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As Sete Declarações do Senhor na Cruz - Parte 1 (Janeiro de 2026)

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Revista mensal publicada pela Bible Truth Publishers

ÍNDICE

 

           J. L. Erisman

          D. Berry

          K. B. K. – God’s Glad Tidings, Vol. 7 (adaptado)

          W. W. Fereday

          E. Dennett

          W. J. Prost

W. T. P. Wolston

          F. G. Patterson

          J. N. Darby

C. H. Mackintosh

J. G. Bellett

Things New and Old, Vol. 7

Hamilton Smith

          E. Clephane 1868

O Homem Perfeito

 


Como Intercessor: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34).

 

Nos relacionamentos humanos: “Mulher, eis aí o teu filho!... Eis aí tua mãe!” (Jo 19:26-27).

 

Como Pastor: “Hoje estarás Comigo no paraíso” (Lc 23:43).

 

Como Emissário do pecado: “Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” (Mt 27:46; Mc 15:34; Sl 22:1). Interiormente: “Porém Tu és santo, Tu que habitas entre os louvores de Israel” (Sl 22:3).

 

Como Servo: “Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede” (Jo 19:28). (O Homem perfeito como servo).

 

Como Autor e Consumador da fé: “Está consumado” (Jo 19:30).

 

Em Seu relacionamento divino após expiar o pecado: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito” (Lc 23:46).

 

J. L. Erisman

Sete Coisas que Jesus Falou na Cruz

 

O Homem perfeito 

  1. Ao Seu Pai: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34). Gracioso, perdoador e consciente de que tudo estava ordenado, ainda assim Judas foi responsabilizado por Sua traição (Lc 22:22). Embora Ele tenha perdoado, Mateus 27:25 nos diz que os Judeus tomaram para si a culpa de própria vontade.


  2. Ao ladrão: “Hoje estarás Comigo no paraíso” (Lc 23:43). Este foi o primeiro homem a ter certeza de que passaria a eternidade com Deus no céu. Jó e outros falaram da ressurreição (Jó 19:25-27), mas com conhecimento limitado. O Senhor, ainda na cruz, antes de morrer, confirmou a este pobre pecador que lhe estava garantido o paraíso em comunhão com Ele.


  3. À Sua mãe e a João: “Mulher, eis aí o Teu filho!... Eis aí Tua mãe!” (Jo 19:26-27).  A ternura do Senhor Jesus, sabendo da dor que Sua mãe sentiria (Lc 2:35) ao ver seu Filho primogênito sofrendo e morrendo pelas mãos de um homem injusto, colocou nas mãos de João a responsabilidade de cuidar dela e confortá-la. Isso mostra perfeitamente a importância de manter nossos relacionamentos humanos e familiares. Ele estava tratando “dos negócios de (Seu) Pai” (note que José não é mencionado como Seu pai), mas com Sua terna compaixão cuidou dela.


  4. A Deus em alta voz: “Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” (Mt 27:46). Percebendo o terrível juízo de ser punido pelo pecado, Aquele que não conheceu pecado pronunciou essas palavras ao final das três horas de trevas (a nona hora). O único e perfeito Homem justo sobre a Terra foi desamparado por Deus. Não foi o pensamento da morte ou do sofrimento que O levou a clamar, mas sim o abandono por parte do Deus santo.


  5. A todos os que puderam ouvir: “Tenho sede” (Jo 19:28). Isso foi dito para que a Escritura fosse cumprida (Sl 69:21). Também apresenta um pequeno retrato do terrível sofrimento de Sua morte. Depois de todos os açoites, falsas acusações, vergonha, zombaria, agonia dos pregos cravados em Suas mãos e pés e a dor agonizante da crucificação. Ele também teve que suportar uma sede terrível.


  6. A todos os que puderam ouvir: “Está consumado” (Jo 19:30). Após receber o vinagre, Ele clama essas palavras de vitória, inclina Sua cabeça e, entregando o espírito, morre. Ele afirma que a obra na cruz está consumada. Nenhum outro sofrimento (oferta) pelo pecado jamais será requerido (Hb 10:18). Ele sabia o que era exigido na cruz, o sofrimento que isso implicaria (Jo 18:4), e quando tudo foi plena e perfeitamente completado, Ele, sabendo disso, entregou o Seu espírito. E isso não foi um fardo leve a carregar, pois Ele sofreu pelas mãos de um Deus justo toda a ira e o completo castigo, medidos com justiça, por todo o pecado do mundo (Jo 1:29).


  7. Ao Seu Pai com grande voz: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito” (Lc 23:46). Isso possivelmente é o mesmo que em Mateus 27:50, onde Ele clama com grande voz. Foi o ato final do Senhor Jesus como Homem. Ele sabia que Seu corpo iria para a sepultura por três dias, mas Seu espírito estaria com o Pai.

 

D. Berry

Vigília da Manhã e Vigília Noturna

 

“Pilatos, querendo contentar a multidão,... e, depois de mandar açoitar a Jesus, entregou-O para ser crucificado. Os soldados levaram-No ao pátio, que é o Pretório, e reuniram toda a corte” (Mc 15:15-16 – TB).

 

O evangelista, falando de Pilatos, diz que ele “depois de mandar açoitar a Jesus” e, como Pilatos não foi, ele próprio, o executor dessa infame sentença, coube aos soldados romanos executá-la. O açoite era um costume quase peculiar aos romanos, e mesmo eles raramente açoitavam alguém, exceto quando crucificavam. A zombaria de uma túnica real, da coroa e do cetro, com uma atitude de falsa homenagem, seguia-se ao açoitamento, e certamente isso não fazia parte da sentença de Pilatos. Das profundezas cruéis e satânicas do coração de cada um deles, os soldados inventaram esses insultos, seguidos de provocações, cuspidas e espancamentos. No entanto, por causa da natureza humana miserável, desprezível e brutal, o Filho de Deus suportou “tais contradições dos pecadores”.

 

Talvez recuássemos horrorizados diante de tal insulto sem sentido para um Ser tão inofensivo e inocente, como aqueles soldados sabiam ser o “Rei dos Judeus”. Talvez! No entanto, a Palavra de Deus nos diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9). Há muitos que recuariam diante da crueldade aberta contra uma vítima, e, contudo, em seu coração há inimizade contra Deus, e o santo nome de Jesus está frequentemente em seus lábios misturado com maldições. Ora, o que é isso senão uma repetição, em menor escala (e talvez mais de acordo com as circunstâncias e os costumes modernos) da cena de zombaria que acabamos de considerar no Pretório de Pilatos? O coração natural do homem hoje é, na melhor das hipóteses, apenas um reflexo da natureza sombria dos soldados daquele terrível período.

 

O Calvário 

Vamos passar do Pretório para o Calvário e contemplar aquele espetáculo que aconteceu, quando na cruz Jesus fez expiação por nós perante um Deus santo, e tomou o lugar do pecador, para suportar em nosso lugar a justa ira de um Deus ofendido. Vejam os soldados! Alguns cravaram os pregos em Suas mãos e pés santos. Em seguida, ávidos por qualquer vantagem pessoal que pudessem obter neste horrível homicídio, agarram-se às Suas vestes e as dividem. Finalmente, impressionados com a delicadeza do tecido de Sua túnica sem costura, eles lançam sortes sobre ela como um prêmio; tocar somente a orla daquela túnica que trouxe cura a uma sofredora crente. Então, “assentados, O guardavam ali” (Mt 27:36).

 

Mas acima do espírito diabólico que permeava aquela hora, quando o poder do príncipe das trevas reinava supremo, a voz de Cristo crucificado se eleva em tons de súplica divina: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34).

 

Mais tarde, Seu sangue foi derramado, e aquilo que Ele pagou a Deus pelo nosso resgate, Ele nunca tomou de volta. O sangue daquele lado ferido pela lança de um soldado, ainda é plenamente eficaz para apagar nossos pecados para sempre e nos dar um fundamento divino de aceitação diante de Deus. Jesus agora entrou no lugar santíssimo, “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1:20 – ARA). Ele não está morto; Ele está ressuscitado! Ele não está mais no túmulo guardado por guardas romanos, pois, para manifestar plena prova de Sua ressurreição, o anjo do Senhor desceu e removeu a pedra, diante do qual os guardas tremeram e ficaram como mortos (Mt 28:4).

 

A vigília da manhã 

Na manhã anterior, eles O tinham açoitado e crucificado, e à noite sentaram-se para vigiar Seu túmulo! Às vezes me pergunto: Seriam esses homens, que tremiam e desmaiavam em agonia mortal, alguns daqueles que, dois dias antes, desprezaram e zombaram do Senhor Jesus? Como romanos supersticiosos – e os romanos eram muito supersticiosos – que terror deve ter enchido a alma deles quando aquele anjo radiante do exército celestial removeu a pedra e se assentou sobre ela!

 

Mas, apesar desse milagre divino, encontramos os soldados, quando seus temores passaram, aceitando um suborno dos príncipes dos sacerdotes para dizer que, enquanto eles dormiam, Seus discípulos haviam roubado o corpo. Dormir em seu posto era morte para um romano; mesmo entre os Judeus, isso implicava uma punição severa, pois lemos sobre Herodes ordenando que os guardas fossem mortos quando o anjo do Senhor libertou Pedro da prisão (At 12:19). Supondo que tivessem sido vencidos pela sonolência, esse sono deve ter sido profundo, o que tornaria a vigília noturna tão insensível a ponto de não perceber o rompimento do selo e o rolamento da pedra, pois nos é dito que era uma “grande pedra”.

 

Infelizmente! Há muitos nos dias atuais que, como esses guardas, receberam solenes advertências sobre o caminho maligno e ilusório que estão seguindo, mas ainda assim endurecem o coração, até que, talvez quando estiverem realmente dormindo na letargia sonolenta do pecado, sejam confrontados cara a cara com o terrível anjo da morte, e para eles não haverá escapatória. A cruz e o túmulo de Jesus podem ter sido motivo de zombaria por toda a vida, e em um momento em que não estiverem conscientes, cairão sob o poder do príncipe das trevas.

 

Uma breve mensagem 

Mais uma palavra antes de me despedir; diz respeito a um jovem oficial do exército, muitos anos atrás. Um homem no auge da vida jaz pálido e debilitado pela dor em um leito. Uma doença muito sutil e crítica que os médicos não conseguem especificar sua origem ou duração, tem minado há três anos uma constituição naturalmente robusta e cheia de energia. Mas o sofredor lançou seu fardo de pecado e dor aos pés da cruz, e quando o anjo da morte vier libertá-lo, a paz, e não a vergonha, será sua porção. Certa noite fiquei ao lado de sua cama – como uma criança que eu era, para receber seu beijo de boa noite. Ele estava dando corda em seu relógio, e eu tive que esperar até que ele terminasse e o colocasse debaixo de seu travesseiro. Como eu me lembro bem da situação! Mas o tempo tinha acabado para ele, e ele nunca mais precisou consultar aquele relógio para saber as horas. Saí do quarto dele e, pela manhã, acordei sem pai.

 

Duas horas após aquele último “boa noite”, sua alma foi chamada. Ele ficou inconsciente, e em menos de meia hora sua vida se esvaiu. Graças a Deus! Eu acredito que somente sua vida humana se esvaiu!

 

“Uma vida breve é a nossa porção, 

Breve a dor, a preocupação, passageira; 

A vida que não conhece fim, 

A vida sem lágrimas está lá!” 

 

Que nossa última vigília noturna nos encontre reconciliados com Deus e lavados no sangue de Jesus, descansando n’Aquele divino Substituto!

 

K. B. K. – God’s Glad Tidings, Vol. 7 (adaptado)

O Homicida

 

Temos um retrato marcante da santidade e da graça de Deus em Seus tratamentos com o homicida em Números 35. Ele instrui Seu povo aqui, e em Deuteronômio 19, a separar certas cidades levíticas em ambos os lados do Jordão, “para que ali se acolha aquele que matar a alguém por engano”. A santidade de Deus é vista no fato de que Ele não protegeria o culpado (pois quando o caso fosse levado perante juízes e testemunhas competentes, o culpado deveria ser entregue). No entanto, a graça de Deus resplandece intensamente ao preservar o homicida não intencional dentro do refúgio, para que o vingador do sangue não o alcance. Aqui nos é apresentado, de modo figurado, o tratamento gracioso de Jeová para com Israel – a nação amada, porém cega, que é responsável diante d’Ele pelo derramamento do sangue de Cristo. Ele, em Sua graça, considera Israel como um “homicida”, e não como um “matador”, para ser restaurado no devido tempo à boa terra, a terra de sua possessão. O Senhor, quando crucificado, intercedeu pelos transgressores e considerou o ato como sendo por ignorância: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34). E Pedro, ao trazer à tona o grande pecado deles em Atos 3, ecoa as palavras do seu Mestre: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a Seu filho Jesus, a Quem vós entregastes e perante a face de Pilatos negastes, tendo ele determinado que fosse solto. Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que se vos desse um homem homicida. E matastes o Príncipe da vida” (At 3:13-15). Mas ele prosseguiu dizendo: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos príncipes” (v. 17).

 

Saulo de Tarso é, em muitos aspectos, uma figura da sua nação, especialmente nisso, pois ele disse: “A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1 Tm 1:13). Alguns que foram acusados diretamente por Deus pela morte de Jesus, testemunharam a defesa de Estêvão perante o Sinédrio, e foram entregues ao juízo de acordo com isso. Mas a nação como um todo, ou pelo menos o remanescente, é tratada por Deus como um homicida não proposital a ser restaurado.

 

A cidade de refúgio 

Quando o homicida chegava à cidade de refúgio, ele estava seguro sob os cuidados de Jeová; longe de suas possessões, certamente, mas preservado por Jeová. Isso descreve exatamente a posição de Israel hoje. Longe de sua possessão, mas com o olhar do Deus sempre fiel sobre eles, ainda são preservados como uma nação. Que testemunho impressionante para o homem que não crê na Palavra de Deus! Depois de todas as suas incomparáveis adversidades e da pesada disciplina sob a mão santa de Deus, depois de todo o ódio e perseguição dos arrogantes gentios, do oriente e do ocidente, eles permanecem. Por outro lado, onde está Moabe? Onde estão Edom, Amom, Assíria, Babilônia e outros? Homens podem escavar e descobrir as ruínas de seus palácios e fortalezas, mas como nações eles estão mortos e desaparecidos; há muito deixaram de existir. Mas Israel permanece como um povo tão distinto como sempre foram, em notável confirmação das próprias palavras do Senhor: “não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam” (Mt 24:34). O termo “geração” aqui deve ser considerado não como histórico, ou a beleza da passagem se perde, mas como moral; as palavras realmente garantem a preservação de Israel como um povo distinto até o fim, e até que toda a palavra profética se cumpra.

 

Os servos de Deus (os levitas que habitavam nas cidades de refúgio) estavam na mente de Jeová a respeito disso; eles sabiam que o homicida estava sendo preservado para a restauração final. Esse é o nosso privilégio como Cristãos. Nosso Deus não apenas nos diz em Sua Palavra o que Ele está fazendo por nós, nos trazendo para uma bênção maravilhosa diante de Si mesmo, mas também nos revela todos os Seus propósitos. E em passagens como Romanos 11, temos a revelação da mente divina a respeito de Seu povo terrenal. Deus ainda os restaurará; eles ainda possuirão a boa terra, não sobre um terreno de lei, mas de misericórdia. Podemos nos admirar de que Paulo, ao escrever sobre esses propósitos de Deus, tenha exclamado: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos!” (Rm 11:33).

 

O sumo sacerdote 

É interessante notar que, quando o homicida era restaurado às suas possessões, “ali (na cidade de refúgio) ficará até à morte do sumo sacerdote, a quem ungiram com o santo óleo... mas, depois da morte do sumo sacerdote, o homicida voltará à terra da sua possessão” (Nm 35:25, 28).

 

Enquanto Cristo continua Sua presente obra sacerdotal dentro do véu rasgado nas alturas, Israel não será restaurado. Enquanto Ele ministra para nós lá na presença de Deus, eles permanecem fora de suas terras, nos lugares para onde foram expulsos. Mas chegará o momento em que a obra presente de Cristo chegará ao fim (pois estaremos em glória sem a necessidade dela), e então Deus voltará Sua atenção mais uma vez para a semente de Israel.

 

Existem dois caracteres de sacerdócio pertencentes ao nosso Senhor Jesus, os quais é importante tê-los em mente: o de Arão e o de Melquisedeque. Ele não é sacerdote segundo a ordem de Arão, pois Seu sacerdócio não pode ser transmitido, mas as funções de Arão fornecem a figura do que Ele está fazendo agora em favor de Seus santos no santuário acima. Isso chegará ao fim, e então se seguirá o sacerdócio de Melquisedeque, que está diretamente ligado ao remanescente de Israel. O sacerdócio de Melquisedeque não foi caracterizado por sacrifício e intercessão, mas ele trouxe pão e vinho ao homem de Deus, e o abençoou em nome do Deus Altíssimo, possuidor do céu e da Terra.

 

Assim Cristo agirá no último dia. Ele virá para a bênção daqueles (Judeus) que irão permanecer ao Seu lado em um dia mau – os Seus vencedores. Ele os abençoará e os renovará, assim como o patriarca foi renovado no passado. Assim, enquanto o Senhor continua Sua presente obra de graça como Sacerdote na presença de Deus, Israel, como nação, permanece sem a bênção. Mas a bênção está reservada para eles, pela misericórdia de Deus. Ele “não rejeitou o Seu povo, que antes conheceu” (Rm 11:2). Então eles saberão e entenderão que o precioso sangue, derramado uma vez por seus pais, é o único que faz expiação pela alma, e é o único fundamento da bênção para eles, assim como é para nós. Zacarias nos fala sobre o luto deles naquele dia: “e olharão para Mim, a Quem traspassaram; e pranteá-Lo-ão sobre Ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por Ele, como se chora amargamente pelo primogênito” (Zc 12:10). O homicida naquele dia não tentará justificar seu ato, mas adorará a graça que cobre tudo.

 

W. W. Fereday

Maria Junto à Cruz de Jesus

 

Quando o idoso Simeão segurou o Menino Jesus em seus braços, disse a Maria: “Eis que Este é posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para sinal que é contraditado, (e uma espada traspassará também a tua própria alma); para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lc 2:34-35). Colocamos itálico nas palavras que se referiam especialmente a Maria, e que certamente encontraram seu cumprimento na cena contida nesta passagem. Ela certamente esteve na cruz mais tarde, mas não é dito aqui se ela havia seguido Jesus até a cruz, nem se testemunhou os insultos e as agressões que Ele recebeu quando esteve diante de Seus juízes. Um véu, no que diz respeito a Maria, é colocado sobre seus sentimentos, sua angústia e agonia durante a noite sombria da Sua traição. Embora a espada certamente tenha transpassado o mais íntimo do seu coração durante a noite e o dia que se seguiram à Páscoa, é com o próprio Senhor, e não com Maria, que o Espírito de Deus Se ocupa. Somos chamados a contemplar a Sua atitude, o Seu comportamento, a Sua mansidão, a Sua paciência e humildade, Suas palavras. Mas agora que Suas dores e sofrimentos estavam chegando ao fim, o véu foi levantado por um breve instante, para que possamos contemplar Maria na cruz, ou melhor, que fique dito, para que possamos contemplar a perfeição de Jesus em Seu cuidado por Maria, agora que a vontade de Deus tinha sido cumprida em Seu serviço na Terra. Outros estão com Maria; sua irmã, Maria, esposa de Clopas, e Maria Madalena, mas é a Maria e ao discípulo amado que estava “presente” que as palavras do Senhor são dirigidas. Não podemos conjecturar onde a Palavra de Deus se cala; ainda assim, certamente podemos repetir que Maria não poderia contemplar a crucificação de seu santo Filho sem uma agonia indescritível – sem que seu coração fosse dilacerado pelo espetáculo angustiante. Ela O tinha observado por mais de trinta anos; ela só poderia ter sentido muito da fragrância moral e da beleza de Sua vida devotada, e deve ter tido ao menos alguns vislumbres da glória de Sua Pessoa. E agora era seu destino vê-Lo rejeitado, insultado e crucificado! Que o apoio divino lhe foi ministrado, ao passar por uma provação tão ardente, podemos ter certeza, mas ainda assim deve ter sido com o coração partido que ela O contemplou na cruz e viu o deleite diabólico de Seus inimigos na realização de seus fins iníquos.

 

E. Dennett

Mulher, Eis Aí o Teu Filho

 

A citação que forma o título deste artigo vem de João 19:26, e foi uma mensagem dada por nosso bendito Senhor à Sua mãe enquanto Ele estava na cruz, mas antes de Seus sofrimentos durante as três horas de trevas. Uma declaração correspondente do nosso Senhor é dada ao apóstolo João no versículo seguinte – “Eis aí tua mãe!” Então está registrado que “desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa”.

 

Essas comunicações tinham a ver com os laços da natureza e, embora a linguagem e o significado não sejam tão profundos quanto algumas das outras coisas que nosso Senhor disse na cruz, ainda assim é uma das mais comoventes. Mais uma vez, somos compelidos a nos maravilhar com Aquele que pôde tratar com uma questão que exigia um equilíbrio perfeito entre pensamento e ação, e que pôde agir nesse equilíbrio perfeito tanto para a glória de Deus quanto para a bênção do homem.

 

Os laços da natureza 

Várias vezes, na Palavra de Deus, somos lembrados de nossas responsabilidades para com aqueles a quem estamos ligados por laços da natureza. No início da história do homem, Adão foi responsável por não estar ao lado de sua esposa quando Satanás a tentou. Eva foi enganada; Adão não foi, e se ele estivesse lá (humanamente falando), poderia tê-la impedido de ceder às artimanhas de Satanás. Deus responsabilizou homens como Eli e Davi pela falta de disciplina e orientação adequadas para seus filhos, enquanto elogiou Abraão como alguém que haveria de “ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele” (Gn 18:19).

 

Mais tarde, no Novo Testamento, abundam exortações sobre a necessidade de relações domésticas corretas entre maridos e esposas, e entre pais e filhos. Os ordenamentos são especialmente fortes em relação àqueles que têm pais idosos. Paulo pôde dizer a Timóteo: “se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel” (1 Tm 5:8). Uma ordem semelhante é dada anteriormente no capítulo sobre filhos e netos serem responsáveis por “recompensar seus pais” (v. 4). Estar “sem afeto natural” (2 Tm 3:3) é um dos sinais dos últimos dias.

 

No entanto, como já dissemos, há uma aparente contradição em tudo isso na Palavra de Deus, e um equilíbrio que nosso Senhor manteve em Sua vida ao Se elevar acima de Seus relacionamentos naturais durante Seu ministério, e, ainda assim, reconhecendo esse relacionamento num momento em que (falamos com reverência) Ele poderia facilmente ter alegado Suas circunstâncias para deixar de lado o relacionamento.

 

“Os negócios de Meu Pai” 

No início de Sua vida, nosso Senhor teve que dizer a Seus pais: “Não sabeis que Me convém tratar dos negócios de Meu Pai?” (Lc 2:49). Mais tarde, no casamento em Caná da Galileia, Sua mãe disse a nosso Senhor que eles não tinham vinho, sem dúvida esperando que Ele usasse Seu poder divino para fornecê-lo. Ele fez isso depois, mas não antes de ter respondido a ela como “mulher”, e não como “mãe”. Ela não tinha nenhum direito especial ao poder d’Ele simplesmente por causa de seu relacionamento natural com Ele. Em outra ocasião, quando multidões cercavam nosso Senhor, Sua mãe e Seus irmãos evidentemente esperavam ser conduzidos imediatamente por entre a multidão para vê-Lo. Mas Sua única resposta foi: “Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a executam” (Lc 8:21).

 

O apóstolo Paulo expressou essa mesma aparente contradição em seu ministério aos coríntios, dizendo-lhes que, “Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” (1 Co 7:29-31). Mas isso dá ao crente licença para negligenciar um relacionamento natural? De maneira nenhuma. Alguém já expressou isso bem:

 

“A Palavra é necessária quanto a renegar tais relacionamentos. Pode surgir um conflito entre Cristo e esses laços, e então tudo deve ceder lugar a Cristo. Como ressuscitados com Cristo, pertencemos a outro mundo, e não a este; mas, como pertencentes a este mundo presente, o reconhecimento do que Deus estabeleceu faz parte da nossa vida Cristã. Deve uma esposa rejeitar seu marido, ou os filhos rejeitar seus pais? No fundo, há muita indulgência própria em tudo isso. Quando se rejeita aquilo que Deus instituiu, é o próprio “eu”, e não Cristo, que ocupa o primeiro lugar no coração das pessoas... Nunca perceberemos forte o suficiente o fato de que pertencemos a outro mundo, não a este; mas essa não é a questão, e sim o caminho daqueles que de fato pertencem a ele (isto é, ao outro mundo) de acordo com a Palavra.

 

Estava Cristo errado quando, após recusar toda conexão com Sua mãe enquanto estava engajado em Seu serviço – o qual, é claro e em todo o sentido estava fora de tais relacionamentos – quando Sua hora havia chegado, de forma positiva e demonstrativa, Ele deu testemunho do relacionamento agindo de forma tão comovente nele? É notável que isso tenha sido apresentado.

 

Há um desprendimento do poder de nossas circunstâncias e, às vezes, das próprias circunstâncias, seja por sermos chamados para fora delas pelo Senhor, seja por sermos expulsos delas pelas próprias circunstâncias. A ausência de afeições naturais é um sinal maligno dos últimos dias, mas devemos viver nos laços naturais como aqueles que não os possuem, a fim de agir neles a partir de Cristo. Aquilo que Deus estabeleceu quanto aos relacionamentos naturais, Ele sempre reconhece, e o faz com muito cuidado; mas entrou um poder que, visto que o pecado arruinou tudo, prevalece ou tornam o crente independente deles.” (J. N. Darby)

 

Retomando o tema do nosso artigo, é belo, mais uma vez, como nosso bendito Senhor e Mestre não reconheceu (isto é, não se deixou governar por) Sua mãe ou Seus irmãos durante Seu ministério terrenal. Fazer isso teria elevado Seus relacionamentos naturais acima da missão dada a Ele por Seu Pai, e concedido a Seus irmãos (que não creram n’Ele durante Seu ministério terrenal) um lugar que eles não mereciam, pelo menos não naquele momento.

 

Contudo, quando Ele estava suportando a agonia da crucificação e antecipando as horas de trevas, Sua graça e amor se elevaram acima de tudo. Como o Filho primogênito da família, Ele assumiu total responsabilidade pelo bem-estar de Sua mãe e a confiou aos cuidados de João. Só podemos nos curvar em humilde adoração e reverência à perfeição de nosso Senhor Jesus Cristo!

 

W. J. Prost

A Confissão de um Ladrão

 

Fé versus racionalismo (Lucas 23:33-43) 

Não há exemplo mais marcante da graça de Cristo em toda a Escritura do que o do ladrão condenado à morte que estava pendurado ao lado de nosso Senhor numa cruz e que pediu Seu favor. Em todas as páginas da Palavra de Deus não se encontra nada mais comovente, pois ele era uma praga na Terra, e certamente não era adequado ao céu. Suas faltas o pregaram na cruz. Ele estava saindo do mundo em desonra e vergonha, um pecador em seus pecados, para encontrar a Deus. Ele estava a menos de seis horas de sua morte, e Cristo o encontrou e o salvou.

 

Não há cena na história do mundo como a que está diante de nós em Lucas 23. Há uma página na Palavra de Deus, e uma página na história do mundo do homem, que se destaca sozinha, é única, porque ali temos a morte do único Homem absolutamente sem pecado, imaculado e santo, ao lado de dois homens que eram pecadores. Um deles se torna o companheiro daquele Homem sem pecado por toda a eternidade. O outro teve sua chance, mas a perdeu. Entre esses três vistos aqui, cada um pregado em uma cruz, há uma diferença imensa. De Um deles posso dizer o seguinte; não havia pecado n’Ele, embora houvesse pecado sobre Ele. Então, chego ao homem que não tinha pecado sobre ele, embora houvesse pecado nele. E havia o terceiro desses homens, que tinha pecado sobre ele, e pecado nele. Então ele morreu. Não seja o companheiro eterno desse terceiro homem, eu imploro a você.

 

Nenhum pecado n’Ele 

Você pode perguntar: “O que você quer dizer?” Um desses três não tinha pecado n’Ele, e ainda assim tinha pecado sobre Ele, quando foi pregado naquela cruz! Sim! Esse era Jesus. Ele era perfeito, pois era o Homem santo e imaculado. O encanto dessa cena é este: o ladrão confessa não apenas sua própria culpa e seu próprio pecado, mas faz uma confissão pública de sua fé em relação a Cristo. “Mas Este nenhum mal fez” (Lc 23:41), foi sua verdadeira e bendita afirmação. Esse homem reverteu o julgamento de todos; ele se destacou naquele dia em seu testemunho e em sua declaração sobre Jesus. Se você olhar atentamente para o que aconteceu antes, verá que todos estavam contra Cristo – Judas, Pilatos, Herodes, sacerdotes, escribas, povo, todos; não havia ninguém por Ele. Nenhuma alma sequer O defendeu em meio a toda aquela multidão naquele dia. Que cena! Traído por um falso amigo, rejeitado pelos verdadeiros amigos e abandonado por todos os Seus seguidores, Ele foi acusado pelos sumos sacerdotes, que instigaram o povo a exigir Sua morte. O governador estava contra Ele; o rei contra Ele; o mundo contra Ele; todos contra Ele!

 

Mas, por fim, chega um momento em que, ao Seu lado, um homem quase caindo nas garras da morte diz ousadamente: Ele é o Homem sem pecado, o Homem imaculado, eu me apegarei a Ele. Não digo que invejo o ladrão condenado à morte. Eu o admiro; e, mais tarde, em glória, direi a ele: “Obrigado, meu irmão, você defendeu o caráter do meu Salvador no dia em que todos estavam contra Ele.”

 

Ele perdeu sua chance 

Foi uma cena maravilhosa; olhemos para ela um pouco. Você sabe que o Senhor havia sido levado perante Pilatos, que teve sua chance de receber Jesus naquele dia, mas a perdeu, assim como muitos homens hoje a perdem. O povo se aproximou, murmurando contra o bendito Senhor, e quando o fizeram, Pilatos disse três vezes: “Não acho n’Ele culpa alguma de morte. Castigá-Lo-ei pois, e soltá-Lo-ei”. Mas o povo não O deixou ir. Instigados pelos principais sacerdotes e anciãos religiosos, eles clamavam: “Crucifica-O, Crucifica-O”. Não duvido que Pilatos estivesse ansioso para deixar o Senhor ir; ainda mais porque, estando assentado no tribunal, recebeu um aviso de sua esposa, que disse: “Não entres na questão desse Justo” (Mt 27:19). Mas ele não deu ouvidos a essa mensagem; ele se deixou dominar pelo clamor do povo. Ele estava prestes a deixar o Senhor ir, quando aqueles que conheciam seu ponto fraco gritaram: “Se soltas Este, não és amigo de César”. César era o imperador romano. E quem era Pilatos? Seu governador (ARC); e Pilatos dependia de César; era sustentado pelo mundo. E eu gostaria de dizer a vocês que, na mesma medida em que somos apoiados pelo mundo, também temos medo dele. “Se soltas este, não és amigo de César”, foi o que fez pender a balança para Pilatos. Os amigos de César devem ficar do lado de César, enquanto os amigos de Jesus devem ficar do lado de Jesus. Naquele dia, todos ficaram do lado de César, e ninguém ficou do lado de Jesus. Talvez você pense: “Se eu estivesse lá, teria ficado do lado de Jesus”. Você tem certeza de que tem feito isso agora, hoje?

 

O julgamento errado 

Lemos que todos estavam contra Jesus e, depois de Pilatos O ter condenado, Ele foi levado para fora daquela sala de julgamento. Eu não chamaria de sala de julgamento, mas de sala do julgamento errado, porque a justiça e o juízo, a misericórdia e a verdade, se separaram ali. Eles se separaram, e Ele, que era a Verdade, foi levado para morrer, sendo Simão, o cireneu, quem levava Sua cruz. E não duvido que fosse a cruz que havia sido preparada para Barrabás, outro ladrão. O homem que tinha sido condenado à morte; a sua cruz estava pronta, e quando os carcereiros desceram para a cela onde ele estava preso, não tenho dúvida de que Barrabás pensou que ele estava indo para a execução. Mas quando ele chegou à sala do julgamento, encontrou a multidão enfurecida ao redor do Homem sobre Quem tanto ouvira falar, e então ouviu a pergunta: “Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?” Com o ladrão e o Salvador lado a lado, não tenho a menor dúvida do que o ladrão pensava. A pergunta era se eles queriam Jesus ou Barrabás, e não tenho dúvidas de que Barrabás pensou: “Ora, é claro que não haverá dúvidas; eles escolherão Jesus, não um pecador como eu; não haverá chance para um homicida como eu. Eles não vão me deixar ir”. Acho que aquele homem ficou perplexo quando ouviu o grito: “Fora daqui com Este, e solta-nos Barrabás” (Lc 23:18).

 

Cristo foi então conduzido para fora da sala, a cruz colocada sobre os ombros do Salvador, e Ele saiu para morrer. Graças a Deus, Ele morreu; e Ele morreu por mim, eu sei, e por você também. Não acho que Barrabás soubesse o que estava envolvido naquela morte. Ao sair, várias mulheres choram e lamentam por Ele; mas Ele Se volta para elas e diz: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos. Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram!” (Lc 23:28-29). Ou seja, há um dia solene de retribuição chegando; não suponham que Deus tenha esquecido o fato de que Seu Filho foi morto. Você acha que Deus Se esqueceu de que Seu Filho estava presente nessa cena e que o mundo O rejeitou? Não; embora, em Sua paciência, Ele tenha colocado Seu Filho à Sua direita e dito: “Assenta-Te à Minha mão direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés” (Sl 110:1), Ele voltará. “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no Teu reino”, foi o que disse o ladrão; e Ele voltará. E assim o Senhor diz: “Eis que hão de vir dias em que... eles começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos” (vs. 29-30). Dificilmente se acreditaria que os homens apelariam à natureza para os esconderem de Deus; mas será assim, e que revelação é esta sobre o homem!

 

Quatro orações 

São quatro orações mencionadas neste capítulo. A oração do ódio: “Crucifica-O, crucifica-O” (Lc 23:21); a oração do medo: (aos montes) “Caí sobre nós” (v. 30); a oração do amor: “Pai, perdoa-lhes” (v. 34); e a oração da fé: “Senhor, lembra-Te de mim” (v. 42). A oração do ódio foi atendida. Em breve virá a oração do medo: “Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos” (veja Apocalipse 6:15-17). Qualquer coisa para manter os homens fora da vista de Deus; qualquer coisa debaixo do Sol para mantê-los fora do alcance de Deus e da ira do Cordeiro. Eles colocarão qualquer coisa entre eles e Deus; mas tudo em vão, pois, como diz o Senhor aqui, “se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?” (v. 31). O que você entende por isso? Quem era o Madeiro verde? Ora, Cristo, é claro. Seiva, vida, vigor e frutos, tudo era visto n’Ele; e Deus, olhando de cima, viu aquela única Árvore verde e frutífera, e enquanto olhava para todos os outros lugares, viu o quê? Árvores secas! Há muitas assim neste mundo hoje, deixe-me dizer. Uma árvore seca não tem vida. Cristo era a Árvore verde, sempre apresentando aquele frescor e frutos que agradam a Deus.

 

E o que eu posso tirar dessa figura para mim? Que por natureza eu sou uma árvore seca, e você também; não há vida em nós. Os pecadores são as árvores secas, e uma árvore seca é um bom combustível. “O que você quer dizer?” você pergunta. Uma árvore seca é um bom combustível, e é realmente isso que um homem em seus pecados se torna se for para o lago de fogo. “Que se fará ao seco?” é uma pergunta realmente séria. O Salvador diz: “Se Eu, a Árvore verde, estou passando por tudo isso, qual será o destino do pecador?” Se o Santo passou pelo julgamento de Deus porque Ele estava carregando os pecados dos outros, o que dizer do pecador em seus pecados? Seja quem você for, seja qual for a sua profissão de fé, ou a falta dela, você terá que encontrar-se com o Senhor em breve; e há aqui uma solene pergunta feita pelo Senhor: “Se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?” Não houve resposta naquele dia; ela ainda virá.

 

W. T. P. Wolston

Um Ladrão Condenado à Morte

 

Durante as primeiras três horas em que Ele esteve na cruz, nosso Senhor ouviu o ladrão arrependido. Se tivéssemos apenas a Sua comunicação ao ladrão, separada de tudo o mais, a graça que Ele mostrou ao ladrão certamente teria alcançado nosso coração; mas lendo-a em estreita conexão com a Sua oração ao Seu Pai, o seu valor é aumentado. Ele havia avaliado corretamente a medida do pecado daqueles que então se levantaram contra Ele, entre os quais deve ser incluído o ladrão, agora arrependido, mas até então um difamador, e por isso, assim como por seus atos ilegais, ele precisava do perdão divino. Um troféu da graça, quando os principais sacerdotes e o povo ainda zombavam do Senhor, e o outro ladrão O insultava, ele se destacou diante de todos, nas próprias agonias da morte, como um discípulo d’Aquele crucificado e rejeitado ao seu lado. Ele repreendeu seu companheiro, reconheceu a justiça da sentença em relação a eles, mas justificou plenamente o Senhor. “Recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas Este nenhum mal fez”. E voltando-se para Ele, reconheceu-O como o Único que tinha um reino na Terra, do qual a morte jamais poderia privá-Lo. “Lembra-Te de mim, Senhor, quando vieres em Teu reino” (Lc 23:42 – JND).

 

Declarações na cruz 

Que palavras foram ditas naquele dia na cruz? O Senhor intercedeu por Seus perseguidores, e o ladrão condenado à morte reconheceu seu pecado, mas desejava ser lembrado pelo Rei em Seu reino. Se fosse inocente, tais palavras seriam naturais, mas, sendo culpado, devem ter soado estranhas a qualquer um que as ouvisse, pois, na presença de seu futuro Juiz, ele não teve medo de confessar sua culpa, nem desejava que ela ficasse no merecido esquecimento. Quão completamente à vontade ele estava com o Senhor, de Quem naturalmente tinha todos os motivos para temer. Ele era um pecador, e reconhecia isso. Onde, então, estava a oferta pelo pecado que, segundo a lei, ele deveria ter oferecido para ter seus pecados perdoados? Não temos qualquer indício de que ele tenha pensado nisso, e, dadas as circunstâncias, um sacrifício era impossível; pois ele não poderia ter levado a oferta ao altar, nem colocado a mão sobre ela. E ninguém poderia realizar esse serviço em seu lugar. A própria mão do pecador deveria ser colocada sobre a cabeça da vítima. Havia, porém, algo no Senhor que dava ao ladrão uma confiança ilimitada em Sua presença. Ele não pediu que algum sacrifício fosse oferecido em seu favor; sua oração nos diz que ele não sentiu necessidade disso, e a resposta do Senhor nos mostra que não havia essa necessidade: “Lembra-te de mim, Senhor, quando vieres em Teu reino”, não para ele, mas nele – isto é, na pompa e no poder reais que pertencem Àquele que então era e ainda é o Rei. O ladrão aguardava um dia futuro, e, com certeza, essa oração será atendida. Mas o Senhor, em resposta, falou-lhe sobre o dia em que estavam: “Em verdade te digo que hoje estarás Comigo no paraíso”.

 

Nada havia sido feito pelo homem condenado à morte para se livrar de seus pecados. Na cruz, ele havia acrescentado aos pecados de sua vida passada, por haver insultado o Filho amado de Deus. Mas antes de dar seu último suspiro, e de fato imediatamente após pronunciar aquele pedido, foi-lhe feita a comunicação para dissipar para sempre todas as dúvidas sobre o futuro, pois o verdadeiro sacrifício estava sendo oferecido ao seu lado, e o efeito disso sobre ele o Senhor revelou ao coração do ladrão. “Hoje estarás Comigo”. O ladrão condenado estava na companhia do Salvador, e eles jamais se separariam. Mas observe a linguagem. Havia uma diferença entre eles, e Ele queria que o homem soubesse disso. Ele não disse: “Estaremos juntos”, mas “Tu estarás Comigo”. Com Ele estava no paraíso, na porção da alma convertida. Aqui encontramos o exemplo mais antigo possível do fruto da obra expiatória aplicada a um indivíduo, e o exemplo é excelente. Da culpa do homem não havia dúvida, de sua bênção eterna não pode haver duas opiniões. Sua confissão nos fala da culpa, as palavras do Senhor nos asseguram a bênção.

 

Em Gênesis 4, temos o ensinamento mais antigo possível sobre a posição diante de Deus de alguém nascido em pecado; em Lucas, temos a prova mais antiga possível do valor do sacrifício para um pecador, do qual o cordeiro de Abel era a figura. Tão perfeita foi a obra, tão suficiente o sacrifício, que para sempre este ladrão convertido conhecerá a companhia do Justo que então estará ao seu lado. Que testemunho público da suficiência da obra expiatória é essa história do Senhor para tornar um pecador digno de ser um participante “da herança dos santos na luz”! Não apenas salvo, não simplesmente uma esperança do céu, mas com Cristo, o Santo de Deus.

 

“No paraíso” 

Havia somente uma Terra, e Adão havia andado nela. No Velho Testamento, porém, fala-se dela apenas como algo ligado ao que é passado; no Novo Testamento, lemos sobre ela como algo presente e futuro. “Comigo no paraíso”, foram as palavras do Senhor ao ladrão naquele dia; “dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus” (Ap 2:7) é a mesma promessa graciosa do Salvador para aqueles que vencerem agora. Não sendo encontrado na Terra, há um paraíso em outro lugar, e os redimidos o desfrutarão para sempre, comendo daquela árvore em seu meio, a qual teria trazido miséria eterna a Adão e seus descendentes se ele tivesse participado dela após a queda. O ladrão condenado à morte entraria nele naquele dia. Perdido para si e seus descendentes pelo primeiro Adão, o paraíso foi conquistado e está para sempre assegurado aos santos celestiais pela obediência até a morte do Último Adão.

 

Estamos errados em dizer, ‘para sempre assegurado’? É verdade que o Senhor não disse isso ao ladrão. Ele falou sobre o fim daquele dia, mas não falou sobre o dia seguinte. “Hoje”, foi Sua palavra. Ele lhe disse quando essa condição bendita começaria, pois ela teve um começo, mas Ele não falou do tempo em que ela acabaria. Ele não falou sobre o seu fim, pois nunca terminará; para sempre esse crente estará com Seu Senhor, uma testemunha das abundantes riquezas da Sua graça.

 

F. G. Patterson

Olhando para Cristo na Prática

 

Como consequência prática de olhar para Cristo, sou transformado à Sua semelhança – “Mas todos nós, contemplando a glória do Senhor com rosto descoberto, somos transformados conforme a mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito” (2 Co 3:18 – JND). Será que meu coração ainda diz: “Ah, mas eu não vejo, e não posso ver, essa semelhança em mim mesmo”? Não, mas você vê Cristo, e isso não é melhor? Não é o meu olhar para mim mesmo, mas o meu olhar para Cristo que é o meio designado por Deus para o meu crescimento à semelhança de Cristo. Se eu quisesse copiar a obra de algum grande artista, faria isso fixando os olhos na minha cópia e me lamentando pela tentativa fracassada que eu teria sucesso? Não, mas sim olhando para o meu modelo, fixando o olhar nele, percorrendo os vários pontos e absorvendo a essência da obra. Perceba o conforto disso! Tendo o Espírito Santo revelado Cristo à minha alma em glória como a garantia da minha aceitação, posso olhar sem medo e, portanto, firmemente, contemplar essa glória e regozijar-me com a medida do seu resplendor. Estêvão (Atos 7), cheio do Espírito Santo, pôde olhar firmemente para o céu (sem dúvida, no caso dele, com um poder extraordinário) e ver a glória de Deus. Ele viu Jesus em pé à mão direita de Deus, e o Seu rosto resplandecia como o de um anjo. E veja a morte dele. Assim como o seu Mestre, ele ora por aqueles próprios que o apedrejavam. Estêvão morreu dizendo: “Senhor, não lhes imputes este pecado”; Cristo morreu dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Em Estêvão havia a expressão do amor de Cristo pelos seus inimigos. Pelo Espírito Santo ele foi transformado, e isso de uma forma muito bendita também, à mesma imagem.

 

J. N. Darby

“Senhor, Lembra-Te de Mim”

 

O ladrão condenado à morte demonstrou “grande moralidade”. Ele reconheceu Cristo quando um mundo hostil O havia rejeitado e quando os discípulos aterrorizados O tinham abandonado. “Senhor, lembra-Te de mim”, disse ele, “quando vieres no teu reino” (ARA). Doces foram essas palavras, ao tocarem o coração do Salvador condenado à morte; ainda mais doce foi a resposta que tocou o coração do ladrão condenado à morte: “hoje estarás Comigo no paraíso”. Isso foi muito além das expectativas do ladrão. O gracioso Salvador estava prestes a fazer “tudo muito mais abundantemente além daquilo” que ‘o ladrão’ pudesse pedir ou pensar. O ladrão pediu para ser lembrado na época do reino. O Salvador disse: “Hoje estarás comigo”. E, por isso, quando os soldados romanos, no cumprimento de suas funções brutais, foram quebrar as pernas daquele santo condenado à morte, ele pôde dizer: “Ah! Esses homens estão vindo para me mandar direto para o céu!”

 

Sim, o ladrão foi para o céu para estar com Aquele que havia estado ao seu lado na cruz maldita e que havia proferido palavras de poder consolador ao seu coração aflito. Não havia nada de sombrio, vago ou incerto nisso. O ladrão nunca tinha conhecido um amigo tal como Jesus. Ninguém jamais o amou como Jesus, nem confortou seu coração como Jesus. A graça de Jesus derramou um manancial de luz celestial ao redor daquela terrível cruz na qual o ladrão foi pregado por seus crimes, e agora ele iria para o céu para estar para sempre com Aquele que é gracioso. Essa era uma bendita realidade. O céu não seria um lugar estranho para ele, visto que Jesus estava lá.

 

C. H. Mackintosh

No Momento Exato

 

A peculiaridade da conversão do ladrão na cruz é que se trata de um caso em que a graça estava operando em um homem para abrir seu coração a Cristo, no momento exato em que Cristo estava realizando em favor do homem aquela obra que abriu o caminho para Deus abençoar e para o homem vir receber a bênção.

 

J. G. Bellett

A Fé Vê como Deus Vê 

 

É perfeitamente claro, pela oração do malfeitor condenado à morte, que ele cria que o Senhor voltaria, e viria em poder e glória. E isso foi ainda mais notável, porque não havia sinais exteriores de poder ou glória em Jesus crucificado. Mas a fé vê como Deus vê. Seus próprios discípulos O abandonaram e O negaram, mas o pobre ladrão O reconheceu. Ele cria que Seu reino, que havia sido alvo de desprezo e zombaria, voltaria, embora naquele exato momento o Rei estivesse sendo rejeitado e morrendo entre dois malfeitores. Tudo isso é uma fé maravilhosa e admirável! Mas ele foi ensinado por Deus, e isso explica tudo. Em poucos instantes, ele percorre uma extensão da verdade muito além do que os apóstolos conheciam. Ele crê na ressurreição e que Jesus ressuscitará e voltará em plena glória real manifesta.

 

Things New and Old, Vol. 7

Aquele a Quem Jesus Amava

 

A segunda ocasião em que João é descrito como o discípulo a quem Jesus amava nos leva à cruz. A mãe de Jesus está presente com outras mulheres devotas, e um discípulo está lá; o discípulo a quem Jesus amava. Onde está agora o outro discípulo que descansava em seu amor por Cristo? Infelizmente, em algum lugar solitário, com o coração partido, chorando lágrimas de amarga vergonha. Onde está o discípulo que descansa no amor de Cristo? Como no cenáculo, assim agora na cruz, tão perto de Cristo quanto possível. E qual é o resultado? Ele se torna um vaso apto e útil para o uso do Mestre. A mãe de Jesus é confiada aos seus cuidados. Descansar no amor do Senhor torna alguém apto para o serviço.

 

Hamilton Smith

Aos Pés da Cruz


Aos pés da cruz de Jesus

Eu de bom grado tomaria meu lugar;

À sombra de uma rocha poderosa

Dentro de uma terra cansada;

Um lar dentro do deserto,

Um descanso ao longo do caminho,

Das queimaduras sob o calor do meio‑dia

E dos fardos do dia.

 

Sobre aquela cruz de Jesus

Meus olhos às vezes conseguem ver

A própria forma agonizante

d’Aquele que ali sofreu por mim;

E do meu coração ferido, com lágrimas,

Duas maravilhas eu confesso:

As maravilhas do amor redentor,

E a minha indignidade.

 

Ó abrigo seguro e feliz!

Ó refúgio provado e doce!

Ó lugar sagrado onde o amor do céu

E a justiça do céu se encontram!

Assim como ao patriarca exilado

Aquele sonho maravilhoso foi dado

Assim me parece a cruz do meu Salvador;

Uma escada que leva ao céu

 

Eu tomo, ó cruz, a tua sombra

Como meu lugar permanente;

Não peço outro sol senão

O resplendor do Seu rosto;

Contente em deixar o mundo passar,

Em não conhecer ganho nem perda;

Meu “eu” pecador, minha única vergonha,

Minha glória, toda ela, a cruz.


E. Clephane 1868

Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem

Lucas 23:34










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