A Ceia do Senhor

Atualizado: Mar 10

ÍNDICE

NOTAS DO EDITOR

PREFÁCIO DO AUTOR

PENSAMENTOS ACERCA DA CEIA DO SENHOR

A NATUREZA DA ORDENAÇÃO DA CEIA DO SENHOR

AS CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE FOI INSTITUÍDA A CEIA DO SENHOR

PARA QUEM FOI INSTITUÍDA A CEIA DO SENHOR

A OCASIÃO E A MANEIRA DE CELEBRAR A CEIA DO SENHOR


NOTAS DO EDITOR


Desde que foi escrito por Charles H. Mackintosh (1820-1896), este artigo sobre a Ceia do Senhor tem sido de grande auxílio a milhares de Cristãos em todo o mundo. Particularmente no Brasil, foi um dos instrumentos usados por Deus para ajudar a despertar a consciência de vários irmãos, hoje reunidos somente ao nome do Senhor, para a verdade, hoje tão menosprezada, da unidade do corpo de Cristo e da expressão dessa unidade no “um só pão”. Aqueles que o leram, certamente não ficaram alheios à importância e ao privilégio de se obedecer à ordenança do Senhor, celebrando a Sua Ceia, memorial de Sua morte por nós, da maneira, no lugar e sobre os fundamentos que Ele próprio instituiu.


Visando tornar disponível a um maior número de pessoas as verdades que este texto expõe com tanta clareza, Verdades Vivas publicou, em 1988, uma edição de A Ceia do Senhor, valendo-se de uma tradução então existente, feita em Portugal, eliminando do texto apenas as características e grafia peculiares àquele país. Esgotada essa edição, decidimos fazer uma nova tradução a partir do original em inglês.


Sendo assim, apresentamos aos leitores de língua portuguesa a versão integral do texto de C. H. Mackintosh, esperando que muitos possam ter seus corações tocados por tão importante assunto, e venham a atender ao amoroso convite do Senhor, celebrando a memória da Sua morte, até que Ele venha nos buscar.


PREFÁCIO DO AUTOR

A ordenação da Ceia do Senhor deve ser considerada por toda mente espiritual, como uma prova particularmente tocante do benigno cuidado do Senhor e de Seu terno amor por Sua Igreja. Desde a época de sua instituição até o tempo presente, a ceia tem sido um testemunho contínuo, embora silencioso, da verdade que o inimigo tem procurado corromper e colocar de lado por todos os meios ao seu alcance, de que a redenção é um fato consumado para ser desfrutado até pelo mais simples crente em Jesus.


Passaram-se dezoito séculos [1] desde que o Senhor Jesus designou “o pão e o cálice” na ceia como significativos símbolos do Seu corpo oferecido e do Seu sangue derramado por nós, e apesar de toda heresia, toda divisão, e toda controvérsia e discórdia, e da guerra de princípios e preconceitos que a página manchada da história eclesiástica registra, esta ordenação tão expressiva tem sido observada pelo povo de Deus em todas as épocas. [1] N. do T.: O autor viveu no século XIX.


É verdade que o inimigo tenha conseguido, em um amplo segmento da igreja professa, envolver a ceia do Senhor em uma mortalha de negra superstição, apresentando-a de uma maneira tal que efetivamente escondesse do participante a grandiosa e eterna realidade daquilo que é memorial, substituindo Cristo e Seu sacrifício consumado por uma ordenança sem efeito algum - uma ordenança que, além de tudo, pelo modo como é administrada, prova ser de total inutilidade e oposição à verdade. Mesmo assim, não obstante o erro fatal de Roma relativo à ordenança da Ceia do Senhor, a mesma Ceia continua a comunicar, a todo ouvido circunciso e a toda mente espiritual, a mesma verdade profunda e preciosa – ela anuncia “a morte do Senhor até que venha” (1 Co 11.26). O corpo foi oferecido, o sangue foi derramado UMA VEZ, para não ser mais repetido; e o partir do pão nada mais é do que o memorial dessa verdade emancipadora.


Portanto, com que profundo interesse e gratidão deveria o crente contemplar “o pão e o cálice”! Sem que seja proferida uma única palavra, são ali anunciadas verdades ao mesmo tempo tão preciosas quanto gloriosas: a graça reinando; a redenção consumada; o pecado tirado; a justiça eterna introduzida; o aguilhão da morte banido; a glória eterna assegurada; “graça e glória” reveladas como o dom gracioso de Deus e do Cordeiro – a unidade de “um só corpo”, assim batizado por “um Espírito”. Que festa! Conduz a alma, num abrir e fechar de olhos, de volta no tempo, através de um período de mil e oitocentos anos, e mostra-nos o próprio Senhor, “na noite em que foi traído”, sentado à mesa da ceia e instituindo ali uma festa que, desde aquela noite solene até ao raiar da manhã, deveria conduzir cada coração crente, ao mesmo tempo, para a cruz que passou e para a glória que virá!


Desde então, esta festa, e pela própria simplicidade do seu caráter e devido ao profundo significado dos seus elementos, tem condenado a superstição, que iria querer deificá-la e adorá-la, a irreverência, que iria procurar profaná-la, e a infidelidade, que a poria inteiramente de lado. E, além disso tudo, ao mesmo tempo que tem condenado todas estas coisas, ela tem fortalecido, confortado e levado refrigério ao coração de milhões dos amados filhos de Deus. É doce pensarmos nisto - é doce termos em mente, quando nos reunimos, no primeiro dia da semana, em torno da Ceia do Senhor, que apóstolos, mártires e santos têm se reunido em torno deste banquete e encontrado ali, segundo a sua medida de compreensão, refrigério e bênção. Escolas de teologia têm surgido, florescido e desaparecido; doutores e pais têm acumulado volumes de teologia; heresias implacáveis têm obscurecido a atmosfera e rasgado a igreja professa de uma ponta à outra; a superstição e o fanatismo têm mostrado as suas teorias sem fundamento e ideias extravagantes; Cristãos professos dividiram-se em inumeráveis seitas - todas essas coisas aconteceram, mas a Ceia do Senhor tem continuado, em meio às trevas e confusão, a contar a sua história simples, mas abrangente: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha” (I Cor. 11:26).


Preciosa festa! Graças a Deus pelo grande privilégio de celebrá-la! E ainda assim ela não passa de um símbolo cujos elementos devem ser, aos olhos naturais, pobres e desprezíveis. Pão partido, vinho derramado - quão simples! Somente a fé pode identificar o símbolo, as coisas representadas, e a fé não necessita das circunstâncias fortuitas que a falsa religião introduziu com o fim de acrescentar dignidade, solenidade e temor àquilo que deve todo o seu valor, seu poder e sua impressionabilidade ao fato de ser um memorial de um fato eterno que a falsa religião nega..


Que eu e você, querido leitor, possamos penetrar com mais alento e inteligência no significado da Ceia do Senhor, e com uma experiência mais profunda nessa bem-aventurança que é o partir aquele pão que é a “comunhão do corpo de Cristo” e o beber daquele cálice que é a “comunhão do sangue de Cristo”.


Ao terminar estas poucas linhas introdutórias, encomendo este artigo aos ternos cuidados do Senhor, rogando a Ele que possa usá-lo para as almas de Seu povo.


PENSAMENTOS ACERCA DA CEIA DO SENHOR

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei: isto é o Meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de Mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no Meu sangue: fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de Mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Co 11:23-26).


Desejo fazer alguns comentários sobre o assunto da Ceia do Senhor, com o propósito de dirigir a atenção de todos aqueles que amam o nome de Cristo, e as coisas que Ele instituiu, a um interesse mais fervoroso e afetivo nesta importante e revigorante ordenança.


Devemos bendizer ao Senhor por sua bondosa consideração instituindo, em vista de nossa necessidade, um memorial da Sua paixão, e também por haver estabelecido uma mesa à qual todos os Seus membros possam se achegar, sem qualquer outra condição além daquela que é indispensável: a ligação pessoal e obediência a Ele.


O bendito Senhor conhecia muito bem a inclinação dos nossos corações de nos esquivarmos d’Ele, e uns dos outros, e pelo menos um dos Seus propósitos na instituição da Ceia foi o de impedir esta nossa tendência.


Ele desejava reunir o Seu povo em torno da Sua bendita Pessoa; desejava pôr-lhes uma mesa onde, tendo em vista o Seu corpo ferido e o Seu sangue derramado, pudessem lembrar d’Ele e da intensidade do Seu amor por eles, e de onde pudessem também olhar adiante, para o futuro, e contemplar a glória da qual a cruz é o eterno fundamento. Ali, mais do que em qualquer parte, eles aprenderiam a esquecer as suas divergências e a amarem-se uns aos outros; ali poderiam ver à sua volta aqueles que o AMOR DE DEUS havia convidado para banquetear, e aos quais O SANGUE DE CRISTO teria tornado idôneos para que ali estivessem.


Todavia, a fim de poder comunicar mais facilmente ao meu leitor o que tenho a dizer sobre este assunto, vou limitar-me aos quatro tópicos seguintes:

  1. A natureza da ordenança da Ceia do Senhor.

  2. As circunstâncias em que foi instituída a Ceia do Senhor.

  3. Para quem foi instituída a Ceia do Senhor.

  4. A ocasião e a maneira de celebrar a Ceia do Senhor.


1-A NATUREZA DA ORDENAÇÃO DA CEIA DO SENHOR

Este é um ponto de grande importância. Se não compreendermos a natureza desta ordenança, vamos nos perder em nossos pensamentos acerca dela. A Ceia é, portanto, pura e simplesmente uma festa de ação de graças - de agradecimento por graça já recebida. O próprio Senhor, quando da sua instituição, assinala o seu caráter dando graças: “E, tomando o pão, e havendo dado graças...” (Lc 22.19). Louvor, e não oração, é a expressão adequada àqueles que se sentam à mesa do Senhor. É verdade que tenhamos muito pelo que orar, muito a confessar, muito que lamentar, mas a mesa não é lugar para lamentações: a linguagem que emana dela é: “Dai bebida forte aos que perecem, e o vinho aos amargosos do espírito; para que bebam, e se esqueçam da sua pobreza, e do seu trabalho não se lembrem mais”. (Pv 31.6,7).


Nosso cálice é um “cálice de bênção”, um cálice de ação de graças, o símbolo divinamente designado para aquele sangue precioso que obteve nosso resgate. “O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1Co 10.16). Como, então, poderíamos parti-lo com corações tristes ou semblantes carregados? Poderiam os membros de uma família, depois das fadigas do dia, se assentar à mesa da ceia com corações tristes e semblantes descaídos? É claro que não. A ceia era a refeição mais importante da família, a única que reunia toda a família. Os rostos que talvez não fossem vistos durante o dia, certamente estariam presentes à mesa da ceia, e não há dúvida de que se sentiriam felizes por estarem ali. O mesmo deveria acontecer na Ceia do Senhor: a família deveria estar reunida ali, e quando reunidos, deveriam estar alegres, verdadeiramente felizes, no amor que os reúne. É verdade que cada coração pode ter a sua própria história peculiar - suas tristezas íntimas, provas, fracassos e tentações, coisas essas desconhecidas de todos os demais; mas não são elas o objeto a ser contemplado na ceia: expô-las seria desonrar o Senhor da festa, e fazer do cálice de bênção um cálice de dor.


O Senhor nos convidou para a festa, e ordenou que, apesar de todas as nossas deficiências, puséssemos a plenitude do Seu amor e a eficácia do Seu sangue entre as nossas almas e tudo mais; e quando o olhar da fé está ocupado com Cristo, não há lugar para nada mais. Se o meu pecado for o objeto em vista e o que prende os meus pensamentos, é natural que eu deva sentir-me miserável, pois estou olhando na direção exatamente oposta daquilo que Deus ordena que eu contemple; estou recordando a minha miséria e pobreza, que é exatamente o que Deus me manda esquecer. Deste modo é perdido o verdadeiro caráter da ordenança que, ao invés de ser uma festa de gozo e alegria, torna-se uma ocasião de melancolia e de depressão espiritual; e a preparação para ela, e os pensamentos a seu respeito, acabam ficando mais para aquilo que se podia esperar em relação ao Monte Sinai (Êxodo 19), do que a alegre festa de família.


Se alguma vez pudesse prevalecer um sentimento de tristeza na celebração dessa ordenança, seria, sem dúvida, quando da sua primeira instituição, quando, conforme veremos ao tratarmos do segundo ponto de nosso assunto, havia tudo aquilo que podia possivelmente produzir profunda tristeza e desolação de espírito. Todavia, mesmo assim, o Senhor Jesus pôde dar graças; o gozo que inundava a Sua alma era profundo demais para ser perturbado pelas circunstâncias ao Seu redor. Ele sentiu gozo até mesmo nas pisaduras e nos ferimentos de Seu corpo e no derramamento do Seu sangue, gozo esse que está muito além do alcance da compreensão e do sentimento humano. E se Ele pôde alegrar-se em espírito e dar graças ao partir aquele pão que deveria ser, para todas as gerações futuras dos fiéis, o memorial do Seu corpo oferecido, não deveríamos nós regozijarmos com isso, nós que estamos firmados nos benditos resultados de toda a Sua obra e paixão? Sim, isso nos faz regozijar.


Mas alguém poderá perguntar: Não deve existir uma preparação adequada? Devemos nos sentar à mesa do Senhor com tanta indiferença como se nos sentássemos à mesa de uma ceia qualquer? É claro que não - precisamos ser genuínos em nossos motivos, e o primeiro passo para se conseguir isso é ter paz com Deus - aquela doce certeza de nossa salvação eterna que certamente não é o resultado de suspiros ou lágrimas de penitência vindos do homem, mas a consequência simples da obra consumada do Cordeiro de Deus, confirmada pelo Espírito de Deus. Conhecendo isto mediante a fé, sabemos o que é que nos torna perfeitamente aptos para Deus.


Há muitos que pensam estar acrescentando honra à mesa do Senhor quando se aproximam dela com as suas almas curvadas até o pó, sob um sentimento do peso insuportável dos seus pecados. Tal pensamento só pode provir do legalismo do coração humano, essa fonte sempre fértil de pensamentos que são, ao mesmo tempo, desonrosos para Deus, desonrosos para a cruz de Cristo, injuriosos para o Espírito Santo e completamente perturbadores da nossa paz. Podemos nos sentir satisfeitos pela honra e a pureza da mesa do Senhor serem mais plenamente mantidas quando O SANGUE DE CRISTO é tido como o ÚNICO direito de aproximação, do que quando se acrescentam a ele a dor e a penitência humana.[2]

[2] N. do A.: É necessário que tenhamos em mente que, apesar de ser somente o sangue de Cristo o que introduz o crente, em santa ousadia, na presença de Deus, ainda assim, em nenhum lugar, ele é apresentado como sendo nosso centro ou vínculo de união. É deveras precioso para cada alma lavada pelo sangue recordar, no secreto da presença divina, que o sangue expiador de Jesus removeu para sempre seu pesado fardo de pecado. Contudo, o Espírito Santo só pode nos reunir à Pessoa de um Cristo ressuscitado e glorificado, o Qual, havendo derramado o sangue do concerto eterno, subiu ao céu no poder de uma vida que não se acaba, à qual a justiça divina se liga inseparavelmente. Um Cristo vivo é, portanto, o nosso centro e elo de união. Havendo o sangue satisfeito a Deus a nosso respeito, reunimo-nos em torno de nossa Cabeça ressuscitada e exaltada no céu. “Eu, quando for levantado da Terra, todos atrairei a Mim” (Jo 12.32).

Vemos, no cálice da Ceia do Senhor, o símbolo do sangue derramado; mas não nos reunimos em torno do cálice, nem do sangue, mas em torno d’Aquele que o verteu. O sangue do Cordeiro removeu todos os obstáculos à nossa comunhão com Deus; e, como prova disso, o Espírito Santo veio batizar os crentes em um só corpo, e reuni-los em torno da Cabeça ressuscitada e glorificada. O vinho é o memorial de uma vida derramada pelo pecado; o pão, o memorial de um corpo oferecido pelo pecado, mas não estamos reunidos em torno de uma vida que foi entregue, nem de um corpo oferecido, mas em torno de um Cristo vivo, que não morre mais, e cujo corpo não pode ser oferecido outra vez, nem o Seu sangue ser derramado de novo.

Há nisto uma grande diferença; e quando encarada em conexão com a disciplina da casa de Deus, a diferença torna-se imensamente importante. Há muitos que estão prontos a julgar que, quando alguém é posto fora ou recusado à comunhão, esteja sendo questionado se existe uma ligação entre a sua alma e Cristo. Uma breve consideração deste ponto, à luz das Escrituras, bastará para provar que tal dúvida não é levantada. Se considerarmos o caso do “iníquo” de 1 Coríntios 5, veremos nele um que foi posto fora da comunhão da Igreja na Terra, mas que, todavia, era, como se costuma dizer, um cristão. Portanto, ele não foi afastado por não ser cristão: tal dúvida nunca foi levantada, nem deveria ser, não importa em que circunstância for.

Como podemos nós dizer se alguém está eternamente ligado a Cristo ou não? Porventura temos nós a guarda do livro da vida do Cordeiro? Estaria a disciplina da Igreja de Deus fundamentada sobre o que nós podemos ou não saber? Estaria o homem de 1 Coríntios 5 eternamente ligado a Cristo ou não? Acaso a Igreja foi incumbida de investigar isso? Vamos até supor que pudéssemos ver o nome de alguém inscrito no livro da vida, ainda assim isto não seria a base para o recebermos na assembleia na Terra, ou para o conservarmos nela. A responsabilidade que cabe à Igreja é a de se conservar pura na doutrina, pura na prática e nas suas associações, e tudo isso com base no fato de ser a Casa de Deus. “Mui fiéis são os Teus testemunhos: a santidade convém à Tua casa, Senhor, para sempre” (Sl 93.5). Será que quando alguém era separado ou “cortado” da congregação de Israel, era por não ser ele israelita? De modo algum; mas por causa de alguma contaminação moral ou cerimonial que não poderia ser permitida na Assembleia de Deus. No caso de Acã (Josué 7), não obstante haver seiscentas mil almas que desconheciam o seu pecado, Deus disse, “Israel pecou”. Por quê? Porque eram considerados como a Assembleia de Deus, e nela havia impureza que, se não fosse julgada, acabaria com tudo.


Contudo, a questão da preparação será melhor entendida à medida em que formos desenvolvendo o assunto. Quero, no entanto, frisar outro princípio ligado com a natureza da Ceia do Senhor, a saber, que existe o reconhecimento inteligente da unidade do corpo de Cristo em ligação com ela. “O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só corpo: porque todos participamos do mesmo pão” (1Co 10.16,17). Ora, havia faltas lamentáveis e triste confusão a este respeito em Corinto: com efeito, o grande princípio da unidade parecia ter sido completamente perdido de vista em Corinto. Por isso o apóstolo observa que “quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia” (1 Co 11.20-21). Havia isolamento, e não unidade; era uma questão individual e não corpórea: a expressão “a sua própria ceia” é posta em claro contraste com “a ceia do Senhor”.


A Ceia do Senhor requer que o corpo seja totalmente reconhecido: se o corpo não for reconhecido, não passa de sectarismo, e o próprio Senhor já não tem o Seu lugar. Se a mesa for posta sobre qualquer princípio mais limitado do que aquele que abrange todo o corpo de Cristo, torna-se uma mesa sectária e perde seu direito sobre os corações dos fiéis. Por outro lado, onde quer que a mesa seja posta sobre este princípio divino, que abrange todos os membros do corpo simplesmente como tais, todo aquele que se recusar a comparecer, é culpado de cisma, e isto também segundo os claros princípios de 1 Coríntios 11. “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são aprovados se manifestem entre vós” (1 Co 11:19). Quando o grande princípio da Igreja é deixado de lado por qualquer segmento do corpo, é forçoso que haja heresias, para que os que são aprovados possam se manifestar. E em circunstâncias assim, torna-se o dever de cada um examinar-se a si próprio, e assim comer a Ceia. Os “aprovados” permanecem em contraste com os hereges, ou aqueles que faziam a sua própria vontade[3].

[3] *N. do A.: Aqueles que entendem o grego poderão observar que no original deste capítulo tão importante, a palavra traduzida por “aprovados” (vers.19) provém da mesma raiz daquela que é traduzida como “examine-se” (vers.28). Vemos assim que o homem que se examina a si mesmo, toma o seu lugar entre os que são aprovados, e é exatamente o contrário daqueles que estavam entre os hereges. Ora, o significado da palavra herege não é meramente aquele que professa falsas doutrinas, se bem que alguém possa ser herege por fazê-lo, mas trata-se de uma pessoa que persiste em fazer a sua própria vontade. O apóstolo sabia que importava haver heresias em Corinto, vendo que havia ali seitas: aqueles que estavam fazendo sua própria vontade agiam em oposição à vontade de Deus, e assim causavam divisão, pois a vontade de Deus tinha a ver com todo o corpo. Aqueles que estavam agindo hereticamente estavam desprezando a Igreja de Deus.


Mas alguém poderia perguntar: Acaso as numerosas denominações existentes atualmente na Igreja professa não acabam com a ideia de se conseguir unir todo o corpo? E em circunstâncias assim, não é melhor que cada denominação tenha a sua própria mesa? Se existe algo que uma pergunta como esta possa insinuar é que o povo de Deus já não pode atuar segundo os princípios estabelecidos por Deus, mas que lhes resta a miserável alternativa de proceder de acordo com a conveniência humana.


Porém, graças a Deus, não é este o caso. A verdade de Deus permanece para sempre, e o que o Espírito Santo ensina em 1 Coríntios 11 continua a ser uma obrigação para cada membro da Igreja de Deus. Havia divisões, heresias e iniquidade na assembleia de Corinto, do mesmo modo como há divisões, heresias e iniquidade hoje na Igreja professa; mas o apóstolo não lhes disse que estabelecessem mesas separadas como uma alternativa, nem mandou que deixassem de partir o pão como outra. Não, ele insiste com eles nos princípios e na santidade que estão associados com a “Igreja de Deus”, e recomenda aos que podem examinar-se a si mesmos - os “aprovados” do versículo 19 - que comam. A expressão é, “assim coma”. Portanto devemos comer: nosso cuidado deve estar no “assim”, conforme o Espírito de Deus nos ensina; e isto em verdadeiro reconhecimento da santidade e unidade da Igreja de Deus[4].

[4] N. do A.: Talvez seja conveniente acrescentarmos aqui uma palavra para orientação de algum cristão sincero que possa encontrar-se em circunstâncias que obriguem a decidir-se entre as pretensões e legitimidade que possam partir de mesas diferentes, as quais aparentemente tenham sido postas sobre o mesmo princípio. Encorajar alguém a tomar uma decisão correta é, no meu modo de ver, um serviço valioso. Suponhamos, portanto, que eu me encontrasse numa localidade onde duas ou mais mesas tivessem sido postas: o que deveria fazer? Creio que deveria indagar a origem dessas diferentes mesas, a fim de descobrir como se tornou necessário ter mais do que uma mesa. Se, por exemplo, um grupo de crentes, que se reúne num mesmo local, consente e retém entre eles quaisquer princípios errôneos acerca da Pessoa do Filho de Deus, ou que comprometam a unidade da Igreja de Deus na Terra; se, digo, tais princípios são permitidos e mantidos na assembleia, ou se as pessoas que os professam e ensinam são recebidas e reconhecidas pela assembleia; em tais deploráveis e humilhantes circunstâncias, aquele que é fiel não deve mais permanecer naquele lugar. Por quê? Porque não posso tomar o meu lugar a essa mesa sem me identificar com princípios claramente anticristãos. A mesma observação aplica-se, evidentemente, se for um caso de má conduta que não tenha sido julgado pela assembleia.

Agora, se acontece de um grupo de cristãos se encontrar nas circunstâncias acima descritas, a eles caberia a responsabilidade de manter A PUREZA DA VERDADE DE DEUS, reconhecendo ao mesmo tempo a unidade do corpo. Não somente temos de manter a graça da mesa do Senhor, como também a santidade dela. A verdade não pode ser sacrificada para manter a unidade, nem a verdadeira unidade será jamais prejudicada pela estrita observância da verdade.

Não se deve imaginar que a unidade do corpo de Cristo seja prejudicada quando alguém se separa de uma comunidade fundamentada em princípios errôneos, ou que acolha más doutrinas ou práticas errôneas. A Igreja de Roma acusou os Reformadores de causarem divisão por terem eles se separado dela; mas sabemos que a Igreja de Roma era culpada, e ainda é, de cisma porque impunha falsas doutrinas sobre seus membros. Deve ficar bem claro que se a verdade de Deus é colocada em dúvida por qualquer comunidade, e que, para tornar-me membro dessa comunidade, devo identificar-me com alguma doutrina errônea ou mau proceder, então não pode ser divisão, o fato de eu me separar de uma tal comunidade: pelo contrário, tenho o dever de me separar.


Quando a Igreja é desprezada, o Espírito é entristecido e desonrado, o fim será, inevitavelmente, esterilidade espiritual e frio formalismo: e embora os homens possam substituir o poder espiritual pelo intelectual, e os dons do Espírito Santo por habilidade e talento humanos, o fim será “como a tamargueira no deserto” (Jr 17.6). O verdadeiro modo de se progredir na vida divina é viver para a Igreja e não para nós mesmos. O homem que vive para a Igreja, encontra-se em completa harmonia com a vontade do Espírito, e irá, necessariamente, crescer. Ao contrário, o homem que vive para si próprio, tendo os seus pensamentos girando em torno de si, e a sua energia concentrada na sua pessoa, acaba logo tornando-se restringente e formal, e com toda a probabilidade, abertamente mundano. Sim, ele acabará tornando-se mundano, em algum aspecto deste termo tão abrangente; porque o mundo e a Igreja encontram-se em direta oposição entre si; e não existe nenhum outro aspecto em que esta oposição seja vista com maior clareza do que no seu aspecto religioso. Aquilo que é normalmente chamado de mundo religioso revela-se, quando examinado à luz da presença de Deus, muito mais hostil aos verdadeiros interesses da Igreja de Deus do que qualquer outra coisa.


Mas devo passar logo a outras ramificações de nosso assunto, trazendo mais um princípio bem simples ligado à Ceia do Senhor, para o qual quero chamar a especial atenção do leitor Cristão. O princípio é este: a celebração da ordenança da Ceia do Senhor deveria ser a clara expressão da unidade de TODOS os crentes, e não apenas da unidade de um determinado número reunido sobre certos princípios que os diferenciem de outros. Se há algum termo de comunhão proposto, salvo o de suma importância que diz respeito à fé no sacrifício de Cristo e a uma conduta condizente com essa fé, a mesa torna-se a mesa de uma seita e não tem direito algum sobre os corações dos fiéis.


Além do mais, se assentando-me à uma mesa assim, devo identificar-me com qualquer coisa, quer seja um princípio ou uma prática, que não seja ordenada nas Escrituras como um termo de comunhão, também, nesse caso, a mesa torna-se a mesa de uma seita. Não é uma questão de ali existirem ou não Cristãos; na verdade seria difícil encontrar uma mesa entre as comunidades originadas da Reforma da qual não participassem alguns Cristãos. O apóstolo não disse que “até importa que haja entre vós heresias, para que os que são Cristãos se manifestem entre vós. Não, mas “para que os que são aprovados, se manifestem (1Co 11.19).


Tampouco disse, “Examine-se pois o homem a si mesmo para ver se é Cristão, e assim coma”. Não, mas “examine-se pois o homem a si mesmo” (1 Co 11.28). Quer dizer, certifique-se que é um dos que não somente são retos em suas consciências quanto à sua participação individual, mas que estejam também confessando a unidade do corpo de Cristo. Quando os homens estabelecem seus próprios termos para a comunhão, aí você encontrará o princípio da heresia; e aí será também uma divisão. Por outro lado, onde a mesa é posta da maneira e segundo princípios que um Cristão submisso a Deus pode, como tal, tomar o seu lugar, torna-se, então, cisma não comparecer; porque com a nossa presença e andando de acordo com a posição que ali tomamos e a profissão que fazemos, tanto quanto está em nós, confessamos a unidade da Igreja de Deus - esse grande objetivo para o qual o Espírito Santo foi enviado do céu à Terra. Havendo o Senhor Jesus ressuscitado de entre os mortos e tomado o Seu lugar à destra de Deus, enviou o Espírito Santo ao mundo com o propósito de formar um corpo. Note bem: formar um corpo - não muitos corpos. Ele não tem nenhuma condolência por muitos corpos, embora tenha uma bendita compaixão pelos muitos membros que há nesses corpos, pois eles, embora sendo membros de seitas ou divisões, são, todavia, membros de um só corpo; porém Ele não forma os muitos corpos, mas somente o único corpo, “pois todos nós fomos batizados em um Espírito formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1 Co 12.13).


Espero que não haja um mal-entendido quanto a este ponto. Digo que o Espírito Santo não pode aprovar as divisões na Igreja professa, porque Ele Mesmo disse acerca delas, “nisto, porém... não vos louvo” (1Co 11.17). Ele é entristecido por elas - e gostaria de impedi-las; Ele batiza os crentes na unidade de um só corpo, de maneira que não pode ser admitido, por qualquer pessoa inteligente, que o Espírito Santo possa apoiar as divisões, que são uma tristeza e uma desonra para Si.


Todavia, devemos fazer distinção entre a habitação do Espírito na Igreja e Sua habitação nos indivíduos. Ele habita no corpo de Cristo, que é a Igreja (veja 1Coríntios 3.17; Efésios 2.22), e também no corpo do crente, conforme lemos: “O nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus” (1Co 6.19). Portanto, o único corpo ou comunidade no qual o Espírito Santo pode habitar é em toda a Igreja de Deus; e a única pessoa na qual Ele pode habitar é o crente. Mas, como já foi observado, a mesa do Senhor, em qualquer localidade, deveria ser a expressão da unidade de toda a Igreja. Isto nos leva a outro princípio que está associado à natureza da Ceia do Senhor.


A Ceia do Senhor é um ato mediante o qual não só anunciamos a morte do Senhor até que venha, mas onde também damos expressão a uma verdade fundamental, na qual nunca será demais ou inoportuno insistir para com a consciência dos Cristãos em nossa época, isto é, que todos os crentes são “um só pão e um só corpo”. Trata-se de um erro muito comum enxergarmos esta ordenança simplesmente como um meio pelo qual é transmitida graça à alma do indivíduo, e não como um ato relacionado com todo o corpo; e relacionado também com a glória d’Aquele que é a Cabeça da Igreja. Que é um meio pelo qual a graça flui para a alma do que comunga individualmente, não pode haver dúvida, porque há bênção em cada ato de obediência. Mas que a bênção individual seja apenas uma pequena parte, pode ser visto pelo leitor atento de 1 Coríntios 11. É a morte do Senhor e a vinda do Senhor que são apresentadas com proeminência perante as nossas almas na Ceia do Senhor, e onde quer que um destes elementos seja excluído deve haver algo de errado. Se existir qualquer coisa que impeça a plena expressão da morte do Senhor, ou a exposição da unidade do corpo, ou a compreensão clara da vinda do Senhor, então deve haver alguma coisa que está radicalmente errada no princípio sobre o qual a mesa está posta, e precisamos apenas de um “olho simples” (Lc 11.34), e uma vontade inteiramente submissa à Palavra e ao Espírito de Cristo para poder detectar o mal.


Possa o leitor Cristão examinar, agora mesmo, em um espírito de oração, a mesa à qual habitualmente toma o seu lugar, para ver se ela passa pelo tríplice teste de 1 Coríntios 11. Se não passar, você deve abandoná-la, em nome do Senhor e para o bem da Igreja. Há, na Igreja professa, heresias, e há divisões que provém das heresias, mas “examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma” a Ceia do Senhor; e se, de uma vez por todas, alguém perguntar qual é o significado do termo “examine-se”, pode responder que é, em primeiro lugar, ser pessoalmente fiel ao Senhor no ato de partir o pão; e, em segundo lugar, estar desvencilhado de toda e qualquer divisão, assumindo uma posição firme e decidida sobre o amplo princípio que abrange todos os membros do rebanho de Cristo. Não só devemos ter o cuidado de andar em pureza de coração e vida perante o Senhor, mas também de verificar que a mesa da qual participamos nada tenha a ela associada, que possa de algum modo agir como um impedimento à unidade da Igreja. Não se trata de uma questão meramente pessoal.


Não há nada que prove de maneira mais completa a decadência da Cristandade nestes dias ou o terrível grau em que o Espírito Santo é entristecido, do que o miserável egoísmo que mancha, sim, que polui os pensamentos dos Cristãos professos. Tudo é feito para girar em torno da mera questão do ego. É o meu perdão - a minha segurança - a minha paz - o meu jeito de ser e os meus sentimentos, e não a glória de Cristo ou o bem da Sua amada Igreja. Daí a necessidade de aplicarmos ao nosso estado as palavras do profeta Ageu: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Aplicai os vossos corações aos vossos caminhos. Subi ao monte, e trazei madeira, e EDIFICAI A CASA, e dela me agradarei; e EU SEREI GLORIFICADO. Olhastes para muito, mas eis que alcançastes pouco; e esse pouco, quando o trouxestes para casa, eu lhe assoprei. Por que causa? disse o Senhor dos Exércitos: por causa da minha casa, que está deserta, e cada um de vós corre à sua própria casa” (Ag 1.7-9). Eis aqui a raiz da questão. O “eu” permanece em contraste com a casa de Deus; e se o “eu” for colocado como nosso objeto, não é de admirar que haja uma triste falta de gozo, energia e poder espiritual. Para possuirmos estas coisas temos de estar em comunhão com os pensamentos do Espírito. Ele pensa no corpo de Cristo; e se nós estivermos pensando em nós mesmos, devemos necessariamente estar em desacordo com Ele; e as consequências se evidenciam.


2-AS CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE FOI INSTITUÍDA A CEIA DO SENHOR

Havendo tratado daquilo que considero ser, de longe, o ponto mais importante em nosso assunto, devo seguir considerando, em segundo lugar, as circunstâncias em que a Ceia do Senhor foi instituída. Foram circunstâncias particularmente solenes e tocantes. O Senhor estava a ponto de entrar em um terrível conflito com todos os poderes das trevas - iria enfrentar toda a terrível inimizade do homem; e esgotar, até o fim, o cálice da justa ira de Jeová contra o pecado. Tinha diante de Si um terrível amanhã - o mais terrível que jamais foi enfrentado por qualquer homem ou anjo; todavia, a despeito de tudo, lemos que “na noite em que foi traído, tomou o pão” (1Co 11.23). Que amor mais desinteressado! “Na noite em que foi traído” - noite de profunda dor - a noite de Sua agonia e de suor de sangue - a noite em que foi traído por um, negado por outro e abandonado por todos os Seus discípulos - nessa mesma noite, o coração amabilíssimo de Jesus estava cheio de pensamentos acerca da Sua Igreja - foi nessa mesma noite que Ele instituiu a ordenança da Ceia do Senhor. Ele designou o pão para ser o emblema do Seu corpo oferecido, e o vinho para ser o emblema do Seu sangue derramado, e é o que agora eles são para nós, todas as vezes que d’Eles participamos, pois a Palavra assegura que “todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1Co 11.26).


Podemos dizer que tudo isso concede peculiar importância e sagrada solenidade à Ceia do Senhor; e, além disso, nos dá uma ideia das consequências de se comer e beber indignamente.[5]

[5] N. do A.: É comum empregar-se o termo “indignamente”, nesta passagem, às pessoas que celebram, ao passo que a palavra refere-se à maneira de fazê-lo. O apóstolo nunca pensou em questionar o Cristianismo dos coríntios; pelo contrário, no prefácio da sua epístola, ele os vê como a “Igreja de Deus, que está em Corinto... santificados em Cristo Jesus, chamados santos (ou santos por vocação)” (1 Co 1.2). Como poderia ele ter usado esta linguagem no primeiro capítulo e, no capítulo onze, colocar em dúvida a dignidade desses mesmos santos para poderem estar à Ceia do Senhor? Impossível. Ele os considerava como santos, e, como tais, exortou-os a celebrarem a Ceia do Senhor, de uma maneira digna. A questão de se encontrarem entre eles cristãos que não fossem verdadeiros, nunca é levantada; de modo que é de todo impossível que a palavra “indignamente” pudesse ser aplicada a pessoas. A sua aplicação diz respeito unicamente à maneira. As pessoas eram dignas, mas a maneira não o era; e foram convidadas, na sua qualidade de santos, a julgarem-se a si mesmas quanto ao seu modo de proceder, caso contrário o Senhor poderia julgá-las em suas pessoas, como era já o caso de alguns. Em resumo: foram convidadas como verdadeiros cristãos, a julgarem-se a si mesmas. Se tivessem dúvidas de como deviam fazê-lo, então seriam incapazes de julgar o quer que fosse. Eu nunca pensaria em colocar meu filho a julgar se ele é ou não meu filho; mas espero que ele julgue a si próprio quanto ao seu modo de ser, caso contrário, se não o fizer, talvez eu tenha que fazer, por meio de castigo, aquilo que ele deveria ter feito por meio do juízo próprio. É por considerá-lo meu filho que não vou consentir que se sente à minha mesa com a roupa suja e maneiras impróprias.


A voz com que a ordenança sussurra ao ouvido circunciso é sempre a mesma. O pão e o vinho são símbolos de um significado profundo; o trigo moído e a uva esmagada combinam-se para dar forças e alegria ao coração: e não são apenas significativos em si mesmos, mas também são para serem usados na Ceia do Senhor como os próprios emblemas que o bendito Senhor em Pessoa ordenou na noite anterior à Sua crucificação; de modo que a fé pode reconhecer o Senhor Jesus presidindo à Sua própria mesa - pode vê-lo tomar o pão e o vinho, e ouvi-Lo dizer: “Tomai, comei, isto é o Meu corpo”; e também do cálice, “Bebei d’Ele todos; porque isto é o Meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados” (Mt 26.26-28). Em suma, a ordenança reconduz a alma àquela noite à qual já nos referimos - coloca diante de nós toda a realidade da cruz e da paixão do Cordeiro de Deus, em que toda nossa alma pode descansar e se regozijar; faz-nos lembrar, da maneira mais tocante, do amor desinteressado e da pura devoção d’Aquele que, quando o Calvário projetava a sua negra sombra sobre o Seu caminho, e o cálice da justa ira de Jeová contra o pecado, do qual Ele estava a ponto de ser a vítima de expiação, estava sendo cheio para Si, podia, contudo, ocupar-Se de nós e instituir uma festa que haveria de ser ao mesmo tempo a expressão da nossa união com Ele e com todos os membros do Seu corpo.


E acaso não devemos concluir que o Espírito Santo tenha feito uso da expressão “na noite em que foi traído” com o propósito de remediar as desordens que haviam surgido na igreja em Corinto? Porventura não havia uma repreensão severa contra o egoísmo daqueles que tomavam “a sua própria ceia”, na referência que o Espírito faz àquela noite em que o Senhor da festa foi traído? Sem dúvida que havia. Pode o egoísmo prevalecer à vista da cruz? Podem os pensamentos acerca dos nossos próprios interesses, ou das nossas conveniências, ser permitidos na presença d’Aquele que Se sacrificou por nós? É claro que não. Poderíamos nós desprezar propositada e impiedosamente a Igreja de Deus - poderíamos nós insultar ou excluir membros amados do rebanho de Cristo, enquanto contemplássemos essa cruz na qual o Pastor do rebanho e Cabeça do Corpo, foi crucificado?[6] Ah, não! Deixe que os crentes tão somente permaneçam perto da cruz - que se lembrem dessa “noite em que foi traído” - que tenham em mente o corpo oferecido e o sangue derramado do Senhor Jesus Cristo, e logo haverá um fim a toda heresia, divisão e egoísmo.

[6] N. do A.: O leitor há de notar que o texto não toca no assunto da disciplina segundo as Escrituras. Pode haver muitos membros do rebanho de Cristo que não poderiam ser recebidos na Assembleia sobre a Terra, por estarem, possivelmente, contaminados por doutrinas falsas ou práticas errôneas. Porém, embora talvez não os possamos receber, não levantamos, de modo nenhum, a questão de estarem inscritos no livro da vida do Cordeiro. Este assunto não é da competência e nem prerrogativa da Igreja de Deus, “O Senhor conhece os que são Seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2Tm 2.19).