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Força que Vem de Deus - Meditações Para o Nosso Tempo - Parte 3/5

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ÍNDICE


Força que Vem de Deus - Meditações Para o Nosso Tempo Vindas de Esdras, Neemias e Ester

Parte 3/5

J. G. Bellett

Escuta Obediente

Neemias 7-10

 

Aqui lemos: “E era a cidade larga de espaço, e grande, porém pouco povo havia dentro dela; e ainda as casas não estavam edificadas“ (Ne 7:4). Tendo, portanto, construído os muros, Neemias se encarrega de povoar a cidade. Pois os muros não seriam nada, senão como defesa de um lugar habitado dentro deles.

 

Portanto, encontramos esse propósito em seu coração no início de Neemias 7 – e, consequentemente, ele se familiariza com os cativos que retornaram e lê o registro e o relato deles como eram nos dias de Zorobabel, o que serviria de guia para seu objetivo atual.

 

Contudo, antes de prosseguir com esse propósito e se dedicar a povoar a cidade, ele se desvia por um momento para considerar o próprio povo. E isso nos dá sua ação em Neemias 8-10, que pode ser chamada de ação entre parenteses – pois em Neemias 11 ele retoma o propósito que havia concebido em Neemias 7: isto é, o propósito de povoar a cidade.

 

Um processo moral 

Isso confere um caráter peculiar e um interesse especial a esses três capítulos, onde encontramos o povo submetido a um processo moral de natureza verdadeiramente marcante. Neemias os observa pessoalmente, examina a alma e a condição moral deles, e deseja revigorá-los ou santificá-los antes de estabelecê-los em seus respectivos lugares.

 

Esta ação começa no primeiro dia do sétimo mês – um dia importante no calendário de Israel: a festa das trombetas, um dia de reavivamento após um longo período de interrupção, quando tudo estava estéril ou morto na terra. E esta ação, assim iniciada, continua em etapas sucessivas, até o final de Neemias 10; conferindo assim, como já observei, aos capítulos 8 a 10, um lugar distinto no livro de Neemias e o caráter de um parêntese.

 

Portanto, devemos analisar esses capítulos com um pouco mais de atenção.

 

Este dia especial, o primeiro dia do sétimo mês, exigia, segundo a ordenança a seu respeito, uma santa convocação e o toque de trombetas – pois era o símbolo, como já disse, de um tempo de reavivamento após um longo período de morte e esterilidade (veja Levítico 23:23-25). Esta ordenança foi observada aqui em Neemias 8. Houve uma convocação do povo, mas algo a mais: o livro da lei foi lido em audiência e explicado ao povo. E, nesse momento, o povo chorou – com razão, pois esse é o propósito da aplicação da lei a um pecador: convencê-lo e fazê-lo exclamar: “Miserável homem que eu sou!”. Mas seus mestres, nessa ocasião, imediatamente reprimiram as lágrimas, porque aquele dia era “consagrado ao Senhor”. Era um tempo de alegria, como simbolizavam o toque de trombetas e a Lua nova, que então começava a caminhar novamente à luz do Sol. O povo foi, portanto, instruído a deixar que a alegria do Senhor fosse a sua força, a se alegrar e a enviar porções para outros. Tudo isso estava em perfeita harmonia com o dia e com as ordenanças pertinentes. A leitura da lei era um acréscimo, ou seja, não estava prescrita em Levítico 23. Ela conferia um tom mais rico e completo ao próprio dia, em seu caráter próprio e prescrito. O que foi acrescentado não entrava em conflito algum com o que havia sido ordenado – o que era voluntário não violava o que estava prescrito. E aqui eu diria que é exatamente isso que podemos esperar em um dia de reavivamento. Em tal tempo, a Palavra de Deus deve ser plenamente honrada. Ela deve ser o padrão. Mas haverá, necessariamente, coisas novas ou acrescentadas, conforme o caráter do tempo sugerir, sob a direção do Espírito de Deus,. Mas essas novidades, quaisquer que sejam, não ofenderão a Palavra de Deus. E essa é a situação aqui.

 

Ouvintes obedientes 

Mas a Palavra de Deus, uma vez aberta, permanece aberta. Foi um dia, como diríamos, de “uma Bíblia aberta”. Misericórdia preciosa! E este Livro aberto, tendo revelado uma instrução, falando-lhes sobre os ritos do primeiro dia do sétimo mês, agora lhes revela outra instrução, falando-lhes sobre outros oito dias daquele mesmo mês, ou sobre a “festa dos tabernáculos”. E o povo, já imbuído do espírito de ouvintes obedientes à Palavra de Deus, celebra a festa de uma maneira que não se via há séculos.

 

Isso também foi belíssimo. Mas, novamente, notamos algo a mais.

 

Em Neemias 9, vemos a congregação dos filhos de Israel em humilhação, passando por um solene serviço de confissão; e então, em Neemias 10, entrando em uma aliança de obediência a Deus e de observância de Seus estatutos. Mas nada disso havia sido prescrito. Não encontramos menção a tal coisa na lei de Moisés. Levítico 23 não exigia que isso precedesse ou sucedesse a festa dos tabernáculos.

 

Aqui, porém, novamente precisamos observar algo. Essa solenidade não ocorreu até o vigésimo quarto dia deste mês, quando o tempo da festa dos tabernáculos havia terminado; pois ela terminou no vigésimo terceiro dia. E isso, eu digo, foi muito bonito. A congregação não macularia a festa com seu ato de humilhação e confissão, nem impediria seu propósito. Essa festa era o momento mais jubiloso do ano Judaico. Celebrava a colheita, ou “recolhimento da colheita”. Era o prenúncio dos dias de glória ou do reino. Todas as suas exigências seriam atendidas em sua plenitude. O vigésimo terceiro dia, o último dia, esse grande dia da festa, passaria antes que a linguagem da humilhação e a voz da tristeza penitencial fossem ouvidas. Mas então, com a permissão de Deus, o povo poderia realizar, como diríamos, uma “reunião de oração”.

 

Isso também foi voluntário ou adicional, como eu disse – não determinado pela Escritura, mas sugerido pelo Espírito de Deus, pelo tempo e pelas circunstâncias que marcaram este reavivamento sob a liderança de Neemias. A confissão era a linguagem apropriada para um povo que se apresentava como representante de uma nação há muito rebelada, desobediente e culpada.

 

Aprender a fazer bem 

“Cessai de fazer mal”, porém, deve ser seguido por “aprendei a fazer bem”. É muito correto, se temos feito o mal, começar confessando o mal antes de nos dedicarmos a fazer o bem. Mas fazer o que é certo é uma consequência natural da confissão do mal e de toda essa virtude moral que vemos aqui, ao passarmos do nono para o décimo capítulo.

 

Os nobres e todo o povo se reúnem como “irmãos”, separados do povo da terra (veja Neemias 10:29), e selam uma aliança para guardar as leis de Deus. É agradável ver aqui, como também quando construíam o muro em Neemias 3, como a hierarquia e a posição social se dissolvem na fraternidade comum. “Alegre-se o rico por ser humilhado, e o pobre por ser exaltado, pois a aparência deste mundo passa.” E a aliança que agora fazem e buscam cumprir ainda contém algo adicional ou não prescrito. Eles se comprometem a observar todos os mandamentos do Senhor, Seus estatutos e Seus juízos: não se casar com pessoas da terra; não profanar o sábado; trazer suas primícias, seus primogênitos e os dízimos de suas terras à casa do Senhor. E tudo isso está de acordo com a Palavra do Senhor. Eles também estabelecem estatutos para si mesmos, a serem cobrados anualmente na terça parte de um siclo para o serviço da casa de Deus; e lançam sortes para trazer lenha para o altar de Deus em tempos determinados.

 

Tudo isso permanece em doce e maravilhosa harmonia com todas as suas ações neste dia de feliz reavivamento. A Palavra de Deus é, repetidamente e em todos os momentos, honrada em todas as suas exigências. Acrescentam-se coisas em seus cultos e atividades: coisas que a energia e a graça renovadas do tempo de reavivamento sugerem e que o Espírito Santo justifica.

 

Aqui termina esta ação entre parêntesis, como a chamei. É bela do princípio ao fim. O povo é conduzido por um processo gracioso: é instruído segundo a verdade pelo Espírito. É convencido de sua culpa e, em seguida, aliviado. Depois, recebe uma lição sobre as alegrias vindouras nos dias de glória. E assim instruído quanto à sua rica participação na graça de Deus, pode olhar para si mesmo, não com temor e em espírito de escravidão, mas com o devido quebrantamento de coração e com o propósito de servir a Deus no futuro. Tudo isso pode trazer à memória aquela declaração ou experiência proporcionada pelo Espírito Santo ao Israel arrependido nos últimos dias: “Na verdade que, depois que me converti, tive arrependimento; e depois que fui instruído, bati na minha coxa; fiquei confuso, e também me envergonhei; porque suportei o opróbrio da minha mocidade” (Jr 31:19).

O Efeito da Obediência 

Neemias 11-13

 

Estes capítulos testemunham o povo ainda fervoroso e obediente. O dia do reavivamento continua. O frescor da sua aurora não se dissipou em nada, embora aqui cheguemos a uma hora mais avançada do dia.

 

O capítulo 11 começa com uma dolorosa marca da degradação de Jerusalém. Ela é uma testemunha contra si mesma, mostrando que não está como o Senhor a quer nos dias da glória vindoura. Ela não é “desejada”, mas sim “abandonada”. As pessoas não se arrebanham a ela. Ela não pode olhar ao redor, como fará nos dias do reino, e se maravilhar com a multidão de seus filhos. Não é, ainda, motivo de orgulho para outros terem nascido nela; nem reconhecem que todas as suas fontes de vida estão nela. Ela ainda não disse que o lugar é estreito demais para ela, para a multidão daqueles que a preenchem. Certamente, essa não é a sua condição aqui neste capítulo. Ela está em dívida com qualquer um que consinta ou condescenda em habitar nela. Que testemunho de degradação! Que sinal, de fato, de que a restauração não era glória! Jerusalém ainda está pisoteada; os tempos dos gentios ainda não se cumpriram. Certamente a filha de Sião não se levantou, sacudiu-se do pó e revestiu-se da sua força e das suas belas vestes. (E que testemunho dá a Cristandade, de que a reforma não é glória!)

 

Dedicação 

Contudo, ela precisa ser habitada; precisa ter seus cidadãos dentro de si. A terra precisa ter seu povo, pois o Messias em breve caminhará entre eles; a cidade precisa ter seus habitantes, pois seu Rei em breve lhe será oferecido. Portanto, este é o retorno da Babilônia, e por esta causa está o povoamento de Jerusalém.

 

Novamente, como vemos em Neemias 12, ela tem o seu muro. É justo que o muro seja dedicado. Festividades públicas haviam sido frequentemente celebradas em ocasiões semelhantes: no transporte da arca nos dias de Davi; na dedicação do templo nos dias de Salomão; na fundação da segunda casa no tempo de Zorobabel; e novamente, quando essa segunda casa foi concluída, assim aconteceu. E agora, neste dia, neste dia de Neemias, o povo se alegra novamente com a consagração do muro que agora estava concluído e circundava a cidade.

 

O que é o muro? 

Mas, embora isso seja verdade, e tudo esteja correto até aqui e desta maneira, ainda assim pergunto eu: o que é este muro? Pergunto ainda: o que é senão mais uma testemunha da degradação de Jerusalém? Em seus dias vindouros de força e beleza, quando ela for a cidade do Reino, a metrópole do mundo, o santuário e o palácio do grande e divino Rei de Israel e da Terra, “salvação” será o seu muro. Deus então designará a salvação para muros e baluartes. O próprio Senhor, como seus montes, estará ao seu redor. Seus muros serão chamados Salvação, e suas portas, Louvor. A voz do Espírito em Zacarias, cujo eco dificilmente poderia ter se dissipado naquele momento, proferiu este belo oráculo: “Jerusalém será habitada como as aldeias sem muros, por causa da multidão de homens e animais que haverá nela. Pois Eu lhe serei, diz o SENHOR, um muro de fogo em redor, e Eu mesmo serei, no meio dela, a sua glória” (Zc 2:4-5 – ARA).

 

Quão infinita é a diferença! Jerusalém, sob o olhar de Neemias, carregando as marcas de sua vergonha; Jerusalém, como lemos dela nos profetas, testemunha do mais elevado destino em honra e excelência na Terra! Como um homem assim deve ter sentido tudo isso! E, no entanto, ele serve com zelo, destemor e paciência. Grande dignidade moral transparece nisso – um nobre espírito de devoção se manifesta. Ele trabalha, e trabalha nobremente, embora cercado por inimizades estrangeiras e pela degradação interna. Paulo, em 2 Timóteo, parece ser tal servo de Cristo; e tal é Neemias neste seu livro. Deveríamos ter a mesma dignidade moral. A Cristandade que vemos ao nosso redor está tão distante da Igreja da qual lemos nas epístolas quanto a Jerusalém que Neemias contemplou era diferente da Jerusalém que lemos nos profetas. Mas ele serviu em meio a ela; e assim devemos servir nós, diante e no coração da Cristandade. Pois o espírito de serviço não mede o cenário do serviço, mas a vontade do Mestre. Tudo isso, porém, revela a natureza do momento. Israel foi restaurado, sua terra repovoada, sua cidade habitada novamente; mas este não é o reino. Os filhos de Israel ainda serão colocados à prova e ainda se purificarão a si mesmos; e o dia da graça, da salvação e da glória, o dia prometido do reino, ainda está distante. Mas a fé precisa ser exercitada, e a obediência precisa aprender e praticar sua lição.

 

Exercício doloroso 

Assim, ao entrarmos em Neemias 13, encontramos o Livro de Deus ainda aberto entre o povo. Pois certamente um dia de avivamento é o dia de uma “Bíblia aberta”, como costumamos dizer. Mas agora eles têm uma nova lição para aprender.

 

Eles estão crescendo em conhecimento e familiaridade com os princípios divinos. É uma página completamente diferente do Livro que eles acabaram de virar. A Escritura, até então, lhes havia oferecido consolo; agora, lhes ofereceria paciência. Até então, havia tocado suas flautas, agora, estava prestes a lhes causar luto. A alegria da festa das trombetas, e a alegria ainda maior da festa dos tabernáculos, lhes haviam sido reveladas, e eles haviam respondido obedientemente. Eles haviam dançado ao som daquela flauta. Mas agora seriam dolorosamente exercitados pelo Livro. Eles leram que o moabita e o amonita nunca deveriam entrar na congregação do Senhor.

 

Isto foi terrível. Tudo, até então, havia sido eminentemente coletivo. Não apenas na alegria, como nos dias de festa, mas também no ato de confissão, pois haviam estado juntos. Os “estrangeiros” haviam sido removidos, mas a “multidão mista” (TB) parecia não ter sido observada nem identificada. Mas agora, por ordem da palavra encontrada em Deuteronômio 23, esse severo corte deveria ser realizado; assim como, por ordem de Levítico 23, a alegria dos tabernáculos já havia sido celebrada.

 

Poder e obediência renovados 

Isso foi ainda mais apropriado para testar o espírito de obediência neste bom dia de reavivamento. E a congregação respondeu à exigência da Palavra de Deus de forma muito abençoada. Pois lemos: “Sucedeu, pois, que, ouvindo eles esta lei, apartaram de Israel todo o elemento misto [toda a multidão mista – TB]. Fazer o que a Escritura prescreveu – praticar os ensinamentos da Palavra, ensinar o serviço ou dever que lhes fosse designado, ou convocar para os sacrifícios que fossem necessários – era foi obediência de fato.

 

A iniquidade, porém, agora se encontra em lugares elevados, aparentemente mais elevados do que o povo poderia alcançar. Mas ela precisa ser alcançada até mesmo lá; pois um dia de despertar e de renovado poder vindo de Deus deve ser um dia de obediência. Durante todo esse tempo, um amonita havia estado na casa do Senhor. Isso foi além. Ele não estava apenas na congregação, como a multidão mista, mas na própria casa; e isso, ainda por meio das práticas do próprio sumo sacerdote. Neemias não estava em Jerusalém naquele momento. Mas, ao retornar, ele age contra essa abominação encontrada nos lugares elevados, assim como o próprio povo já havia agido, à sua maneira, contra a multidão mista. Pois Deuteronômio 23 será ouvido, mesmo que o mais alto servidor da Igreja tenha que ser repreendido. Eliasibe não era ninguém para Neemias, quando Moisés falou; pois um tem a autoridade de Deus sobre si, o outro deve tê-la sobre ele. Esta é uma palavra de admoestação para a Cristandade, se a Cristandade tivesse ouvidos para ouvir – aquela Cristandade que colocou seu próprio Eliasibe acima de Moisés, seus próprios oficiais acima da Escritura. Mas tal pessoa não era este homem fiel. “A cadeira de Moisés” era suprema para ele. A Escritura julga a todos, enquanto ela não deve ser julgada por ninguém. Nem o sumo sacerdote em Israel, nem a presunção de antiguidade e sucessão, nem qualquer outra coisa na Cristandade, por mais atraente que seja, deve invalidar um jota ou til sequer da Escritura. O Livro, falando da parte de Deus, como sempre faz, e dirigindo-se a todas as circunstâncias, deve ser supremo. “A Escritura não pode ser anulada”; portanto, não é para ser contestada. Deus a cumprirá – nós devemos observá-la.

 

Tudo isso que encontramos em Neemias e na congregação neste último dia do Velho Testamento pode muito bem cativar os pensamentos dos santos em nossos dias.

 

Degradação moral 

Em Neemias 11 e 12, vimos sinais de degradação em Jerusalém – e os vemos ainda em Neemias 13. O sábado foi profanado ali, e alianças com as filhas dos incircuncisos ainda eram encontradas. Isso é mais do que degradação nas circunstâncias – é degradação moral, senão abominação. A restauração do cativeiro e o repovoamento da cidade não lhe conferiram o direito de ser saudada, como será nos vindouros dias do reino com aquela voz que o Espírito preparou nos lábios de um mundo admirado e contemplativo: “O SENHOR te abençoe, ó morada de justiça, ó monte de santidade!” (Jr 31:23).

 

Mas, apesar de tudo isso, repito, vemos Neemias servindo. E isso é uma visão muito nobre. Não preciso dizer como o divino Mestre de todos os servos foi um exemplo perfeito disso, em Seu dia de serviço. Mas há uma grande dignidade moral nisso; busquemos exemplos dela em todos aqueles em quem pudermos encontrá-la.

 

A congregação, mantendo o Livro aberto, também é uma visão edificante: uma visão especialmente importante para nós contemplarmos. Eles não fizeram “acepção de pessoas na aplicação da lei” (Ml 2:9 – JND). Eles representam um povo que não desejava ter “textos negligenciados” nem “páginas não viradas” no Livro de Deus. Nenhum som dele deveria se perder aos ouvidos, como se fosse ouvido à distância. Mas quem de nós, eu pergunto, está à altura deles nisso? Como somos propensos a escolher nossas lições em vez de viver de acordo com cada palavra que procede da boca de Deus! Não é assim? Posso amar a página que me fala da festa dos tabernáculos em sua alegria, e me deleitar com o som das trombetas no dia da Lua nova do sétimo mês, mas a palavra que me purificaria e me separaria de alianças injustificadas tem outra relação comigo e se dirige a mim com outro tom. Não escolho essa lição. É uma página do Livro que não estou disposto a olhar. Sinto-me tentado a dizer com o governador romano: “Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei”. A casa pode estar social demais, o coração pode estar à vontade demais para se disciplinar por meio de ordenanças como Deuteronômio 23:3.

 

Verdadeiramente, verdadeiramente podemos afirmar que toda esta Escritura, estes livros sobre os cativos que retornaram, este Esdras e este Neemias, são dignos da mais profunda atenção e plena admiração de nossa alma. Como o Espírito de Deus atuou nos eleitos naqueles dias? Como Ele, por meio do que registrou sobre eles, nos instrui nestes dias?

 

Além disso, como vimos, os tempos de Zorobabel, Esdras e Neemias foram tempos de reavivamento. Tais tempos já haviam ocorrido antes em Israel, como com Samuel, Davi, Josafá, Ezequias e Isaías. E tal tem ocorrido repetidamente ao longo da história do Cristianismo. E um período de reavivamento pode assumir uma forma que nós não esperamos, e talvez sem um precedente perfeito. É próprio da vida, por vezes, apresentar características exuberantes, operar fora e além de suas regras e medidas comuns. Ela se mostra mais autêntica quando age assim. Pois a vida é algo livre e possui uma força própria. Mas, ao mesmo tempo, devemos julgar cada expressão dela pela Palavra de Deus. “À lei e ao testemunho”: se algo não resiste a esse teste, não é o transbordamento de vida, por mais exaltado ou exuberante que seja; deve ser rejeitado com todos os seus encantos.

 

“A quem tem, mais lhe será dado” A obediência a uma lição é o caminho seguro para a descoberta de outra lição. “Se alguém quiser fazer a vontade d’Ele, conhecerá a respeito da doutrina” (Jo 7:17 – ARA). Há uma tentação de recuar, com medo de que as lições que ainda temos a aprender se mostrem desagradáveis. “O que aumenta em conhecimento, aumenta em dor”. Existe, portanto, em alguns de nós, uma grande inclinação ou tentação de parar abruptamente. Mas isso é desobediência, assim como quebrar uma palavra lida e entendida. Fechar o Livro, por medo do que ele possa nos ensinar, é clara e inegável desobediência.

Os Dispersos Entre os Gentios 

Ester 1-2

 

Nos livros de Esdras e Neemias, sobre os quais já meditei, vimos os cativos sendo trazidos de volta a Jerusalém, para lá aguardarem a vinda do Messias, a fim de se saber se Israel aceitaria o Mensageiro e Salvador que Deus lhes enviaria. Neste livro de Ester, encontramos um cenário bem diferente. Os Judeus ainda estão entre os gentios.

 

Analisaremos o texto em sua sequência de dez capítulos; e na ação registrada encontraremos:

  • O Senhor Deus agindo maravilhosamente, mas secretamente.

  • Os próprios Judeus.

  • O gentio, ou o poder.

  • O grande Adversário.


 Poder arrogante 

O livro começa apresentando-nos uma visão do gentio agora no poder. Trata-se, porém, do persa e não do caldeu – “o peito... de prata”, não “a cabeça... de ouro”, na grande estátua que Nabucodonosor viu. Aqui, lemos o segundo capítulo, e não o primeiro, da história da supremacia do gentio na Terra. Vemos o gentio no progresso de sua carreira e não no início dela; mas, moralmente, ele é o mesmo. Semelhante a Moabe, seu caráter permanece o mesmo, seu cheiro não se alterou. Toda a arrogância que se manifestou em Nabucodonosor reaparece em Assuero. Nenhum espírito ou fruto de arrependimento – nenhum aprendizado sobre si mesmo – ou sobre o que lhe convém como criatura é visto neste homem da Terra. A mentira da serpente, que moldou o homem no princípio, está operando com a mesma intensidade de sempre. O antigo desejo de ser como Deus se manifesta agora no persa, assim como antes se manifestou no caldeu. Um deles construiu sua cidade real e a contemplou com orgulho, dizendo: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a morada real, pela força do meu poder, e para a glória da minha majestade?” O outro agora oferece um banquete e, por cento e oitenta dias, mostra aos príncipes e nobres todo o poder do seu reino: “as riquezas do seu reino glorioso e a grandeza da sua excelente majestade”.

 

Aliás, mais ainda; pois o persa vai além. Há uma ousada pretensão de ser como Deus na Pérsia, o que não vimos na Babilônia. Notamos isso em três ordenanças persas distintas:

  • Ninguém deveria comparecer perante o rei sem ser convidado. Caso essa ordenança do reino fosse violada, a vida e a morte dependeriam da vontade do rei.

  • Ninguém deveria estar triste diante do rei; seu rosto ou presença deveriam ser recebidos por todo o seu povo como a fonte e o poder da alegria e da felicidade.

  • Nenhum decreto de seu reino podia ser cancelado; ele permanecia válido para sempre.

 

 

Essas são, de fato, grandes suposições. Isso excede o limite, na maneira como o homem se apresenta como Deus; e não sabemos que esse espírito atuará até que o gentio complete a sua iniquidade? Mas a mão de Deus começa a operar Suas maravilhas agora, em meio a toda a festividade e orgulho que abrem o livro. A alegria do banquete real foi interrompida: uma mancha desfigura a bela forma de toda essa magnificência. A rainha gentia se recusa a servir à ocasião, ou a ser tributária deste dia de regozijo público; e isso leva à manifestação do Judeu e, em última análise, a tornar esse povo principal na ação e eminente na Terra, além de qualquer pensamento ou cálculo.

 

Deus usa pequenas coisas 

Foi um começo pequeno, pobre e insignificante em seu caráter e material. O temperamento de Vasti, que a incitou a uma conduta que pôs fim à sua vida, foi o “pequeno fogo” que incendiou esse “grande bosque”. É uma circunstância miserável e desprezível. O que pode ser mais vil? O temperamento, podemos dizer, de uma mulher imperiosa! E, no entanto, Deus, por meio disso, opera resultados então conhecidos apenas em Seu conselho, mas cujo cumprimento será visto no vindouro dia da glória Judaica.

 

Vasti é deposta. Ela é destituída como esposa do persa, e outra mais digna deveria ser procurada para ocupar seu lugar.

 

Agora, surge a questão: até que ponto um Judeu pode se aproveitar de tal ocasião? A santidade se vale da corrupção? Pode o povo de Deus esquecer seu nazireado, sua separação para com Ele? E, no entanto, Ester consente em comparecer perante o rei naquele momento, acompanhada por todas as filhas de seus súditos incircuncisos!

 

Isso pode nos surpreender se julgarmos as coisas por uma luz menos pura e intensa do que aquela em que o próprio Deus habita. O senso moral do mero homem – o veredicto das ordenanças legais – a própria voz do Monte Sinai não bastará em certos momentos. Devemos andar na luz, assim como Deus está na luz. Devemos conhecer “os tempos”, como Issacar na antiguidade, antes de podermos dizer com razão: “o que Israel devia fazer” (1 Cr 12:32).

 

Porventura alguns habitantes de Belém de Judá não se casaram com filhas de Moabe, sem serem repreendidos? Não se desviou José, em seu casamento, da santidade de Abraão, e Moisés dos preceitos da lei? Não foi Raabe, embora filha de incircuncisos, adotada por Judá, e tão notável na linhagem, segundo a carne, do Senhor de Davi? E não tomou Sansão por esposa uma mulher de Timna, que pertencia aos filisteus?

 

O povo de Deus não estava em adequada ordem nas ocasiões daqueles estranhos eventos; e esta é a justificação moral. A luz da sabedoria divina na dispensação divina torna-se o juiz, em vez das ordenanças. Os Judeus estavam agora dispersos. José, se assim o desejarmos expressar, está novamente no Egito, Moisés em Midiã e os filhos de Belém de Judá em Moabe; e Ester é tão pouco repreendida por ter entrado diante do rei da Pérsia, assim como José por se casar com Asenate, Moisés por se casar com Zípora ou Malom por se casar com Rute; e todos eles permanecem sem reprovação ou julgamento diante de Deus nessas coisas, assim como Davi quando comeu os pães da proposição. Aliás, essas coisas vieram de Deus, assim como o casamento de Sansão com uma filisteia parece claramente ser assim reconhecido (Juízes 14:4).

 

Os desígnios divinos serão cumpridos; os frutos da graça serão colhidos; e as ordenanças da justiça e os arranjos que nos convêm, se estivermos em integridade e em boa ordem, não interferirão. 



J. G. Bellett

 

 

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