A Ceia do Senhor

Atualizado: Mar 10

ÍNDICE

NOTAS DO EDITOR

PREFÁCIO DO AUTOR

PENSAMENTOS ACERCA DA CEIA DO SENHOR

A NATUREZA DA ORDENAÇÃO DA CEIA DO SENHOR

AS CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE FOI INSTITUÍDA A CEIA DO SENHOR

PARA QUEM FOI INSTITUÍDA A CEIA DO SENHOR

A OCASIÃO E A MANEIRA DE CELEBRAR A CEIA DO SENHOR


NOTAS DO EDITOR


Desde que foi escrito por Charles H. Mackintosh (1820-1896), este artigo sobre a Ceia do Senhor tem sido de grande auxílio a milhares de Cristãos em todo o mundo. Particularmente no Brasil, foi um dos instrumentos usados por Deus para ajudar a despertar a consciência de vários irmãos, hoje reunidos somente ao nome do Senhor, para a verdade, hoje tão menosprezada, da unidade do corpo de Cristo e da expressão dessa unidade no “um só pão”. Aqueles que o leram, certamente não ficaram alheios à importância e ao privilégio de se obedecer à ordenança do Senhor, celebrando a Sua Ceia, memorial de Sua morte por nós, da maneira, no lugar e sobre os fundamentos que Ele próprio instituiu.


Visando tornar disponível a um maior número de pessoas as verdades que este texto expõe com tanta clareza, Verdades Vivas publicou, em 1988, uma edição de A Ceia do Senhor, valendo-se de uma tradução então existente, feita em Portugal, eliminando do texto apenas as características e grafia peculiares àquele país. Esgotada essa edição, decidimos fazer uma nova tradução a partir do original em inglês.


Sendo assim, apresentamos aos leitores de língua portuguesa a versão integral do texto de C. H. Mackintosh, esperando que muitos possam ter seus corações tocados por tão importante assunto, e venham a atender ao amoroso convite do Senhor, celebrando a memória da Sua morte, até que Ele venha nos buscar.


PREFÁCIO DO AUTOR

A ordenação da Ceia do Senhor deve ser considerada por toda mente espiritual, como uma prova particularmente tocante do benigno cuidado do Senhor e de Seu terno amor por Sua Igreja. Desde a época de sua instituição até o tempo presente, a ceia tem sido um testemunho contínuo, embora silencioso, da verdade que o inimigo tem procurado corromper e colocar de lado por todos os meios ao seu alcance, de que a redenção é um fato consumado para ser desfrutado até pelo mais simples crente em Jesus.


Passaram-se dezoito séculos [1] desde que o Senhor Jesus designou “o pão e o cálice” na ceia como significativos símbolos do Seu corpo oferecido e do Seu sangue derramado por nós, e apesar de toda heresia, toda divisão, e toda controvérsia e discórdia, e da guerra de princípios e preconceitos que a página manchada da história eclesiástica registra, esta ordenação tão expressiva tem sido observada pelo povo de Deus em todas as épocas. [1] N. do T.: O autor viveu no século XIX.


É verdade que o inimigo tenha conseguido, em um amplo segmento da igreja professa, envolver a ceia do Senhor em uma mortalha de negra superstição, apresentando-a de uma maneira tal que efetivamente escondesse do participante a grandiosa e eterna realidade daquilo que é memorial, substituindo Cristo e Seu sacrifício consumado por uma ordenança sem efeito algum - uma ordenança que, além de tudo, pelo modo como é administrada, prova ser de total inutilidade e oposição à verdade. Mesmo assim, não obstante o erro fatal de Roma relativo à ordenança da Ceia do Senhor, a mesma Ceia continua a comunicar, a todo ouvido circunciso e a toda mente espiritual, a mesma verdade profunda e preciosa – ela anuncia “a morte do Senhor até que venha” (1 Co 11.26). O corpo foi oferecido, o sangue foi derramado UMA VEZ, para não ser mais repetido; e o partir do pão nada mais é do que o memorial dessa verdade emancipadora.


Portanto, com que profundo interesse e gratidão deveria o crente contemplar “o pão e o cálice”! Sem que seja proferida uma única palavra, são ali anunciadas verdades ao mesmo tempo tão preciosas quanto gloriosas: a graça reinando; a redenção consumada; o pecado tirado; a justiça eterna introduzida; o aguilhão da morte banido; a glória eterna assegurada; “graça e glória” reveladas como o dom gracioso de Deus e do Cordeiro – a unidade de “um só corpo”, assim batizado por “um Espírito”. Que festa! Conduz a alma, num abrir e fechar de olhos, de volta no tempo, através de um período de mil e oitocentos anos, e mostra-nos o próprio Senhor, “na noite em que foi traído”, sentado à mesa da ceia e instituindo ali uma festa que, desde aquela noite solene até ao raiar da manhã, deveria conduzir cada coração crente, ao mesmo tempo, para a cruz que passou e para a glória que virá!


Desde então, esta festa, e pela própria simplicidade do seu caráter e devido ao profundo significado dos seus elementos, tem condenado a superstição, que iria querer deificá-la e adorá-la, a irreverência, que iria procurar profaná-la, e a infidelidade, que a poria inteiramente de lado. E, além disso tudo, ao mesmo tempo que tem condenado todas estas coisas, ela tem fortalecido, confortado e levado refrigério ao coração de milhões dos amados filhos de Deus. É doce pensarmos nisto - é doce termos em mente, quando nos reunimos, no primeiro dia da semana, em torno da Ceia do Senhor, que apóstolos, mártires e santos têm se reunido em torno deste banquete e encontrado ali, segundo a sua medida de compreensão, refrigério e bênção. Escolas de teologia têm surgido, florescido e desaparecido; doutores e pais têm acumulado volumes de teologia; heresias implacáveis têm obscurecido a atmosfera e rasgado a igreja professa de uma ponta à outra; a superstição e o fanatismo têm mostrado as suas teorias sem fundamento e ideias extravagantes; Cristãos professos dividiram-se em inumeráveis seitas - todas essas coisas aconteceram, mas a Ceia do Senhor tem continuado, em meio às trevas e confusão, a contar a sua história simples, mas abrangente: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha” (I Cor. 11:26).


Preciosa festa! Graças a Deus pelo grande privilégio de celebrá-la! E ainda assim ela não passa de um símbolo cujos elementos devem ser, aos olhos naturais, pobres e desprezíveis. Pão partido, vinho derramado - quão simples! Somente a fé pode identificar o símbolo, as coisas representadas, e a fé não necessita das circunstâncias fortuitas que a falsa religião introduziu com o fim de acrescentar dignidade, solenidade e temor àquilo que deve todo o seu valor, seu poder e sua impressionabilidade ao fato de ser um memorial de um fato eterno que a falsa religião nega..


Que eu e você, querido leitor, possamos penetrar com mais alento e inteligência no significado da Ceia do Senhor, e com uma experiência mais profunda nessa bem-aventurança que é o partir aquele pão que é a “comunhão do corpo de Cristo” e o beber daquele cálice que é a “comunhão do sangue de Cristo”.


Ao terminar estas poucas linhas introdutórias, encomendo este artigo aos ternos cuidados do Senhor, rogando a Ele que possa usá-lo para as almas de Seu povo.


PENSAMENTOS ACERCA DA CEIA DO SENHOR

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei: isto é o Meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de Mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no Meu sangue: fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de Mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Co 11:23-26).


Desejo fazer alguns comentários sobre o assunto da Ceia do Senhor, com o propósito de dirigir a atenção de todos aqueles que amam o nome de Cristo, e as coisas que Ele instituiu, a um interesse mais fervoroso e afetivo nesta importante e revigorante ordenança.


Devemos bendizer ao Senhor por sua bondosa consideração instituindo, em vista de nossa necessidade, um memorial da Sua paixão, e também por haver estabelecido uma mesa à qual todos os Seus membros possam se achegar, sem qualquer outra condição além daquela que é indispensável: a ligação pessoal e obediência a Ele.


O bendito Senhor conhecia muito bem a inclinação dos nossos corações de nos esquivarmos d’Ele, e uns dos outros, e pelo menos um dos Seus propósitos na instituição da Ceia foi o de impedir esta nossa tendência.


Ele desejava reunir o Seu povo em torno da Sua bendita Pessoa; desejava pôr-lhes uma mesa onde, tendo em vista o Seu corpo ferido e o Seu sangue derramado, pudessem lembrar d’Ele e da intensidade do Seu amor por eles, e de onde pudessem também olhar adiante, para o futuro, e contemplar a glória da qual a cruz é o eterno fundamento. Ali, mais do que em qualquer parte, eles aprenderiam a esquecer as suas divergências e a amarem-se uns aos outros; ali poderiam ver à sua volta aqueles que o AMOR DE DEUS havia convidado para banquetear, e aos quais O SANGUE DE CRISTO teria tornado idôneos para que ali estivessem.


Todavia, a fim de poder comunicar mais facilmente ao meu leitor o que tenho a dizer sobre este assunto, vou limitar-me aos quatro tópicos seguintes:

  1. A natureza da ordenança da Ceia do Senhor.

  2. As circunstâncias em que foi instituída a Ceia do Senhor.

  3. Para quem foi instituída a Ceia do Senhor.

  4. A ocasião e a maneira de celebrar a Ceia do Senhor.


1-A NATUREZA DA ORDENAÇÃO DA CEIA DO SENHOR

Este é um ponto de grande importância. Se não compreendermos a natureza desta ordenança, vamos nos perder em nossos pensamentos acerca dela. A Ceia é, portanto, pura e simplesmente uma festa de ação de graças - de agradecimento por graça já recebida. O próprio Senhor, quando da sua instituição, assinala o seu caráter dando graças: “E, tomando o pão, e havendo dado graças...” (Lc 22.19). Louvor, e não oração, é a expressão adequada àqueles que se sentam à mesa do Senhor. É verdade que tenhamos muito pelo que orar, muito a confessar, muito que lamentar, mas a mesa não é lugar para lamentações: a linguagem que emana dela é: “Dai bebida forte aos que perecem, e o vinho aos amargosos do espírito; para que bebam, e se esqueçam da sua pobreza, e do seu trabalho não se lembrem mais”. (Pv 31.6,7).


Nosso cálice é um “cálice de bênção”, um cálice de ação de graças, o símbolo divinamente designado para aquele sangue precioso que obteve nosso resgate. “O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1Co 10.16). Como, então, poderíamos parti-lo com corações tristes ou semblantes carregados? Poderiam os membros de uma família, depois das fadigas do dia, se assentar à mesa da ceia com corações tristes e semblantes descaídos? É claro que não. A ceia era a refeição mais importante da família, a única que reunia toda a família. Os rostos que talvez não fossem vistos durante o dia, certamente estariam presentes à mesa da ceia, e não há dúvida de que se sentiriam felizes por estarem ali. O mesmo deveria acontecer na Ceia do Senhor: a família deveria estar reunida ali, e quando reunidos, deveriam estar alegres, verdadeiramente felizes, no amor que os reúne. É verdade que cada coração pode ter a sua própria história peculiar - suas tristezas íntimas, provas, fracassos e tentações, coisas essas desconhecidas de todos os demais; mas não são elas o objeto a ser contemplado na ceia: expô-las seria desonrar o Senhor da festa, e fazer do cálice de bênção um cálice de dor.


O Senhor nos convidou para a festa, e ordenou que, apesar de todas as nossas deficiências, puséssemos a plenitude do Seu amor e a eficácia do Seu sangue entre as nossas almas e tudo mais; e quando o olhar da fé está ocupado com Cristo, não há lugar para nada mais. Se o meu pecado for o objeto em vista e o que prende os meus pensamentos, é natural que eu deva sentir-me miserável, pois estou olhando na direção exatamente oposta daquilo que Deus ordena que eu contemple; estou recordando a minha miséria e pobreza, que é exatamente o que Deus me manda esquecer. Deste modo é perdido o verdadeiro caráter da ordenança que, ao invés de ser uma festa de gozo e alegria, torna-se uma ocasião de melan