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Arrependimento e Restauração (Janeiro de 2007)

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Revista mensal publicada originalmente em janeiro/2007 pela Bible Truth Publishers

 

ÍNDICE


          Tema da edição

          Christian Truth, vol. 17: 227-230

          Dicionário Bíblico Conciso

          J. N. Darby, extraído de Collected Writings, vol. 10: 221-226

          J. N. Darby, de Note and Jottings

          W. Kelly (adaptado)

          C. H. Mackintosh

          C. F. C., de The Christian Friend, 1882: 293-294

 

Arrependimento e Restauração


"Deus... porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam” (At 17:30 – ARA). Quando Deus ordena a todos os homens que façam algo, é importante que todos os homens entendam e obedeçam. Nesta edição, enfocamos o que significa arrepender-se, o que leva ao arrependimento e quais são os resultados para alguém que, em fé, obedece ao comando.

 

Para não ofender as pessoas, é fácil tentar apresentar a mensagem do evangelho evitando a questão do arrependimento. Que o Senhor nos ajude a entender que, por mais cuidadosamente que levemos ao assunto, ainda precisamos apresentar a eles a necessidade de arrependimento. Suas consciências devem ser alcançadas com a percepção de sua culpa e necessidade diante de Deus. Eles devem saber que, enquanto Deus os ama, eles estão destituídos e não atendem às santas exigências de Deus.

 

Enquanto grande parte da questão diz respeito ao “arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo”, que ocorre na salvação da alma, é importante ver a necessidade disso na vida do crente. Jó era crente quando Deus realizou o arrependimento registrado em seu livro. Pedro era crente quando negou o Senhor e precisou se arrepender e ser restaurado. Mas se precisamos nos arrepender como pecador ou como santo, quando obedecemos, o resultado é sempre para nossa bênção. Deus, na grandeza de Seu amor, trabalha para nos levar ao arrependimento para que Ele possa nos abençoar.

 

Tema da edição

 

O Arrependimento de Jó e a Bênção


O arrependimento é uma palavra familiar. Será que a sua verdadeira importância é igualmente conhecida? No entanto, é certo que, a não ser que o pecador se arrependa, ele inevitavelmente perecerá eternamente. Isto é tão verdadeiro quanto as palavras de Cristo podem assim declará-las: “se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis” (Lc 13:3). Fato tremendo! Nosso coração se solidariza profundamente com muitas almas honestas em suas dificuldades sobre o arrependimento e gostaria de ajudá-las um pouco com essa palavra que, se recebida pela simples fé, elimina uma série de dificuldades.

 

A necessidade do arrependimento de Jó 

Ao procurar fazê-lo, eu tomaria o caso de uma alma que experimentou arrependimento genuíno. Vamos encontrá-la em Jó 40 e 42. Servirá para mostrar muito claramente o que é o arrependimento – sua natureza – e o que o faz acontecer. Jó estava procurando se justificar – se exaltar e reter sua própria justiça. Tomemos uma ou duas passagens. Jó 27:6: "À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me remorderá o meu coração em toda a minha vida". Mais uma vez, “pese-me em balanças fiéis, e saberá Deus a minha sinceridade [integridade – ARA] (cap. 31:6). Aqui, indubitavelmente, Jó ainda não havia aprendido a grande lição; seu coração ainda não estava abatido nem quebrantado. Com ele ainda havia “minha justiça” e “minha integridade”. Ele mesmo era seu grande tema. Isso nunca permanecerá diante de Deus. A luz de Sua presença deve destruir todas as nossas pretensões de bondade e justiça – nosso lugar diante d'Ele é prostração, humildade em Sua presença. Oh, quão importante é para o pecador saber disso! A luz imaculada dessa presença revela à consciência a verdadeira condição das coisas, como veremos no caso de Jó.

 

“E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra Jó se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus” (cap. 32:2). O quão solene é essa verdade a respeito do homem em geral! Uma falta de sujeição a Deus e uma exaltação e justificação do “eu” é o que caracteriza o homem em geral. Jó se justificou a si mesmo em vez de justificar a Deus. Nos capítulos 38-40 o próprio Senhor respondeu a Jó, e isso se mostrou eficaz em abrir seus os olhos para ver sua verdadeira condição, a qual o colocava humilhado no pó diante d'Ele.

 

O que produziu a mudança 

Aqui eu notaria o que produziu esta mudança maravilhosa em Jó. De alguém que poderia falar de sua própria justiça, ele veio a se prostrar na presença de Deus, clamando por causa de sua própria vileza pessoal. Foi a recepção em sua alma daquela Palavra que deu a conhecer a luz da natureza d'Aquele que a proferiu – que deu a conhecer a Jó, em verdadeiro e solene caráter, a depravação de sua própria natureza e a rebelião de seu coração contra Deus. Não foi um trabalho preparatório da parte de Jó, mas o resultado da entrada daquela Palavra que dá luz – a natureza de Deus – e exibe as trevas da natureza do homem.

 

Deus tomou Jó em mãos e dirigiu-Se a ele pessoalmente e, consequentemente, toda a sua justiça própria caiu por terra. A fortaleza de seu coração legalista foi quebrada e demolida. A Palavra, rápida e poderosa, contra a qual nenhuma fortaleza legalista pode permanecer, penetrou no coração de Jó, desnudando suas fontes secretas, abrindo para ele as fontes corruptas de sua natureza, espalhando sua depravação diante dele.

 

Isto foi, sem dúvida, o que produziu seu arrependimento. A Palavra de Deus, recebida na alma, ministra luz e descobre todas as trevas e pecado que reina ali, em vista do que Deus é, como Aquele que é essencialmente luz. Por isso, há uma obra de julgamento próprio efetuada, que prostra a alma diante de Deus e a leva a lançar-se sobre Sua misericórdia.

 

É muito abençoado notar isso em Jó: “Então, Jó respondeu ao SENHOR e disse: Eis que sou vil; que Te responderia eu? A minha mão ponho na minha boca. Uma vez tenho falado e não replicarei; ou ainda duas vezes, porém não prosseguirei” (Jó 40:3-5). E novamente: "Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora Te veem os meus olhos. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (caps. 42:5-6). Aqui o propósito de Deus foi atingido. Jó tinha aprendido sobre si mesmo – ele foi humilhado – o bendito fruto da obra de Deus nele. Ele foi levado ao arrependimento, isto é, para formar um julgamento correto de si mesmo à luz da presença de Deus e de Sua Palavra que sonda o coração e subjuga a alma. A verdade de Deus havia feito seu trabalho em Jó. Ele reconhece a si mesmo como sendo vil. Ele se abomina e se arrepende em pó e cinzas. Que grande momento para Jó! Sua justiça própria se foi, e o espírito de defesa própria, abrindo caminho para aquele saudável e divinamente forjado exercício da alma, na luz, sob uma percepção de pecado, chamado arrependimento. Bendita obra de Deus! Quanto mais profundo, melhor, com certeza.

 

A bendita consequência 

Agora Jó se torna um assunto abençoado da plenitude da generosidade e graça de Deus. Deus, com mão inesgotável, amontoa ricas bênçãos sobre ele, e ele é abençoado. É assim com toda alma que se arrependeu – aquela obra divina na alma, que nunca é conhecida à parte das operações vivificadoras do Bendito Espírito de Deus. A plenitude do Cristo de Deus é a porção abençoada de tal. Todas as coisas são deles em Cristo.

 

O arrependimento, portanto, não é primeiramente humano; não é um trabalho preparatório da parte do pecador para a conversão, mas sim o resultado da recepção do testemunho de Deus – que é a fé – e a vivificação da alma pelo poder do Espírito Santo, que sempre acompanha a verdadeira fé.

 

É a ordem natural da obra mais abençoada de Deus com e na alma do pecador. A Palavra é aplicada e recebida. Se esta recepção é real, é vida para a alma, e como consequência, o arrependimento é realizado – aquele santo reconhecimento do justo juízo de Deus sobre tudo aquilo que pertence ao velho homem em nós, que termina na alma renovada e liberta se levantando e respirando a atmosfera da nova criação, onde todas as coisas são de Deus. Em todos os casos em que a obra é real, a recepção de coração da Palavra deve vir primeiro (não digo o testemunho completo de Deus quanto à redenção realizada). O testemunho solene de Deus a respeito do estado do homem, como no caso de Jó, deve ser recebido e, quando plena e simplesmente recebido, é vida para a alma, o que resulta em uma perfeita repugnância de si mesmo e na renúncia de toda justiça própria e a confissão de vileza pessoal. “Eis que sou vil” é a consciência solene da alma.

 

Paz com Deus 

Então a paz com Deus é o resultado de saber que Jesus “o Qual por nossos pecados foi entregue e ressuscitou para nossa justificação” – que a obra está terminada e que a redenção é um fato consumado, e que o Consumador está assentado com a mais brilhante majestade à destra do trono de Deus. Daí a necessidade de pregar um evangelho completo; isto é, o testemunho que Deus deu a respeito do homem e aquele que Ele deu a respeito de Seu Filho – uma vez na morte, mas agora ressuscitado e glorificado – que, quando simplesmente crido, é vida e paz.

 

Christian Truth, vol. 17: 227-230 

 

O Arrependimento de Deus e o do Homem  


A ideia transmitida neste termo é de grande importância pelo fato de se aplicar não apenas ao homem, mas também a Deus, mostrando como Ele, em Seu governo da Terra, Se compraz em expressar Sua própria percepção de eventos que ocorrem sobre ela. Isso não conflita com a Sua onisciência.

 

O arrependimento de Deus 

Há dois sentidos em que se fala do arrependimento da parte de Deus.

  1. Quanto à Sua própria criação ou nomeação de objetos que falham em responder à sua glória. Ele Se arrependeu de ter feito o homem na Terra e de ter estabelecido Saul como rei de Israel (Gn 6:67; 1 Sm 15:11, 35)

  2. Quanto à punição que Ele ameaçou, ou bênçãos que Ele prometeu. Quando Israel se afastou de seus maus caminhos e buscou a Deus, muitas vezes Ele Se arrependeu do castigo que havia pretendido trazer (2 Sm 24:16). Por outro lado, as promessas de abençoar Israel na terra foram feitas condicionalmente à sua obediência, de modo que Deus, se eles fizessem o mal, voltaria ou Se arrependeria do bem que Ele disse que faria, seja para Israel ou, de fato, para qualquer nação (Jr 18:8-10). Ele alteraria a ordem de Seus tratamentos para com eles e, quanto a Israel, Ele disse: "estou cansado de Me arrepender" (Jr 15:6). Em tudo isso, a responsabilidade do homem está na questão, assim como o governo divino.

Mas as promessas incondicionais de Deus, feitas a Abraão, Isaque e Jacó, não estão sujeitas ao arrependimento. “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11:29). “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que Se arrependa; porventura, diria Ele e não o faria?" (Nm 23:19; 1 Sm 15:29; Mq 3:6). E isso deve ser válido em relação a todo propósito de Sua vontade.

 

O arrependimento do homem 

No que diz respeito ao homem, o arrependimento é o precursor necessário de sua experiência de graça por parte de Deus. Dois motivos para o arrependimento são apresentados na Escritura: a benignidade de Deus que leva ao arrependimento (Rm 2:4) e a vinda do julgamento, por causa do qual Deus ordena a agora todos os homens que se arrependam (At 17:30-31). É distintamente de Sua graça e para Sua glória que o caminho de retorno a Ele é concedido (At 11:18), em que Ele Se aproximou do homem em graça e por Suas boas novas, consequente em Sua justiça tendo sido assegurada na morte de Cristo. Portanto, o testemunho de Deus é “o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo" (At 20:21 – ARA).

 

Dicionário Bíblico Conciso 

 

Arrependimento: O que é isso? 


Permita-me apresentar a você meus pensamentos sobre o arrependimento, como acredito que a Escritura nos apresenta. O caráter do evangelho agora comumente pregado exige uma declaração escriturística distinta do que ele é.

 

O que o arrependimento não é 

Arrependimento não é conversão. Este não é de forma alguma o significado da palavra. A conversão é voltarmos nosso coração e nossa vontade para Deus por meio da graça. O arrependimento não é fé. Fé, em sua verdadeira força, é a percepção divinamente concedida do que é visto por meio da revelação da fé à alma pelo testemunho no poder do Espírito Santo.

 

O arrependimento é literalmente um pensamento posterior ou alterado, um julgamento formado pela mente em reflexão, após ter tido um pensamento anterior. Habitualmente, em seu uso nas Escrituras, é o julgamento que eu formo à vista de Deus da minha própria conduta e sentimentos anteriores, em consequência da recepção do testemunho de Deus, em contraste com meu curso natural anterior de sentimentos. Claro, isso pode ser mais ou menos profundo. O arrependimento não é a tristeza em si, mas isso produz o arrependimento, se for tristeza divina. Nem é arrependimento, o lastimar ou remorso – estas são palavras usadas às vezes com o significado iguais, mas não na Escritura. Judas teve remorso e enforcou-se – não teve arrependimento. A tristeza segundo Deus opera o arrependimento para nunca se lamentar. O arrependimento é o julgamento que formamos, sob o efeito do testemunho de Deus, de tudo em nós mesmos ao qual esse testemunho se aplica. Por isso, o arrependimento é sempre fundado na fé: Eu não digo a fé no evangelho. Essa pode ser sua fonte, mas podemos nos arrepender por meio do testemunho de Deus para a alma e depois receber as boas novas. A conversão em si pode seguir o arrependimento, isto é, a conversão como a completa e deliberada virada do coração em direção a Deus. “Arrependei-vos”, diz Pedro, “e convertei-vos” (At 3:19). A conversão é voltarmos nossa vontade para Deus. O arrependimento é o pensamento ou julgamento mudado que temos das coisas, trazendo consigo muitas vezes, quando se refere ao “eu” próprio, a sensação de uma mudança de sentimento.

 

Quando o arrependimento não é necessário 

A força da palavra é claramente vista em contraste: “Haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15:7). Onde não há nada para julgar, o arrependimento não tem lugar; onde o pecado existe, esse julgamento do estado do indivíduo é requerido. Então o Senhor veio chamar os pecadores ao arrependimento. Novamente, o Senhor censura as cidades onde a maioria de Seus milagres foi feita, porque elas não se arrependeram. Tiro e Sidom teriam se arrependido se os tivessem visto. Isso não é uma mudança prática e julgamento próprio sobre o testemunho diante deles? Nós vemos por muitas dessas passagens que se refere ao seu estado anterior de pecado. Então Atos 8:22: "Arrepende-te... dessa tua iniquidade". Em 2 Coríntios 7:9-10 eles se entristeceram para o arrependimento; Tristeza piedosa operou o arrependimento. Aqui eles eram convertidos há muito tempo e creram há muito tempo. Mas eles estavam em mau estado e haviam se arrependido. Como isso se mostrou, pode ser visto no versículo 11: “Porque quanto cuidado não produziu isso mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio". Agora, eu admito que são as provas e os frutos do arrependimento, como isso se mostrou. Ainda assim, eles nos ensinam o que é.

 

Arrependimento e julgamento próprio 

Permanece um texto que dá caráter e força total ao arrependimento: “O arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo" (At 20:21 – ARA). Ele olhou, não apenas que os crimes e a maldade deveriam ser julgados, mas que um homem deveria julgar todo o seu estado à luz da própria presença de Deus, e em referência ao Seu caráter divino e autoridade sobre ele, e no pensamento da Sua bondade. Este é o verdadeiro arrependimento: o homem julgou, e julgando a si mesmo na presença de Deus, a Quem ele pertence e a cuja natureza ele deve se referir com misericórdia diante d'Ele. A fé em nosso Senhor Jesus Cristo encontra isso, porque ali Deus julgou o pecado de acordo com Sua própria natureza e autoridade, e Seu amor é perfeito, e nós estamos reconciliados a Deus de acordo com essa natureza e justa reivindicação. Mas isso requer uma palavra de explicação. Não é que o arrependimento ocorre primeiro por si mesmo e então, de maneira absoluta, venha a fé, mas que o arrependimento – o julgamento do que somos diante de Deus e aos olhos de Deus – é um grande efeito da verdade; refere-se a Deus como o Deus com Quem temos que tratar; enquanto a fé em nosso Senhor Jesus Cristo é a fé naquela intervenção soberana de Deus, na qual, em graça, Ele proveu para o nosso estado no dom de Seu Filho. O arrependimento não é uma mudança de opinião quanto a Deus, embora isso possa produzi-lo, mas o julgamento próprio diante d'Ele, a alma referindo-se Àquele que está sobre nós, com Quem temos que tratar. Não é que o arrependimento precede a fé. Veremos que não é assim, mas é primeiro o coração que retorna à luz divina e depois a fé na intervenção abençoada de Deus que se ajusta ao estado em que se encontra.

 

Arrependimento e bondade 

O arrependimento prático, então, é a estimativa que um homem forma do pecado, de seus próprios caminhos como um pecador, em reflexão, por meio da luz de Deus penetrando em sua alma, com algum senso de bondade n'Ele, e estabelecendo ali autoridade divina. Isto pode ser por meio de advertências divinas, como no caso de Jonas, ou o lamento de João Batista anunciando que o machado está colocado na raiz das árvores. É sempre misericordioso. Ele dá arrependimento a Israel, concede arrependimento para a vida: Sua bondade nos leva a isso. Isto é, ao invés de visitar os pecados de acordo com o merecimento do homem, Ele abre a porta para retornar à luz e graça por intermédio da graça. Assim, quando a graça é plenamente anunciada, quando a verdade existe, o arrependimento está no fundamento da perfeita revelação de Deus em graça, em Cristo. O arrependimento devia ser pregado em Seu nome e também a remissão de pecados. Ao chegarmos a Deus sempre é o primeiro efeito na alma quando isso é real, e a volta da nossa vontade a Deus e a fé na redenção e no perdão que o evangelho anuncia vem depois. Por isso, é dito: "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos". “Arrependei-vos e crede no evangelho”. Isso nos mostra como a fé é necessária e a única fonte de arrependimento. É pelo testemunho da Palavra que é feito. Seja profetas, ou Jonas, ou João, ou o próprio Senhor, ou mesmo os apóstolos, que ensinavam que os homens deveriam se arrepender e se voltar para Deus, foram todos feitos por um testemunho de Deus, e um testemunho crido. Agora, em nosso tempo, esse testemunho é o testemunho do próprio Cristo. O arrependimento, bem como a remissão dos pecados, deveriam ser pregados em Seu nome. É pela revelação de Deus, seja no julgamento ou na graça. Em qualquer caso, é por meio da graça trabalhando no coração que o arrependimento é realizado.

 

Arrependimento e graça 

Quando o filho pródigo voltou a si, ele se arrependeu; ele se converteu quando ele diz: “Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai”, o evangelho é realizado quando ele encontra seu Pai e obtém a melhor roupa. Mas aquele que vem a Deus deve crer que Ele existe, e que Ele é galardoador dos que O buscam diligentemente, e sempre há no verdadeiro arrependimento alguma percepção de bondade. "Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!" Não haveria retorno se não houvesse esperança – pode ser muito vago – mas ainda assim uma esperança de ser recebido e da bondade a ser confiada. Até mesmo os ninivitas dizem: "Quem sabe se Se voltará Deus, e Se arrependerá, e Se apartará do furor da Sua ira, de sorte que não pereçamos?" No evangelho, a plena graça de Deus é tornada a própria base de um chamado ao arrependimento, ainda em vista do julgamento. Agora Ele chama todos os homens em todos os lugares para se arrependerem, visto que Ele tem determinado um dia em que com justiça Ele há de julgar o mundo com justiça por meio d’Aquele Varão que destinou. A bondade leva a isto, a porta para fugir está aberta, mas fugir da ira vindoura, fugir em direção a Deus, que assegura perdão vindo por meio da perfeita obra de Cristo.

 

A pregação que promove o arrependimento 

Na prática, a verdadeira obra do evangelho no coração é trazer em primeiro lugar o arrependimento. Como vimos, advertências como as de Jonas podem levar os homens a se arrependerem, ou o ministério de João Batista. Mas o evangelho mais completo faz o mesmo. Ele traz para a luz, embora fale de amor, pois Deus é ambos, e esse amor nos faz julgar a nós mesmos quando Deus é realmente revelado. E não pode ser de outro modo. Se os homens já foram exercitados, a pregação de uma redenção simples e clara irá, por meio da graça, dar paz. Ela responde à necessidade da alma, que, tendo já olhado para si mesma, agora está habilitada a olhar para Deus por meio de Cristo, aprende que Deus é por ela e aprende justiça divina. Se um homem não foi previamente exercitado, onde quer que exista uma verdadeira obra, o efeito da mais plena graça é alcançar a consciência, levar ao arrependimento – não para dar a paz como a primeira coisa, mas levar a alma para essa luz, na qual descobre o estado que faz com que ela precise de uma pacificação para si. Ela viveu sem Deus, talvez afrontando-O abertamente diante de Sua face, e não meramente descobre que Ele é santo e bom, isto é, muda sua mente quanto a Deus e aprende a amá-Lo, mas lança seu olhar em si mesmo, em seu caminhos passados, tem uma reflexão posterior em que se julga na presença de Deus, assim conhecido, julgando o pecado pela grande obra que o afastou. Ela se arrepende. A alma sente que tem que tratar com Deus de forma responsável, fracassou, foi má, corrupta, sem Deus, é humilhada, tem horror a si mesma e ao seu estado, pode temer, certamente irá esperar, e eventualmente, se simples, muito em breve encontrar Paz. Mas ela dirá: “Mas agora Te veem os meus olhos. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza”. Se não houver isto – embora os graus disso possam ser variados, como a forma que assume na alma – não há uma obra verdadeiramente realizada. Se os avivamentos (assim chamados) forem examinados, será descoberto que as almas previamente exercitadas ficaram felizes se um evangelho claro tiver sido pregado. Aqueles que não têm e se apressam para ter paz são achados, afinal, não tendo raiz alguma. E se houver uma obra superficial e uma paz precipitada, a obra tem que ser feita depois para alcançar as fontes e a fundação da consciência, e muitas vezes por meio de muita tristeza.

 

Talvez não possamos pregar o evangelho claro ou completo o suficiente; a graça abundando onde o pecado abundou, a graça reinando por meio da justiça, mas o efeito disto quando totalmente recebido, o efeito que devemos procurar nas almas, é o arrependimento – quero dizer o primeiro efeito presente. Isso será um efeito que se aprofundará durante todo o nosso curso.

 

J. N. Darby, extraído de Collected Writings, vol. 10: 221-226 

 

A Restauração de Pedro


Em João 21:1-19, temos três tipos distintos de restauração – a restauração da consciência, a restauração do coração e a restauração da posição.

 

Consciência 

A restauração da consciência é de suma importância, e é impossível superestimar o valor de uma consciência limpa. O crente deve andar diante de Deus com uma consciência pura.

 

No mar de Tiberíades, é evidente que Pedro possuía uma boa consciência. Ele havia caído de forma vergonhosa e dolorosa e havia negado seu Senhor com juramentos e maldições. No entanto, ele foi restaurado. Um olhar de Jesus quebrantou seu coração e fez com que suas lágrimas brotassem. No entanto, não foram suas lágrimas, mas o amor que as extraiu, esse foi o fundamento da completa restauração de sua consciência. O amor eterno de Jesus, a eficácia de Seu precioso sangue e o poder predominante de Sua Advocacia deram a Pedro ousadia e liberdade nesta ocasião em João 21.

 

O Senhor Jesus sabia tudo sobre os infrutíferos esforços dos discípulos durante a noite, a labuta e a rede vazia, e Ele estava lá na praia para acender uma fogueira e preparar o jantar para eles. O mesmo Jesus que havia morrido na cruz estava agora lá para ministrar às suas necessidades e restaurá-los de seus caminhos longe d’Ele.

 

Quando Pedro ouviu que era o Senhor, ele não podia esperar pelo barco ou pelos demais discípulos – ele estava tão ansioso para chegar perto de seu bendito Senhor. Ele se lança corajosamente ao mar, a fim de ser o primeiro a chegar ao Salvador ressuscitado. Aqui, de fato, é uma consciência perfeitamente restaurada – uma consciência que se aquece ao Sol do amor imutável. É evidente em 1 Coríntios 15:5 que Pedro teve um encontro pessoal com o Senhor depois de Sua ressurreição, e como resultado, sua consciência está limpa. A confiança de Pedro no Senhor foi desanuviada e Ele pode se aproximar d'Ele com gozo e ousadia.

 

Coração 

No entanto, o coração deve ser restaurado, assim como a consciência. Nossa consciência pode estar clara quanto a certos atos que fizemos, mas as raízes das quais esses atos surgiram podem não ter sido alcançados. Os atos aparecem na superfície da vida cotidiana, mas as raízes estão ocultas no fundo do coração – talvez desconhecido para os outros e até mesmo para nós mesmos, mas completamente expostos ao olho d'Aquele com Quem teremos que tratar. Essas raízes devem ser alcançadas, expostas e julgadas antes que o coração esteja em boas condições diante de Deus.

 

Vamos notar a maneira delicada como o Senhor alcança essas raízes em Pedro. Somente "depois de terem jantado" que o assunto é levantado. Nada foi apresentado para obscurecer o gozo da refeição e o amor que a preparou. Mas depois de tudo isso ter sido desfrutado, o Senhor considera o caso de Pedro e a raiz de seu fracasso. Essa raiz era a confiança própria, que o levou a se colocar acima de todos os outros discípulos. Esta raiz tinha que ser exposta. Três vezes Pedro havia negado seu Senhor e três vezes o Senhor agora desafia seu coração com a pergunta: “Amas-me?” A questão vai direto ao fundo do coração de Pedro, pois a raiz deve ser alcançada se qualquer bem permanente tiver que ser feito. Se isso não for atendido, a raiz brotará de novo e de novo, com seus frutos tristes. Tudo isso poderia ser evitado se as raízes fossem julgadas e mantidas sob controle.

 

É difícil conhecer nossas raízes, pois elas são muito profundas. Orgulho, vaidade, cobiça, irritabilidade, ambição – essas são algumas das coisas sobre as quais devemos exercitar continuamente o julgamento próprio. Podemos ter que lamentar o fracasso ocasional, mas devemos manter a luta e, por meio de Cristo, obter a vitória.

 

Posição 

Quando a consciência é completamente purificada e o coração com suas raízes julgado, há uma preparação moral para o nosso caminho correto. O perfeito amor do Senhor havia restaurado a consciência de Pedro, e seu tríplice questionamento a respeito dele tornou acessível a raiz em seu coração. Ele agora dá a Pedro as mais doces promessas de Seu amor e confiança, pois Ele lhe confia o cuidado de tudo o que era precioso a Seu coração amoroso neste mundo – os cordeiros e ovelhas de Seu rebanho. Então, em uma palavra breve, mas abrangente, Ele abre a ele o caminho que compete a ele. Temos aqui, em duas palavras, o caminho do servo de Cristo: “Segue-Me”.  Se queremos seguir a Jesus, devemos manter os olhos continuamente sobre Ele. Podemos ser tentados, como Pedro, a se virar para ver o que este ou aquele poderia estar fazendo, mas então ouvimos as palavras corretivas: “Que te importa a ti? Segue-Me tu". Isto deve ser aquilo que nos absorve por completo, embora milhares de coisas possam vir a distrair e atrapalhar.

 

Hoje existe um grande perigo de seguir o caminho dos outros e de fazer certas coisas porque os outros as fazem. Tudo isso deve ser cuidadosamente julgado, pois não resultará em nada. O que realmente precisamos é uma vontade própria quebrantada – o verdadeiro espírito de um servo que espera pelo Mestre para conhecer Sua mente. O serviço não consiste em fazer isso ou aquilo, ou correr aqui ou acolá; e sim em simplesmente fazer a vontade do Mestre, o que quer que seja. Que apenas tenhamos certeza do que Ele nos disse para fazer, e então fazê-lo. Suas palavras soam em nossos ouvidos: “Segue-me”.

 

C. H. Mackintosh, adaptado de Things New and Old, vol. 7: 61-68 

 

Amor e Consciência


O arrependimento é a reivindicação de Deus sobre as pessoas, e se na pregação eu simplesmente digo: “Deus ama você e você é um pobre pecador; aqui está a graça para você” (e com certeza eu diria isso), e então deixasse o arrependimento de fora, isso seria deixar a consciência do homem de fora.

 

J. N. Darby, de Note and Jottings 

 

Limpeza e Restauração


Em Números 19, temos a mais instrutiva ordenança de Deus, peculiar ao Livro dos Números. "Este é o estatuto da lei, que o SENHOR ordenou, dizendo: Dize aos filhos de Israel que te tragam uma bezerra ruiva sem defeito, que não tenha mancha, e sobre que não subiu jugo" (Nm 19:2). O que o grande dia da expiação é para o centro do Livro de Levítico, a bezerra ruiva é para o Livro dos Números. Cada um parece característico do livro em que é dado, o qual mostra quão sistemáticas são a ordem e o conteúdo da Escritura.

 

Provisão para a contaminação 

Temos aqui uma provisão distinta para as impurezas que são encontradas à medida que caminhamos por este mundo. Isto é de importância vital na prática. Há muitas almas dispostas a fazer com que a expiação faça toda a obra. Não há verdade mais abençoada do que a da expiação, a menos que seja a Sua Pessoa que dá a essa obra seu valor divino, mas devemos deixar espaço para tudo o que nosso Deus nos deu. Não há nada que mais tenda a fazer uma seita do que tirar a verdade de suas devidas proporções, tratando uma parte como se fosse toda a mente de Deus. Assim, não será suficiente confinar o santo nem mesmo à obra expiatória de Cristo, que aboliu para sempre nossa culpa diante de Deus, nem mesmo se acrescentarmos a isso que sabemos que n'Ele ressuscitado somos colocados em uma posição inteiramente nova, uma vida onde o mal nunca entra. Ambas as coisas são muito verdadeiras e preciosas, mas estas são toda a verdade? Certamente não, e não há curso mais perigoso do que interpretá-las como sendo toda a verdade. Elas são tão preciosas quanto necessárias para a alma, mas realmente não há nenhuma parte da verdade que não seja necessária.

 

Por sangue e por água 

A bezerra vermelha ensina aos filhos de Israel que a obra do dia da expiação não havia tratado de maneira completa com a questão do pecado a ponto que eles pudessem tratar a contaminação diária como sem importância. Nunca conseguiremos dar o real valor do derramamento do sangue de Cristo pelos nossos pecados. Ele nos concede que não tenhamos mais consciência de pecados. Somos justificados pelo Seu sangue e com Cristo nós morremos para o pecado; estamos vivos para Deus n'Ele. Mas embora tudo isso seja completamente verdadeiro (e tenham sido então apresentado até onde as figuras puderam mostrar, embora imperfeitamente, quando olhamos para um israelita), tal graça é o mais forte motivo pelo qual não podemos mexer naquilo que está contaminado. O próprio fato de estarmos limpos perfeitamente diante de Deus é um forte apelo para não tolerarmos uma mancha diante dos homens. Foi para proteger o seu povo das sujeiras do caminho que Deus deu aqui uma provisão tão notável. Uma bezerra ruiva deveria ser trazida, uma figura marcante de Cristo, mas de Cristo de um modo que não é frequentemente mencionado na Escritura. A exigência supõe não apenas a ausência de tais defeitos como era indispensável em todo sacrifício, mas também ela nunca deveria ter conhecido o jugo, isto é, a pressão do pecado. Como isso fala do Antítipo! Cristo sempre foi perfeitamente aceitável para Deus. “E a dareis a Eleazar, o sacerdote; e a tirará fora do arraial, e se degolará diante dele” (Nm 19:3).

 

O sangue era levado e espargido sete vezes diante do tabernáculo, pois é o sangue que faz expiação e vindica a Deus onde quer que ocorra o pensamento do pecado. Mas seu uso especial aponta para outro aspecto, pois a purificação do pecado é mencionada novamente. "Então, queimará a bezerra perante os seus olhos; o seu couro, e a sua carne, e o seu sangue, com o seu esterco se queimará. E o sacerdote tomará um pedaço de madeira de cedro, e hissopo, e carmesim, e os lançará no meio do incêndio da bezerra" (Nm 19:5-6). Então encontramos as cinzas da novilha colocadas em um lugar limpo. “E um homem limpo ajuntará a cinza da bezerra e a porá fora do arraial, num lugar limpo, e estará ela em guarda para a congregação dos filhos de Israel, para a água da separação; expiação é” (Nm 19:9). Em que sentido? Simples e unicamente com vista à comunhão – de restaurá-lo quando quebrantado. Aqui não é uma questão de estabelecer relacionamento (isso já estava feito), mas é com base no relacionamento que já existia, que o israelita não deve permitir nada pelo caminho que estrague a santidade que convinha ao santuário de Jeová. Este era o ponto.

 

Uma percepção completa da ofensa 

Essa sombra de coisas boas exigia a separação de qualquer coisa inconsistente com o santuário. Enquanto peregrinavam pelo deserto, eles foram expostos constantemente ao contato com a morte. É a morte que é trazida aqui como contaminadora em várias formas e graus. Se alguém tocasse o cadáver de um homem, ele seria imundo sete dias. O que deveria ser feito? "Ao terceiro dia, se purificará com a água e, ao sétimo dia, será limpo; mas, se ao terceiro dia se não purificar, não será limpo ao sétimo dia" (Nm 19:12). Não era permitido que ele se purificasse no primeiro dia. Porque não logo de uma vez? A ordem era que não fosse no primeiro dia, mas no terceiro. Quando há uma contaminação no espírito, quando qualquer coisa consegue interromper a comunhão com Deus, é de profunda importância moral que percebamos completamente nossa ofensa.

 

Isto parece o significado de ser feito no terceiro dia. Não seria um mero sentimento repentino de que alguém tivesse pecado e que houvesse um fim no assunto. O israelita foi obrigado a permanecer até o terceiro dia sob a percepção de seu pecado. Esta era uma posição dolorosa. Ele tinha que contar os dias e permanecer até o terceiro, quando ele teria a água da separação espargida sobre ele pela primeira vez. Uma expressão apressada de tristeza não prova genuíno arrependimento do pecado. Nós vemos algo assim com as crianças. Há muitos que têm um filho pronto para pedir perdão ou até mesmo confessar sua culpa, mas a criança que mais sente isso nem sempre é rápida. Uma criança que é muito mais lenta a confessar pode, e comumente tem, ter uma percepção mais profunda do que significa arrependimento. É correto e apropriado que aquele que está contaminado (ou seja, teve sua comunhão com Deus interrompida) deva levar a sério esse lugar. Creio que este é o significado geral da ordenança do Senhor aqui. É claro que, no Cristianismo, não é uma questão de dias, mas daquilo que corresponde ao significado. Deveria haver tempo suficiente para provar uma verdadeira percepção do mal da contaminação de alguém, assim como da desonra a Deus, e não a pressa que realmente evidencia uma ausência de sentimento correto. Aquele que se purificou devidamente no terceiro dia foi, de fato, purificado no sétimo dia.

 

Uma percepção do pecado e graça 

Assim, em primeiro lugar, a pessoa contaminada tem uma percepção de seu pecado na presença dessa graça que lhe traz provisão contra a contaminação pela lavagem no terceiro dia. Então, ela finalmente tem a preciosa percepção da graça na presença do pecado no sétimo dia.  Assim, as duas aspersões são o inverso uma da outra. Elas expuseram como o pecado trouxe vergonha à graça, e como a graça havia triunfado sobre o pecado. Esse parece ser o significado e, mais particularmente, pelo seguinte motivo. As cinzas da novilha expressam o efeito do julgamento consumidor de Deus sobre o Senhor Jesus por causa do pecado. Não é simplesmente sangue, mostrando que sou culpado e que Deus dá um sacrifício para tirar o pecado. As cinzas atestam o tratamento judicial de Deus na consumação, por assim dizer, daquela oferta bendita que ficou sob toda a santa sentença de Deus por meio de nossos pecados. A água (ou Espírito pela Palavra) nos faz perceber Cristo tendo sofrido por aquilo que nós, infelizmente, tendemos a sentir tão pouco.

 

Para assuntos pequenos e grandes 

Há outra coisa para notar de passagem. A água da purificação não era apenas necessária quando se tocava um corpo morto, mas em modos e medidas diferentes. Tocar um cadáver pode ser considerado um caso grave, mas a instituição mostra que Deus percebe até o melhor detalhe. Então nós assim deveríamos fazer - pelo menos em nós mesmos. “E todo aquele que sobre a face do campo tocar a algum que for morto pela espada, ou outro morto, ou aos ossos de algum homem, ou a uma sepultura, será imundo sete dias” (Nm 19:14-16). “Aos ossos de algum homem” pode ser um objeto muito menor, mas tudo o que contamina é notado e há provisão em Cristo, nosso Senhor. Não são apenas assuntos graves que contaminam, mas pequenas ocasiões, como diriam os homens, que se interpõem entre nós e a comunhão com nosso Deus e Pai. Ao mesmo tempo, Ele fornece o remédio imutável da graça para cada contaminação.

 

W. Kelly (adaptado)

 

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6:23).

 

 

Arrependimento e o Evangelho


O arrependimento envolve o julgamento moral de nós mesmos sob a ação da Palavra de Deus pelo poder do Espírito Santo. É a descoberta de nossa total pecaminosidade, culpa e ruína, nossa falência sem esperança, nossa condição imperfeita. Ela se expressa nestas palavras brilhantes de Isaías: “Ai de mim, que vou perecendo!”, e naquela comovente expressão de Pedro: "Ausenta-Te de mim, por que sou um homem pecador”. O arrependimento é uma necessidade permanente para o pecador, e quanto mais profundo melhor. É o arado entrando na alma e revirando o solo não cultivado. O arado não é a semente, mas quanto mais profundo o sulco, mais forte é a raiz. Deleitamos-nos em uma profunda obra de arrependimento na alma.

 

Tememos que haja muito pouco disso no que é chamada obra de reavivamento. Os homens estão tão ansiosos para simplificar o evangelho e facilitar a salvação que eles falham em impor à consciência do pecador as reivindicações de verdade e justiça. Sem dúvida, a salvação é tão livre quanto a graça de Deus pode fazê-la. Além disso, ela é toda de Deus do início ao fim. Deus é sua fonte, Cristo, seu canal e o Espírito Santo, seu poder de aplicação e desfrute.

 

Deus ordena que os homens se arrependam 

Mas nunca devemos esquecer que o homem é um ser responsável – um pecador culpado – chamado imperativamente para se arrepender e voltar-se para Deus. Não é que o arrependimento tenha alguma virtude salvadora nele. Também podemos afirmar que os sentimentos de um homem que está se afogando poderiam salvá-lo do afogamento. A salvação é inteiramente por graça; é do Senhor em todos os seus estágios e em todos os aspectos. Não podemos ser muito enfáticos na afirmação de tudo isso, mas ao mesmo tempo devemos lembrar que nosso bendito Senhor e Seus apóstolos instaram constantemente aos homens, tanto Judeus como gentios, o solene dever de arrependimento (At 17:30).

 

Sem dúvida há uma grande quantidade de maus ensinamentos sobre o assunto, muita legalidade e nebulosidade, por meio dos quais o bendito evangelho da graça de Deus é tristemente obscurecido. A alma é levada a edificar sobre seus próprios exercícios, em vez de sobre a obra consumada de Cristo – ocupar-se com um certo processo cujas profundezas dependem de seu título para vir a Jesus. Em suma, o arrependimento é visto como uma espécie de boa obra, em vez de ser a dolorosa descoberta de que todas as nossas obras são más e nossa natureza incorrigível. Ainda assim, devemos ser cuidadosos ao guardar a verdade de Deus e, enquanto repudiamos totalmente o falso ensino sobre o importante assunto do arrependimento, não cairmos no pernicioso extremo de negar sua necessidade permanente e universal.

 

C. H. Mackintosh

 

Acor – A Porta da Esperança

 

Nas cenas de julgamento de Acor

O eu é julgado, o culpado é encontrado.

Fiel ali o Pai torna

Acor Seu terreno de correção.

 

“Vale dos problemas”, “porta da esperança”,

Através do vale desenhado por Ti,

Aprendendo com Tuas súplicas lá

O ministério sedutor do amor.

 

Castigado, Pai, e restaurado,

Oh, que gozo em Ti esperar!

Entrando em Teus caminhos abençoados,

Entrando pela porta do Pastor.

 

Pai, assim cada filho recebeu

Proveito por Teu cuidado zeloso;

Cada um participa da Tua santidade,

Cada um do Teu fiel castigo compartilha.

 

Vale Acor, “porta aberta”,

Cena de Alguém de Deus que morreu;

Morrendo, vivendo, “Porta da esperança”,

Aberto por Seu lado ferido.

 

Os entes queridos de Acor “cantam”, “regozijem-se”,

Cantam o precioso sangue de Jesus;

Louvado seja o Pai da “Porta da Esperança”

Engrandeça o Cordeiro de Deus.

 

C. F. C., de The Christian Friend, 1882: 293-294

 

 “Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado, o Qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo”

Atos 3:20-21

 

 

 

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