A Humanidade de Cristo

Entrar em questões delicadas, como a da Pessoa do Senhor Jesus, tende a enfraquecer a alma, a destruir o espírito de adoração e afeição, e a introduzir perguntas complicadas como se o espírito do homem pudesse saber a maneira pela qual a humanidade e a divindade de Jesus estavam unidas na mesma Pessoa. Disto é dito: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai”. Seria desnecessário dizer que eu não tenho esta pretensão. A humanidade de Jesus não pode ser comparada. Era real e verdadeira humanidade; corpo, alma, carne e sangue, tais como os meus, no que diz respeito à natureza humana. Mas Jesus apareceu em circunstâncias bem diferentes daquelas em que Adão foi achado. Ele veio expressamente para tomar sobre Si nossas dores e enfermidades. Adão não tinha nenhuma delas para suportar; não que a sua natureza não fosse capaz destas coisas em si mesma, ele não estava nas circunstâncias que as gerou. Deus o havia posto em uma posição inacessível ao mal físico, até que ele sucumbiu ao mal moral.


Por outro lado, Deus não estava em Adão. Deus estava em Cristo no meio de toda sorte de misérias e aflições, fadigas e sofrimentos pelos quais Cristo passou, pelo poder de Deus, e com pensamentos dos quais o Espírito de Deus era sempre a fonte, embora eles fossem realmente humanos em sua compaixão.


Adão, antes da queda, não tinha sofrimentos: Deus não estava nele, e nem era o Espírito Santo a fonte de seus pensamentos; após sua queda, o pecado era a fonte de seus pensamentos, mas jamais se passou o mesmo com Jesus.


Por outro lado, Jesus é o Filho do Homem; Adão não era. Mas, ao mesmo tempo, Jesus foi nascido pela virtude divina, e por isso, o “Ente Santo” que nasceu de Maria foi chamado o Filho de Deus: o que não é verdadeiro em nenhum outro. Ele é o Cristo nascido do homem, mas mesmo como homem, nascido de Deus. Portanto, o estado da humanidade n’Ele não é nem o que Adão era antes da queda, nem o que ele se tornou depois dela.


Mas o que foi mudado em Adão pela queda não foi a sua humanidade, mas o estado da humanidade. Adão era um homem tanto antes quanto depois, e depois como antes dela. O pecado entrou na humanidade, que se tornou então alienada de Deus; ela está sem Deus no mundo. Mas com Cristo não foi assim. Ele esteve sempre perfeitamente com Deus, exceto quando Ele sofreu, na cruz, o abandono de Deus na Sua alma. Vemos também que o Verbo Se fez carne. Deus foi manifestado em carne. Atuando assim nessa verdadeira humanidade, Sua presença seria incompatível com pecado na unidade dessa mesma Pessoa.


É um erro supor que Adão tinha a imortalidade em si mesmo. Nenhuma criatura a possui. Todos são sustentados por Deus, “que tem, Ele só, a imortalidade” em essência. Quando aprouve a Deus não manter mais o homem nesse mundo, o homem tornou-se mortal e a sua força terminou: de fato, de acordo com os caminhos e propósitos de Deus, o homem chega até quase mil anos, quando Ele o quer, ou setenta quando assim Lhe apraz. Somente Deus pode decidir que alguém morra mais cedo ou mais tarde, quando o pecado entra, salvo os que vivendo, forem transformados, na volta de Cristo, porque Ele venceu a morte por Seu poder.


Bem, Deus estava em Cristo, o que muda tudo a esse respeito (não quanto à realidade de Sua humanidade, com todas as Suas afeições, sentimentos, desejos naturais de alma e corpo; todos eles estavam em Jesus, e foram consequentemente te afetados por tudo o que O rodeava, mas sempre de acordo com o Espírito e sem pecado)


Bem, Deus estava em Cristo, o que muda tudo a esse respeito (não quanto à realidade de Sua humanidade, com todas as Suas afeições, sentimentos, desejos naturais de alma e corpo; todos eles estavam em Jesus, e foram consequentemente afetados por tudo o que O rodeava, mas sempre de acordo com o Espírito e sem pecado). Ninguém podia tirar a Sua vida; Ele a daria, mas no momento desejado por Deus. Ele é abandonado de fato, pelo efeito da iniquidade dos homens, porque Ele velo vara fazer a vontade de Deus; Ele Se permitiu ser crucificado e morto. Mas no momento em que Ele Se rende, e entrega a Sua vida, o Seu espírito está em Suas mãos. Ele não opera nenhum milagre para impedir o efeito do cruel método de morte que o homem empregou para matá-Lo, no sentido de guardar Sua humanidade dos efeitos da cruz. Ele antes a deixa entregue a esses efeitos. Sua divindade não é empregada para guardar-Se disso, para guardar-Se a Si mesmo da morte; mas é usada para acrescentar a ela todo o Seu valor moral, toda a Sua perfeição à Sua obediência. Ele não opera nenhum milagre para não morrer, antes, Ele faz um milagre em morrer. Ele age de acordo com Seus direitos divinos morrendo, mas não Se guardando da morte; pois Ele entrega Sua alma a Seu Pai, logo que tudo está consumado.


A diferença então de Sua humanidade, não está em que ela não fosse completa e real e ainda como a de Maria, mas está antes no fato de que Sua humanidade era assim por um ato de virtude divina, de tal modo que era sem pecado; e além disso, em vez de ser separado de Deus em Sua alma como todo homem pecador, Deus estava n’Ele. Ele podia dizer, “tenho sede”, “Minha alma está angustiada” e ainda, “Meu coração é como cera, derreteu-se dentro de Minhas entranhas”; mas Ele também podia dizer, “o Filho do Homem que está no céu”, e, “antes que Abraão existisse, Eu Sou”. A inocência de Adão não era Deus manifestado em carne; não era o homem sujeito às circunstâncias em que Sua humanidade foi encontrada, em todas as consequências do pecado.


Por outro lado, a humanidade do homem caído estava sob o poder do pecado, sob uma vontade oposta a Deus, sob circunstâncias que estão em inimizade com Ele. Cristo veio para fazer a vontade de Deus: n’Ele não havia pecado. Havia uma humanidade em Cristo na qual Deus estava, e não humanidade separada de Deus em si mesma. Não era humanidade nas circunstâncias em que Deus havia posto o homem quando ele foi criado, mas nas circunstâncias onde o pecado o havia posto, e nessas circunstâncias, sem pecado; nem nas circunstâncias em que o pecado colocou o homem no seu meio, mas antes naquela em que o divino poder O colocou em todos os Seus caminhos no meio de todas essas circunstâncias nas quais o Espírito Santo revelou-Se a Si mesmo na humanidade de Cristo. Não era o homem onde não havia o mal, como Adão inocente, mas o Homem no meio do mal; não era o homem mau, no meio do mal como Adão caído, mas Homem perfeito, perfeitamente segundo Deus, no meio do mal; Deus manifestado em carne; real, adequada humanidade, mas Sua alma sempre tendo os pensamentos que Deus produz no homem e em absoluta comunhão com Deus, exceto quando Ele sofreu na cruz, onde Ele precisava, quanto aos sofrimentos de Sua alma, ser abandonado por Deus; mais perfeito então, quanto à extensão de Sua perfeição e o grau de obediência, como nunca antes, porque Ele consumou a vontade de Deus na presença de Sua ira, em vez de fazê-lo no gozo de Sua comunhão; e, portanto, Ele pediu que esse cálice fosse passado d’Ele, o que Ele nunca havia feito antes. Ele não podia encontrar Sua comida na ira de Deus.


Nosso precioso Salvador era um homem tanto quanto eu mesmo, quanto a simples e abstrata ideia de humanidade, mas sem pecado, nascido de mulher miraculosamente por divino poder; e além disso, Ele era Deus manifestado em carne.


Havendo dito bastante, eu recomendo com todo o meu coração, evitar discussões e definições sobre a Pessoa de nosso bendito Salvador. Vocês perderiam o cheiro suave de Cristo em seus pensamentos e teriam antes, neles, lugar para a aridez do espírito do homem nas coisas de Deus e nas afeições que a elas pertencem. E um labirinto para o homem, porque ele trabalha nisso por sua própria conta. E como se alguém dissecasse o corpo de seu amigo em vez de alimentá-lo com suas afeições e caráter.


Posso acrescentar que estou tão convencido da incapacidade humana a este que está fora dos ensinamentos o Espírito definir como a divindade e a humanidade estão unidas em Jesus, e estou mesmo pronto para supor que, apesar de o desejo de evitar, eu possa ter caído esse erro e assim ter dito algo que não seja verdadeiro naquilo que escrevi. Que Ele é verdadeiramente homem, Filho do Homem, dependente de Deus como tal, e pecado neste estado de dependência, Deus em Sua indescritível perfeição – isso eu mantenho, e espero mantê-lo, mais do que a minha própria vida. Definir é o que não quero ou pretendo. “Ninguém conhece o Filho senão o Pai”. Se eu encontrar algo que enfraqueça uma ou mais destas verdades, ou que desonre o objetivo delas, eu devo me opor a isto, se Deus me chamar para fazê-lo, com toda a minha força.


Que Deus lhes conceda o crer em tudo que a Palavra ensina com respeito a Jesus. Ela é a nossa paz e o nosso alimento para entender tudo o que o Espírito nos dá a entender, e não busquemos definir o que Deus não nos dá para definir; mas para adorar por um lado, para alimentar por outro e para viver em tudo segundo a graça do Espírito Santo.


J. N. Darby

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