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O Espírito Santo

Por Nicolas Simon


 

ÍNDICE



 


“Digo-vos a verdade: que vos convém que Eu vá, porque, se Eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se Eu for, enviar-vo-Lo-Ei” (Jo 16:7). O caráter único da presente dispensação é definido por duas circunstâncias verdadeiras e inéditas: 1) Cristo, como Homem, está glorificado nas alturas; 2) o Espírito Santo tem uma presença pessoal e permanente aqui na Terra. É a segunda (embora dependente da primeira) que desejo abordar neste livreto. Sem uma compreensão bíblica deste assunto tão importante, não podemos compreender esta dispensação atual, nem andar como Cristãos. O papel do Espírito Santo na vida do crente será nosso foco principal. O aspecto coletivo da atividade do Espírito será mencionado, mas o aspecto individual, muito negligenciado, merece um tratamento separado. Se o ensino sobre o papel do Espírito Santo no indivíduo tem sido considerado insuficiente, devemos confessar que o papel coletivo do Espírito de Deus, como habitando na Igreja, foi totalmente desacreditado, se não o foi doutrinariamente, certamente o foi na prática.




Antes de considerarmos o papel do Espírito Santo na presente dispensação, será necessário fazermos algumas observações quanto ao Velho Testamento. Desde o início da história do homem, encontramos o Espírito Santo contendendo com as almas: “Então, disse o Senhor: Não contenderá o Meu Espírito para sempre com o homem, porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos” (Gn 6:3).[1] A atividade do Espírito Santo certamente não se limita ao Novo Testamento. Como uma das Pessoas da Divindade, o Espírito sempre esteve envolvido nos assuntos de Deus. Deus o Pai, Deus o Filho, e Deus o Espírito Santo agem juntos – vemos isso desde o início, começando com a criação (Gn 1:1; 1:26 etc.). Quanto à atividade do Espírito em relação ao homem, o Espírito Santo no Velho Testamento agia como um poder externo, suplicando à consciência, ou animando àqueles a quem escolheu.


Encontramos mais exemplos da ação do Espírito no livro de Êxodo, mas de maneira alguma pretendemos examinar todas as referências. “Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de sabedoria, e de entendimento, e de ciência em todo artifício” (Êx 31:2-3). Foi pelo poder do Espírito de Deus que Bezalel tinha a habilidade para produzir os artigos necessários para o tabernáculo. Não foi a mera astúcia e arte humanas que produziram aquelas obras; era tudo de Deus. Nesse caso, vemos alguém cheio do Espírito de Deus realizando uma tarefa manual específica.


Nossa próxima referência é a mais singular. O contraste com o que encontramos no Novo Testamento é muito instrutivo. “Então, Eu descerei, e ali falarei contigo, e tirarei do Espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que tu sozinho o não leves... Quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais... Tomara que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o Seu Espírito!” (Nm 11:17, 25, 29). É evidente a partir desses versículos que o Espírito Santo no tempo do Velho Testamento repousava sobre os indivíduos, mas também que Ele podia ser tirado deles. Parece que poucos desfrutaram desse privilégio abençoado.


Encontramos até mesmo o Espírito de Deus vindo sobre pessoas que não tinham fé: “E, levantando Balaão os olhos e vendo a Israel que habitava segundo as suas tribos, veio sobre ele o Espírito de Deus” (Nm 24:2). O Espírito pode e moverá o homem à escolha de Deus. Com Saul, o primeiro rei de Israel, vemos a mesma atividade do Espírito: “E o Espírito do Senhor Se apoderará de ti, e profetizarás com eles e te mudarás em outro homem” (1 Sm 10:6; ver também v. 10). A Escritura não nos dá nenhuma razão para crermos que Saul tenha sido uma alma convertida; a mudança foi temporária. Lemos mais tarde: “E o Espírito do Senhor Se retirou de Saul, e o assombrava um espírito mau, da parte do Senhor” (1 Sm 16:14). E mais forte ainda: “O Senhor te tem desamparado e Se tem feito teu inimigo” (1 Sm 28:16). Quando Deus, por meio do Espírito já partido de Samuel, diz a Saul: “Amanhã tu e teus filhos estareis comigo” (v. 19), não há razão para crermos que Ele fala de outra coisa, senão de sua morte.


Voltando ao tempo dos Juízes, lemos sobre Otniel: “E veio sobre ele o Espírito do Senhor” (Jz 3:10); e de Gideão: “O Espírito do Senhor revestiu a [veio sobre – JND] Gideão” (Jz 6:34); da mesma forma, com Jefté (Jz 11:29). Com relação a Sansão, encontramos: “E o Espírito do Senhor o começou a impelir de quando em quando” (Jz 13:25), e “O Espírito do Senhor Se apossou [veio sobre – JND] dele tão possantemente” (Jz 14:6; 15:14). Toda vez, a palavra-chave é sobre. O Espírito desceu sobre os homens com poder. Nunca, no Velho Testamento, encontramos o Espírito Santo habitando com e no homem e certamente nem O encontramos como algo duradouro. Em contraste, o Senhor Jesus no Novo Testamento prometeu aos discípulos: “E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê, nem O conhece; mas vós O conheceis, porque habita convosco e estará em vós (Jo 14:16-17).


Pode ser sugerido que Ezequiel experimentou a habitação do Espírito de Deus: “Então, entrou em mim o Espírito, quando falava comigo” (Ez 2:2; ver também 3:24). Se foi necessário ao Espírito de Deus entrar no profeta uma segunda vez, devemos concluir que essas foram experiências passageiras. Os profetas do Velho Testamento falaram pelo Espírito de Deus, e este é simplesmente outro exemplo disso. “Inquiriram e trataram diligentemente os profetas… indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles(1 Pe 1:10-11). “Os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo(2 Pe 1:21).


Estêvão, em sua defesa perante o Sinédrio, disse: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como vossos pais(At 7:51). O Espírito Santo tem contendido com o homem ao longo de sua história – desde o tempo de Gênesis e em diante. O homem, por sua vez, resistiu obstinadamente aos esforços do Espírito Santo.




Uma verdade definidora da presente dispensação é a habitação do Espírito Santo. Não lemos sobre o Espírito habitando nos santos de Deus até que tivéssemos um Cristo ascendido em glória. Como vimos, os santos do Velho Testamento não tinham isso – na verdade, isso era a promessa de algo futuro dado pelo Senhor Jesus enquanto Ele estava aqui na Terra (Jo 14:16-17). Dependia de Sua partida: “Convém que Eu vá, porque, se Eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se Eu for, enviar-vo-Lo-Ei” (Jo 16:7). Os capítulos 14 a 16 do evangelho de João falam muito dessa promessa. O motivo dessa revelação neste momento do ministério terrenal do Senhor não é difícil de se discernir. O Homem Jesus estava prestes a deixá-los, mas eles não ficariam sem conforto. O Senhor fala a Seus discípulos, após a última ceia, sobre a habitação do Espírito Santo. Não como Aquele que repousaria sobre eles, mas como Aquele que habitaria, isto é, habitaria neles para sempre.


Alguém pode perguntar: Todos os crentes são habitados pelo Espírito Santo ou esta promessa foi apenas para os discípulos? O cumprimento da promessa do Senhor veio no dia de Pentecostes (At 2). O Espírito Santo apareceu visivelmente sobre os crentes em Jerusalém como línguas de fogo repartidas e todos foram cheios do Espírito Santo” (At 2:4). Sabemos do capítulo anterior que pelo menos 120 discípulos estavam presentes em Jerusalém naquele momento – muitos mais do que os doze (At 1:15). Mas não baseamos nosso ensino apenas neste evento. No livro de Atos, temos um registro histórico do Espírito Santo agindo tanto nos indivíduos quanto na Igreja de Deus. Nas epístolas, encontramos a doutrina a respeito dessas coisas. Lemos em Romanos: “Vós, porém, não estais na carne,[2] mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo,[3] esse tal não é d’Ele” (Rm 8:9). Isso não deixa margem para dúvidas; todos os que são de Cristo têm o Espírito de Deus habitando neles. Na epístola aos Efésios, temos uma confirmação desta verdade: “E, tendo n’Ele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13). É evidente, portanto, que todos os que possuem a salvação em Cristo têm a habitação do Espírito Santo. Não foi apenas para os doze, nem é um estado limitado ao mais espiritual dos crentes, nem é uma experiência passageira.


Não devemos confundir a obra do Espírito Santo em vivificar[4] almas (Jo 6:63; Ef 2:5) com a habitação do Espírito Santo. Uma pessoa está “morta em ofensas e pecados” (Ef 2:1) até que seja vivificada. O Espírito Santo toma a Palavra de Deus, aquela semente incorruptível, e produz vida (1 Pe 1:23). Esta obra do Espírito é bastante distinta do dom, ou habitação do Espírito. Da mesma forma, devemos reconhecer os vários aspectos desse dom. O selo do Espírito (Ef 1:13) é diferente da unção do Espírito (1 Jo 2:20). Pelo selo do Espírito, temos a certeza da marca de Cristo sobre nós. A unção, por outro lado, fala da capacidade do crente de conhecer e discernir a verdade e o erro: “E vós tendes a unção do Santo e sabeis tudo” (1 Jo 2:20). O Espírito também é dado como nosso penhor (2 Co 5:5; Ef 1:14). Deixo para o próprio leitor pesquisar mais sobre isso. Muitas vezes as coisas que Deus distinguiu para nossa instrução são tratadas como algo único. Elas se tornam uma mistura borrada da mesma cor tênue. Ao contrário, um estudo dos diferentes papéis que o Espírito Santo desempenha na vida do crente é instrutivo e muito encorajador. Também é importante não atribuirmos nossos próprios significados a essas expressões; deve-se olhar cuidadosamente para o contexto em que são usadas ​​e não permitir que nossa imaginação vá além da simples Palavra de Deus.


Não devemos tratar essas coisas de que falo, como mera doutrina. Não podemos andar como Cristãos, exceto no poder do Espírito Santo. O Espírito Santo é uma Pessoa muito real e distinta da Trindade, e a habitação do Espírito no crente é igualmente real. O efeito final sobre o crente deve, portanto, ser poderoso e eminentemente prático. Isso é facilmente observado, a título de exemplo, na exortação de Paulo aos Coríntios: “Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1 Co 6:19-20). Longe de ser uma presença passiva, o Espírito Santo é a força da nova vida no crente. Um carro novo pode ser mecanicamente perfeito, mas sem combustível não pode andar. É pelo Espírito Santo que damos expressão à nova vida em nosso caminhar. “Digo, porém: Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne” (Gl 5:16).


É um equívoco comum achar que somos selados com o Espírito Santo no momento em que recebemos uma nova vida; mesmo os samaritanos de Atos 8 não receberam o Espírito Santo até que Pedro e João lhes impusessem as mãos. Cornélio, no capítulo 10, é outro exemplo. Ele possuía uma nova vida antes mesmo de Pedro chegar a Cesareia (At 10:2, 22, 44). O homem do sétimo capítulo de Romanos tinha uma nova vida. Havia um desejo verdadeiro de fazer o que era certo e agradável aos olhos de Deus (Rm 7:15-20) – tais desejos não têm sua fonte na carne – e ainda, o indivíduo não tinha paz ou descanso; tudo era dúvida e medo (Rm 7:24). Somente quando chegamos ao oitavo capítulo, quando o Espírito Santo é trazido, que ele tem a paz estabelecida. Dificilmente se poderia dizer que Cornélio tinha paz estabelecida diante de Deus. Ele era “piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus” (At 10:2). Infelizmente, muitos Cristãos se identificariam com esta posição e descreveriam seu alcance como sendo o auge da caminhada Cristã. Quanto ao estado de sua alma e a certeza de sua salvação, vemos que tudo é incerto. O anjo disse a Cornélio que Simão viria e “te dirá palavras com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:14). Eles foram vivificados; eles tinham uma nova vida; mas a Palavra de Deus não os chama de salvos. Não foi até que eles ouvissem as palavras de salvação, e as recebessem que: “caiu sobre eles o Espírito Santo” (At 11:15).


Não estou sugerindo que aquele que recebeu uma nova vida possa perdê-la; na verdade, quando Deus começa uma boa obra, Ele a levará até o fim (Fp 1:6).[5] No entanto, devemos reconhecer que houve um período em que Deus agiu até chegarmos àquela paz estabelecida, conhecida como salvação. Parte da dificuldade reside em não reconhecer que uma nova vida precede o crer. Uma pessoa morta não pode ouvir, muito menos crer. A vivificação deve preceder o crer: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Ef. 2:4-5). “Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, o não trouxer; e Mu o ressuscitarei no último Dia” (Jo 6:44). A nova vida vinda de Deus deve vir primeiro, depois crer, seguido pelo selo do Espírito Santo. “Em Quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo n’Ele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).


Não encontramos nenhuma instrução, ou exemplos de crente pedindo o dom do Espírito Santo. É verdade que no evangelho de Lucas lemos: “Pois, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que Lho pedirem?” (Lc 11:13). No entanto, assumir esta posição agora, coloca a pessoa na mesma condição dos discípulos antes da cruz. Os discípulos dos evangelhos eram representantes daquele fiel remanescente judeu que buscava a redenção em Israel (Lc 2:38; 24:21). Para o judeu, a relação com Jeová Deus era distante, conectada pelo sacerdócio Aarônico estabelecido pela Lei. Jeová habitava em trevas densas (1 Rs 8:12). Depois da cruz, entretanto, tudo mudou. Os discípulos foram trazidos a um novo relacionamento com Deus. Deus foi revelado como Pai por meio do Filho. Enquanto tudo estava incerto, a cruz garantiu paz para a alma e os redimiu da maldição da Lei. Entre a ascensão de Cristo e o dia de Pentecostes, os discípulos podiam ser encontrados no cenáculo em Jerusalém orando. “Todos os estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com Seus irmãos” (At 1:14). Lá eles deveriam permanecer, conforme instruído, até o batismo do Espírito Santo. Foi uma época de grande vulnerabilidade – Cristo não estava mais com eles pessoalmente e o Espírito Santo ainda não havia sido dado. “Mas que esperassem a promessa do Pai, que (disse Ele) de Mim ouvistes. Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1:4-5). Eles sem dúvida oraram em antecipação a este evento em resposta ao que encontramos em Lucas. Depois disso, no entanto, não há relatos de uma pessoa orando para receber o dom do Espírito Santo. A Escritura simplesmente não traz base para a oração ao Espírito – nem para ser habitado. nem ser batizado pelo Espírito.




Até a cruz os discípulos estavam com o Senhor Jesus pessoalmente, mas Deus tinha algo maior em vista para eles e para nós. No evangelho de João, Ele fala aos Seus discípulos sobre a vinda do Espírito Santo, o Consolador, que habitaria com eles para sempre. Isso foi, e continua sendo, algo extraordinário – nós realmente entendemos o significado disso? O Senhor, até aquele momento, tinha sido seu recurso pessoal imediato. Ele estava, no entanto, prestes a retornar ao Pai. Outro[6] viria do Pai para ficar com eles para sempre (Jo 14:16). Tudo dependia da partida do Senhor que, como sabemos, foi por meio da cruz. Eles haviam testemunhado milagres poderosos feitos pelo Senhor, mas fariam maiores: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em Mim também fará as obras que Eu faço e as fará maiores do que estas, porque Eu vou para Meu Pai” (Jo 14:12).


A presença permanente do Espírito de Deus nesta Terra dá ao Cristianismo define seu caráter. Em Atos, lemos sobre isso primeiro com os discípulos (At 2:1-4), e depois com os 3.000 (At 2:38-41); isto é seguido pelos crentes samaritanos (At 8:17), o apóstolo Paulo (At 9:17), Cornélio e aqueles com ele (At 10:44), e os prosélitos de Éfeso (At 19:6). A atividade do Espírito Santo é vista em todos os lugares nesse ínterim. Corretamente, foi sugerido que Atos dos Apóstolos deveriam ser chamados de Atos do Espírito Santo. Na verdade, o Espírito Santo é especialmente visto neste livro como uma Pessoa Divina agindo de acordo com a vontade Divina: “E disse o Espírito a Filipe” (At 8:29); “E, pensando Pedro naquela visão, disse-lhe o Espírito (At 10:19); Disse o Espírito Santo: Apartai-Me a Barnabé e a Saulo” (At 13:2).


Quando os samaritanos receberam o Espírito Santo pela primeira vez, os apóstolos oraram por eles e lhes impuseram as mãos. “Pedro e João... os quais, tendo descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo... Então, lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo” (At 8:14-15, 17). Pode-se perguntar, este não é um exemplo de oração para o Espírito Santo? Não lemos sobre os samaritanos pedindo; isso foi por iniciativa dos apóstolos. A forma como isso aconteceu serviu a um propósito único daquela época. Os judeus não tinham relações com os samaritanos (Jo 4:9). Já era difícil para um judeu comer com um gentio (Gl 2:12), mas os samaritanos eram uma história totalmente diferente. Eles não eram apenas gentios, mas sua religião nacional era uma versão corrompida do judaísmo. Os samaritanos, tendo rejeitado Jerusalém, fizeram do Monte Gerizim seu centro de adoração (Jo 4:20). Eles eram realmente desprezados. Ser trazido ao mesmo corpo de crentes pelo Espírito Santo era algo difícil para um crente judeu aceitar. Pode-se, portanto, compreender o profundo significado de Pedro e João orando e impondo as mãos sobre aqueles a quem por tanto tempo desprezaram e rejeitaram. Havia um potencial muito grande de igrejas serem formadas de acordo com linhas de nacionalidade, mas isso não era para acontecer. Paulo, escrevendo aos colossenses, declara que toda identidade nacional é posta de lado em Cristo: “Onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” (Cl 3:11). É pelo Espírito Santo que todos somos introduzidos naquele corpo: “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1 Co 12:13 - ARA).


A imposição física das mãos é uma declaração de identificação (At 13:3; 1 Tm 5:22). Pedro e João, impondo as mãos sobre os crentes samaritanos (e isso, em conexão com o recebimento do Espírito Santo), os identificou abertamente com a Igreja que nasceu em Jerusalém. Haveria um corpo espiritualmente e um corpo na prática. Deve ser, portanto, com grande tristeza que notamos que muitas assim chamadas igrejas surgiram ao longo de linhas de nacionalidade e sectarismo – eu digo assim chamadas porque o uso comum dessa palavra (igreja) é inconsistente com seu significado na Escritura.


Quando chegamos a Cornélio e seus companheiros, lemos: “E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra (At 10:44). Alguém pode perguntar, por que não há a imposição de mãos neste caso? O texto dá a razão de forma bastante clara: “E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios” (At 10:45). Aqueles crentes judeus que acompanharam Pedro ficaram completamente surpresos; o dom do Espírito Santo foi derramado sem nenhum tipo de intervenção. O judeu não podia reivindicar superioridade sobre o gentio. O recebimento do Espírito Santo foi independente deles; era vindo apenas de Deus. O apóstolo Paulo constantemente encontrava hostilidade dos judeus por sua obra entre os gentios (1 Ts 2:14-16). O gentio ser trazido à benção fora do judaísmo era, para o judeu, intolerável. Por esta razão, a circuncisão foi frequentemente pressionada sobre os primeiros Cristãos; um Cristão circuncidado era mais aceitável do que um incircunciso (Gl 2:3-5). Isso o levava ao judaísmo. Isso foi, no entanto, uma corrupção do evangelho e o apóstolo Paulo o denunciou veementemente (Gl 1:6-9; Fp 3:2-3). Os eventos naqueles dias, entre os crentes gentios, assemelharam-se ao batismo do Espírito Santo no dia de Pentecostes entre os crentes judeus. De fato, Pedro se lembra da ocasião em que narra a conversão desses gentios aos seus irmãos judeus em Jerusalém (At 11:16).




Usei tanto a expressão o batismo do Espírito Santo quanto o recebimento do Espírito Santo. É importante distinguir os dois. Acho justo dizer que muitos Cristãos veem isso de forma intercambiável. Certamente, no batismo do Espírito Santo, os indivíduos receberam o Espírito. No entanto, foi um evento coletivo de notável significado e não apenas individual.


O batismo do Espírito Santo é mencionado em cada um dos quatro evangelhos (Mt 3:11; Mc 1:8; Lc 3:16; Jo 1:33). Em cada caso, João Batista fala dele como algo futuro. Finalmente, no livro de Atos, o próprio Senhor Jesus faz a promessa: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1:5). A próxima ocorrência da expressão deixa claro quando isso ocorreu: “E, quando comecei a falar, caiu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós ao princípio. E lembrei-me do dito do Senhor, quando disse: João certamente batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (At 11:15-16). O Espírito Santo desceu sobre os discípulos – sobre nós ao princípio” – no dia de Pentecostes (At 2:1-4).


A referência final ao batismo do Espírito Santo ocorre na primeira Epístola aos Coríntios, onde é tratada como algo ocorrido: “Pois também, no poder de um Espírito, fomos todos batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e a todos dado beber de um Espírito” (1 Co 12:13 JND). Aqui temos seu significado doutrinário; fomos todos batizados em um só corpo, a Igreja – o corpo de Cristo: “A Igreja, que é o Seu corpo” (Ef 1:22-23). Este corpo foi constituído no dia de Pentecostes, quando os crentes de entre os judeus foram batizados em um só corpo. Os gentios na casa de Cornélio foram posteriormente acrescentados ao mesmo corpo quando foram batizados pelo mesmo Espírito (At 11:16). “Há um só corpo e um só Espírito” (Ef 4:4). Esses dois eventos – um no dia de Pentecostes e outro em Cesareia – são os únicos chamados de batismo do Espírito Santo. Embora separados por alguns anos, eles formam uma única operação: a constituição da Igreja, como o corpo de Cristo, consistindo de judeus e gentios.


Nunca é dito de um indivíduo como sendo batizado com o Espírito Santo – nem quando ele recebe a habitação do Espírito, nem como uma experiência posterior. Alguém buscará na Escritura em vão por versículos que apoiem ​​essa visão popular. Alguns podem oferecer o versículo da primeira epístola aos Coríntios como exemplo. No entanto, isso é inteiramente consistente com tudo o que foi apresentado. No mundo dos negócios, uma empresa é incorporada[7] no momento de sua fundação. Os empregados dessa empresa, no entanto, usarão livremente linguagem como: Fomos incorporados em tal ano. O indivíduo pode não ter estado presente naquele momento, nem sequer ter nascido, e ainda assim sua linguagem é correta e inequívoca. Devemos notar a ausência do artigo definido neste versículo – batizado em um corpo, não no corpo. Se o artigo estivesse presente, então poderia dar-se crédito à ideia de que existia um corpo ao qual os crentes foram acrescentados. Este contudo, não foi o caso. Os crentes foram batizados no poder do Espírito em um corpo. Foi o próprio ato que formou o corpo.




Em primeiro lugar e mais importante, o Espírito Santo glorifica a Cristo, tornando conhecido o conselho do Pai a respeito de Seu Filho. “O Espírito da verdade… Ele me glorificará, porque há de receber do que é Meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16:13-14). É o Espírito Quem revela as coisas profundas de Deus. “Mas Deus no-las revelou pelo Seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus” (1 Co 2:10).


Em Romanos, lemos: “O amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5:5). O amor do qual é falado não é aquela apreciação inicial do amor de Deus por nós na redenção, mas um senso mais profundo de Seu amor – uma apreciação que cresce a cada passo de nossa jornada no deserto. É o Espírito Santo que enche nossos corações com um sentimento imenso do amor de Deus, especialmente em nossas provações.


O Espírito de Deus acalma o coração ansioso, primeiro quanto à nossa posição diante de Deus e, segundo, em todas as nossas circunstâncias. “Não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8:15-16). É por meio da habitação do Espírito Santo que temos a consciência de nosso relacionamento com Deus como filhos. O Espírito também nos dá a conhecer nosso lugar como filhos, por meio do qual podemos clamar: “Aba, Pai”.


Durante a ausência de Cristo nesta Terra, a vida de Cristo deve ser exibida pelo Seu povo redimido, por meio do Espírito Santo. O Espírito de Cristo deve Se manifestar em nossa vida diariamente. É o fruto do Espírito que provê as características proeminentes da caminhada Cristã. “O fruto do Espírito é: caridade, {ou amor} gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gl 5:22). Nossa caminhada deve ser uma manifestação externa da habitação do Espírito Santo. “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gl 5:25). O Espírito Santo irá reproduzir as características morais de Jesus em nossa vida. Sem o Espírito Santo, simplesmente não podemos andar como Cristãos.


“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26). Em Efésios, onde lemos sobre a armadura de Deus, o componente final é a oração: “Orando em todo tempo com toda oração e súplica no Espírito (Ef 6:18). Não oramos para o Espírito; nós oramos no Espírito. Se eu orar para o Espírito, quem está orando? É o Espírito que nos dá expressão – não eloquência. Nossas orações podem muito bem ser com gemidos para os quais a linguagem é inadequada.


O Espírito Santo é o Consolador supremo – pronto para fortalecer, apoiar e encorajar. A atividade do Espírito não se limita, entretanto, às nossas provações. O Espírito eleva nossos pensamentos para fora de nós mesmos para as excelências do Próprio Deus. “Porque a circuncisão somos nós, que adoramos pelo Espírito de Deus, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne” (Fp 3:3 JND). Tal como acontece com a oração, não dirigimos nossa adoração para o Espírito Santo; é pelo Espírito que adoramos. Se eu adoro o Espírito Santo, então surge a questão: por que espírito estou adorando?


Muito poderia ser escrito sobre o fruto do Espírito, mas nossa visão geral deve ser superficial. É um campo rico que exige mais estudo e meditação. A indiferença demonstrada pela Cristandade em relação ao Espírito Santo, por um lado, ou a preocupação equivocada com os dons espirituais, por outro, não são saudáveis ​​nem bíblicos.




A palavra grega para dom é carisma. O Movimento Carismático é, como o nome sugere, ocupado com os dons derramados sobre a igreja primitiva, e especialmente os dons milagrosos de cura e falar em línguas. Nisso eles caíram na mesma armadilha da igreja de Corinto.


A assembleia em Corinto não ficou atrás em nenhum dom (1 Co 1:7). Apesar disso, seus problemas eram numerosos: divisões, carnalidade, imoralidade e até mesmo a negação da ressurreição! Cada um deles é abordado pelo apóstolo Paulo em sua primeira epístola. A essa confusão devemos também acrescentar o abuso do dom. Os coríntios gostavam de falar em línguas e o apóstolo dedica grande parte dos capítulos 13 e 14 a esse assunto – conforme o espírito os move, eles exercitam seu dom (1 Co 14:26, 29). Mas que espírito era? Não era uma manifestação do Espírito Santo.


Fundamental para o erro cometido pelos carismáticos é a sua falta de compreensão sobre o batismo do Espírito Santo. Para eles, é algo que alguém experimenta após a salvação (distinto da habitação do Espírito), que os enche com o poder do Espírito para testemunho e ministério. Em sua opinião, o batismo do Espírito Santo é algo a ser buscado e pelo qual se deve orar. Alguns também acreditam que o batismo do Espírito Santo é acompanhado pelo falar em línguas.


Esses ensinos estão em desacordo com a Escritura. Quanto ao primeiro, já foi abordado. Vou apenas repetir o que o apóstolo Paulo nos dá: “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito. (1 Co 12:13 - ARA). O batismo do Espírito Santo incorporou os primeiros crentes ao corpo de Cristo, a Igreja. Não há nada aqui sobre uma segunda bênção ou o encher do Espírito. Como este é o único versículo que nos dá o significado doutrinário do evento, qualquer interpretação alternativa nada mais é do que uma invenção da parte do homem. Depois do Pentecostes, não temos exemplos, nem recebemos instruções para oração para o Espírito Santo – nem pela habitação do Espírito e certamente nem pelo batismo do Espírito Santo.


Quanto ao ensino de que as línguas devem acompanhar o batismo do Espírito Santo, em certo sentido isso está correto. Tanto no dia de Pentecostes quanto em Cesareia, quando o Espírito Santo foi derramado sobre aqueles crentes (batizando-os naquele um corpo), eles realmente falaram em línguas (At 2:4; 10:46). O erro está em ver o batismo do Espírito Santo como individual – como algo a ser experimentado por cada crente.


Na minha época de estudante, certa tarde eu estava parado nos portões da universidade esperando por uma carona de meu irmão. Enquanto eu estava sob as árvores frondosas que emolduravam a entrada, fui abordado por um jovem que me perguntou como estava minha alma. Recebi sua saudação de bom grado; era encorajador encontrar outro crente – eles eram poucos e distantes entre si. Embora eu não questione a fé do jovem evangelista, o que ele disse, no entanto, era completamente estranho para mim. Ele me disse que, a menos que eu falasse em línguas, não poderia ter certeza da minha salvação! O falar em línguas como sendo uma parte necessária da experiência Cristã era tão perturbador naquela época quanto é agora. O jovem continuou afirmando que quando uma pessoa recebia o Espírito Santo no Novo Testamento, era sempre acompanhado por línguas. Certamente houve tais casos: “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (At 19:6). Mais ou menos nesse momento, meu irmão chegou e nossa conversa terminou. Foi só algum tempo depois, enquanto estava lendo o livro de Atos, que percebi a falsidade de sua declaração. Lá encontramos ocasiões em que pessoas receberam o Espírito Santo ou foram cheias d’Ele e, ainda assim, não há menção de línguas (At 4:8; 8:17; 9:17; 13:52 etc.). Sem dúvida, havia algo que evidenciava a presença do Espírito com o indivíduo, mas insistir em línguas é acrescentar o que a Escritura não diz.


Satanás é um inimigo astuto. Sabemos que ele usou espíritos enganadores no passado para colocar palavras na boca dos homens: “Eu sairei e serei um espírito da mentira na boca de todos os seus profetas” (1 Rs 22:22). Devemos esperar que ele faça o mesmo hoje. “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” (Ef 6:11). Não estou sugerindo que todos os casos de línguas sejam obra de um falso espírito, nem mesmo a maioria. No entanto, a pressão para falar em línguas (imagine se sua salvação dependesse disso) pode levar alguém a se enganar ou, pior ainda, a se abrir à influência satânica. Falar em línguas é um dom milagroso facilmente reivindicado. Sem um intérprete, quem pode julgar? Mesmo com um intérprete, quem pode ter certeza de que ele está traduzindo fielmente?


Os santos em Corinto se disputavam para exibir seus dons espirituais (1 Co 14:23, 26), mas não era para a edificação de outros; era para a edificação própria (1 Co 14:4), ou, podemos dizer, glorificação própria. Paulo escreve: “Segui a caridade e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar... mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação” (1 Co 14:1, 3). Por que esse fascínio pelas línguas? Como isso glorifica a Deus? Especialmente quando hoje o balbucio apresentado como línguas é visto pelos incrédulos como loucura (1 Co 14:23).


Considere por um momento os discípulos dos evangelhos e compare sua conduta com aquela encontrada no livro de Atos – o que explica essa grande diferença? Vemos, por exemplo, pouco do Pedro que conhecemos nos evangelhos, na pregação em Atos dois. Essa grande diferença é explicada pela habitação do Espírito Santo. Eles não eram os mesmos homens. Sua coragem, a pregação poderosa, era o Espírito Santo operando. Os apóstolos eram “homens sem letras e indoutos”, mas sua pregação era motivo de admiração. Além disso, “tinham conhecimento de que eles haviam estado com Jesus” (At 4:13). Deve ser nosso desejo que outros reconheçam que nós também estivemos com Jesus. Esta é a manifestação do Espírito Santo em nossas vidas que devemos buscar – não línguas e nem dons de sinais.


As línguas foram dadas como um sinal para aqueles que não criam, e especialmente para os judeus incrédulos. “Está escrito na lei: Por gente doutras línguas e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim Me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis(1 Co 14:21-22). Vemos o cumprimento disso no dia de Pentecostes. “E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu... Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?... Todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus” (At 2:5, 8, 11). Para um judeu, ouvir as maravilhosas obras de Deus em qualquer língua que não o hebraico era realmente maravilhoso – o hebraico tinha sido e ainda é exclusivamente associado à religião do judeu. Expressar as coisas de Deus em uma língua gentia tinha um significado sem precedentes. “Porventura, não ouviram? Sim, por certo, pois por toda a Terra saiu a voz deles, e as suas palavras até aos confins do mundo. Mas digo: Porventura, Israel não o soube? Primeiramente, diz Moisés: Eu vos meterei em ciúmes com aqueles que não são povo, com gente insensata vos provocarei à ira (Rm 10:18-19).


Embora eu não descarte a possibilidade de se falar em línguas nos dias atuais – e com isso, quero dizer em uma língua estrangeira conhecida como no dia de Pentecostes – esse foi um dom que serviu a um propósito único nos primeiros dias da Igreja. Naquela época, era um testemunho claro e visível do poder do Espírito Santo. Milagres, entretanto, não salvam (Jo 2:23-24; Lc 16:30-31). O testemunho do Espírito Santo foi agora totalmente revelado na Palavra de Deus e tanto judeu como gentio, assim como aconteceu com o Israel da antiguidade, resistem a esse testemunho (At 7:51).


Embora Paulo falasse línguas (mais do que todos), ele preferia falar cinco palavras na assembleia “na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida” (1 Co 14:18-19). É notável que o único ensino bíblico que temos sobre as línguas nos encoraja a não usá-las! “O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja. E eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação” (1 Co 14:4-5). Paulo não nega o dom de línguas nem a bem-aventurança dele; mas há algo melhor – aquelas manifestações do Espírito que edificam a assembleia. Observe também que ao dizer: “Quero que todos vós faleis línguas estranhas”, fica evidente por este versículo que esse dom não era comum a todos. Não há uma única passagem da Escritura que expresse a necessidade de se falar em línguas – nem como evidência de salvação ou de outra coisa.


Alguns acreditam que aqueles que falam em línguas falam na língua dos anjos. Eles citam o apóstolo Paulo: “Porque o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios” (1 Co 14:2). “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos” (1 Co 13:1). Quanto ao primeiro versículo, é uma extrapolação injustificada sugerir que ele apoia o argumento. Se alguém falasse russo, mandarim ou hindi, de nada me aproveitaria, embora Deus pudesse entender. Como Paulo disse mais tarde: “Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro [estrangeiro] para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro [estrangeiro] para mim” (1 Co 14:11). Nenhuma menção de anjos aqui! Quanto ao segundo versículo, Paulo usou esta expressão para mostrar que mesmo que ele pudesse falar em todas as várias línguas dos homens, e mais do que isso, nas línguas dos anjos, sem amor, ele poderia ser tanto como o metal que soa ou como o sino que tine. Não podemos concluir disso que Paulo, ou qualquer outra pessoa, falou na língua dos anjos. O dom de línguas foi a resposta de Deus à confusão que resultou de Babel (Gn 11:1-9); não foi para aumentá-la. Em 1 Coríntios 13, Paulo considera as coisas que incham os santos em Corinto – línguas, profecia, conhecimento, ciência, fé (vs. 1-2) – e mostra que sem amor o exercício desses dons não beneficia a ninguém. Perto do final do capítulo, Paulo diz claramente: “O amor nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá” (v. 8 – JND). A profecia e a ciência serão aniquiladas quando “vier o que é perfeito” (v. 10). Com relação às línguas, no entanto, não diz que “serão aniquiladas”, nem o décimo versículo fala isso; o versículo oito diz claramente que as línguas cessarão.


O Espírito de Deus não nos ocupa conosco, mas com o Senhor Jesus Cristo. Nunca é demais enfatizar que o testemunho adequado do Espírito de Deus não é a exaltação do homem, nem mesmo do Espírito Santo, mas do Senhor Jesus Cristo. “Mas, quando vier o Consolador, que Eu da parte do Pai vos hei de enviar, Aquele Espírito da verdade, que procede do Pai, testificará de Mim (Jo 15:26). O Senhor também disse a Seus discípulos: “Mas Aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, Esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito (Jo 14:26). O Espírito Santo é o nosso Mestre, dando testemunho da verdade e relembrando as palavras do Senhor Jesus. “Mas, quando vier Aquele Espírito da verdade, Ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir. Ele Me glorificará, porque há de receber do que é Meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16:13-14).


Temos nos concentrado no abuso dos dons espirituais e, especialmente, dons de sinais, mas é igualmente importante reconhecer que cada um de nós tem um dom. “Mas a manifestação do Espírito é dada a todo homem para um fim proveitoso” (1 Co 12:7 – KJV). Devemos ser bons despenseiros [administradores] do dom que recebemos; não devemos deixar nosso dom sem uso: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4:10). Há ocasiões, como aconteceu com Timóteo, em que talvez precisemos ser encorajados a usar o dom que recebemos: “Não desprezes o dom que há em ti” (1 Tm 4:14). E também pode haver ocasiões em que ficamos desanimados e devemos ser lembrados de despertar o dom que existe em nós: “Te lembro que despertes o dom de Deus, que existe em ti” (2 Tm 1:6).


Existe uma diversidade considerável de dons. Alguns são públicos, por exemplo, profecia e ensino – estes são para o ministério da Palavra e a edificação da Igreja. Outros são mais privados, como pastorear, ajudar ou ofertar (Ef 4:11-12; 1 Co 12:27-31; Rm 12:8). Querer saber que dom temos é uma preocupação comum. Essa preocupação, entretanto, tem a tendência infeliz de direcionar os pensamentos para dentro de si. Se, por outro lado, prosseguirmos orando em uma caminhada piedosa e fiel ao Senhor – não vivendo na carne satisfazendo suas concupiscências (1 Pe 4:2-3) – lendo diariamente a Palavra, esperando por Sua orientação, não tenho dúvidas de que Ele colocará em nosso coração um trabalho adequado ao nosso dom. Nosso serviço não será realizado com grande alarde, mas em silêncio para o Senhor.


Dom não deve ser confundido com habilidade. É um erro olhar para nossas habilidades para decidir que dom podemos ter – isso é raciocinar a partir do espírito do homem e muitas vezes é confundido com a direção do Espírito de Deus. Moisés objetou quanto à tarefa que Deus lhe deu porque considerou erroneamente, baseado em suas habilidades (Êx 4:10). Deus nos dará o dom e a habilidade. “E a um deu cinco talentos, e a outro, dois, e a outro, um, a cada um segundo a sua capacidade [habilidade – JND] (Mt 25:15). Da mesma forma, a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4:7). Por confundir dom com habilidade, alguns escolheram um caminho que pouco faz para glorificar a Deus e muito faz para glorificar e divertir o homem.


O Senhor usa quem Ele escolhe. “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Co 3:6-7). O serviço não tem a ver com o servo; é sobre Aquele a Quem servimos. Quando colocamos nossos olhos nos outros e nos comparamos com eles, nosso coração pode facilmente ficar com inveja. “Esses que medem a si mesmos e se comparam consigo mesmos estão sem entendimento” (2 Co 10:12). O foco em si mesmo e no dom sempre resultará em um espírito competitivo e de contenda, como encontramos em Corinto. “Porque ainda sois carnais, pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois, porventura, carnais e não andais segundo os homens?” (1 Co 3:3). “Porque, onde há inveja e espírito faccioso, aí há perturbação e toda obra perversa” (Tg 3:16).




Embora buscar o batismo do Espírito não seja bíblico, desejar ser cheio do Espírito Santo está na Escritura. Vários exemplos, e o poder que acompanha o testemunho do Espírito, são encontrados no livro de Atos (At 2:4; 4:8, 31; 7:55; 11:24; 13:9, 52). Também temos ensino explícito na epístola aos Efésios nos exortando a sermos cheios do Espírito. “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito (Ef 5:18). Quando os discípulos foram cheios do Espírito no dia de Pentecostes, eles foram acusados ​​de estarem embriagados com vinho (At 2:13). Esta foi mais do que uma acusação caluniosa. O vinho oferece uma experiência falsa em comparação à alegria do Espírito (Gl 5:22). Não estou sugerindo que o comportamento de um homem bêbado espelhe aquele cheio do Espírito Santo. Ao contrário, “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14:32). Ou seja, os profetas estão no controle de seu espírito. O fruto do Espírito é exatamente o autocontrole (Gl 5:22). Em vez disso, o paralelo pode ser traçado em outro lugar; é “o vinho que alegra o coração do homem” (Sl 104:15). Nisto, o vinho não está sozinho; há muitas coisas que podem nos oferecer experiências espirituais falsas. A música pode fazer nosso espírito voar alto; também pode nos deixar melancólicos e tristes. Uma multidão cantando em uníssono com música alta, de ritmo pesado, com luzes coloridas e piscando terá um efeito poderoso sobre a mente. Podemos encontrar igrejas, assim chamadas, onde isso é apresentado como adoração; é uma falsa imitação. Não é difícil pesquisar na internet para encontrar grupos que anunciam este tipo de adoração como sendo ‘cheios do Espírito’.


Não encontramos nenhum exemplo de instrumentos musicais sendo usados ​​na adoração no Novo Testamento; isso estava associado ao culto judaico, um culto adequado ao homem natural. Por outro lado, somos instruídos: “Falando entre vós com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração(Ef 5:19), e novamente: “Ofereçamos sempre, por Ele, a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o Seu nome” (Hb 13:15). Embora esses versículos falem de cantar, eles não mencionam instrumentos musicais. Por que, então, foram introduzidos na adoração Cristã? Por que o papel que desempenham aumentou nos últimos anos? A adoração moderna é sobre criar um sentimento em nós, em vez da adoração a Deus fluir de nós. O homem busca um auxílio para preenchê-lo com um “sentimento de adoração”. A desonra que mostramos a Deus ao trazermos os princípios judaicos de adoração (e pior ainda, pagão) ao Cristianismo, simplesmente não é reconhecida. Esta é a versão moderna da condição encontrada no livro de Malaquias: “Se ofereceis o coxo ou o enfermo, não faz mal? (Ml 1:8). A reação a tal declaração é: “Em que desprezamos nós o Teu nome?” (Ml 1:6-7). É o espírito de Laodiceia: “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta (e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu)” (Ap 3:17).


Por que não somos cheios do Espírito Santo? Quando preenchemos nossa vida com atividades e buscas terrenais, o Espírito de Deus é excluído. O remanescente fiel nos dias de Ageu estava ocupado construindo para si belas casas, e, no entanto, a casa de Deus permanecia em ruínas. Não há nada propriamente errado com uma boa casa, mas seremos mais pobres se Deus for excluído. A mensagem de Deus para eles era simples e direta: “Aplicai o vosso coração aos vossos caminhos” (Ag 1:7). Da mesma forma, nos beneficiaríamos com uma reavaliação de nossos próprios caminhos. Jeová os lembra: “Segundo a palavra que concertei convosco, quando saístes do Egito, e o Meu Espírito habitava no meio de vós; não temais” (Ag 2:5). O Espírito não mudou. Fomos nós que mudamos. Como aconteceu com os santos efésios, perdemos o frescor do primeiro amor e toda a afeição e agir que o acompanha (Ap 2:4).


Não devemos, entretanto, esperar um derramamento do Espírito de Deus como no dia de Pentecostes. A pretensão espiritual é tão ruim quanto a indiferença espiritual. A condição do remanescente judeu nos dias de Ageu resultou da mão de governo de Deus sobre eles. A glória da casa de Deus não era nada comparada à sua glória anterior – é Deus Quem os lembra disso (Ag 2:3). Rejeitar o conselho de Deus contra nós mesmos é farisaico (Lc 7:30). Devemos assumir e reconhecer a ruína do testemunho Cristão e nossa parte nele.


Tão verdadeiramente quanto podemos ser cheios do Espírito, também podemos entristecê-Lo. “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no Qual estais selados para o dia da redenção” (Ef 4:30). Quando agimos contrariamente à mente do Espírito, o Espírito Se entristece. Várias maneiras pelas quais podemos fazer isso são dadas nos versículos que se seguem: amargura, ira, cólera, gritaria e palavras ofensivas (Ef 4:31). As marcas características do Espírito também são dadas: “Sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4:32). Um espírito que não perdoa, em especial, parece ser uma ofensa ao Espírito Santo. O perdão é entregar um assunto a Deus. A dívida é frequentemente usada na Palavra de Deus para ilustrar o perdão (Mt 6:12-15; 18:21-35; Lc 7:41-43). No Velho Testamento, o perdão de uma dívida é chamado de “remissão de Jeová” (Dt 15:2 – JND). O assunto é inteiramente entregue a Deus: todas as reivindicações são renunciadas, o ofensor é liberado de suas obrigações e o assunto é encerrado. Inquestionavelmente, o perdão nos custa alguma coisa, pois a dívida não é paga – pelo menos não pelo indivíduo em questão. Deus, no entanto, não é devedor; Ele pagará (Rm 12:19). Falhar em perdoar não prejudica a parte ofensora; mas prejudica a nós mesmos e entristece o Espírito Santo.


“Não extingais o Espírito” (1 Ts 5:19). Extinguir o Espírito é suprimir a atividade do Espírito. Podemos fazer isso como indivíduos, mas a declaração é mais ampla. As instruções no final da primeira carta de Paulo aos tessalonicenses são exortações gerais à assembleia – a exortação que se segue, por exemplo, “Não desprezeis as profecias” (v. 20). A atividade do Espírito é extinguida sempre que um substituto é colocado no lugar da condução do Espírito Santo – um programa de adoração, um líder de adoração, um ministro que conduz o serviço – cada um desses se coloca no lugar da direção do Espírito. Será perguntado, mas certamente o Espírito pode dirigir o líder de adoração ou ministro? Ele pode decidir assim fazer, mas por que ditaríamos os canais por meio dos quais o Espírito pode agir? Esta é uma enorme presunção de nossa parte. Estabelece um clero distinto em relação a leigos, uma divisão da qual a Escritura não fala. A ordem sacerdotal do Velho Testamento foi eliminada. Em seu lugar, todo verdadeiro crente está diante de Deus como um sacerdote: “Jesus Cristo... e nos fez reis e sacerdotes para Deus e Seu Pai” (Ap 1:5-6). Introduzir um mediador ou restringir o canal pelo qual o Espírito Santo pode agir, especialmente na adoração, é uma afronta direta à obra de nosso Senhor Jesus Cristo. Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela Sua carne, e tendo um grande Sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado com água limpa” (Hb 10:19-22). Esses versículos são para todos nós. Nos mostram a liberdade de todo verdadeiro crente em Cristo de aproximar-se de Deus em adoração, em contraste com o acesso restrito permitido pela Lei. A Cristandade rapidamente recuou desse amplo acesso e restringiu o serviço sacerdotal a apenas alguns.




Tentei destacar algumas das características singulares da ministração do Espírito Santo nesta dispensação. Um livreto como este é claramente insuficiente para abordar totalmente esse rico assunto. Felizmente, existem excelentes recursos aos quais um leitor interessado pode recorrer: “Another Comforter” de W. T. P. Wolston, e “Lectures on the Doctrine of The Holy Spirit” de William Kelly são dois que vêm à mente.




 

[1] Muitas traduções dão um significado alternativo: “Não permanecerá o Meu Espírito para sempre com o homem” (como faz a AIBB, TB). É o Meu Espírito, o Espírito de Jeová, não a força vital dentro do homem. E o uso de permanecer em vez de contender é inconsistente com seu uso em outros lugares, onde há o sentido de julgar, interceder ou conflitar.

[2] Não estamos “na carne”; esta não é mais nossa condição diante de Deus. A vida Cristã é governada pelo Espírito e não pela carne. Nós ainda temos a carne em nós e ela aparecerá quando falharmos em andar no bem dessa nova vida em Cristo.

[3] Foi no poder do Espírito Santo que Cristo agiu em Sua vida (At 10:38; Mt 12:28; Hb 9:14; 1 Pe 3:18; etc.). Sua vida, como um Homem, foi a própria expressão da operação do Espírito Santo.

[4] Ser trazido à vida.

[5] Este versículo não fala da salvação da alma; no entanto, se podemos contar com Deus para a realização de Sua obra até sua conclusão, quanto à vida Cristã, certamente podemos contar com Ele para consumar o trabalho que Ele inicia na alma.

[6] Outro do mesmo tipo – a palavra grega é allos e não heteros (de onde obtemos a palavra heterogêneo, diverso em espécie ou natureza).

[7] Incorporar: formar um corpo.

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