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O Apostolado e as Epístolas de Paulo - Parte 5/5

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ÍNDICE


O Apostolado e as Epístolas de Paulo

Parte 5/5

J. G. Bellett

Filipenses

 

A Epístola aos Filipenses tem um caráter pastoral muito forte. O vínculo entre a Igreja de Filipos e o apóstolo era estreito e afetuoso. Ele estivera com eles no início de sua história espiritual (Atos 16), e eles continuaram a se comunicar com ele, mesmo quando ele estava longe (cap. 4:15). Eles eram ricos nessa graça peculiar, e o apóstolo encontra regozijo em mencioná-la, mesmo tendo que adverti-los contra certos sinais de desunião que, segundo ele, estavam surgindo entre eles (cap. 4:1-3). Ele trata com esse mal de uma maneira que expressa sua confiança de que havia graça entre eles para vencer a questão, e isso confere à sua abordagem um tom profundamente terno e afetuoso. E isso certamente deve nos ensinar que, quando vemos muita graça de Cristo em algum santo companheiro, devemos dar-lhe o devido crédito por isso e administrar qualquer correção ou repreensão que considerarmos necessária à luz dessa graça.

 

Não há uma ordem estrita de ensino doutrinal nesta epístola, contudo, há muito de grande valor para os santos ao demonstrar as energias da vida que eles já possuíam em Cristo (cap. 1), ao apresentar-lhes o modelo perfeito dessa vida no exemplo do Senhor enquanto esteve aqui entre os homens (cap. 2), o progresso e o objetivo de alguém em quem essa vida atuava com toda a sua força e energia (cap. 3) e a descoberta em Cristo de tudo o que o coração busca em termos de paz e poder (cap. 4), em um mundo onde tudo tende a perturbar a alma.

 

Os santos são vistos aqui em meio a uma “geração corrompida e perversa”, trilhando seu caminho na companhia do Deus de toda graça, que supre todas as suas necessidades. Há adversários, e a própria morte pode pôr fim à sua jornada, mas tudo está bem. Viver é Cristo e morrer é lucro. A jornada pode ser longa ou curta, mas o fim é abençoado. A “salvação”, ao longo da epístola, refere-se à libertação plena e definitiva de todo o mal, com uma entrada triunfal naquela glória na qual Cristo já entrou. A mente humilde e as afeições graciosas que caracterizam aqueles cujos olhos estão fixos no Exemplo perfeito de humilhação, entrega e submissão testemunhados no Senhor são, de maneira bela, descritos por Timóteo e Epafrodito no capítulo 2. A energia que provém da contemplação de Cristo em glória, permitindo ao santo considerar tudo o que está aqui como escória, é vista no capítulo 3.

 

A ressurreição que Paulo aguardava era uma ressurreição à semelhança da do próprio Senhor. Certamente, ela possuía qualidades peculiares. Era uma ressurreição dentre os mortos, vitoriosa sobre a morte. Ele detinha o poder dela em Si mesmo ou em virtude do que Ele era. Ele era as Primícias de uma colheita que, no devido tempo, se seguiria segundo a sua espécie. Seu povo, diferentemente d'Aquele que, por este título de Primícias, lhes garante participação em Seu triunfo, não possui em si mesmo tal virtude como Ele tem: ela lhes é conferida por infinita graça; eles participam do Seu triunfo porque "são de Cristo". Contudo, certamente é uma bênção saber que a ressurreição deles será dentre os mortos, como foi a do seu Senhor – uma ressurreição vitoriosa. Este era o objetivo do apóstolo, e para ele Paulo prosseguia. Seus olhos estavam voltados para os regozijos distantes, e por eles deixou tudo para trás, avançando em direção a eles. E celestial também é a cidadania do santo. Sua herança está lá, no lugar para o qual foi chamado quando foi alcançado pelo Senhor em glória. Sua esperança também reside ali. Ele anseia pelo Salvador, que é o Objeto do seu coração, Aquele que realizará por Sua mão aquilo para o qual, em Sua graça, vinha preparando o coração do Seu santo e servo para buscar – para ser semelhante a Ele e estar com Ele para sempre.

Colossenses

 

Os santos de Colossos haviam começado bem, e seu progresso era bom, mas corriam o risco de serem desviados pela entrada de doutrinas judaizantes e filosofias gentias, afastando-os do Senhor vivo e da caminhada que resulta da ocupação da alma com Ele. O apóstolo lhes revela, de forma rica e variada, a plenitude e a suficiência de Cristo, que é a correção divina para esse mal. Nesta epístola, o apóstolo afirma que o ministério especial que lhe foi confiado foi o de “cumprir [completar – JND] a Palavra de Deus” (cap. 1:26). “Completar” a revelação de Deus. A ele foi dado revelar, por meio de seu ministério, o mais elevado dos mistérios celestiais. A revelação de Deus resplandece com maior brilho à medida que as dispensações avançam. Aqui, Cristo é visto como Cabeça e Plenitude do Seu corpo, a Igreja, composta por um chamado de Judeus e gentios, para se tornarem membros de Cristo e coerdeiros da glória. Esses eram segredos íntimos de Deus desde o princípio, os mais profundos de todos os Seus conselhos de graça, mas agora são revelados. Essa consumação conferiu um caráter especial ao ministério de Paulo. Ele era ministro do evangelho e também da Igreja (cap. 1:23-25), e esta é a última e mais sublime revelação de Deus, a mais rica em todos os conselhos da Sua graça. Assim como Eva foi a última de todas as maravilhosas obras de Deus na primeira criação, a mulher aqui, o complemento do Homem (Ef 1:23), é a coroa de toda a Sua obra em graça, assim como a Noiva de Apocalipse 21 estará em glória. E essa graça multiforme, em toda a sua riqueza, agora é manifestada diante dos principados e potestades nos lugares celestiais, que ouvem em silencioso espanto a história dessa graça que este chamado da Igreja está agora relatando.

 

Colossenses 1. As glórias de Cristo resplandecem em toda a sua plenitude aqui. Ele é preeminente em todas as posições. Sua posição de Cabeça e Plenitude se destaca, e para isso os santos que compõem este corpo, a Igreja, são especialmente direcionados.

 

Colossenses 2 fala como o poder da Cruz satisfez tudo, que o santo é como um morto e, assim, é libertado da esfera em que o pecado e a carne tinham seu domínio. Assim, eles não devem (submetendo-se a ordenanças) se tornar como homens ainda vivendo no mundo (v. 20). O “crescimento de Deus”, que é a fonte de seu sustento (v. 19), é celestial e não provém de filosofias terrenais; é espiritual, não de ordenanças carnais; e Cristo é neles a esperança da glória.

 

Colossenses 3 fala de um povo ressuscitado com Cristo, que é o Cabeça e o caráter de uma nova criação. Como tal, eles devem buscar as coisas do alto, e sua conduta deve estar de acordo com o chamado que receberam, o qual lhes dá o poder para trilhar esse caminho. Os preceitos deste capítulo testemunham o chamado celestial e o caráter dos santos, pois expressam a virtude moral presente que há na doutrina, de modo que a glorificam. A ousadia que deve marcar o caminho dos santos deve estar de acordo com a posição celestial; deve ser uma ousadia adequada à dispensação. Antigamente, seria contaminação para um Judeu comer com um gentio; agora, todos são um em Cristo, e o único Espírito, de Quem provém todo fruto, permeia tudo.

 

Colossenses 4. Tanto os relacionamentos terrenais quanto as fontes da conduta moral devem ser purificadas e governadas por essas verdades celestiais que habitam e operam nos santos. O servo presta seu serviço ao Senhor e o mestre encontra seu Modelo e Exemplo em seu “Senhor nos céus”. Tudo isso está em honra da doutrina da epístola e, nas mãos do Espírito, está a expressão de sua virtude moral.

1 e 2 Tessalonicenses

 

A primeira chegada do apóstolo a Tessalônica está registrada em Atos 17, onde, como resultado de seu ministério do evangelho, um povo se encontra reunido como Igreja, na certeza da salvação de Deus e na esperança do retorno de Seu Filho do céu (cap. 1:9). Em meio a muitas provações e perseguições, eles estavam servindo ao Deus vivo e verdadeiro, ao Qual haviam se convertido, deixando os ídolos, e a notícia da fé deles se espalhou por toda a região. Mas, tendo Paulo sido forçado a se afastar repentinamente dessa Igreja recém-fundada pela inimizade e oposição dos Judeus, ele demonstra uma preocupação especial por eles e, como um verdadeiro pastor, por eles seu coração se comove profundamente. Timóteo havia sido enviado para confortá-los quanto à sua fé (cap. 3:2) e fortalecê-los contra as ciladas do tentador que buscava alarmá-los e seduzi-los, afastando-os da verdade. Com poucos recursos e muitas provações, eles pareciam ter caído sob o domínio de duas interpretações equivocadas da verdade ensinada pelo apóstolo: uma referente aos seus irmãos que haviam adormecido e a outra referente a eles mesmos, que estavam vivos. O primeiro erro é tratado especialmente na primeira epístola, e o segundo, na segunda. O retorno de Timóteo ao apóstolo trouxe-lhe a notícia dos seus temores a respeito daqueles que haviam adormecido, de que pudessem perder as alegrias que aguardavam os que estariam vivos, esperando a vinda do Filho do céu. Para dissipar essa ansiedade e transmitir uma revelação mais completa sobre o assunto, o apóstolo escreve para informá-los de que todos os santos, vivos ou adormecidos, participariam do triunfo daquele dia e seriam arrebatados juntos para encontrar o Senhor nos ares (cap. 4:13-18) e estar com Ele onde Ele está.

 

A segunda epístola foi escrita para remover outra ansiedade que havia surgido entre eles a respeito dos santos vivos, seja por um entendimento imperfeito de sua primeira epístola, seja por sugestões falsas ou deturpações feitas por outros. Eles temiam que os santos que estivessem vivos na Terra quando o “dia do Senhor” estivesse “presente” (JND) fossem envolvidos nos juízos que, segundo a Escritura, caracterizarão aquele período. A isso, a segunda epístola responde, dizendo-lhes que o dia do Senhor não poderia vir até que o “homem do pecado” fosse revelado e a completa apostasia da verdade fosse manifestada (2 Tessalonicenses 2:1-10). Sendo a distinção entre a vinda do Filho de Deus nos ares com um alarido ou grande brado por Seu povo, para levar todos, mortos e vivos, desta família celestial para a casa do Pai, e o Seu retorno com eles em “labaredas de fogo” (2 Ts 1:8), como Filho do Homem e Ministro da justa ira de Deus sobre o mundo dos ímpios. Esses são os principais temas dessas preciosas Epístolas, que oferecem muito para fortalecer a fé e sustentar a esperança enquanto a longanimidade de Deus se prolonga e o evangelho se propaga, trazendo ao celeiro seus feixes para a colheita celestial, com solenes advertências aos santos quanto à vigilância e à conduta, enquanto o fermento da apostasia vindoura já os cerca.

As Epístolas Pastorais

 

As Epístolas a Timóteo e Tito, embora escritas para servos individuais de Cristo, têm um valor especial para nós nestes tempos, ao apresentarem o caráter e os princípios do verdadeiro serviço na Igreja de Deus. Pois, quaisquer que sejam as mudanças trazidas pelo tempo, o conselho do Senhor permanece para sempre, e os pensamentos do Seu coração por todas as gerações. O Espírito Santo aqui dá Seus conselhos para fortalecer aqueles que servem na casa de Deus, na qual desordens e perigos já se alastravam, mesmo naquela época remota. Aqui estão verdades para preservar aqueles cujos pés estão no caminho e para corrigir e recuperar aqueles que se desviaram dele. Há erros e males, mas o Espírito Santo, por meio do apóstolo, aqui admoesta e repreende para que Ele possa restaurar, enquanto vigia com paciência. Mas se Suas instruções e admoestações forem ignoradas, o Senhor poderá tratar com castigo, bem como com repreensão (Apocalipse 3:19), aqueles que ainda são objetos do Seu amor.

 

1 Timóteo. No capítulo 1, o apóstolo demonstra grande empenho em exaltar a graça de Deus. A salvação é descrita como sendo tudo isso. Ele escreve sobre Deus como Salvador e Cristo Jesus como nossa esperança. Ele sabia bem como manter as honras de cada uma das Pessoas da Trindade em seu devido lugar. Aqui, Deus Se revela como Salvador, e essa revelação de Deus está associada à bênção da criatura. A alma que recebe a Sua salvação, conforme revelada no evangelho, é bem-aventurada, mas a que a rejeita não é bem-aventurada: está “sem Deus” (Efésios 2:12) e será julgada como alguém que não O conhece (2 Tessalonicenses 1:9).

 

Nos versículos 8 a 10, o apóstolo se volta para a lei e seu uso. Ela não serve para a salvação; seu lugar não é na Igreja, mas fora dela, no mundo, cumprindo ali sua função designada. E o santo que está dentro, olha de seu lugar de segurança para o mal e vê a lei em ação entre aqueles que são nomeados como agindo em contradição ao evangelho do Deus bendito. O apóstolo, portanto, declara que a lei é “boa” e realiza uma obra necessária em sua própria esfera, mas quando se volta para o evangelho, seu coração arde e seu espírito se enche de regozijo ao reconhecê-lo como “o evangelho da glória de Deus bem-aventurado” – ou, como está no original – “o Deus feliz”. É como Doador que Deus é apresentado no evangelho, e alegra o Seu coração dar, pois foi da mente e do coração de Deus que o Senhor Jesus falou quando disse: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”.

 

Nos versículos 12 a 16, ele magnifica a misericórdia que o encontrou em sua culpa como um pecador ignorante e insolente – assim como em Filipenses 3, quando renunciou a toda confiança em sua própria justiça e nas vantagens carnais que havia adquirido, sendo sua salvação inteiramente pela graça e por sua justiça somente em Cristo. No versículo 17, ele vislumbra o futuro distante e parece contemplar a entrada de sua própria nação – cuja conversão a sua própria era o modelo – e, ao vê-los sendo introduzidos, seu espírito irrompe em uma bela doxologia: “Ora, ao Rei dos séculos” – não apenas “Deus nosso Salvador”, mas como Rei reinando em Seu trono legítimo. É bom para a alma seguir por um caminho tão bendito, começando com a graça e terminando na glória.

 

1 Timóteo 2. Tendo o caminho para dentro da casa sido tornado claro no capítulo 1, a ordem dessa casa e as ocupações daqueles que nela habitam são descritas aqui, pois é depois de entrarmos que respiramos sua atmosfera e aprendemos nossas responsabilidades para com os outros que ali estão. Primeiramente, é aceitável e condizente com “Deus nosso Salvador” orar por “todos os homens”, pois é da vontade de Deus que todos sejam salvos. E há um só Mediador – não apenas para os Judeus, mas para todos – “entre Deus e o homem”, cujo resgate é válido para todos. Em seguida, a mulher é apresentada como uma figura da Igreja em sua submissão a Cristo como Senhor, aprendendo em toda submissão e se comportando de maneira adequada nessa posição.

 

1 Timóteo 3 descreve a natureza e a ordem de todo o serviço nesta casa de Deus, pois onde Deus habita, tudo deve ser segundo a Sua vontade, visto que nem mesmo o homem redimido é deixado livre para determinar seus próprios caminhos como adorador ou servo. Tudo é providenciado pelo Dono da casa. A boa vontade na adoração é sempre correta e aceitável a Deus, mas a obstinação Ele não tolerará (Levítico 10:1-2; 1 Coríntios 11:28-32). O último versículo deste capítulo apresenta o “mistério da piedade” – Deus manifestado em carne – em Sua missão na Terra para formar um elo com um povo redimido e chamado, a quem Ele pudesse conduzir após Si para a Sua glória. “Justificados em espírito” refere-se àquilo que pertencia somente a Cristo. Ele era pessoalmente puro e imaculado, mas nós só podemos ser justificados pelo Seu sangue (Romanos 5:9). “Vistos pelos anjos”. Que visão para eles contemplarem e aprenderem (1 Pedro 1:12), mas eles só podiam observar. Somos os sujeitos de Sua obra redentora, e nossos interesses estão ligados a ela e a Ele, como agora "recebido acima na glória".

 

1 Timóteo 4-6. Aqui, são previstos graves desvios da fé em sua pureza, bem como da piedade em sua integridade e simplicidade e são feitas provisões para isso. Em alguns, isso ocorre por darem ouvidos a “espíritos enganadores” (cap. 4:1) que procuram corromper a verdade, e em outros, pelos ensinamentos perversos de homens de mentes corruptas, totalmente privados da verdade (cap. 6:5). Em meio a essas depravações, o santo é chamado a andar em pureza, guardando o que recebeu de Deus (a doutrina que é segundo a piedade), vivendo sem mácula e irrepreensível, tendo em vista a aparição do Senhor (cap. 6:14), que avaliará plenamente o valor de tal serviço e o recompensará de acordo.

 

2 Timóteo. No tempo do trabalho ativo do apóstolo, “o mistério da injustiça [iniquidade – ARA] (2 Ts 2:7) e o fermento da doutrina maligna, introduzido secretamente em um período inicial (Gálatas 5:9), já se manifestavam aos seus olhos ungidos, revelando as diversas formas de corrupção que se espalhariam amplamente. É para instruir e proteger Timóteo em meio a isso que sua segunda epístola foi escrita. Ele trata especialmente das características dos “últimos dias” (cap. 3:1) e adverte Timóteo como se ele já estivesse vivendo neles. Isso tem um valor especial para todos que caminham em meio à corrupção agora plenamente desenvolvida e espalhada por toda a Cristandade. As palavras iniciais são muito comoventes, cheias de afeição pessoal. Timóteo era seu verdadeiro filho no evangelho. Ele também havia sido seu fiel companheiro, como um filho para um pai (Filipenses 2:19-22), e agora permanecia em pé como testemunha de Deus e da verdade em meio à corrupção abundante. O coração do apóstolo transborda de grande afeição por seu “amado filho”. Ele não permitiu que sua dor pessoal, nem as decepções que tinham vindo das igrejas cujo bem-estar ele trazia diariamente como cuidado em seu coração, o fizessem fechar-se em si mesmo. De modo algum. Sua afeição era tão grande e sincera como antes, e se ele não podia dedicá-la àqueles que em anos anteriores a haviam reivindicado, ele a deixaria fluir para este fiel obreiro de Deus.

 

Timóteo pode ter sentido a tentação de desanimar, de considerar tudo como perdido. É uma tentação comum em tempos de afrouxamento. Mas Timóteo não deve ceder a isso. Ele tem um dom de Deus e deve usá-lo, prestando todo o serviço que puder em meio às circunstâncias existentes. Ele tinha o exemplo do apóstolo e a plena expressão de sua confiança naquela fé da qual ele era despenseiro, e ele não deveria se envergonhar do testemunho do Senhor, acontecesse o que acontecesse.

 

Em 2 Timóteo 2 Paulo prossegue em encorajá-lo e prepará-lo para o serviço e o conflito. No capítulo 1, já lhe havia revelado o seu título à confiança no poder que o preservaria e levaria tudo à vitória final no dia do Seu poder e glória, assim como na Sua ressurreição Ele aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção. Aqui, em 2 Timóteo 2:1, ele deve ser “forte na graça” (JND) e, ao mesmo tempo, acostumar-se a “suportar as dificuldades” como um soldado em serviço, e continuar trabalhando com paciência e esperança, sem esperar ver os frutos completos até o dia da colheita, lembrando-se de que o Senhor, como a Semente de Davi, recebeu Sua recompensa na ressurreição, uma verdade que os ensinamentos de Himeneu e Fileto negavam. Pois, se “a ressurreição era já feita”, então a “aparência de piedade” poderia muito bem ser a religião de uma igreja corrupta que tivesse abraçado o mundo. Era uma época de corrupção religiosa, infidelidade e independência do homem, que abandonava todo o temor a Deus e a reverência à Sua Palavra para fazer a sua própria vontade e trilhar o seu próprio caminho. Em meio a essas condições, cabia a Timóteo “procurar” apresentar-se a Deus aprovado, como alguém “que maneja bem a palavra da verdade”. Ele deveria se apegar à doutrina que aprendera e fazer pleno uso das Escrituras Sagradas, que conhecia desde a infância e que foram comprovadas em sua salvação, e que eram suficientes para sustentá-lo em todo o seu serviço. Restava apenas ao apóstolo, agora no fim de sua jornada, com a coroa em vista, aguardando o martírio, proferir seus últimos conselhos com a devida solenidade e fixar sua esperança no dia vindouro da recompensa perante o servo e administrador de Deus, com um belo testemunho final da fidelidade do Senhor que o amparou até o fim.

 

Tito. Nesta breve Epístola, a ordem e os ministérios da casa de Deus, com as características morais próprias que convêm a todos os que a ela pertencem, são devidamente estabelecidos. Essa forma exterior procedia do Espírito Santo, cuja presença era também o seu poder. É algo feliz quando forma e poder se encontram unidos, e quando a operação interior do Espírito na Igreja lhe confere a sua forma exterior ordenada pela “verdade que é segundo a piedade”, como o apóstolo aqui fala. Quando essas coisas se separam, a forma exterior será, aos olhos de alguns, tida em honra, mas com pouco do poder que deveria acompanhá-la. O “espírito... de força, de amor e de prudência” (2 Tm 1:7 – TB) preservará disso. Contudo, as portas desta casa de Deus devem ser zelosamente guardadas, suas avenidas mantidas limpas, e sua ordem e ministérios regulados segundo a vontade d’Aquele que nela habita. Se algum dos hóspedes desta casa do Senhor agir contrariamente à lei ou à santidade da casa, eles devem ser tratados, pois tudo deve estar de acordo com a mente do Senhor da casa. Cada servo deve conhecer o seu devido serviço, de acordo com a distribuição ou dom que recebeu, e usar tudo para a edificação e auxílio dos demais membros da casa.

Hebreus

 

Nesta Epístola, o Espírito Santo abre os céus e nos mostra Cristo ascendido e assentado à destra do trono de Deus. É o grande testemunho da aceitação de Cristo por Deus. Ela expõe esse fato, estabelecendo-o, por assim dizer, na boca de muitas grandes e augustas testemunhas. Outros testemunhos anteriores já haviam sido dados a esse respeito: o véu rasgado no momento de Sua morte, Sua ressurreição do sepulcro e o dom do Espírito Santo, que se seguiram em seus respectivos tempos. Aqui, o Espírito Santo dá o Seu testemunho supremo de Sua aceitação no céu, em características tais que respondem às nossas necessidades. Ele as revela, uma após a outra, para mostrar a superioridade de Cristo e exibir as diversas glórias que Ele ostenta como glorificado lá.

 

Em Hebreus 1 e 2, o Espírito Santo desloca profetas e anjos para dar lugar a Cristo. Nos capítulos 3 e 4, Ele desloca Moisés e Josué, e nos capítulos 5 e 6, Arão. Nos capítulos 8 e 9, a antiga aliança e o antigo santuário, com seus serviços, são deixados de lado para introduzir o Seu sacrifício e seu valor permanente para o Seu povo. E, tendo-O assim introduzido, o Espírito Santo fixa o nosso olhar n’Ele para sempre, pois Ele não tem sucessor.

 

Em Hebreus 1, Ele é visto assentado à destra da Majestade nas alturas como o Purificador dos nossos pecados e como o Herdeiro de tudo, e Sua herança é vista como já firmada no poder da redenção, compartilhada por Ele com Seus coerdeiros que, como nos assegura o capítulo 2:10, estão sendo conduzidos por Ele à Sua glória, da qual participarão. Como Redentor, Ele havia tomado sobre Si os seus fardos, e agora os conduz adiante, tomando sobre Si também as suas bênçãos, tendo consideração por eles em todos os seus caminhos, até que sejam levados a participar da herança como coerdeiros Consigo mesmo, para se assentarem com Ele na soberania de todas as coisas no mundo vindouro, como diz o capítulo 2:10. E o Seu povo já foi feito “idôneo” (Cl 1:12) por Ele mesmo, para participar dessa herança como seu “Santificador” (cap. 2:11). Em toda a Sua glória, eles são vistos com Ele, do princípio ao fim. Doravante, eles são vistos como coerdeiros com Ele em todo o caráter e glória que Ele possui.

 

Em Hebreus 3, Ele é apresentado como o Apóstolo que nos fala da parte de Deus, do qual Moisés era a figura (Deuteronômio 34:10). Ele se distinguia de todos os outros profetas por Deus falar com ele face a face e por ter acesso a toda a Sua casa como servo. Mas o “Filho” está em plena e profunda intimidade com todos os Seus conselhos e tem a mais perfeita comunhão com Ele em todas as Suas obras e caminhos, tanto celestiais quanto terrenais. Ele é o Dono de uma morada permanente, o Doador do repouso eterno e Sumo Sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. Ele está no santuário celestial para tratar dos assuntos do Seu povo para sempre, pois o Seu sacerdócio está estabelecido no poder de uma vida sem fim.

 

Seu sacrifício, conforme descrito em Hebreus 9-10, é visto como tendo valor eterno e, sendo assim, traz perfeição aos adoradores e os coloca para sempre na presença de Deus. Em Hebreus 12, Ele é recebido e assentado no céu como Autor e Consumador da fé. Dessa forma, um após o outro é suplantado por Cristo, e tendo-O apresentado, o Espírito encerra Sua deleitosa tarefa, deixando-O diante de nós, fixando nosso olhar n’Ele como Aquele que permanecerá diante de nossa alma para sempre: “Jesus Cristo, é o Mesmo ontem, e hoje e eternamente”.


J. G. Bellett

 

 

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