Força que Vem de Deus - Meditações Para o Nosso Tempo - Parte 1/5
- J. G. Bellett (1795-1864)

- 3 de fev.
- 18 min de leitura

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ÍNDICE
Força que Vem de Deus - Meditações Para o Nosso Tempo Vindas de Esdras, Neemias e Ester
Parte 1/5
J. G. Bellett
O Cativeiro de Judá na Babilônia
Esdras
O cativeiro babilônico, considerado como uma era no progresso das dispensações divinas, foi de suma importância e significado. Podemos considerá-lo como uma etapa fundamental em nossa jornada pelo caminho de luz e sabedoria traçado na Escritura para os homens de Deus trilharem, e permanecer ali por um instante, contemplando o que nos rodeia.
Podemos falar disso, de modo geral, como o grande julgamento final sobre o povo de Israel nos tempos do Velho Testamento; mas foi precedido por uma longa série de outros julgamentos de caráter inferior ou menos importantes. E é bom descrevê-los brevemente, para que sejamos tocados e humilhados diante de tal visão que eles nos proporcionam da incompetência e infidelidade do homem sob todas as condições de despenseiro e de responsabilidade.
A humilhação de Deus ao Seu povo
Esses julgamentos começaram, posso dizer, com o retiro de Moisés por quarenta anos na terra de Midiã. Israel, então no Egito, perdeu seu libertador, porque não sabiam que, por meio dele, Deus os redimiria, como lemos em Atos 7:25.
Depois de saírem do Egito e peregrinarem pelo deserto a caminho de Canaã, foram condenados ou sentenciados a vagar por lá por mais quarenta anos, porque não acataram o relatório dos espias e, ao contrário, desprezaram a Terra Prometida.
Quando chegaram a Canaã e se estabeleceram como nação, foram castigados repetidamente por seus vizinhos por causa de sua iniquidade, mas, por fim, foram julgados de forma mais severa ao serem colocados sob a tirania do rei Saul (veja Oséias 13:11).
Humilhação no reino
Com o passar do tempo, eles floresceram até se tornarem um reino: Deus lhes deu o melhor do Seu povo, o homem segundo o Seu próprio coração, para reinar sobre eles. Este foi um dos dons de Deus; Saul havia sido um dos Seus julgamentos. Os reinados de Davi e Salomão foram a manifestação de força e honra em Israel. Mas, tendo a casa de Davi se tornado perversa, o juízo a visita por meio da revolta das dez tribos.
Assim foi erguido o reino das dez tribos, como um juízo sobre a casa de Davi, tal como o reino de Saul fora anteriormente erguido em juízo sobre a nação de Israel. Mas, tendo o reino das dez tribos se provado perverso naquele dia, o juízo os visitou, levando Israel cativo por meio do rei da Assíria.
A casa de Davi, durante esse tempo, foi suportada com longanimidade. Como algo desmantelado, tendo apenas duas tribos em vez de doze como sua herança, ainda assim provocava a ira do Senhor; e então o juízo visitou Judá pelas mãos dos caldeus, assim como antes o juízo havia visitado Israel pelas mãos dos assírios. Judá era um cativo na Babilônia. Assim, como eu disse, este foi o grande julgamento final sobre o povo de Deus durante os tempos do Velho Testamento. O Senhor Deus de Israel havia ligado Seu Nome e Sua glória à casa de Davi e à cidade de Jerusalém; e quando essa casa caiu e essa cidade foi saqueada, o julgamento, naquela medida e naquele tempo, completou sua obra.
A glória partiu
De agora em diante, nosso assunto será com os cativos de Judá e da Babilônia: Israel, na Assíria, esta fora de vista. Eles não são mantidos em cena pelo Espírito de Deus. São chamados de “a rebelde Israel”, como um povo cuja distinção, por ora, está perdida e foi-se; mas os profetas de Deus antecipam seu futuro, e podemos prever que eles serão manifestados, trazidos de volta para casa e recolocados em seu lugar outra vez com honra e ornamento.
Antes de analisar os cativos de Judá na Babilônia, gostaria de considerar as novas condições impostas pelo próprio cativeiro. A glória (símbolo da presença divina), os gentios e os Judeus são todos afetados por ele e, imediatamente, entram em um novo contexto.
A glória deixa a Terra e vai para o céu. Ela esteve com Israel desde os dias do Egito até agora. Ela se assentou no carro-nuvem e conduziu Israel para fora do Egito e por todo o deserto; e então se assentou no santuário entre os querubins. Israel era o lugar ou o povo de sua morada na Terra. Mas agora, como foi visto por Ezequiel, ela se despede da Terra para o céu, ou para o monte (Ezequiel 11).
Os gentios tornam-se supremos durante o cativeiro de Judá. A espada é formal e solenemente entregue na mão do caldeu pelo próprio Deus; e a submissão a ele, como ordenado para ser o principal em autoridade política ou imperial no mundo, é exigida por Deus. Mas a glória não acompanha a espada. A Caldeia não é a sede da teocracia; a adoração divina não é estabelecida ali.
O povo de Israel torna-se estrangeiro na Terra. “Icabode [Icabô] – ARC”, a glória se foi, num sentido ainda mais terrível do que jamais ocorreu para eles. Estão arruinados, pelo menos por enquanto, como uma nação outrora gloriosa, honrada, forte e independente. Judá é cativo e estrangeiro.
A santidade não poderia esfriar o amor
Essas são as novas condições nas quais todos agora entraram – a glória, os gentios e o povo de Israel.
Mas aqui devo observar – pois é um assunto de grande interesse e valor para nossa alma – que o caráter se revela em cada um deles, em virtude de suas novas condições.
A glória mostra-se, de modo muito gracioso, relutante em deixar a sua antiga morada. Aprendemos isso nos primeiros capítulos de Ezequiel; ali, a glória é vista em uma agitada inquietação, por assim dizer. Havia chegado a hora de partir de Jerusalém, e ela sentia a tristeza desse momento. Ela passava repetidamente entre a entrada da casa, que ainda a conectava ao templo, e as asas dos querubins, que aguardavam para levá-la; e essa é uma visão de profunda e misteriosa consolação. Que segredo ela guarda em nosso coração! A santidade, que precisava partir, não poderia esfriar o amor que desejaria permanecer, se pudesse; e que sombra do Jesus dos evangelistas é essa! Israel não poderia ser o repouso nem da glória, nem de Jesus. Israel estava impuro; mas a glória permanecerá na entrada, e Jesus chorará ao voltar Suas costas à cidade. Nem a glória buscará outro lugar na Terra. Ela escolheu Sião para seu repouso; e se seu repouso ali for perturbado, ela deixará a Terra. Ela será fiel a Israel, ainda que Israel a entristeça e a mande embora. Essas são as perfeições que dão caráter à glória, por assim dizer, neste dia de sua partida de Jerusalém – o dia do cativeiro de Judá na Babilônia.
Os gentios, nesse mesmo dia, revelam uma visão muito diferente. Nenhuma beleza moral os distingue – pelo contrário, eles se tornam orgulhosos. A elevação sob a mão de Deus os engrandece em sua própria estima. Não se importam com as aflições do povo de Deus, mas se aproveitam de sua opressão e se erguem, o máximo que podem, sobre suas ruínas. Ezequiel nos mostra, como já vimos, a moral ou o caráter da glória que se vai, assim como Daniel nos mostra a arrogância profana dos gentios nesse mesmo dia. Torna-se intolerável, como sabemos, e termina em julgamento.
Provação produz bênção
O povo de Israel, agora humilhado, é exercitado. O Salmo 137 é um suspiro que expressa um estado de alma muito gracioso, em meio aos cativos junto às águas da Babilônia: homens como Zorobabel, Esdras e Neemias, entre os que retornaram, e como Ester e Mardoqueu, entre os dispersos, nos falam de uma geração ou um remanescente com um caráter que transcendia o que era comumente conhecido em Israel. Assim, como é comum entre os homens, a prosperidade causou danos morais aos gentios naquele momento, enquanto a depressão e as provações foram benéficas para os Judeus.
Esse intervalo de cativeiro, porém, precisava chegar ao fim. A vara da tribo de Judá não poderia ser quebrada até a chegada de Siló (Gênesis 49). Para cumprir essa promessa, repetida de diversas maneiras pelos profetas, Judá precisava retornar do cativeiro e estar em sua terra para receber, se assim o desejassem, o Messias prometido – Aquele que, como vemos em Ezequiel, os havia deixado com tanta reserva e relutância.
O retorno, portanto, se concretizou; e foi marcado por muitos dos frutos desse exercício saudável, o qual já observei como conferindo caráter aos cativos. Não houve nada da mesma glória que marcou seu retorno anterior da terra de Faraó. Nesse aspecto, o êxodo da Babilônia foi algo muito inferior ao êxodo do Egito. Não havia vara de poder para realizar seus prodígios; nenhuma nuvem mística para conduzir; nenhum mediador em intimidade com o Senhor em favor do povo; nem provisões dos celeiros celestiais. Mas havia a energia da fé na jornada, e espíritos despertos para a presença de Deus, para a Sua mente, para a Sua vontade, para a Sua glória e a para Sua suficiência para eles.
Esse retorno, contudo, não foi universal, nem, mesmo na medida em que ocorreu, foi simultâneo. Ainda havia a dispersão, bem como o retorno dos cativos. Os livros dos cativos – Esdras, Neemias e Ester – nos dão um pouco da história de cada um. Mardoqueu foi um dos dispersos; e dos que retornaram, alguns vieram antes, como Zorobabel; enquanto outros vieram depois, como Esdras em um momento e Neemias em outro.
Soberania de Deus
Mas eu perguntaria: “Com que garantia ou autoridade os cativos na Babilônia foram habilitados a retornar?” Dirão, e com razão, que Deus assim o havia proposto e prometido pela boca de seu servo Jeremias. Ele tinha declarado que, quando o cativeiro tivesse completado setenta anos, ele terminaria; e, de acordo com isso, Daniel, que viveu durante todo o período do cativeiro, mas nunca retornou a Jerusalém, fez sua súplica por essa misericórdia prometida, justamente quando os setenta anos se aproximavam do seu término. O retorno, portanto, reconhecemos plenamente, deve ser datado, por assim dizer, da soberania e dos conselhos de Deus. A grande fonte dele reside aí. Mas havia uma autorização secundária e mais imediata para isso, a ocasião para tal, como dizemos; e esta é, como se vê claramente, no decreto de Ciro, o rei da Pérsia, um decreto que ele promulgou no próprio primeiro ano de seu reinado, ou tão logo Deus transferiu a espada da mão do caldeu para a sua mão.
A Babilônia, que havia sido a capturadora, não recebeu a honra de ser a libertadora de Israel. Essa honra foi reservada a outro, e para alguém que havia sido tão distintamente nomeado pelos profetas de Deus quanto o período de setenta anos havia sido nomeado.
Ciro é mencionado em Isaías 44 e 45; seu próprio nome aparece ali, e já estava lá duzentos ou trezentos anos antes de seu nascimento. Ele é mencionado como aquele que seria o construtor do templo em Jerusalém. Não podemos afirmar que foi assim, mas podemos sugerir que ele ouviu falar desse fato surpreendente de alguns dos cativos; e se ele ouviu, não teria sido esse o instrumento pelo qual o Senhor despertou seu espírito? Suficiente, e mais do que suficiente, para levá-lo àquela grande e generosa ação que realizou, e cujo relato encerra os livros das Crônicas e inicia o livro de Esdras. (Há relatos de que foi mostrada a Alexandre, o grego, a profecia de Daniel a seu respeito. De maneira semelhante pode ter sido mostrada a Ciro, o persa, essa profecia de Isaías).
Caso alguma vez Ciro tenha tido conhecimento desses oráculos divinos, deveríamos, talvez, nos admirar mais de que ele não tenha feito mais, do que nos admirar de que ele tenha feito tanto. Poderíamos esperar que ele próprio se tornasse um prosélito; pois Isaías lhe revela que foi ninguém menos que o Deus daquele povo (que então eram seus súditos e, como eu diria, seus cativos) que foi adiante dele para abrir caminho rumo à conquista e ao domínio.
Mas, seja assim ou não, seu decreto, como sabemos, foi a causa imediata e a autoridade máxima para o retorno deles.
Além disso, quanto a este grande evento e época, os tempos dos gentios, como o próprio Senhor fala, começaram com o cativeiro babilônico; os gentios então se tornaram supremos, como já dissemos, um reino sucedendo o outro. E esses tempos dos gentios continuam até hoje. O retorno desde a Babilônia não alterou isso, pois esse evento não afetou a supremacia gentia. Mas esses tempos terminarão no julgamento da besta apocalíptica e seus confederados (Apocalipse 19), quando a pedra cortada sem mãos esmiuçar a estátua.
E podemos ainda dizer, quanto a Israel, que esse cativeiro operou uma reforma entre eles. Daquele tempo até o presente, “o espírito imundo”, como o próprio Senhor também diz, foi “expulso”. A idolatria não tem sido praticada desde então; mas, embora a casa Judaica esteja assim desocupada e limpa, ela não está mobiliada com sua verdadeira riqueza e ornamentos. (Em breve, o espírito imundo retornará e, trazendo consigo outros espíritos imundos mais perversos do que ele, completará a apostasia do Judeu e o conduzirá novamente ao julgamento). O Messias não foi aceito; e, em princípio, Israel retornou à Babilônia, onde permanecerá até o dia da redenção e do reino sob a graça, o poder e a presença do Senhor Jesus.
Os Cativos Retornaram a Jerusalém
Esdras 1-4
Ao entrarmos no livro de Esdras, começamos a história dos cativos que retornaram. Nós os vemos em suas circunstâncias e em seu comportamento; e de ambos extraímos ensinamentos.
Em grande parte da condição deles, lemos muito da nossa própria; e, a partir de seu comportamento, somos ou ensinados, ou encorajados ou advertidos. Ao acompanharmos sua história, podemos muito bem ser impressionados com a semelhança que ela tem com a nossa; de modo que, pela afinidade moral entre a condição deles e a nossa, podemos chamá-los de nossos irmãos em um sentido especial.
Tendo concluído sua jornada da Babilônia a Jerusalém, encontramos neles imediatamente uma grande beleza moral: eles usam o que têm; fazem o que podem; mas não assumem nem pretendem fazer o que não têm e o que não podem. Eles têm a Palavra e a utilizam. Fazem o melhor que podem com as genealogias, a fim de preservar a pureza do sacerdócio e do santuário; mas não pretendem fazer o que o Urim e o Tumim lhes permitiriam fazer, pois eles não os possuem.
Isto é belo; eles não se recusam a fazer o que podem, porque não podem fazer tudo o que gostariam. Eles irão usar a sua medida e não contendem com ela por ser pequena. Contudo, não se estendem além dela, mas aguardam até que outro venha com outra medida maior e mais perfeita. São rápidos em erguer um altar ao Deus de Israel.
Eles não precisam construir primeiro o seu templo. Um altar basta para os holocaustos e para a festa dos tabernáculos; e, como um povo reavivado, como um povo que conscientemente se encontra novamente em solo santo, no dia místico, o primeiro dia do sétimo mês, eles erguem seu altar e iniciam sua adoração.
Isso foi muito bom. Foi como o instinto que levou Noé, assim que saiu da arca, a oferecer seus sacrifícios; ou como o de Davi, assim que chegou ao trono, a cuidar da arca de Deus.
Israel não ergueu altar algum no Egito – precisavam ir para o deserto antes de poderem oferecer sacrifícios ou celebrar uma festa ao Senhor. O Egito era o lugar da carne e do julgamento; e a libertação de lá precisava ser realizada para que Deus pudesse receber adoração adequada de suas mãos. E assim também na Babilônia: Israel não ergueu altar algum ali. Um podia abrir a janela e orar em direção a Jerusalém; três ou quatro podiam fazer orações conjuntas por misericórdia e sabedoria; em um dia de perplexidade, podiam todos pendurar suas harpas em salgueiros, recusando-se a cantar os cânticos de Sião ali. Mas não ergueram altar algum naquela terra dos incircuncisos. Agora, novamente em Jerusalém, o altar foi edificado e os sacrifícios foram oferecidos; a adoração foi restaurada, assim como Israel foi reavivado. As duas coisas que Deus uniu: a glória do Seu Nome e a bênção do Seu povo, são vistas imediatamente nos cativos que retornaram.
Mas, além disso, assim que os alicerces do templo foram lançados, ouviu-se algo estranho – algo que não poderia ser senão uma dissonância de sons ásperos aos ouvidos da natureza, uma harmonia de vozes santas aos ouvidos de Deus e da fé. Houve choro e clamores de tristeza, e houve brados de alegria. Mas, na balança, tudo isso era harmonia; pois tudo era real, tudo era “para o Senhor”.
Como alguns faziam diferença entre dia e dia, e outros poderiam até se recusar a diferenciá-lo, isso pode parecer desordem; mas cada um fazendo o que fazia “para o Senhor”, a mais elevada ordem era mantida (veja Romanos 14): assim o Espírito a avalia.
Confusão real
Há, porém, mais do que isso. Há verdadeira confusão, e em abundância, além dessa aparente e ocasional discórdia. A situação é irremediavelmente complexa e confusa. O que um Judeu piedoso deve ter sentido ao se encontrar novamente na terra que Davi havia conquistado, onde Salomão havia reinado, onde a glória havia habitado e o sacerdócio de Jeová havia servido!
Um tal homem poderia, naquele momento, ter lançado o primeiro olhar sobre si mesmo; e teria que reconhecer em si uma visão estranha na terra em que se encontrava, como súdito de um poder gentio. Em seguida, olhando para seus irmãos, teria que dizer que alguns estavam com ele, mas outros ainda estavam distantes, entre os incircuncisos. E então, lançando um olhar mais amplo sobre o povo daquela terra, teria que ver uma semente de corrupção: meio Judia, meio pagã, no lugar que outrora fora compartilhado entre a descendência de Abraão, e somente entre eles!
Que visões eram essas! Que luz e energia são necessárias para lidar e agir diante dessa estranha massa de dificuldades e contradições! Mas essa luz e energia são encontradas, de uma bela forma, em abundância entre eles. Aqueles que mantiveram seu nazireado na Babilônia o manteriam, se necessário, na Judeia; aqueles que não comeriam as iguarias do rei lá, não terão uma aliança samaritana na construção do templo aqui. E eles distinguem as coisas que diferem; eles conhecem o samaritano: curvam-se à espada e à autoridade de uns, como estabelecida sobre eles pela ordenação de Deus, e recusando a ajuda oferecida do outro, por serem estes infiéis ao Deus de seus pais.
Isso é como uma antecipação do próprio julgamento do Senhor em Seu dia aos cativos que haviam retornado: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Isso me lembra de seus pais no deserto, onde conheciam o edomita e o amorreu em suas diferentes relações com eles. Aqui, seus filhos conhecem o samaritano e o persa. Eles não fazem nada em espírito de rebeldia. Eles se submeterão às “autoridades que há”, por saberem que foram “ordenadas por Deus”. Mas repudiam a impureza religiosa. Tudo isso está repleto de ensinamentos e é muito pertinente às condições atuais entre nós. Essas coisas, ou os princípios que nelas se encontram e estão envolvidos, reaparecem entre os santos de hoje.
Reconhecimento da fé
A fé ainda reconhece que a “salvação” é o fundamento da “adoração” (João 4). Ou seja, enquanto estivermos na carne, Deus nada recebe de nós; que o lugar da disciplina, como a Babilônia foi para Israel, é testemunhar apenas o serviço e a execução da harpa. A fé ainda usa as harpas penduradas nos salgueiros.
A fé ainda se baseia nas coisas escritas: influencia a palavra em todas as coisas; ela não influencia nada além de sua medida, enquanto faz o que pode de acordo com a sua medida. Não rejeita o que tem por não ter mais. Não diz: “Não há esperança”, e se senta ociosa, porque o poder em certas formas de glória não nos pertence; mas ela não imita o poder, nem cria a imagem daquilo que já se foi. Ela aguarda o dia em que tudo será estabelecido em eterna ordem e beleza pela presença d’Aquele que é a verdadeira luz e perfeição, e que estabelecerá todas as coisas no reino segundo Deus.
A fé, da mesma forma, ainda escuta com um ouvido diferente daquele da natureza. Como já mencionei isso, assim posso dizer novamente que Romanos 14, assim como Esdras 3, nos ensina que aquilo que é dissonante aos ouvidos da carne e do sangue é harmonia aos ouvidos de Deus.
E certamente, posso acrescentar, a fé ainda reconhece a confusão. Se a vemos em Israel nos dias de Esdras, a vemos entre os santos e as igrejas no dia de 2 Timóteo; e o dia de 2 Timóteo foi apenas o início do presente e longo dia da Cristandade, ou da “grande casa”. Elementos estranhamente inconsistentes nos cercam, assim como cercaram os cativos que retornaram: a supremacia gentia na terra; a ajuda oferecida e, em seguida, a amarga inimizade dos samaritanos, alguns do Israel de Deus ainda na Babilônia, enquanto outros tinham retornado a Jerusalém. Nada disso lhes proporcionou materiais mais estranhos, singulares ou anômalos para discernir e agir do que nos proporciona a atual grande casa da Cristandade, com seus vasos puros e impuros, alguns para honra e outros para desonra.
Podemos, no entanto, ser encorajados e instruídos por esses cativos. Pois, embora a antiga glória e força não sejam vistas entre eles: o Urim e Tumim perdidos, a arca da aliança desaparecida, a vara mística e a coluna de nuvem não sejam mais conhecidas nem vistas; ainda assim, havia mais energia e luz, e um exercício espiritual mais profundo, nos que retornaram da Babilônia do que nos redimidos do Egito.
O Efeito da Humilhação
Esdras 5-6
Assim como podemos ser instruídos e encorajados pelos cativos que retornaram, certamente também podemos ser advertidos por eles. Eles precisam de um reavivamento, embora agora de volta a Jerusalém, assim como precisavam quando ainda estavam na Babilônia.
O decreto de Artaxerxes havia interrompido a construção do templo. A natureza, ou a carne, aproveita-se disso: e os cativos começam a adornar suas próprias casas assim que têm tempo livre e estão livres do trabalho de construir a casa do Senhor.
Que advertência é essa! Já foi dito que é mais fácil obter uma vitória do que usá-la. Podemos vencer na luta, mas sermos derrotados pela vitória. Os Judeus que retornaram haviam obtido uma vitória ao recusarem as ofertas e a aliança dos samaritanos. Eles tinham razão em recusar qualquer ajuda que comprometesse sua santidade. Mas agora abusam dessa vitória. Os samaritanos obtiveram um decreto do rei persa para interromper a construção do templo; e o tempo livre assim gerado torna-se uma armadilha para o remanescente. Eles o usam para fazer os acabamentos e adornar suas próprias casas: algo muito natural, mas muito humilhante de se pensar. Abraão havia se saído muito melhor. Com seus servos treinados, ele venceu o confronto com os reis confederados; mas então uma vitória leva a outra, pois ele recusa as ofertas do rei de Sodoma imediatamente depois. Mas aqui o tempo livre conquista aqueles que há pouco haviam conquistado os samaritanos. Isso se assemelha mais a Davi, do que a Abraão. Davi lutou bravamente desde o dia do leão e do urso até o dia de sua ascensão ao trono; mas revela relaxamento e descuido de coração já na primeira ocasião em que atua como rei. Davi coloca a arca de Deus em uma carroça nova puxada por bois!
“Porventura é para vós tempo de habitardes nas vossas casas forradas, enquanto esta casa fica deserta?”, diz o Espírito que convence e repreende, por meio do profeta Ageu.
Advertências humilhantes e proveitosas
Isso é humilhante e, ao mesmo tempo, uma advertência salutar. Nosso coração entende bem isso – como a natureza aproveita essas oportunidades de forma rápida e eficaz. Embora os cativos estejam sob o domínio persa, o Espírito de Deus permanece livre e pode reviver Sua antiga graça, enviando Seus profetas a eles. Pois essa era a Sua antiga graça. Esse sempre foi o Seu método bem conhecido: desde antes do dia do rei Saul até depois do dia do rei Zedequias, ou seja, desde o primeiro até o último rei de Israel, de 1 Samuel 1 a 2 Crônicas 36. Ao longo desse período, geração após geração, profetas foram enviados repetidamente para repreender, instruir ou encorajar reis e seus povos. Samuel, Natã e Gade; Semaías, Jaseías e Azarias; Elias e Eliseu, entre outros, ministraram dessa forma enquanto Israel era uma nação. Agora Ageu e Zacarias são enviados, como profetas semelhantes a eles, aos cativos que retornaram: o doce testemunho de que a antiga forma da graça de Deus para com o Seu povo ainda deveria ser usada para que eles soubessem, em todas as épocas e em todas as circunstâncias, que não havia estreiteza n’Ele.
Deus não interveio para restabelecê-los sobre a base original. Fazer isso não teria sido moralmente adequado: quer em relação à posição que o povo ocupava diante de Deus, quer em relação ao poder que Ele havia estabelecido entre os gentios, quer ainda com vistas à instrução do Seu próprio povo em todas as épocas, quanto ao governo de Deus. Isso é muito justo. As coisas permanecem como a mão de Deus, em Seu governo, as havia estabelecido. O gentio ainda é supremo na Terra; e a glória não retorna a Israel. O trono de Davi não é erguido do pó, nem o Urim e Tumim nem a arca da aliança são dados novamente; mas o Espírito não se foi do Seu lugar de serviço. Ele levanta profetas, como em outros dias, quando o trono de Davi estava em Jerusalém, e o templo e seu sacerdócio em sua glória e beleza.
O efeito dos avisos
Seria proveitoso observar a maneira pela qual esses profetas conduziram o seu ministério ao reavivar os cativos que haviam retornado; mas não o farei aqui. A casa, porém, volta a ser cuidada sob a palavra deles; o zelo do povo renasce; sua fé e serviço revivem; e em cerca de quatro anos, desde o segundo ano de Dario, quando Ageu e Zacarias começaram a profetizar, até o sexto ano, quando a casa foi concluída, eles trabalham com renovado empenho.
Em seguida, ocorre a dedicação da casa. E este é um belo testemunho do estado moral do remanescente. Eles só podem fazer um pouco – muito pouco mesmo –, mas o fazem. Salomão havia sacrificado 22.000 bois e 124.000 ovelhas na dedicação da primeira casa, enquanto os cativos que retornaram só podem oferecer algumas centenas de novilhos, carneiros e cordeiros. Mas eles fazem o que podem; e quem dirá que a pequena oferta daquela viúva não foi maior do que todas as ofertas de seus antepassados mais ricos? Eles fizeram o que podiam, sem se envergonhar de sua pobreza. “Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou”. Há preciosidade em tal fragilidade: algo especialmente aceitável em tais sacrifícios – quando “em tempos de aflição, a abundância de alegria e a profunda pobreza abundaram em riquezas de liberalidade”.
Então eles celebram a Páscoa – eles podem fazer isso, e farão. Eles podem dedicar a casa e podem celebrar a festa – e a celebrarão. Sacerdotes e levitas estão agora igualmente purificados, como não haviam estado no tempo real de Ezequias (2 Crônicas 29:34; Esdras 6:20). Assim, na verdade, podemos dizer que, embora a ausência de toda a glória manifesta, como a que resplandecia nos dias de Salomão, possa ser notada aqui, há também uma graça e um poder morais mais atraentes, assim como o êxodo da Babilônia, cerca de vinte anos antes, havia sido marcado em contraste com o êxodo do Egito. Há características no segundo êxodo e na dedicação, características de beleza pessoal, que não se manifestaram nos dias mais brilhantes, muito mais brilhantes, do êxodo do Egito e de Salomão.
J. G. Bellett


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