Força que Vem de Deus - Meditações Para o Nosso Tempo - Parte 4/5
- J. G. Bellett (1795-1864)

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ÍNDICE
Força que Vem de Deus - Meditações Para o Nosso Tempo Vindas de Esdras, Neemias e Ester
Parte 4/5
J. G. Bellett
Orgulho e Excelência Moral
Ester 3
O Judeu, por mais estranho que pareça, como vimos, torna-se importante para o poder, ou seja, para o persa. Mas, mais do que eu já mencionei, o Judeu é importante tanto para a sua segurança quanto para o seu bem-estar. Afinal Mardoqueu torna-se seu protetor, assim como Ester se tornou sua esposa. Vemos isso no final de Ester 2. O rei é devedor de ambos. Apesar de toda a sua grandeza e de todos os recursos de felicidade e força que a acompanham, ele é devedor dos dispersos de Judá. Eles são importantes para ele. Tanto o seu coração quanto a sua mente, por assim dizer, precisam reconhecer isso.
Mas, se o Judeu é assim estranhamente trazido à condição de pessoa favorecida e aceita, com igual estranheza o inimigo do Judeu é elevado a uma posição alta e honrosa, e colocado exatamente no cargo que lhe permitia satisfazer toda a sua inimizade. Um amalequita ocupa o segundo lugar em dignidade e poder, logo abaixo do rei.
Acima de todos os príncipes da nação, Hamã, o agagita, era o preferido; o motivo, não nos é dito. Nenhuma virtude ou serviço público é registrado a seu respeito. Aparentemente, foi simplesmente o beneplácito real que motivou isso. Ele era um estranho para a nação – um estranho distante; além disso, alguém de uma raça agora quase esquecida; poderíamos dizer, outrora distinta nos primórdios das nações, mas agora praticamente apagada das páginas da história, suplantada por outros muito mais nobres em sua postura do que ele jamais fora. Primeiro o assírio, depois o caldeu e agora o persa. E, no entanto, lá está ele diante de nós, um amalequita sentado ao lado de Assuero, o persa; em dignidade, cargo e poder, Hamã só é inferior a ele.
Reaparecimento repentino
É realmente estranho, podemos dizer. O grande inimigo de Israel, quando Israel estava no deserto, reaparece aqui com o mesmo caráter, neste dia em que Israel está disperso (veja Êxodo 17). É estranho, um amalequita encontrado tão próximo do trono da Pérsia! O coração do grande monarca daquela época se voltou para ele, colocando-o em condições de agir como o antigo amalequita, desafiando a Deus e demonstrando inimizade contra o Seu povo. Não poderíamos ter esperado tal coisa. O nome Amaleque deveria ser apagado de debaixo dos céus; e, desde os dias de Davi até agora, posso dizer, esse povo não havia sido visto. Mas agora eles reaparecem, mal sabemos como, e logo florescem e se fortalecem, como em um tempo de glória.
Isso, repito, é realmente estranho. Trata-se de alguém em quase ressurreição; de alguém cuja ferida mortal foi curada; de alguém “que era e já não é, mas que virá”.
Presságios da besta
O agagita se apresenta agora como representante do grande inimigo: o apóstata orgulhoso que resiste a Deus, ao Seu povo e aos Seus propósitos. Sempre houve um assim em cada época; e ele é o prenúncio daquele poderoso apóstata que há de cair no dia do Senhor. Ninrode, nos dias de Gênesis, o representa; Faraó, no Egito; Amaleque, no deserto; Abimeleque, no tempo dos juízes; e Absalão, no tempo dos reis; Hamã, aqui, no dia da dispersão; e Herodes, no Novo Testamento.
Exaltação do “eu”, orgulho incrédulo e desafio ao temor a Deus, com arraigada inimizade contra o Seu povo, são algumas, ou todas, as marcas em cada um deles. Assim como em uma forma plena de apostasia ousada e terrível, tal se manifestará na pessoa da besta que, com seus confederados, cairá na presença do Cavaleiro do cavalo branco, no dia do Senhor, ou no julgamento dos vivos. Profetas falaram de alguém como o rei que “fará segundo a sua vontade”; como a “estrela da manhã (Lúcifer – JND), filho da alva!”; como “o príncipe de Tiro”, podemos dizer; como o insensato que diz em seu coração: “Não há Deus”, e outros. E o Apocalipse do apóstolo nos mostra esse alguém na figura de uma besta cuja imagem foi erguida para adoração e admiração de todo o mundo, e sua marca como um sinal na testa de cada homem; cuja ferida mortal foi curada; que era, e já não é, mas que virá.
Além disso, podemos notar que o propósito, assim como a pessoa do grande adversário, se manifesta neste grande Hamã. Ele precisa ter o sangue de todos os Judeus. Seu coração não se satisfará com a vida daquele que se recusou a lhe prestar reverência. Ele precisa da vida de toda a nação. Ele exala o espírito do inimigo de Israel, que em breve dirá: “Vinde, e desarraiguemo-los para que não sejam nação, nem haja mais memória do nome de Israel” (Salmo 83). O amalequita e seu grupo lançaram a sorte, o Pur, apenas para determinar o dia em que esse ato de extermínio seria cometido. Mas, como sabemos, a sorte pode ser lançada “no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão” (Pv 16:33). E assim foi aqui. Onze longos meses, do décimo terceiro dia do primeiro mês ao décimo terceiro dia do décimo segundo mês – isto é, do dia em que a sorte foi lançada ao dia em que a sorte decidiu que o massacre da nação deveria ocorrer – são dados para que Deus amadureça os Seus propósitos tanto para com o Seu povo quanto para com os seus adversários.
Isso ressoa em nossos ouvidos com uma voz clara e forte. Não há fala nem linguagem, mas a voz é ouvida. Deus nem sequer é nomeado; mas é obra de Suas mãos e desígnio do Seu seio.
O decreto
Hamã não encontra resistência por parte do rei, seu senhor. Ele diz ao rei que há um povo disperso por seus domínios, que não lhe convém deixar viver, pois seus costumes são diferentes dos de todos os outros povos – o segredo da inimizade do mundo naquela época e ainda hoje (veja Atos 16:20-21). O decreto, segundo o desejo de Hamã, sai de Susã, o palácio, e se espalha com toda a pressa por todas as partes do mundo: o domínio do grande “peito... de prata” persa. Toda a nação, como consequência disso, recebe sobre si a sentença de morte. O decreto teria alcançado tanto os cativos que retornaram quanto os dispersos. Judeia era apenas uma província do poder persa naquela época. Mas eles precisam aprender a confiar n’Aquele que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem e que age neste mundo em poder de ressurreição. O remanescente de Israel deve aprender a trilhar os passos da fé de seu pai Abraão. É a fé que precisa ser exercitada; Pois o Senhor não Se revelará por um tempo, embora pense neles e os proteja sem Se manifestar.
Mardoqueu surge agora como o representante desse remanescente, o possuidor dessa fé semelhante à de Abraão nesta hora terrível.
A piedade deste homem querido e honrado começa a se manifestar em sua recusa em reverenciar o amalequita. O dever comum de adorar somente o Deus verdadeiro, o Deus de Israel, teria proibido isso. E será que um Judeu se curvaria diante de alguém daquela raça com quem o Deus dos Judeus já havia declarado guerra para todo o sempre? – curvar-se diante de alguém que, em vez de se curvar ao Senhor do céu e da Terra, se apresentou para insultar Sua presença e Sua majestade, sim, e para exterminar Seu povo diante de Sua face? Mardoqueu colocará sua vida em risco com essa recusa. Mas que assim seja. Ele está na mente de seus irmãos Sadraque, Mesaque e Abednego, que disseram a um Hamã anterior: “Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus, a Quem nós servimos, é que nos pode livrar; Ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste”.
Isso é verdadeiramente belo em sua origem, mas ainda mais belo em suas conexões. Pois a combinação constitui a excelência do caráter. Devemos nos portar “varonilmente [como homens – JND]”, e ainda assim que “todas as vossas coisas sejam feitas com amor”. N’Ele, em Quem estava toda glória moral, como ouvimos de outros, não havia “nada saliente” – tudo tão perfeitamente combinado. E em Mardoqueu vemos isso. Vemos “bondade” e, com ela, “justiça”. Ele era gracioso e terno, criando sua prima órfã como se fosse sua própria filha. Mas agora ele é fiel e inflexível. Ele se comportará como um homem agora, mesmo que antes tenha feito todas as coisas com amor. Ele não se curvará nem prestará reverência ao comando do rei, embora sua vida possa ser o preço.
Exercício da Alma
Ester 4-5
Os diversos exercícios da alma nestes capítulos, como vemos em Ester e Mardoqueu, são de grande interesse. A mão e o Espírito de Deus atuam juntos de maneira tão maravilhosa na história de Israel, como vemos nos Salmos e nos profetas: Sua mão moldando as suas circunstâncias; o Espírito, a sua mente. E essas duas coisas ocupam uma parte muito grande da palavra profética. E encontramos aqui ilustrações vivas e pessoais disso no exercício de coração pelo qual esses dois distintos santos de Deus são vistos passar e nas maravilhosas circunstâncias pelas quais são conduzidos.
Diante do decreto fatal, Mardoqueu jejua e lamenta, vestido de pano de saco. Mas, durante todo esse tempo, ele conta com o livramento. Tal combinação é repleta de glória moral. Elias deu um exemplo disso em seus dias, pois sabia que a chuva estava próxima; mas prostrou-se por terra e colocou o rosto entre os joelhos, como alguém em “súplica fervorosa” (1 Rs 18; Tg 5:16-18 – TB). O próprio Senhor dá outro exemplo disso. Ele sabe e testifica que está prestes a ressuscitar Lázaro do sono, o sono da morte; mas chora ao Se aproximar do sepulcro. Assim também acontece com Mardoqueu. Ele não afasta seu luto. Recusa-se a ser consolado enquanto o decreto contra o seu povo está em vigor, embora conte, certamente conte, com o livramento deles de uma forma ou de outra. Esta é outra das combinações necessárias à formação do caráter ou à glória moral; um exemplo das quais já mencionei, neste “verdadeiro israelita”.
Força para os fracos
E Ester, tão bela em sua geração quanto um vaso mais frágil, pode precisar ser fortalecida por Mardoqueu, mas demonstra profunda compaixão pelos fardos de sua nação. Ela vê as dificuldades e sente os perigos; e, por um tempo, fala a partir de suas circunstâncias. Não há nada de errado nisso. Ela conta a Mardoqueu sobre o risco que correria se comparecesse à presença real sem ser chamada. Não há nada de errado, repito, em falar assim, a partir de suas circunstâncias, embora possa haver fraqueza. Mas Mardoqueu a aconselha, como um vaso mais forte; e ele se mostra acima das circunstâncias e das afeições, na causa de Deus e de Seu povo. Ele envia uma mensagem decisiva a Ester, embora a amasse muito; e permanece calmo e de coração firme em meio a esses perigos. Ele se mantém acima das correntes das águas dessa maneira, no poder d’Aquele que pisou todas as ondas por nós. Não há fermento nem mel, por assim dizer, na oferta que ele está fazendo; ele não consulta carne e sangue, nem observa a braveza das águas. Sua fé está na vitória; e o vaso mais frágil é fortalecido por meio dele. Ester decide ir até o rei. Se ela perecer, perecerá; mas ela se sente edificada por arriscar tudo por seu povo. E, no entanto, embora ela não desmaie pela provação, também não a desprezará: pois ela terá Mardoqueu e seus irmãos esperando com um espírito humilde e dependente, para que ela receba misericórdia e seu caminho até a presença do rei prospere.
Assim, ao final do jejum, que haviam combinado por três dias, ela arrisca a própria vida e permanece no pátio interno do palácio real, enquanto o rei estava sentado em seu trono. Mas o coração dos reis está nas mãos do Senhor; e assim se comprova neste caso. Ester alcançou o favor de Assuero, que lhe estendeu o cetro de ouro.
Uma questão nas mãos de Deus
Isso era tudo. Isso revelava o desfecho de toda a questão. Tudo dependia do movimento do cetro de ouro. Era o Espírito de Deus, o conselho e a vontade divina, a soberania e a graça de Deus que ordenavam tudo isso. A nação já estava salva. O cetro havia decidido tudo em favor dos Judeus e para a confusão de seus adversários, por mais poderosos, numerosos e astutos que fossem. Deus havia tomado a questão em Suas próprias mãos; e se Ele é por nós, quem será contra nós? “Estarás longe da opressão”, o Senhor estava agora falando para o seu Israel, “porque já não temerás; e também do terror, porque não chegará a ti. Eis que seguramente poderão vir a juntar-se contra ti, mas não será por Mim; quem se ajuntar contra ti cairá por causa de ti. Eis que Eu criei o ferreiro, que assopra as brasas no fogo, e que produz a ferramenta para a sua obra; também criei o assolador, para destruir. Toda a ferramenta preparada contra ti não prosperará, e toda a língua que se levantar contra ti em juízo tu a condenarás” (Is 54:14-17). Ester aproximou-se e tocou o cetro. Ela usou a graça que a visitara, mas usou-a com reverência, e o cetro foi fiel a si mesmo. Não despertou nenhuma esperança que não estivesse agora pronta para se concretizar. Já lhe havia falado de paz; e a paz, e muito mais do que paz, lhe seria concedida. “Que é que queres, rainha Ester?” Disse Assuero a ela: “ou qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará”.
Isto é muito bendito. O cetro, digamo-lo novamente, foi fiel a si mesmo. Que verdade é transmitida aqui! A promessa de Deus, a obra do Senhor Jesus, são como este cetro. Estas vieram antes – penhores sob a mão e da boca de nosso Deus – e a eternidade lhes será fiel; e eras intermináveis de glória, testemunhando a salvação, os confirmarão. Nada é grande demais para a redenção de tais penhores: como aqui, metade dos domínios do rei são colocados aos pés e à disposição de Ester.
Perfeita sabedoria do Espírito
Mas a forma como ela lida com a oportunidade, assim colocada em sua possessão, é um dos frutos mais excelentes e maravilhosos da luz e da energia do Espírito que vemos, em meio às muitas maravilhas deste livro, em toda a obra da grande mão de Deus.
Em vez de pedir metade do reino, em vez de desejar imediatamente a cabeça do grande amalequita, ela pede que o rei e Hamã venham a um banquete de vinho que ela havia preparado para eles. Estranho, de fato! Quem poderia ter previsto tal aceitação de um tão ilimitado penhor e promessa? Isso nos faz lembrar a resposta do Mestre divino, d’Aquele que é “a sabedoria de Deus”, à mulher samaritana. Ela pediu a água viva, e Ele lhe disse para chamar seu marido! Estranho, ao que parece, além de qualquer explicação. Mas, como sabemos, era um raio da mais pura luz que emanava da Fonte da Luz. E assim, aqui, a resposta de Ester foi estranha, de fato. Mas veremos que foi nada menos que o testemunho da perfeita sabedoria do Espírito que a iluminava e guiava. Era o modo de conduzir o grande adversário à pleno amadurecimento de sua apostasia, para que ele atingisse aquela poderosa elevação em orgulho e autossatisfação, da qual a mão de Deus havia preparado desde o princípio para derrubá-lo. Ester, sob a influência do Espírito, lidava com Hamã, assim como a mão de Deus havia lidado com Faraó no Egito. O vaso da ira havia se preparado novamente para o juízo; e ele deveria cair do pináculo para o qual seus próprios desejos e o deus deste mundo o impulsionavam. Ester é o instrumento nas mãos de Deus para lhe dar a ocasião de, assim, completar a plena forma de sua apostasia. Ester se revela maravilhosamente no segredo de tudo isso. Ela convida Hamã e o rei, no segundo dia, assim como no primeiro – somente esses dois juntos; e quando isso aconteceu, alcançou-se a vertiginosa altura da qual o apóstata estava destinado a cair.
Ele não suporta tudo isso. É demais para ele. Seu coração está sobrecarregado; o orgulho satisfeito o encheu por completo. Ele não consegue se conter; mas a corrupção o leva pelo caminho da natureza – um triste veredito contra a natureza. Mas assim é. Era natural que ele expusesse todas as suas glórias à sua esposa e aos seus amigos. Carne e sangue podem apreciar isso; e o orgulho precisa ter tantos cortesãos e devotos quanto puder. E precisa também de suas vítimas. Mardoqueu ainda se recusa a se curvar; e uma forca de cinquenta côvados de altura é erguida para que ele seja enforcado nela.
Triunfo Repentino
Ester 6-7
Toda coisa secreta precisa chegar ao seu dia de manifestação. A palavra que Mardoqueu contou ao rei sobre Teres e Bigtã, os eunucos, embora até então esquecida ou negligenciada, precisa agora ser lembrada. As lágrimas, os beijos e o nardo da pecadora amorosa em Lucas 7, e as correspondentes descortesias do fariseu, passam em silêncio por um momento; mas tudo é trazido à luz antes que a cena se encerre. Porque nada há encoberto que não haja de ser manifesto. Deus não deixa nada passar despercebido. O ato de Mardoqueu não será esquecido para sempre. Ele será reconhecido, e isso, também, na própria face de seu grande adversário; assim como os atos de amor da pecadora foram todos relembrados aos ouvidos de seus acusadores (Lucas 7:36-50).
Na noite após o primeiro banquete da rainha Ester, Assuero teve uma noite sem sono. Pois, assim como Deus dá aos Seus amados o sono, também, por vezes, os mantém de olhos abertos, por meio dos pensamentos que lhes vêm à mente sobre a cama. Enviando instruções por meio de meditações noturnas, Ele trata do coração dos filhos dos homens. Assim foi aqui com o persa. O rei, sem sono, manda trazer os registros do reino, o repositório dos atos de Mardoqueu; e lá lê sobre o ato que havia ocorrido alguns anos antes. E, assim como é verdade acerca do homem que tudo quanto ele tem dará pela sua vida, assim agora o rei, ao descobrir de modo súbito e inesperado o ato de Mardoqueu, pelo qual sua vida fora preservada, não considera nada ser demasiado nobre ou honroso para ele.
Deus, invisível e atuante
Aqui, porém, podemos parar por um momento e considerar o maravilhoso entrelaçamento de circunstâncias que encontramos nesta história. Há trama e subtrama, uma engrenagem dentro de outra, como se costuma dizer, uma circunstância ligada à outra; e cada uma e todas elas formadas para cooperar na realização das maravilhosas obras de Deus.
Nesta história, vemos o maravilhoso reaparecimento tanto do Judeu quanto do amalequita. Fenômenos realmente estranhos! Quem teria pensado nisso, como já disse antes? O Judeu e o amalequita se reproduziram nos distantes reinos da Pérsia, ocupando diversos lugares de favor e autoridade ao redor do trono ali! Então há o temperamento de Vasti e a beleza de Ester se encontrando no mesmo momento. Há o fato de Mardoqueu ter sido quem ouviu a conspiração contra a vida do rei. Há a sorte que define o dia do massacre de Israel, onze meses depois, para que haja tempo para que os conselhos amadureçam e as mudanças ocorram. Há o coração do rei comovido a ponto de estender o cetro de ouro a Ester. E então vemos a insônia do rei e seus pensamentos dirigidos aos registros das crônicas. E, novamente, vemos Hamã entrando no pátio do palácio neste momento peculiar.
Que entrelaçamento de trama e urdidura em tudo isso! Que entrecruzar de circunstâncias e a produção de uma curiosa textura de muitas cores! No entanto, como já vimos e dissemos, Deus permanece invisível e não mencionado durante todo esse tempo.
Muito bendito! Satisfeito com a obra de Sua própria mão e com os conselhos de Sua própria mente, o Senhor pode permanecer oculto por um tempo, sem ser proclamado, sem ser celebrado. E nós somos chamados, à nossa maneira, a algo semelhante a isso. Devemos provar nossa própria obra, ter regozijo somente em nós mesmos, e não em outrem, sem revelar nossos segredos ou buscar a atenção de nossos semelhantes. E verdadeiramente grandioso é isso: trabalhar sem ser visto, servir sem ser notado. Os profundos conselhos dessa sabedoria conhecem o fim desde o princípio e a obra maravilhosa dessa mão que pode transformar até mesmo o coração dos reis como Lhe apraz.
O julgamento de Deus
Hamã cai. Costumamos dizer: “Quem pode prever o que um dia trará?” Vemos isso em sua história. Zeres e seus amigos têm que receber, antes do início do banquete do segundo dia, um Hamã diferente daquele que haviam saudado ao final do primeiro. Hamã cai, e cai de fato. Mas sobre isso precisamos nos demorar um pouco, para que tomemos conhecimento do caráter desse grande fato, tão importante para manifestar o juízo de Deus:
A grandeza de Hamã foi permitida florescer e amadurecer de tal forma que ele pudesse cair na hora do seu maior orgulho e ousadia.
Isso é muito instrutivo, pois esse tem sido o caminho de Deus, e continua sendo. Os construtores da Torre de Babel tiveram permissão para continuar seu trabalho até que a transformaram em uma maravilha. Nabucodonosor teve tempo para terminar sua grande cidade. A besta do Apocalipse prosperará até que o mundo inteiro se maravilhe com ela. Assim, Hamã é suportado até que se sente no pináculo. Então, no momento de maior orgulho, o juízo de Deus visita a todos eles. Herodes, como outro exemplo, foi ferido por Deus e morreu enquanto o povo o ouvia e dizia: “É voz de um deus, e não de homem” (ARA) (veja Salmo 37:34-36).
Ele é apanhado na sua própria armadilha. A honra que Hamã preparou para si mesmo é dada a Mardoqueu; e na forca que ele próprio preparou para Mardoqueu, nela ele mesmo é enforcado.
Isso ainda nos ensina; pois este tem sido o caminho de Deus, e assim continuará sendo. Os acusadores de Daniel são lançados na cova que haviam preparado para ele. A chama do fogo matou aqueles homens que levaram os filhos do cativeiro para lançá-los na fornalha. E assim é predito sobre os adversários e apóstatas dos últimos dias na história deste mundo: “trará sobre eles a sua própria iniquidade” (Salmos 7, 9-10, 35, 57, 141 e assim por diante). O próprio Satanás, que tem o poder da morte, é destruído por meio da morte.
Ele cai repentinamente.
Assim também com o último grande inimigo. O juízo de Deus será como um ladrão na noite, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente. “Numa hora”, diz-se da Babilônia apocalíptica, “foi assolada”. Os juízos sobre o mundo antes do dilúvio, e sobre as cidades da planície, também foram assim: “como figuras”, com esta queda do agagita, de um juízo ainda por ser executado.
Ele cai completamente: totalmente destruído.
Assim será com o grande inimigo e com o curso deste presente século juntamente com ele.
Os filhos de Judas eliminados (Salmo 109), os filhos de Edom despedaçados contra as pedras (Salmo 137), todos os filhos de Hamã enforcados depois dele – estes exemplos ilustram, para nosso aprendizado, a completa ruína e aniquilação de tudo o que agora causa escândalo; a remoção de tudo pela vassoura do juízo divino. A “grande mó [pedra de moinho – ARA]” de Apocalipse 18 nos diz isso, e profecia após profecia já o anunciava desde há muito tempo.
Repleta de significado típico em todos os seus aspectos, é a queda do grande amalequita. Vivemos num momento da história mundial que a torna especialmente significativa e instrutiva para nós. Dia após dia, vemos o Senhor permitir que os propósitos do mundo amadureçam: que gradualmente revelem suas maravilhosas e variadas atrações, e que todo o seu sistema avance, até que, como a torre de Babel de outrora, atraia novamente a visitação penal de céu; e isso também, num instante, subitamente, para realizar completamente sua obra de julgamento, quando (bendito é mencionar isso!) nenhum vestígio do mundo do homem permanecerá: seu orgulho e devassidão, com todos os seus frutos, terão murchado e desaparecido. E então resplandecerá um mundo tal como convém à presença do Senhor da glória.
J. G. Bellett

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