As Sete Declarações do Senhor na Cruz - Parte 2 (Fevereiro de 2026)
- Revista O Cristão

- 6 de fev.
- 33 min de leitura

Baixe esta revista digital nos formatos:
Revista mensal publicada pela Bible Truth Publishers
ÍNDICE
Bible Treasury, Vol. 18
E. L. Ferguson
A. H. Rule (adaptado)
G. V. Wigram
G. V. Wigram
E. L. Ferguson
J. N. Darby
W. Kelly
F. B. Hole
Things New and Old, Vol. 22 (adaptado)
Gospel Light, Vol. 1
Edwin B. Hartt
As Sete Declarações do Senhor na Cruz - Parte 2

Em Mateus e Marcos, nosso Senhor é visto na cruz sofrendo pelo pecado e por nossos pecados e proferindo aquele clamor da mais profunda angústia ao sentir pela primeira vez, e somente essa vez, que a face de Deus lhe estava oculta: “Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” Aqui Ele é visto como a verdadeira oferta pelo pecado, mas Lucas O apresenta posteriormente dizendo: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito”. Este é, na verdade, o holocausto e a expressão de aceitação consciente; não Sua alma percebendo Seu santo horror e infinito sofrimento ao suportar o juízo divino, mas a manifestação de Sua confiança e o desfrute pleno do Seu relacionamento. João nos mostra a Sua serena e divina satisfação nas Suas últimas palavras: “Está consumado”. E Ele entregou o Seu espírito, pois Ele tinha o direito, somente Ele, de dar a Sua vida e retomá-la.
Bible Treasury, Vol. 18
Três Altos Clamores
O clamor do abandono
“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” (Mt 27:46)
“E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” (Mc 15:34)
O clamor da vitória ou da conquista
“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo” (Mt 27:50-51).
“E Jesus, dando um grande brado, expirou. E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo” (Mc 15:37-38).
“Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede. Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissope, Lha chegaram à boca. E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19:28-30).
O clamor da entrega
“E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito. E, havendo dito isto, expirou” (Lc 23:46).
E. L. Ferguson
Os Sofrimentos Expiatórios de Cristo
Como foram aquelas horas de trevas na cruz? Havia algum anjo ministrando ou fortalecendo? Havia alguma voz da excelente glória expressando indizível deleite em Sua bendita Pessoa? Havia algum raio de luz daquela glória para aliviar a terrível escuridão? Não, Deus havia abandonado o Homem Cristo Jesus. Essa é uma hora única. Não há nada igual a ela nos anais da eternidade.
Mas por quê? A Palavra de Deus responde: “Aquele que não conheceu pecado, O fez pecado por nós”; “levando Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro”. Ele “por nossos pecados foi entregue”. “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades”. “O SENHOR fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos”. Esse, então, é o motivo. Cristo foi feito pecado por nós – uma oferta pelo pecado. “Nossos pecados”, “nossas iniquidades”, foram colocados sobre Ele, e Ele os carregou sobre o madeiro. Quando estávamos sob condenação, Ele Se fez “maldição por nós”, para nos redimir da condenação.
Mas Quem “O fez pecado por nós”? Quem O fez “maldição por nós”? Quem colocou sobre Ele as nossas iniquidades? Quem O feriu? Quem O moeu? Foi o homem ou foi Deus? É claro que a Escritura deve responder. Vejamos, então, se a Escritura fornece uma resposta para essas perguntas.
Quem poderia lidar com a questão do pecado?
Veremos que tudo está conectado com a questão do pecado. Eu poderia perguntar, então, em primeiro lugar: Quem poderia lidar com a questão do pecado? É claro que somente Deus poderia fazer isso. O homem não poderia nem o faria. Bendito seja Deus, Ele mesmo lidou com a questão na Pessoa de Cristo, quando O fez oferta pelo pecado na cruz.
Foi Jeová Quem colocou nossos pecados sobre Jesus. Ele O moeu, Ele O feriu.
“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR [Jeová] fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos” (Is 53:6).
“Ao SENHOR [Jeová] agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar; quando a Sua alma se puser por expiação do pecado” (v. 10).
“Ó espada, desperta-te contra o Meu Pastor, e contra o Homem que é o Meu Companheiro, diz o SENHOR [Jeová] dos Exércitos. Fere ao Pastor, e espalhar-se-ão as ovelhas” (Zc 13:7). Compare também Mateus 26:31 e Marcos 14:27. “Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis em Mim; porque está escrito: Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão”.
O ferir, o moer, o castigo, os açoites, os golpes, o abandono e, posso acrescentar, a ira e a indignação (Sl 102:10), vieram todos de Jeová – de Deus, que estava lidando com o pecado que havia sido colocado sobre Cristo na cruz.
Você diz: “Pense em um pai que se agradou em ferir seu único filho.” Mas, querido irmão, não devemos deixar de lado a Escritura por nossos sentimentos e raciocínios. É dessa forma que um infiel ou universalista argumenta contra a doutrina da punição eterna.
Mas não creio que essa expressão ilustre verdadeiramente Deus ferindo Cristo. Não diz: “O Pai Se agradou em ferir Seu Filho.” E Jesus não disse: “Meu Pai, Meu Pai, por que Me desamparaste?” Ele disse: “Deus Meu”. E não é notável que essa seja a única vez mencionada nos evangelhos em que Ele Se dirige ao Pai como “Deus”? Antes, era sempre “Pai”. Isso não é sem instrução. Quando você diz: “Pai”, há o pensamento e o sentimento de relacionamento. Quando Jesus proferiu o clamor na cruz, não foi isso. Na cruz, Ele tomou o lugar de uma vítima – um sacrifício pelo pecado – para atender às reivindicações de Deus. E em João 3:14, Jesus diz: “Assim importa que o Filho do Homem seja levantado”; ao passo que, quando se trata do amor de Deus pelo mundo, é dito que Ele “deu o Seu Filho unigênito” (v. 16). Nas três horas de trevas na cruz, Jesus foi abandonado por Deus, e isso por causa de pecados, não os pecados d’Ele, mas os nossos, que foram colocados sobre Ele para que, ao mesmo tempo, a majestade e a santidade de Deus ao lidar com o pecado, e o Seu grande amor pelo mundo, pudessem ser demonstrados em conformidade com o Seu caráter.
O deleite de Deus em Seu Filho
Creio que nem preciso dizer que acredito que Deus Se deleitou infinitamente com Seu Filho quando, como Homem, Ele foi pendurado na cruz, porque foi ali mais do que em qualquer outro lugar que o cheiro suave de Sua perfeita obediência foi manifestado. Mas a cruz era a terrível expressão do juízo de Deus contra o pecado, e essa foi a razão das súbitas “trevas” e de Ele abandonar Cristo. O pecado era tão horrível aos olhos de Deus que, mesmo quando foi colocado sacrificialmente sobre Cristo, Ele teve que retirar a luz de Sua face e ordenar que a espada despertasse. Assim como no dilúvio, nos dias de Noé, “se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas (comportas) do céu se abriram”, assim pode-se dizer também que na cruz havia ondas vindas de baixo e ondas vindas de cima, encontrando-se e rolando sobre a alma santa de nosso bendito Salvador. As torrentes dos ímpios estavam ali, e todas as ondas e as vagas de Deus, em juízo contra o pecado, também ali estavam.
Mas foi justamente ali que a perfeição de Jesus foi manifestada, bem como o valor moral de Seu sacrifício. Em Seu sacrifício, o cheiro suave do que Ele era em Sua própria perfeição pessoal subiu como uma nuvem de incenso para Deus. Vemos isso, em figura, em Levítico 16:12-13. Aqui, primeiro havia o sacrifício do novilho; depois a queima do incenso; e então a aspersão do sangue. Ora, a queima do incenso e o sangue aspergido expressam o que foi apresentado a Deus na morte de Jesus. O incenso expressa a glória pessoal e as perfeições morais demonstradas em Sua morte, e o sangue, o valor de Sua morte para a remoção do pecado. Ambos, na figura, estão ligados à morte.
O sangue e o incenso
Como já disse, a primeira coisa era o sacrifício do novilho. Era preciso haver morte. Sem ela não poderia haver expiação. Mas a queima do incenso e o sangue aspergido sobre o propiciatório falam do que foi apresentado a Deus naquela morte. Era preciso haver algo que correspondesse à Sua glória e que pudesse satisfazer as reivindicações de Sua gloriosa majestade. Na figura, o incenso era queimado no incensário do sumo sacerdote com fogo do altar diante do Senhor. Dessa queima, uma nuvem se elevava e cobria o propiciatório. Era uma nuvem de glória que subia e se encontrava com a nuvem de glória entre os querubins – glória respondendo à glória. E então o sangue era aspergido sobre e perante o propiciatório pelo sumo sacerdote sob a cobertura dessa nuvem de glória que se levantava do fogo.
Acaso essa queima do incenso, então, não é figura do cheiro suave e da glória pessoal de Jesus subindo a Deus em conexão com Sua morte na cruz? O fogo santo – o fogo do juízo de Deus – caiu sobre Ele ali. O efeito da prova desse fogo foi a manifestação da glória intrínseca e do valor moral da Pessoa de Jesus – o irromper, por assim dizer, de uma nuvem de incenso de glória, correspondendo à glória e majestade d’Aquele que ali estava lidando com o pecado de acordo com a necessidade de Sua própria natureza e santidade.
A. H. Rule (adaptado)
Abandonado por Deus
Nunca encontramos na Escritura o pensamento de a ira do Pai estar sobre o Filho do Seu amor. Para mim, a grande força do Salmo 22 é esta: que o Filho do Homem não abandonou nem Se esqueceu de defender a glória de Deus (Elohim), justamente quando Deus O abandonou, por Ele ter tomado sobre Si o nosso juízo – tendo sido feito pecado por nós. A cena não foi, em nenhum sentido, de gozo para o Senhor Jesus, porém, o não abandonar a Deus, quando Deus, por causa do nosso pecado, teve que abandoná-Lo, provou que Ele era Deus e que as fontes eternas estavam n’Ele mesmo. Ele sabia Quem Ele era, e sabia que ninguém além d’Ele, como Homem, poderia passar pelo que Ele havia Se comprometido a passar. Ele ainda era “o Unigênito, que está no seio do Pai”. Portanto, não se podia dizer que “o rosto do Pai, como Pai, estava escondido de Seu próprio Filho”.
G. V. Wigram
Cristo na Cruz
Tudo no início do Salmo 22 é declínio, e no final tudo é exaltação. Ele está repleto de sofrimento e gozo, mas principalmente do primeiro. A Pessoa que está diante de nós no Salmo é distintamente o Senhor Jesus. Há uma diferença entre este salmo e o que temos em Isaías 53 e nos evangelhos. Em Isaías, temos o bendito Senhor apresentado diante de nós como um Cordeiro, mas isso é abordado com o propósito especial de mostrar os diferentes sentimentos das pessoas que tiveram contato com Ele. Alguns se apegavam a Ele, outros se afastavam d’Ele. Nos evangelhos, temos o fato histórico de Seus sofrimentos, e em cada um há algo peculiar relacionado à narrativa. Em Mateus, o Senhor é associado a Israel como a descendência de Abraão, e há a citação deste Salmo: “DEUS Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?”, quando Ele estava na cruz. Em Marcos, o Senhor Jesus é apresentado como o Servo, e as mesmas palavras são citadas. Lucas O apresenta como o Filho do Homem, e isso não é citado. Há um repouso peculiar em João, e ali temos o Senhor mais em Seu caráter divino. Encontrar a citação deste Salmo em Mateus e em Marcos, e não nos outros evangelhos, parece dar uma pista sobre o caráter dos sofrimentos de Cristo como Herdeiro da promessa e como Servo fiel na hora do sofrimento.
No Salmo, são os próprios sofrimentos que são mostrados; vemos ali os sentimentos íntimos, a profunda onda de aflição que se abateu sobre Sua alma. O título do Salmo tem um significado: “A corça da manhã”. As corças saem timidamente pela manhã – as precursoras da luz, mas desaparecem assim que o dia amanhece. Se em algum lugar do Velho Testamento a luz irrompe, é neste Salmo. Nos evangelhos, encontramos tudo o que foi feito para insultar nosso bendito Senhor, mas essa não foi a parte mais amarga de Seus sofrimentos. Tudo o que Ele sofreu da parte dos homens apenas deixaria intocada a questão do pecado no que se refere a Deus e à própria consciência. O pecado foi cometido diante do Deus infinito; quem quer que seja culpado de pecado é desagradável a Ele e exige Sua ira. Onde quer que haja pecado, deve haver juízo. Se examino a Escritura, descubro que o caráter de Deus é perfeita santidade. Se Aquele que é perfeitamente santo tem que tratar com o pecador, qual deve ser a consequência? Por menor que seja o âmbito a que eu reduza meu pecado, ele foi cometido contra um Deus infinito. Onde vemos o que é o pecado? No ímpio sumo sacerdote, que blasfemou contra o Filho de Deus? No monarca gentio, que sancionou a crucificação? Não; foi quando o juízo de Deus foi derramado sobre Ele pelo pecado do homem. Ele Se colocou como o Emissário do pecado, e é somente ali que obtemos a verdadeira medida do pecado.
Ele foi feito “pecado por nós”
Quando ali Ele foi feito “pecado por nós”, Ele não teve de Deus um único raio de luz para fortalecê-Lo. Ele representava o pecado diante de Deus, e o sustento que Ele sempre teve de Deus agora deixava de fluir. “DEUS Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” Essas palavras têm um significado bem diferente na boca de Cristo do que em qualquer outra pessoa. Você já não usou essa linguagem muitas vezes quando Deus estava realmente te atraindo por Seu próprio amor, mas você estava com medo de confiar n’Ele? Você não se envergonha de pensar nisso? Mas na experiência de Cristo foi muito diferente.
A palavra “Eloi” na citação expressa proximidade – “Deus Meu”. Não é hebraico, mas sim siríaco. Essa expressão, dirigida Àquele que sempre esteve tão perto, tem em si uma força profunda, e o único momento em que Ele poderia ser abandonado por Deus foi este, quando Ele estava tomando sobre Si os nossos pecados. Ele sempre esteve sob a plena luz do favor de Deus, pois Ele era santo. Cristo não poderia ter sido vítima se não fosse santo e separado dos pecadores. Nada mostra a perfeita pureza e santidade do Senhor como este Salmo. É verdade que houve uma profunda agonia na alma quando Ele disse: “DEUS Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste? Por que Te alongas do Meu auxílio e das palavras do Meu bramido?” Mas quase imediatamente depois, Ele justifica a Deus: “Porém Tu és santo”.
A fonte divina
Em que estado lastimável se encontrava o pobre Jó enquanto esperava por Deus! Mas esse é o contraste com Cristo aqui. É como se Ele tivesse dito: “Assumi este lugar de carregar pecados diante de Deus, e eu deveria saber qual é o preço”. Havia uma fonte dentro d’Ele que O capacitava a dizer: “Ainda que Me abandones, Eu não Te abandonarei”. Assim, a pureza essencial e a perfeição divina do que Ele era se destacavam em toda aquela profundidade de humilhação. Que contraste nós exibiríamos em tais circunstâncias! Se nada temos de Deus, nada temos. Embora haja em nós a fonte de água a jorrar para a vida eterna, dependemos da fonte divina para que ela jorre, e dependemos total e completamente de Deus. Não é assim com Cristo. Embora Ele tenha Se humilhado como Servo, Ele não estava limitado a isso (vs. 5-7).
Ele Se associa a Israel (v 6): “Eu sou verme”; isto é, “Eu sou uma oferta pelo pecado. Eu sou um verme e não um homem; indigno da menor atenção ou consideração. Deves afastar-Te de Mim. Tua santidade exige isso.”
É preciso ter alguma medida em relação ao pecado. Qual é a sua medida? Desde o seu surgimento no jardim do Éden até o seu ápice no homem do pecado (o anticristo), não há medida divina para o pecado senão na cruz. Se pensarmos no pecado em qualquer outro lugar que não seja aqui, obteremos uma medida humana de acordo com as circunstâncias.
Se um mero ser humano tivesse estado aqui como Cristo esteve, e sido abandonado por Deus, a fonte de água teria secado, e ele estaria pronto para invocar que as rochas o cobrissem; mas, em toda essa agonia, quando a medida completa do juízo foi derramada sobre Cristo, Sua perfeição permaneceu intocada, o que só tornou o resplendor mais visível.
O contraste pode ser ilustrado pela diferença entre um recém-nascido deixado ao relento durante toda a noite e um homem forte na mesma exposição. O que seria morte certa para um seria vencido pelo outro. Não havia comparação entre o primeiro Adão e Cristo. O primeiro Adão não era alguém para tratar com Deus. Como poderia? O que ele poderia resolver com Deus sobre o pecado? Ele não podia, mas Cristo podia; e Ele resolveu tudo, e agora não há mais medo de Deus dizer a um pobre pecador que crê: “Não; você precisa ir provar os sofrimentos que Ele suportou na cruz”. Foi o Cordeiro de Deus que sofreu ali, e foi para cumprir a ideia de misericórdia na mente divina que Ele veio: “Eis aqui venho para fazer, ó Deus, a Tua vontade”. Quando olhamos para essa força do primeiro versículo, que tipo de sanção ele impõe sobre o pecado em um discípulo? Você fala de um pequeno pecado? Veja o que Cristo sofreu por ele. Nada fará com que o discípulo, o servo, esteja tão ansioso para estar livre do pecado quanto ver qual foi o juízo aplicado a ele na cruz. Não existe pecado pequeno para o filho de Deus que tem essa medida. Tudo em vocês, em seus círculos familiares, tudo ao seu redor, deve ser levado a julgamento, a sentença de morte deve ser proferida sobre tudo isso: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (Jo 12:24).
Pare de fazer o mal, aprenda a fazer o bem
O mais importante nos dias de hoje é aprender este grande princípio: “Cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem” (Is 1:16-17). Não apenas os pecados em geral, mas o pecado foi julgado na cruz de Cristo, e se é para Deus demonstrar Sua santidade da maneira mais eficaz, é no perdão do pobre pecador por meio desse juízo que foi proferido sobre Cristo, e não na condenação final do pecador. Nosso coração pouco entende o que Ele suportou naquela hora. Não há espaço em nossa mente para mais do que uma certa quantidade de tristeza, mas aquilo que qualquer outro não teria sentido, Ele ajuntou e sentiu perfeitamente.
É uma questão importante para nós: até que ponto a morte, quanto a tudo aquilo que é nocivo, é afastada de nossa mente. Uma sepultura, um leito de doente, é algo terrível para você? Ou você acha que é melhor partir para estar com Cristo? Um teste notável sobre esse ponto foi vivenciado na França durante a Revolução (1789). Uma pobre mulher estava morrendo em uma parte da cidade que já havia sido bombardeada por canhões e seria demolida no dia seguinte. A questão era: quem iria até ela? Alguém disse: “Eu irei”. Foi colocado diante dele o que isso envolveria; provavelmente a perda da própria vida. Mas ele disse: “Eu morri há 1.800 anos”. Ele foi e foi preservado (2 Co 1:9).
G. V. Wigram
Tenho Sede
As últimas quatro das sete declarações que o Senhor Jesus faz na cruz parecem ocorrer em rápida sucessão. Aprendemos isso sobre Seu clamor de abandono e expressão de sede comparando os evangelhos de Mateus e Marcos com o relato de João. Mateus escreve que, quando alguns dos que ali estavam ouviram o clamor de abandono, disseram: “Este chama por Elias, e logo um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-Lhe de beber” (Mt 27:47-48).
O relato de Marcos é muito semelhante, mas nenhum dos dois registros se refere às palavras do Senhor: “Tenho sede”. Isso fica a cargo de João, que então confirma: “Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissopo, Lha chegaram à boca” (Jo 19:29). Assim, parece que o Senhor deve ter expressado Sua sede logo após Seu clamor de abandono, e isso nos mostra que as duas coisas estão intimamente ligadas. Uma diz respeito a Ele como o Homem que sofre nas mãos de Deus como oferta pela culpa e pelo pecado. A outra está em consonância com a apresentação que João faz d’Ele como o Filho de Deus, pois Ele diz isso sabendo que todas as coisas agora estavam consumadas, com o propósito de que a Escritura se cumprisse, e como holocausto.
Minha força se secou
É verdade que as palavras “Tenho sede” falam de uma sede física extrema. O espírito do Senhor Jesus nos Salmos antecipa isso: “A Minha força se secou como um caco, e a língua se Me pega ao paladar” (Sl 22:15). A sede é um dos terríveis sofrimentos físicos inerentes à crucificação, e a resposta do homem é oferecer um vaso “cheio de vinagre”. A experiência da sede do Senhor é, portanto, outro vislumbre comovente, no evangelho de João, dos sentimentos relacionados à Sua Humanidade. Mas o significado do que Ele diz sobre Sua sede é, antes de tudo, espiritual. É o anseio que o Espírito Santo leva o salmista a descrever, quando escreve: “A Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e Me apresentarei ante a face de Deus?” (Sl 42:2). Isso é intensamente pessoal para o Senhor Jesus (essa declaração é a única das sete que se refere somente a Ele). Está impregnada de um desejo que é exclusivamente por Deus.
Até então, as lágrimas são Seu pão dia e noite. Os ímpios dizem a Ele o dia todo: “Onde está o Teu Deus?” Ele derrama Sua alma dentro de Si. Ele é entregue pela multidão quando Seu desejo é conduzi-los à presença e à bênção de Deus. E, ó, como Sua alma é abatida! Mas, apesar de tudo, Sua confiança está em Deus, e Ele se lembra d’Ele desde a terra do Jordão, que significa “aquele que desce” e fala de morte, desde o Hermom, que sugere isolamento, até mesmo solidão, e desde Mizar, ou “pequenez”. Sem dúvida, o remanescente que fugir para esses locais geográficos no tempo da angústia de Jacó experimentará algo da mesma condição moral. No entanto, eles esperarão por seu Deus em segurança nas fendas das penhas e no oculto das ladeiras. Em contraste, o Senhor Jesus é exposto a todo o horror das três horas de trevas. A angústia está perto e não há quem ajude.
O bode expiatório
Ele é o bode expiatório que leva sobre Si todas as nossas iniquidades para uma terra à parte dos homens. Ele é verme, e não homem, e “todas as Tuas ondas e as Tuas vagas têm passado sobre Mim”. É o Seu desejo por Deus e a Sua dedicação à Sua vontade, expressos nas palavras “Tenho sede”, que revelam a Sua parte em tudo o que acontece aqui no seu belo aspecto de holocausto (Sl 42:1-7; Ct 2:14; Sl 22:6, 11; Lv 16:21-22; 1:7-9).
Mas a parte que os homens assumem é muito diferente. Perto do final do Salmo 42, há uma repetição das palavras de reprovação: “Onde está o Teu Deus?”. Isso reflete o que aconteceu na cruz. Nas primeiras três horas em que o Senhor Jesus estava pendurado ali, os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e anciãos, zombavam d’Ele, dizendo: “Confiou em Deus; livre-O agora, se O ama; porque disse: Sou Filho de Deus” (Mt 27:41-43).
O Seu clamor é a Deus
Eles dizem: “Este chama por Elias”. Eles não conseguem acreditar que haja qualquer ligação entre Ele e Deus. Ele é um crucificado e, portanto, um homem amaldiçoado. Na visão deles, Ele só pode estar clamando a Elias, o representante prometido por Deus, para que o liberte. Isso demonstra o quanto o desprezam, pois é inegável que Seu clamor é dirigido a Deus. Talvez eles se assustem com a intensidade do clamor. Na experiência deles com crucificações, ninguém que tenha permanecido pendurado em uma cruz por tanto tempo clamou com tanta força. Parece haver uma sensação de que isso é tão especial que pode, de fato, pressagiar a intervenção de Elias. Alguém (sem dúvida um que ouviu as palavras “Tenho sede”) vai buscar o vinagre, e os demais permitem que seja dado a Ele em vista dessa visitação. Assim, na melhor das hipóteses, trata-se de um presente fruto de curiosidade insensível, e na realidade equivale à zombaria e afronta em cima de afronta contra Ele. Seu espírito nos Salmos diz: “Por amor de Ti tenho suportado afrontas... as afrontas dos que Te afrontam caíram sobre Mim. Quando chorei, e castiguei com jejum a Minha alma, isto se Me tornou em afrontas... Bem tens conhecido a Minha afronta, e a Minha vergonha... Afrontas Me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo” (Sl 69:7, 9-10, 19-20).
O vinagre daquela época era um vinho azedo e ralo, mais propenso a irritar os dentes do que a matar a sede (Pv 10:26). Cerca de seis horas antes, quando Ele chegou ao Gólgota, os soldados “deram-Lhe a beber vinagre misturado com fel; mas Ele, provando-o, não quis beber” (Mt 27:34), sem dúvida porque o fel (ou mirra em Marcos) era uma espécie de droga primitiva, e Ele iria entrar em tudo o que Deus permitisse e Lhe impusesse. Posteriormente, “O escarneciam, chegando-se a Ele, e apresentando-Lhe vinagre. E dizendo: Se tu és o Rei dos Judeus, salva-Te a Ti mesmo” (Lc 23:36-37). Mas Ele não Se salva em nada. Ele está cumprindo a vontade d’Aquele que O enviou. Os homens não podem saciar a sede d’Ele, mas suas ações, introduzidas pelas palavras d’Ele, servem para cumprir o comovente comentário do Espírito d’Ele nos Salmos: “Deram-Me fel por mantimento, e na Minha sede Me deram a beber vinagre” (Sl 69:21).
Ele deu de graça água para beber
Em Sua vida, Ele Se deleitou em dar de graça aos homens e mulheres a oportunidade de beber de Sua graça, e ainda o faz hoje. “Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca terá sede, porque a água que Eu lhe der se fará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna” (Jo 4:14 – ARC). “Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7:37-38), e “E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22:17).
Que seja nosso desejo e propósito, como aqueles que receberam de Sua plenitude, retornar ao primeiro amor de Éfeso por Ele e nunca sermos como aquela mornidão de Laodiceia que Ele vomitará de Sua boca depois que a assembleia for arrebatada. Certamente deveria nos comover o fato de que, ao deixar esta vida, Sua última lembrança do comportamento dos homens para com Ele foi o gosto amargo da bebida de vinagre que Lhe deram quando Ele disse: “Tenho sede”. Temos apenas uma concepção muito limitada do que isso significou para a Sua santa e graciosa sensibilidade, mas podemos ter certeza de que Ele Se deleita em receber agora refrigério na forma de amor de corações transbordantes. Vamos então oferecer nossas libações de adoração e dedicação a Ele enquanto esperamos que Ele nos leve para estarmos com Ele na casa de Seu Pai, no céu.
E. L. Ferguson
A Humanidade de Cristo
Ninguém tira d’Ele a Sua vida; Ele a entrega, mas é no momento determinado por Deus. Ele é abandonado, de fato, como resultado da iniquidade do homem, porque veio para cumprir a vontade de Deus; Ele Se deixa ser crucificado e morto. Somente no momento em que Ele Se entrega, Seu espírito está em Suas mãos. Ele não opera nenhum milagre para impedir o efeito dos cruéis meios de morte que o homem empregou, a fim de proteger Sua Humanidade do efeito deles; Ele deixa que ela sofra o efeito. Sua Divindade não é empregada para Se proteger disso, para Se proteger da morte; mas é empregada para acrescentar a ela todo o Seu valor moral, toda a Sua perfeição à Sua obediência. Ele não opera nenhum milagre para não morrer, mas, ao morrer, opera um milagre. Ele age de acordo com os Seus direitos divinos ao morrer, mas não para Se guardar da morte; pois Ele entrega a Sua alma ao Seu Pai assim que tudo termina.
A diferença, então, em Sua Humanidade não é que ela não era realmente e plenamente a de Maria, mas que ela o era por um ato de poder divino, de modo a ser assim sem pecado; e, além disso, que, em vez de estar separado de Deus em Sua alma, como todo homem pecador, Deus estava n’Ele, que era de Deus. Ele podia dizer “Tenho sede”, “A Minha alma está perturbada”, “como cera, derreteu-se no meio das Minhas entranhas”; mas Ele também podia dizer “o Filho do Homem, que está no céu” e “antes que Abraão existisse, Eu Sou”. A inocência de Adão não era Deus manifestado em carne; não era, quanto às circunstâncias em que Sua Humanidade se encontrava, o homem sujeito a todas as consequências do pecado.
O homem caído – o Homem perfeito
Por outro lado, a humanidade do homem caído estava sob o poder do pecado, de uma vontade oposta a Deus, de concupiscências que estão em inimizade com Ele. Cristo veio para fazer a vontade de Deus: n'Ele não havia pecado. Era na Humanidade em Cristo onde Deus estava, e não uma humanidade separada de Deus em si mesma. Não era a humanidade nas circunstâncias em que Deus colocou o homem quando ele foi criado, as circunstâncias em que o pecado o colocou, e nessas circunstâncias sem pecado; não como o pecado tornou o homem em meio a elas, mas como o poder divino O tornou em todos os Seus caminhos em meio a essas circunstâncias, como o Espírito Santo Se manifestou na Humanidade. Não era o homem onde não havia mal, como Adão inocente, mas o Homem em meio ao mal; não era o homem mau em meio ao mal como Adão caído, mas o Homem perfeito, perfeito segundo Deus, em meio ao mal, Deus manifestado em carne; Humanidade real e propriamente dita, mas Sua alma sempre tendo os pensamentos que Deus produz no homem, e em comunhão absoluta com Deus, exceto quando Ele sofreu na cruz, onde Ele, quanto ao sofrimento de Sua alma, teve que ser abandonado por Deus; mais perfeito então, quanto à extensão da perfeição e ao grau de obediência, do que em qualquer outro lugar, porque Ele cumpriu a vontade de Deus diante de Sua ira, em vez de fazê-lo no gozo de Sua comunhão; e, portanto, Ele pediu que esse cálice fosse afastado, algo que Ele nunca fez em nenhum outro lugar. Ele não podia encontrar Seu alimento na ira de Deus.
Nosso precioso Salvador era tão realmente homem quanto eu, no que diz respeito à simples e abstrata ideia de humanidade, mas sem pecado, nascido milagrosamente pelo poder divino; e, além disso, Ele era Deus manifestado em carne.
J. N. Darby
Ele Glorificou a Deus em Sua Vida e em Sua Morte
O Senhor Jesus havia glorificado o Pai durante toda a Sua vida, mas agora era uma questão de glorificar a Deus em Sua morte, pois Deus é o Juiz do pecado. Não era uma questão com o Pai em si, mas com Deus enquanto Deus em relação ao pecado. Aquele que glorificou o Pai em uma vida de obediência glorificou a Deus na morte em que essa mesma obediência foi consumada, e não apenas isso: o mal foi lançado sobre Aquele em Quem tudo era bem, e eles se encontraram. Que encontro!
Sim, Deus estava ali, não apenas como Aquele que aprova o bem, mas o Juiz de todo o mal colocado sobre aquela cabeça bendita. Era Deus abandonando o Servo fiel e obediente; ainda assim, era o Seu Deus: isto jamais seria (ou poderia ser) abandonado, pois, ao contrário, Ele Se apega firmemente a isso mesmo naquele momento. “Deus Meu, Deus Meu”, mas Ele precisa acrescentar agora: “Por que Me desamparaste?”
Era o Filho do Pai, mas, como Filho do Homem, necessariamente Ele clamou: “Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” Então, e somente então, Deus abandonou Seu único Servo inabalável, o Homem Cristo Jesus.
No entanto, nos curvamos diante do mistério dos mistérios em Sua Pessoa – Deus manifestado em carne. Se Ele não tivesse sido Homem, de que teria nos valido? Se Ele não fosse Deus, tudo teria falhado em dar ao Seu sofrimento pelos pecados o valor infinito de Si mesmo. Isso é expiação. E a expiação tem duas partes em seu caráter e alcance. É expiação perante Deus; é também substituição pelos pecados.
W. Kelly
Pai, em Tuas Mãos
João não menciona as três horas de trevas, nem o abandono com o amargo clamor que este provocou, predito no primeiro versículo do Salmo 22. Essas coisas não ilustravam particularmente a Deidade de Jesus, sobre a qual o Espírito de Deus havia levado João a dar tanta ênfase. O que a ilustrou foi o clamor triunfante com que Sua vida terrenal se encerrou. O Salmo 22 termina com as palavras: “Ele o fez”, e o equivalente no Novo Testamento é: “Está consumado”. Ele veio ao mundo com o pleno conhecimento de tudo o que Lhe fora confiado pelo Pai: agora o deixava com o pleno conhecimento de que tudo havia sido cumprido; nada faltava. O profeta havia predito que Jeová poria Sua alma “por expiação do pecado” (Is 53:10), e isso se cumpriu. Como consequência, a fé agora pode se apropriar da linguagem de Isaías 53:5 e torná-la sua; assim como o remanescente arrependido de Israel a adotará em um dia vindouro.
Nisso também nosso Senhor foi único. Houve servos de Deus que, como Paulo, puderam falar com confiança de terem terminado sua carreira, mas nenhum ousaria afirmar que havia dado o toque final à obra que estava em suas mãos; em vez disso, passaram a obra para aqueles que os sucederiam. A obra d’Ele era exclusivamente d’Ele, Ele a levou à sua perfeita conclusão. Ele podia avaliar Sua própria obra e anunciá-la como concluída. Todos os demais devem humildemente submeter seu trabalho ao escrutínio e veredito divino no dia vindouro.
Pleno domínio do Seu Espírito
Tanto Mateus quanto Marcos nos dizem que, após clamar em alta voz, Jesus expirou. Parece que Lucas e João nos dão cada um uma parte dessa última declaração. Se assim for, deve ter sido: “Está consumado”; “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito”. A primeira parte ajuda a enfatizar a Sua Divindade, por isso João a registra; a segunda enfatiza a Sua perfeita Humanidade, em Sua dependência de Deus, por isso Lucas a registra. Fiel também ao caráter do seu evangelho, João narra o próprio ato da Sua morte de uma maneira especial: “(Ele) entregou o Espírito” (Jo 19:30). O sábio do Velho Testamento nos disse: “Nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito, para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte” (Ec 8:8), mas aqui está Um que tinha esse poder. Ele é capaz, num instante, de elevar Sua voz com força inabalável e, no instante seguinte, de entregar o Seu espírito, cumprindo assim as Suas próprias palavras registradas no capítulo 10. É verdade que ali Ele falou sobre entregar a Sua “vida” ou “alma”, dizendo: “Ninguém Ma tira de Mim, mas Eu de Mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la” (Jo 10:18). Mas as duas declarações estão totalmente em concordância, pois todos sabemos que, quando o espírito humano deixa o corpo, a vida do homem na Terra cessa. Quando Deus chama o seu espírito, ele deve ir. Aqui está Um que tem pleno domínio sobre o Seu espírito; Ele o entregou ao Seu Pai e, assim, entregou a Sua vida.
Poder da ressurreição
Então, depois de entregá-la, Ele a retomou na ressurreição, como vemos no próximo capítulo: o restante do nosso capítulo está repleto das diversas atividades dos homens, alguns deles Seus inimigos e outros Seus amigos, mas todos trabalhando juntos para que o determinado conselho de Deus se cumprisse, exatamente como Ele havia falado em Sua Palavra.
Os primeiros a entrarem em cena foram os Judeus, os homens que foram Seus inimigos mais implacáveis. Eles eram muito rigorosos com o lado cerimonial das coisas, e o sábado da páscoa, sendo um dia solene, tinha uma santidade peculiar aos olhos deles. Eles não podiam entrar na sala do julgamento (o pretório) para não se contaminarem, como vimos no capítulo anterior. Agora vemos que a ideia de os cadáveres de homens que eles consideravam malfeitores permanecendo expostos à vista dos homens e do céu nesse dia era abominável para sua alma ritualista. Eles estavam certos, é claro, pois assim havia sido ordenado em Deuteronômio 21:23, mas esse era o tipo de ordenança que eles gostavam de observar, enquanto negligenciavam assuntos mais importantes. Assim, deles veio o pedido para que a morte fosse acelerada pela quebra das pernas, de modo que indiretamente eles desempenharam seu papel no cumprimento de mais uma das muitas predições que se concentravam naquele grande dia em que Jesus morreu.
Poderíamos supor que a vida do Senhor se prolongaria muito além da dos outros, mas na verdade foi o oposto, justamente porque Ele deliberadamente entregou Sua vida. Se Ele não tivesse feito isso, o ato do homem ao crucificá-Lo não teria tido poder contra Ele. É significativo também que João não designe os dois homens como ladrões ou malfeitores; eles eram “outros dois” (v. 18). Não havia necessidade de mencionar o caráter particularmente ruim deles para acentuar o contraste. A grandeza do Filho divino é tal que basta dizer que eles eram dois outros homens.
A ordem de Pilatos aos soldados, a pedido dos Judeus, teve dois efeitos. Primeiro, enquanto os outros dois tiveram as pernas quebradas para acelerar seu fim, nenhum osso de nosso Senhor foi quebrado, e assim a Escritura se cumpriu. A referência deve ser ao Salmo 34:20 e às instruções dadas sobre o cordeiro pascal em Êxodo 12, repetidas em Números 9. Com isso concordam as palavras de Paulo em 1 Coríntios 5, quando ele diz: “Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Co 5:7).
F. B. Hole
Está Consumado – Traz Segurança
Quantos Cristãos professos encontramos que não desfrutam verdadeiramente da certeza de sua salvação e da paz com Deus! Essa incerteza marca a condição de classes tão diversas: a multidão dedicada a práticas ritualísticas; a grande multidão que meramente frequenta este ou aquele lugar por modismo; outros constantemente ocupados com seus sentimentos; outros bem instruídos e familiarizados com doutrinas estéreis. Contudo, todos eles, igualmente, estão tristemente inseguros quanto ao seu interesse pessoal em Cristo. Gostaríamos de levar esta pergunta diretamente ao coração do leitor: Você está em paz com Deus? Não suponha, nem por um momento, que ninguém possa ter essa certeza antes do dia do julgamento. Basta lermos as epístolas para vermos que essa certeza era o privilégio desfrutado por todos os que criam em Deus.
Não, o evangelho de Deus não diz respeito a sacramentos e cerimônias, ou a ações e sentimentos, mas diz respeito a Seu Filho. E assim o apóstolo pregou em Tessalônica: “Expondo e demonstrando que convinha que Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos. E este Jesus, que vos anuncio, dizia ele, é o Cristo” (At 17:3). Agora, a respeito daqueles que creram, o apóstolo diz: “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza” (1 Ts 1:4-5). Acaso havia algo peculiar na maneira como eles creram nessa pregação? Sim, havia. O apóstolo diz: “Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2:13).
Nenhum outro meio
Não havia outro meio pelo qual Deus pudesse ser Justo ao perdoar pecados, senão por meio da morte expiatória de Cristo. Aqui, neste evangelho, Cristo é apresentado diante de vocês. Ele precisava sofrer. Ele sofreu. Está consumado.
E agora, mais do que isso: o homem está tão completamente perdido e arruinado no pecado, que é preciso haver uma nova criação – um último Adão – Cristo ressuscitado dentre os mortos, o princípio da criação de Deus. Ele precisava não somente fazer a propiciação pelos pecados por meio de Seu sofrimento e morte; mas também havia a necessidade de Sua ressurreição dentre os mortos. Ele foi entregue por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação. E, crendo em Deus, somos justificados, isto é, considerados justos. O que dá segurança é isto: que essa salvação é inteiramente de Deus. É a justiça de Deus em nos justificar pela morte e ressurreição de Cristo. Assim foi com esses jovens na fé. Eles creram em Deus; creram que Jesus precisava sofrer, precisava morrer por seus pecados, o Justo pelos injustos. Eles receberam esse precioso Cristo ressuscitado – “E este Jesus, que vos anuncio... é o Cristo”.
Muita segurança
Não é evidente que, recebendo tudo isso como a Palavra de Deus, e não como a palavra do homem, eles deviam ter muita segurança? Não é igualmente evidente que, se você não tem a mesma certeza da sua salvação, e de que ela vem inteiramente de Deus, você não recebeu a verdade do evangelho como vinda de Deus?
Você ainda não considera sua situação tão ruim a ponto de ter que abandonar toda vã esperança de melhoria pelo ritualismo, por suas ações ou sentimentos, e aceitar o testemunho de Deus quanto à absoluta necessidade da morte de Jesus. “Por Este (Jesus) se vos anuncia a remissão dos pecados. E... por Ele é justificado todo aquele que crê”. Talvez digamos: “Não pode ser somente por meio de Jesus. Deve ser em parte por mim mesmo, minhas orações, minhas lágrimas, meus jejuns, meus sentimentos, minhas ações”. Ah, esse não era o evangelho de Deus pregado em Tessalônica. Não, era Cristo; Cristo, que uma vez foi morto, e que agora está vivo novamente. E também, “como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus a Seu Filho, a Quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura”.
Ações e sentimentos
Ora, o efeito de depender de nossas ações e sentimentos não é exatamente o oposto de tudo isso? Em vez de se converterem dos ídolos a Deus, os homens estão se afastando rapidamente de Deus para os ídolos. Outros, confiando em sentimentos, e não em Cristo. E outros sempre orarão: “No dia do juízo, bom Senhor, livra-nos”. Que erro fatal! Se não formos lavados agora no sangue do Cordeiro, então será tarde demais para sempre. “Já não resta mais sacrifício pelos pecados” (Hb 10:26).
Sim, o efeito é verdadeiramente maravilhoso quando o coração se abre para receber a Palavra de Deus. Bem certo é que, se Ele nos imputa os nossos pecados, estamos perdidos para sempre. Não diga, então: “Não sei o que fazer para estar em paz com Deus”. Tudo já foi feito há muito tempo. Jesus já disse, “Está consumado”. Deus aceitou o sacrifício expiatório. Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a Minha palavra e crê n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24 – ARA).
Há algo tão importante ou tão abençoado quanto crer em Deus? Conhecer a Ele, a Quem conhecer é a vida eterna? Lembre-se, tudo já está feito. Aquele que disse: “Está consumado”, mostra as mãos e o lado e diz: “Paz seja convosco”. Que paz! Paz feita pelo Seu sangue, paz com Deus; descanso em Deus para sempre. A Ele seja todo o louvor!
Things New and Old, Vol. 22 (adaptado)
Estava Fazendo das Minhas Boas Obras o Meu Salvador
Foi em um grande salão no sudoeste de Londres que vi pela primeira vez, diante de um auditório lotado, uma senhora idosa, entre noventa e cem anos. Ela morava a uma distância considerável do salão e foi vista um dia sentada do lado de fora de sua pequena casa, aproveitando o sol quente e o ar refrescante de uma tarde de início de primavera.
A jovem que a viu sentada do lado de fora de sua casa a convidou para participar de algumas reuniões especiais do evangelho, que estavam sendo realizadas no local chamado Salão de Ferro. Minha amiga idosa disse a ela que estava muito velha e fraca para caminhar tão longe, quando minha jovem amiga, embora dispusesse de recursos muito limitados, imediatamente se ofereceu para pagar as despesas de uma corrida de táxi de ida e volta, o que ela fez na noite seguinte e nas duas noites subsequentes do dia do Senhor.
Eu mesmo não falei com ela até a terceira vez que ela veio às reuniões. Eu havia pregado naquela noite sobre as últimas palavras de Jesus na cruz antes de morrer, que foram: “ESTÁ CONSUMADO”. Ela permaneceu com algumas outras pessoas depois que a pregação terminou, para ter uma conversa pessoal comigo sobre sua alma. Eu a encontrei profundamente angustiada por causa de seus muitos anos de pecado, embora tivesse levado uma vida muito moral. Ela me disse que havia sido enfermeira, mas que sempre que tinha oportunidade ia à “igreja”, que era gentil com seus vizinhos, pagava suas dívidas, não devia nada a ninguém, lia sua Bíblia e fazia suas orações. “Mas”, acrescentou ela, “Deus me livrou do engano e me mostrou que estive completamente errada todos esses anos, e que, em vez de aceitar JESUS como meu Salvador, eu estava fazendo das minhas boas obras o meu Salvador. Oh, ore por mim!”
Jesus disse: “Está consumado”
Vendo que ela estava desviando o olhar de si mesma e de suas ações para mim e minhas orações, respondi: “Não; não orarei por você, nem pedirei que ore por si mesma. Jesus disse: ‘Está consumado’, e a Sua obra consumada é tão perfeita que não precisa do peso das suas orações nem das minhas. Portanto, você deve confiar na Sua obra consumada para a salvação, ou negligenciá-la e ser condenada para sempre”.
Deus imediatamente a fez enxergar a força e a verdade do que eu acabara de dizer e removeu seu último apoio falso. Com toda a simplicidade de uma criança pequena e indefesa, ela confiou na Pessoa e na obra do Senhor Jesus Cristo e clamou em alta voz: “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o Seu santo nome”.
Ela viveu mais quatro ou cinco anos depois disso e era frequentemente visitada por pessoas idosas e experientes, por jovens Cristãos fervorosos e por mim mesmo, e nenhum de nós jamais duvidou, mas sim tivemos muitas provas da autenticidade e realidade da obra de Deus em sua alma. Que obras Deus realizou! A Ele seja todo o louvor!
E agora, se algum de vocês que está lendo isto estiver fazendo de suas boas obras o seu salvador, seja advertido por esse relato a olhar imediatamente para Aquele que realizou toda a obra da salvação do pecador na cruz. Vocês estão, como alguns outrora, dizendo: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?”
Então ouça e curve-se diante da resposta: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais n’Aquele que Ele enviou” (Jo 6:28-29). “Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê n’Aquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada (contada) como justiça” (Rm 4:4-5).
Se algum dia você for salvo, deve ser sem obras, para que Deus possa dizer a você: “Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8-9). As obras fluirão naturalmente depois de sermos verdadeiramente salvos pela graça e tivermos consciência disso. Mas, durante toda a nossa jornada para a glória, seremos conduzidos, com adoração e alegria, a dizer: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a Sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente Ele derramou sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador; para que, sendo justificados pela Sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3:5-7).
Gospel Light, Vol. 1
Sete Declarações de Cristo na Cruz
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
As palavras de Cristo na cruz do Calvário para você:
Ele morreu para salvar os arruinados e perdidos,
E ressuscitou triunfante sobre a morte.
“Hoje estarás Comigo” – tua alma libertada,
Sua resposta à oração “Lembra-Te de mim”,
Um pecador salvo na última hora,
Arrancado como um tição do poder infernal.
Ele viu Sua amada mãe chorando ali,
E a entregou aos fiéis e ternos cuidados
Daquele discípulo a quem Ele tanto amava,
“Eis aí tua mãe” – quem pode descrever esse amor?
A Palavra de Deus sempre estava em Seu coração,
E de Seus ensinamentos Ele não Se afastou,
E para cumprir essa Palavra O ouvimos dizer:
“Tenho sede”, mas nem uma gota para essa sede saciar.
E então, em meio às trevas daquele dia,
A Criação tremeu – O ouviram dizer:
“Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste”
Em todas as dores do sombrio Calvário?
Por fim, Ele clamou: “Está consumado” – tudo estava feito
Ele, para Seu povo, tinha conquistado a vitória,
As reivindicações de Deus para sempre satisfeitas;
Toda a glória Àquele que sangrou e morreu!
E pouco antes de inclinar Sua santa cabeça,
Com uma “grande voz”, o poderoso Conquistador disse:
“Pai, a Ti entrego o Meu espírito”,
Deu a Sua vida e assim morreu por nós.
Edwin B. Hartt
“Está consumado”
João 19:30


Comentários