem junto com as outras mulheres. Seu coração era isolado; ela se isolou pelo pecado, e nada conseguiu; era uma mulher vigorosa, que buscava felicidade pela energia de sua natureza, e só encontrou a desgraça e a ruína. Ela estava só naquela hora incomum do dia, com um coração repleto de ansiedades. Sozinha, por causa de sua vergonha, ela encontra Alguém mais solitário do que ela, e esse era o Senhor! Ela poderia ir aos homens da cidade, mas Ele estava completamente só, não tinha ninguém a quem ir, embora seja Ele próprio o mais afável e acessível dos homens.


Nunca houve circunstância alguma, em que Ele tenha estado, onde o poder, amor, bondade e verdade não fossem imediatamente exercitados. Não havia cansaço, se algum pobre e desolado pecador se aproximasse. Quando os discípulos retornaram, disseram, "Trouxe-Lhe porventura alguém de comer?" (Jo 4:33). Não importa em que companhia Ele estivesse, Ele estava sempre acessível ao seu coração; porém não havia simpatia por Ele. Nenhum amor e bondade foram ao encontro d'Ele em Sua passagem por este mundo; Seu coração era completamente estranho a este mundo; mas era, todo Ele, só simpatia para com o próximo. Quando teve que dar conta de Si diante dos principais sacerdotes, que O caçavam buscando Sua morte, no momento em que o galo cantou, Seu olhar estava sobre Pedro – nunca Se aborreceu. Nenhuma circunstância que Ele estava, nada, jamais, podia sequer tocar a fonte de graça e bondade que havia n'Ele.

 

"Se tu conheceras o dom de Deus" (Jo 4:10)

 

Mas note, que conforto para nós! Aqui estava o Juiz dos vivos e dos mortos – não como juiz, evidentemente, mas a Pessoa que será o juiz, – encontrando-Se com uma pobre pecadora em graça, sentando-Se, justamente, com a pessoa que merecia ser julgada. Nesse sentido, na comunhão da graça, Ele está sentado conosco. É exatamente o que está acontecendo por meio do evangelho. "De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse" (2 Co 5:20).


Bem, Ele encontra-Se sentado junto à fonte pedindo água para beber. Ela diz, "Como, sendo Tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?" (Jo 4:9). Repare na resposta do Senhor. Há dois pontos distintos nela. "Se tu conheceras o dom de Deus" (Jo 4:10) – isto é, o que Deus está fazendo para você. É nesse terreno que Ele trata com você: "O dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 6:23).


O que vem a seguir é, "E Quem é o que te diz – Dá-me de beber" (Jo 4:10). Isto é, se você soubesse – não "Quem Eu sou", mas – Quem é que desceu tanto a ponto de pedir água para beber – se seu olho fosse aberto para enxergar Deus dando vida eterna – vindo para nada exigir (e quem não pegaria se Ele o fizesse) – você estaria em perfeita confiança diante d'Ele.


Uma vez Deus veio procurando por frutos e encontrou “uvas bravas” (Is 5:2). Sob a lei Ele buscou por fruto e teve os Seus servos mortos. Ele disse, "Tendo… ainda umFilho" (Mc 12:6) – mas quando eles viram o Filho, disseram, "Este é o herdeiro; vamos, matemo-Lo, e a herança será nossa" (Mc 12:7). O efeito foi, não fruto, mas ódio contra Ele e contra o Seu Pai. Agora Ele não vem (não digo, produzindo fruto – Ele está – mas) buscando por fruto. Ele veio semear (não buscando por fruto), tratando, no evangelho, pessoalmente com o pecador. E onde há graça, e senso da necessidade, haverá o fruto do Espírito, e, então, é este o fruto que Ele irá buscar.


A natureza humana julga a Deus, mas a natureza de Deus revela-se completamente superior a isso. Ele dá. Assim temos estes dois benditos princípios: que Deus está dando, e que o Senhor desceu a tal ponto de pobreza até chegar a ser dependente de uma criatura para beber um pouco de água – desceu para colocar-Se sob os desejos daqueles que nada tinham além de necessidades, de forma a poder supri-los. A mulher é atraída; há poder em Sua palavra; e Ele começa falando-lhe de coisas espirituais.

 

"Vai, chama o teu marido, e vem cá" (Jo 4:16)

 

Vemos, então, a maneira pela qual a mulher está absorta em seus cuidados e apreensões. O versículo 15 é uma notável expressão de confiança em Sua palavra – "Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la". Note, porém, o estado de seu coração – completamente ocupado com seu cântaro e suas necessidades. Você conhece alguém assim? Pessoas que reconhecem a Palavra de Deus como sendo a Palavra de Deus – que reconhecem Sua autoridade – mas estão com seu coração completamente ocupado com as coisas desta vida. Como qualquer pessoa natural, ela não recebeu as coisas do Espírito de Deus. Seu pensamento foi despertado para respeitar Sua Palavra, de modo que ela poderia crer no que Ele disse, mas ela não podia compreender as coisas espirituais; essas coisas não tinham a menor via de acesso ao seu coração, tão cheio que estava com as coisas temporais.


O que estava para ser feito? Ele estava derramando palavras de graça; tudo passou por sobre a cabeça dela – passou por cima de um coração envolvido com as coisas do mundo. Ele vai pelo outro lado, não o dom de Deus, mas a condição do homem – "Vai, chama o teu marido, e vem cá" (Jo 4:16). A mulher respondeu e disse, "Não tenho marido" (Jo 4:17). Bem verdade. Ela diz a verdade para esconder a verdade – como frequentemente acontece neste pobre mundo. A consciência foi agora alcançada; e é por aí que a Palavra sempre entra. É perfeitamente correto que deve atrair o coração, mas a consciência deve ser alcançada. "Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade" (Jo 4:17-18). Agora tudo está resolvido; a consciência dela é colocada na presença de Deus. Tudo deve estar exposto à luz que veio a este mundo. É maravilhosa a rapidez com que a memória responde quando é colocada sob a ação da luz. Pecados há muito esquecidos são lembrados. A luz entrou em cena; agora a mulher tem entendimento; antes não havia entendido uma palavra sequer; estava completamente sepultada em seus cuidados.

 

"Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador" (Lc 5:8)

 

Versículo 19: "Disse-Lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta". A Palavra de Deus havia alcançado sua consciência, e onde quer que chegue, tem autoridade, e só pode ser assim. Quando encontro um livro que me diz tudo o que fiz, sei do que se trata. Não é preciso que seja provado pelo homem. Nenhum livro no mundo tem autoridade até que alcance a consciência. Este livro é, então, a sua própria testemunha contra a tolice dos ataques que são feitos contra ele, e prova a loucura da incredulidade. É a Palavra de Deus, por si só, a sua própria testemunha. Não pego uma vela para ver se o sol brilha! Mas você não vê que ele brilha? Então você está cego. A única coisa que traz consigo autoridade é a Palavra de Deus entrando na consciência – "Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito: porventura não é este o Cristo?" (Jo 4:29).


Deus é amor; Seu bendito Filho, um pobre Homem falando a uma mulher; mas Ele é também luz que se manifesta. As duas coisas sempre andam juntas. Você nunca encontra, quando o evangelho é recebido, que este não se introduza como luz para a consciência. Não há fruto sem ele. Onde quer que o evangelho entre, será luz, expondo tudo que está ali, do contrário não há raiz. É quando o entendimento é levado ao coração dessa pobre mulher que a sua consciência é alcançada. Como você gostaria que Ele lhe dissesse tudo o que você tem feito? Ele não conhece todas as coisas más que eu fiz? Deveria ser tudo trazida à tona no juízo; mas meu conforto é que tudo foi trazido diante d'Ele, quando Ele estava tratando comigo em graça. Agora posso admitir que os olhos de Deus perscrutam tudo através de Sua Palavra. Ao tratar com a alma, o amor trouxe a luz aqui. O amor atraiu a Pedro (Lc 5). Por que Pedro não foge? Por que vai até Ele e diz: "Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador" (Lc 5:8)? Ele foi atraído pelo amor e graça, e convencido pela luz que o amor derramou. A luz, que manifesta a mim o que eu sou aos olhos de Deus, me leva à presença d'Ele, de maneira que estou na luz assim como Ele está. Deve haver verdade nas entranhas, mas isso impediu o Senhor de dizer: "Se tu conheceras o dom de Deus" (Jo 4:10)? Agora, em vez de tentar acertar as coisas com Deus, eu O encontrei, sabendo tudo o que fiz, em perfeita graça. Não há, portanto, nenhum pecado escondido. Tudo é trazido à luz por Deus.

 

"Se tu conheceras… QUEM é o que te diz – Dá-me de beber" (Jo 4:10)

 

Note outra coisa. Deus está revelando algo novo. Ele confiaria no coração dessa pobre mulher? Não. Ele faria com que Ela confiasse em Seu coração. As pessoas dizem: "Será que meu coração não poderá enganar-me?" Certamente que poderá! Mas será que o coração d'Ele irá enganar-me? A graça de Deus traz salvação para nós – nos dá tudo que necessitamos. Foi assim que Ele trouxe vigor à beira do tanque de Betesda: "Toma tua cama, e anda" (Jo 5:8). Ele não está pedindo coisa alguma de nós, mas traz-nos aquilo que necessitamos – nos dá a Si mesmo – e não há nada que necessitemos mais que Ele próprio. Ele nos leva ao arrependimento – à convicção daquilo que somos, como temos visto aqui. Mas Ele vem e diz: "Se tu conheceras o dom de Deus" (Jo 4:10). Deus tem algo para dar – vida eterna por meio de Jesus Cristo. Porém eu evito achegar-me a Deus. Parece-me prudente agir assim. Mas Quem é Este com quem estou, que está trazendo esta luz? O mesmo Homem que pediu por um pouco de água para beber. "Se tu conhecerasQUEM é o que te diz – Dá-me de beber" (Jo 4:10) – um pobre Homem com nada além de palavras de graça – você teria confiado n'Ele. "Tu Lhe pedirias, e Ele te daria água viva" (Jo 4:10). Você acha que eu poderia confiar em Deus no dia do juízo? Mas posso confiar no pobre Homem sentado à beira da fonte? É quando meus olhos são abertos para a Pessoa e obra do Senhor, que descubro que estive falando com o próprio Senhor, e Ele não teve nenhuma palavra contra mim, apesar de saber tudo o que sempre fiz. Meu coração tem a bendita consciência de que se encontrou com Deus.


Existem os pobres infiéis gastando seus cérebros para descobrir qualquer coisa sobre Deus, mas eu O encontrei. Ele nada tinha além de palavras de graça e bondade, embora Ele conhecesse todos os meus pecados. Todos os Seus caminhos, e palavras, e obras são em perfeito amor para comigo, e é o amor de Quem vem me buscar como pecador. O Pai procura adoradores. Você não tem que subir a este ou aquele monte. Ele enviou o Salvador para procurar. Quantos Ele encontra? Será que Ele encontraria em você um coração que passa longe do Senhor Jesus — um coração que já leu centenas de passagens nas quais Sua graça foi manifestada, e que segue adiante intocável, insensível, apesar de Deus ter aplicado o Seu coração em você?

 

"A Minha comida é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou,

e realizar a Sua obra" (Jo 4:34)

 

Veja como até mesmo o coração do Senhor se regozija para com esta pobre pecadora, "Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis" (Jo 4:32). Você crê isto acerca de Cristo? Ele tinha vindo para abrir os olhos da mulher, e esse era o alimento do Senhor: "A minha comida é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou, e realizar a Sua obra" (Jo 4:34). É adorável ver o coração do Senhor agindo assim. Veja como o mesmo coração se abriu para todo o restante: "Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa" (Jo 4:35). Na verdade Ele já havia sido rejeitado na Judéia, mas o encontro com esta mulher O confortou tanto que agora Ele abre Seu coração para dizer: "Vede as terras, que já estão brancas para a ceifa".


Temos que seguir adiante para ver que, tendo os pecados sido perfeitamente manifestados, e o amor nos é apresentado na cruz do Senhor Jesus, pois nada poderia sofrer os pecados; nada a não ser o amor que vem ao encontro do pecador, e que O levou a entregar-Se a Si mesmo. O coração foi conquistado e a consciência atingida. Mas o que dizer das coisas que ela havia praticado? O próprio Senhor, que estava falando a ela, coloca-Se sob os mesmos pecados e os leva embora. Certamente precisamos de algo mais do que aquilo que apenas atinja a consciência; precisamos de algo que a purifique. Mesmo sendo nossos pecados como a escarlata, são tornados brancos como a neve, e somos obrigados a reconhecer isto, pois Ele levou, "Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (1 Pe 2:24). Ele carregou-Se, a Si mesmo, com eles. Fui convencido, e então humilhado acerca deles. Mas antes que chegasse o dia do juízo, Cristo veio, e “levando Ele mesmo” na cruz os pecados que Ele teria que ter julgado. A cruz — era Deus tratando com Cristo acerca dos pecados. Quando Ele vier em juízo eu direi: "Foi Ele o Homem que levou os meus pecados". Antes que chegasse o dia do juízo, a mesma Pessoa que será o Juiz veio pessoalmente para sofrer o castigo. Então, a questão não é se mereço condenação – "Não há um justo, nem um sequer" (Rm 3:10) – mas o que Deus fez? Posso me atrever a duvidar do que Ele fez?

 

"Deixou pois a mulher o seu cântaro" (Jo 4:28)

 

Se me encontro exposto à luz diante de Deus, não existe lugar onde meus pecados possam ser vistos tão terríveis quanto na cruz. Mas se eles não tiverem sido todos perfeitamente levados para sempre, então jamais o poderão ser, pois Cristo não poderá morrer novamente (Hb 10). Ele Se levantará para julgar, mas Ele encontra-Se sentado agora, pois tudo está feito da forma mais completa; se não for assim (quero dizer quanto à obra, e não quanto aos vossos sentimentos), então nunca o poderá ser. Portanto, tendo sido tudo feito, e tendo a alma sido exercitada, olho para a cruz e digo: "Ele levou meus pecados". É certo que odeio meus pecados. Assim deve ser; essa é a obra do Espírito em nós, mas falo da obra que foi feita por nós. Não fale de pecados passados, presentes e futuros; é tolice confundir a época em que meu coração pensa neles com a obra que os levou. Quanto a pecados futuros, nunca devo pensar em pecar. Quanto a pecados passados, quantos deles eram passados quando Cristo morreu? A obra foi consumada quando eles eram ainda todos futuros. Não devemos confundir a obra consumada com o seu efeito em mim. Ele está ressurreto em glória; existirá, então, qualquer dúvida se serei também glorificado?


Há algo mais acerca da cruz. Tudo se passou entre Deus e Cristo perfeitamente a sós – e o sinal disso foi a completa escuridão — [N do T: “houve trevas sobre toda a Terra” (Mt 27:45; Mc 15:33; Lc 23:44)] — conforme as exigências e justiça de Deus; onde devia haver acordo acerca da absoluta perfeição d'Aqueles que levaram a obra a cabo. Os homens nada tinham a ver com aquela obra; tudo o que tínhamos a ver eram nossos pecados, e, devemos acrescentar, o ódio que levou Cristo à morte. Foi, ali na cruz, uma obra divina acerca de meus pecados.

 

Cristoem lugar de meus pecados

Cristoem lugar de meus cuidados

 

Vejamos o efeito disso. Vemos a pobre mulher totalmente absorvida com seu cântaro; mas no momento em que sua consciência é plenamente atingida, ela sai para testificar a outros – Se você tão somente receber a Cristo, Ele lhe dirá todas as coisas. Ela abandona seu cântaro – [N do T: “Deixou pois a mulher o seu cântaro” (Jo 4:28)]. – Não foi à toa que o Espírito Santo registrou isto. Aquilo que a absorvia estava acabado. A palavra e o poder de Jesus, que deram a ela a convicção de pecado, também colocaram Cristo no lugar das coisas que tinham poder sobre o coração da mulher. Cristo como minha justiça em lugar de meus pecados; Cristo como o objeto de meu coração em lugar de meus cuidados.


Quero acrescentar uma palavra de conforto para qualquer alma que esteja convencida do pecado, mas que não tem paz. Suponhamos alguém que tenha recebido a Palavra de Cristo, mas que não possa afirmar que tenha recebido a Ele próprio — mas diz: "Se eu apenas pudesse encontrar a Cristo! Vejo em mim tanto pecado. Daria qualquer coisa para ter a Cristo". O que foi que colocou este desejo em seu coração? Você O recebeu como o grande Profeta; Sua Palavra atingiu seu coração; você está convencido do pecado, mas não sabe se tem a Cristo como Salvador. Ele falou a você acerca da vida eterna, e você recebeu a Palavra que tornou Cristo precioso a você e sua má consciência. Então você tem Cristo. Sua Palavra teve a autoridade da Palavra de Deus em sua consciência. Se assim é, o mesmo Cristo que visitou você, é o Cristo que carregou os seus pecados. O Cristo que assim nos fala para introduzir estes pensamentos ao nosso coração, é Aquele mesmo que por graça suportou o castigo que merecíamos, antes que chegasse o dia do juízo.


Então, como é com você? O seu coração “deixouo seu cântaro” por Cristo? Não quero dizer que não haverá conflito. Mas terá o seu coração ouvido a Sua Palavra de modo tal que ela tenha penetrado em sua consciência? Você pensa que vai para o céu carregando seus pecados? Quantos pecados Eva cometeu quando Deus a expulsou do Éden? Um! Você já cometeu mais. Você espera entrar no céu: com ou sem os seus pecados? Eles já foram levados? Como é que você pode descansar um momento sequer antes de ter certeza disso? Que loucura e insensatez!


Aquele que trata com nossa consciência é Aquele que veio onde estamos, e agora está rogando que nos reconciliemos com Deus. Será algo terrível, no dia do juízo, ter tido o coração fechado para a atrativa voz do Senhor? Acaso Ele não o conquistou com sabedoria? Terão existido palavras como as d'Ele – palavras de graça, graça indescritível, com as quais Ele tem procurado nos ganhar? É uma verdade bendita, que antes que chegasse o dia do juízo, o Juiz veio pessoalmente para libertar. Com certeza você terá que ser julgado então, se não aceitar o livramento agora mesmo!

J.N.Darby (1800-1882)


 

"MAS É GRANDE GANHO A PIEDADE

COM CONTENTAMENTO"

As palavras do título implicam que deve haver algum tipo de contentamento sem piedade, onde, evidentemente, deve haver algum ganho.


O que é piedade? "Grande é o mistério da piedade: Aquele que Se manifestou em carne" (1 Tm 3:16). A verdadeira piedade é a semelhança com Deus, como no versículo citado, e também em Efésios 5:1, “Sede pois imitadores de Deus, como filhos amados”, em conexão com Efésios 4:32, “Antes sede uns para com outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como Deus vos perdoou em Cristo”. Os Cristãos devem ser seguidores (literalmente, “imitadores”) de Deus – devem ser semelhantes a Deus, ou seja, piedosos, sempre entregando-se a si mesmo a Deus em favor do próximo, como Cristo fez na cruz, – exceto, evidentemente, naquilo que somente Cristo poderia fazer: a expiação. Mas nossa piedade, nosso andar em amor não é para ter um padrão mais baixo do que este. O Espírito Santo, também, em 1 João 4:16 ensina o mesmo padrão, para nós Cristãos amarmos uns aos outros.


Então, "é grande ganho a piedade com contentamento" (1 Tm 6:6). A piedade não somente tem "a promessa da vida presente", mas também "da que há de vir" (1 Tm 4:8), e ambas são "ganho". Assim, "é grande ganho a piedade com contentamento" (1 Tm 6:6). Onde, não há este "contentamento", o coração não estará satisfeito – não estará descansando no gozo da comunhão com o Pai e com o Filho.


Avareza

Satanás conhece bem este assunto, e tenta nos roubar esse gozo incitando-nos à avareza. Por esta razão somos exortados em Hebreus 13:5: "Sejam os vossos costumes (vossa conduta como Cristão) sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque Ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei". E ainda em 1 Timóteo 6:7: "Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele".


Mas com o que devo me contentar? Comida e vestimenta. Ouça, também, o que nosso Senhor ensina quanto a isto em Lucas 12, e o que devemos considerar! Devemos considerar os corvos, e os lírios, e como Deus alimenta uns e veste os outros – “Jesus disse:Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis. …Considerai os corvosConsiderai os líriosnão andeis inquietos” (vs.22-30).


O que é avareza? Nas Escrituras há diferentes palavras gregas todas são traduzidas pela mesma palavra "avareza". Cinco palavras gregas são encontradas no Novo Testamento. Somente em duas Escrituras, a saber, 1 Corintios 12:31 e 1 Corintios 14:39 é a palavra usada num bom sentido, e aqui apenas a palavra “zelo” (ser zeloso) é usada. Mas, na maioria das vezes, a palavra mais comum é “pleonexia” significando “extrema ganância por fortuna” ou “ganância (avidez) por ganho”.


Em Lucas 12:15-20“Acautelai-vos e guardai-vos da avareza” – significa a "avidez de possuir". Em 1 Coríntios 5 é dito que devem ser tirados não apenas o devasso,ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão”, por serem maus, mas também alguém ávido de possuir – “o avarento”. Isso tudo não nos mostra quão odiosa é para Deus a avidez de possuir? “É idolatria” (Cl 3:5). Como isso rouba a Deus o Seu devido lugar! E como isso rouba a alma do “grande ganho da piedade com contentamento”, e do gozo do Pai, agindo como pai para aqueles que estão separados de qualquer jugo desigual com incrédulos! Um poema me vem à mente para ilustrar o que escrevi acima, e quero compartilhá-lo com você:


Ouviu-se Num Pomar

Escutei o Pintassilgo ao Pardal dizer,

"Qual a razão, gostaria de saber,

Do ser humano, sempre tão preocupado,

Correr tanto de um ao outro lado".


Respondeu, então, ao Pintassilgo, o Pardal,

"Amigo, acho que sei a resposta para tal,

É porque não têm um Pai Celestial tão bom assim,

Como o Deus que cuida de você e de mim!"


Sabemos que o Pardal estava errado. Os seres humanos também têm um Pai celestial, mas não confiam em Seu todo-poderoso amor e cuidado para com eles, e por isso correm "tanto de um ao outro lado".


A avareza (avidez de possuir), não somente produz inquietação e preocupação da alma; mas também impede a sossegada e feliz comunhão com o Pai e com o Filho, esse gozo é perdido, e não há força para adoração ou serviço, exceto, talvez, numa forma legalista. E o Cristão torna-se desanimado e frio e mostra poucos sinais de vida. Fica cada vez mais difícil vê-lo abrindo a boca, tanto nas reuniões de adoração como nas de oração, dirigindo-se a Deus Pai ou ao Filho. E, no entanto, o Filho diz: "Faze-Me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce e a tua face aprazível" (Ct 2:14).


Se o Cristão segue adiante permitindo esse espírito de avidez de possuir, Deus nos diz que tais pessoas "caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruínaMas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade (o amor), a paciência, a mansidão. Milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna" (1 Tm 6:9-12).


Força Espiritual

Por acaso isso tudo não requer poder, força espiritual? Certamente sim, e deve ser encontrado n'Aquele que ressuscitou, e subiu ao céu, a Quem estamos unidos, em Quem fomos aceitos, e a Quem pertencemos. Pois toda a plenitude da Divindade habita n'Ele, e somos cheios, e completos n'Ele; e Sua “graça te (nos) basta, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12:9). Portanto não devemos nos desculpar, e nem sermos desencorajados. “Tudo posso n'Aquele que me fortalece” (Fp 4:13), aqueles que olham para Ele — para Ele, Aquele que nos ama como um homem ama a si mesmo, Ele nos ama como parte de Si mesmo.


Em Lucas 12, nosso bendito Senhor nos diz: se somos levados à ansiedade quanto a prover as coisas necessárias para nós mesmos ou para nossa família, não fiquemos ansiosos acerca dessas coisas; e em Mateus, quando falava os Seus no sermão do monte, Ele nos diz: para buscarmos primeiro as coisas de Deus – “buscai primeiro o reino de Deus” – e tudo o que é necessário – tudo aquilo com que devemos nos contentar, aquilo que “os corvos e os lírios” recebem d'Ele, – “vos serão acrescentadas” (Mt 6:33). Essa preciosa expressão de Seu amoroso cuidado para conosco vem para nos encorajar, pois "vosso Pai sabe que haveis mister (necessitais – ARA) delas" (Lc 12:30).


Caro leitor Cristão, considere o que digo, e que o Senhor possa dar-nos entendimento em todas as coisas. Que Seu grande, gracioso e imutável amor por nós, declarado na cruz, e continua a ser derramado para nós, vindo de Seu trono nas alturas; possa este amor constranger nosso coração para que possamos colocar Cristo e as coisas de Deus em primeiro lugar, e viver, não para nós mesmos, mas para Aquele que morreu por nós e ressuscitou, desfrutando do "grande ganho a piedade com contentamento" (1 Tm 6:6).

J.B.Dunlop (1840-1928)


 

O EGOÍSMO DO HOMEM E O AMOR DE DEUS


No evangelho de Lucas, Deus e o homem podem ser ouvidos fazendo precisamente a mesma pergunta. Consideremos rapidamente ambos.


No capítulo 12, somos apresentados a um rico fazendeiro. Deus é visto coroando providencialmente toda a prosperidade que esse homem já possuía com a dádiva de uma colheita tão ricamente abundante que na realidade ele não tem espaço no celeiro para a exuberante abundância. Ele observa seus campos de cereal ondulando ao vento, e mede cuidadosamente a capacidade dos depósitos existentes, e então, faz a significativa pergunta: "Que (Eu) farei?" (Lc 12:17). A resposta que se segue tão somente demonstra, de forma clara, onde está o seu coração. Quatro vezes em poucas linhas ele diz "EU": "(Eu) farei isto: (Eu) derribarei, (Eu) edificarei, …e (Eu) recolherei" (Lc 12:18); mas tudo isso em conexão com sua abundância e seu proveito próprio. Nada menos do que dez vezes em poucas linhas ele usa as significantes palavras "Eu" e "meu" ou "minha" (Lc 12:17-19). No que diz respeito a Deus, não há lugar para Ele nos pensamentos do homem. Deus está completamente excluído. Só há lugar para o eu, eu, e somente eu, desde o começo ao fim da história – (Lc 12:17-19)…meus celeiros, …minhas novidades, …meus bens" (Lc 12:17-19). – O seu egoísmo deve reinar supremo e Deus deve ficar de fora.


Devemos recordar aqui que todo fazendeiro em Israel era apenas um meeiro ou arrendatário. Todo judeu devia compreender isto. Ele possuía a terra sob certas condições divinamente estabelecidas. A terra era de Deus; e antes que qualquer desses arrendatários tivesse tomado posse dela, Deus havia estabelecido regras bem claras acerca da terra, e a mão de Seu servo Moisés havia escrito isso para que todos estivessem certos de compreender bem. Veja Levítico 25:23: "Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha". Em vez de reconhecer isto, o rico fazendeiro é visto expulsando completamente a Deus; até que o aviso de despejo que o homem recebeu – “Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma” (Lc 12:20) – provou que, apesar de tudo, ele não passava de um arrendatário, pois juntamente com o aviso de despejo vem a pergunta: "E o que tens preparado para quem será?" (Lc 12:20).


Mas agora temos um agradável contraste. Na “parábola da vinha” (Lc 20:9) Deus é distintamente apresentado a nós como o dono da vinha. Como tal Ele naturalmente requer a porção do fruto que, por direito, é devido a Ele. Em vez de receber fruto, no entanto, vemos que Seus servos recebem apenas ferimentos e contusões; e é em vista desse tratamento vergonhoso que parte de Deus a pergunta vital. Neste ponto nós O ouvimos perguntar: "Que farei?" (Lc 20:13).


Já vimos o homem fazendo esta pergunta, e ouvimos sua resposta: (Eu) farei isto”; satisfarei a mim mesmo e deixarei Deus de fora. E Deus, por sua vez, deixará o homem de fora? Ó Deus de graça inigualável, qual será a Tua resposta? – "Mandarei o Meu Filho amado" (Lc 20:13). Que decisão três vezes bendita!


Se Deus houvesse dito, "Varrerei da face da Terra esses ingratos: eles são uma mancha em Minha bela Criação; uma constante desonra ao Meu santo nome, e vou, em juízo consumidor, pôr um fim a toda raça para sempre" – quem é que poderia acusá-Lo de injusto agindo assim?


Mas, em vez disso, Ele disse: "Mandarei o Meu Filho amado" (Lc 20:13); esta foi Sua maravilhosa resposta. Em vez de colocar de lado o homem para sempre, Ele decidiu enviar Seu amado Filho na forma humana, como Seu apelo final por fruto vindo do homem.


Quem não conhece o resultado, em como a finalidade do apelo de Deus tão somente expôs mais o homem à luz da completa estatura de sua impiedade e egoísmo? "Vinde, matemo-Lo", eles disseram, "para que a herança seja nossa" (Lc 20:14). Os anjos poderiam ter dito: "Com certeza isto irá selar a eterna perdição da raça humana". Mas não foi assim. Nem isso seria suficiente para frustrar os propósitos da graça. Deus usaria esse próprio ato de impiedade como o meio de tirar o pecado do homem e garantir-lhe o gozo de Sua própria presença eterna. Que maravilha! Leia um ou dois dos últimos versículos deste mesmo evangelho – Lucas 24:46-47: "E assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos; e em Seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém". É como se Deus mesmo dissesse: "Digam ao pior de todos que eu estou preparado para perdoá-lo e abençoá-lo". Que Deus!


Que maravilha, então, o contraste entre os planos do homem e os propósitos de Deus.

O homem diz: "Tudo que tenho vou segurar cuidadosamente para mim mesmo e, deixando Deus de fora, vou desfrutar de meus muitos bens por longos anos".


Deus diz: "Eu Darei tudo que Eu tenho para assegurar a libertação do homem, e então introduzi-lo naquilo que Me pertence: no completo gozo. E isto ele desfrutará, não por longos anos, mas pela ETERNIDADE".


Leitor, você já se reconciliou com Deus? Se ainda não, assegure-se de fazê-lo de uma vez para sempre.

G.Cutting (1843-1934)


 

PERGUNTAS E RESPOSTAS


P. Quem foi Melquisedeque?


R. “Porque este Melquisedeque, que era rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou: A quem Abraão deu o dízimo de tudo …Ora sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior. E aqui certamente tomam dízimos homens que morrem: ali, porém, aquele de quem se testifica que vive” (Hb 7:1,7-8).


Realmente, não há fundamento sólido para se negar que Melquisedeque era um homem, simplesmente como Abraão, Ló, ou qualquer outro personagem que aparece na descrição de Gênesis 14.


O mistério não está na pessoa, mas na maneira como o Espírito de Deus registra sua aparição e ação na cena, a fim de torná-lo um tipo adequado do Senhor Jesus. Assim, nenhuma palavra é dita sobre seu nascimento, ou sua morte; há silêncio total quanto aos seus ancestrais; e nenhuma indicação é dada sobre o espaço de tempo de seu ofício, ou de qualquer sucessor.


O Espírito Santo, por meio de Paulo, argumenta a partir desse silêncio (que é mais acentuado quando contrastado com a conhecida linhagem de Aarão e de sua sucessão), e assim ilustra o sacerdócio de Cristo, o Qual realmente possuía aquelas características que aqui são mostradas em “Melquisedeque”, apenas como uma antevisão na forma de um tipo. Por exemplo, enquanto em Hebreus 7:8, se refere a “Melquisedeque”, o testemunho que a Escritura apresenta diz respeito à sua vida, e não à sua morte, enquanto que, é frequentemente falado da morte de Aarão e de seus filhos. O mesmo princípio aplica-se ao "permanece sacerdote para sempre" (Hb 7:3).


A Bíblia não fala de sua ordenação como sacerdote, e nem de sua destituição. Quando pela primeira vez ouvimos de Melquisedeque, ele já é “sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14:18), e é nesse ofício que o deixamos; nenhum filho, nenhum sucessor aparece. Cada um dos títulos abaixo são óbvia e eminentemente tipos:

  1. O nome: "Rei de justiça" (Hb 7:2);

  2. O lugar: "Rei de Salém" (Hb 7:2);

  3. Seu ofício sacerdotal, principalmente em conexão com o título tão peculiar de Deus: "Sacerdote do Deus altíssimo" (Hb 7:1); (que, em sua plena importância, implica a posse, de fato e de direito, do céu e da terra);

  4. As circunstâncias: "Saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis" (Hb 7:1);

  5. O caráter de suas ações: "Abençoou o que tinha as promessas" (Hb 7:6), (e não meramente sacrifício e intercessão); são todas óbvias e eminentemente típicas.

Não existe qualquer dificuldade sobre Melquisedeque, se comparado com o que há sobre “Jetro” (Ex 3:1), sacerdote e rei de uma época posterior; embora, evidentemente, o último não podia oferecer uma ilustração tão adequada, nas circunstâncias do caso, quanto Melquisedeque. Ambos eram pessoas reais, históricas e não meramente místicas.


Duas observações podem ser feitas para o melhor entendimento deste capítulo e Epístola. A primeira é que, se a ordem é a de Melquisedeque, o exercício é o de Aarão, como é mais claro em Hebreus 9. A segunda é que em Hebreus 7:18-19, devemos tomar “a lei nenhuma coisa aperfeiçoou” entre parênteses.

Bible Witness and Review


 

Pensamento

"Não sei se viverei para ver ao menos um convertido, mas não deixaria este campo de trabalho nem para ser coroado rei do maior império do planeta"

Adoniram Judson

 

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