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Lã e Linho - Parte 3/3

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Lã e Linho

Parte 3/3

J. G. Bellett

 

“Não vestirás uma vestimenta de material misto, lã e linho juntamente” - Deuteronômio 22:11 – JND.

 

Os Judeus fora da terra resgataram seus irmãos dos gentios, para quem haviam sido vendidos; enquanto os Judeus em casa, ou os cativos que retornaram a Jerusalém, vendiam seus irmãos por dívidas. (Neemias 5) Que visão triste! Que fato humilhante e revelador! Acaso não há muito a ser descoberto que miseravelmente se assemelha a isso? É algo como “forma sem poder”. “O reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder”. A posição pode ser perfeitamente de acordo com Deus, mas a graça prática e piedosa, com a qual a posição é preenchida e ocupada, pode ser escassa e pobre.

 

E como isso deveria nos alertar para não confiarmos na virtude de uma posição meramente pura e separada! Se alguém confiasse nela ou a mantivesse com um coração não julgado e não vigiado, até mesmo os incircuncisos poderiam repreendê-lo. Muito amor e serviço são frequentemente encontrados dentro, como tenho falado, enquanto pouco do poder da santidade e da mente celestial acompanha aqueles que vão para fora. O que quero dizer é o seguinte: muitas vezes há menos graça e poder moral na posição mais pura do que há no relacionamento contaminado, como no caso de Jônatas. Davi o amava profundamente, embora ele não fosse seu companheiro. Mas os companheiros de Davi em suas tentações, por vezes, representavam uma provação para ele, chegando a cogitar apedrejá-lo, enquanto Jônatas, pessoalmente, sempre era gentil com ele.

 

Que contraste entre o exterior e o interior! E, no entanto, a posição exterior de Davi era a posição de glória, enquanto seus companheiros ocupavam a posição correta. Mas que manifestações são todas essas! E, ainda assim, observamos o tempo que nos cerca neste momento. Não há lição que eu queira enfatizar mais para a minha própria alma do que esta – e creio que posso dizer que a valorizo: posição sem resposta, princípios além da prática, zelo pela ortodoxia[1], pela verdade e pelos mistérios, com pouca comunhão pessoal com o Senhor – a alma permanece em constante temor, e em igual julgamento e recusa de todas essas coisas. [1] N. do T.: Qualidade ou característica do que é ortodoxo, que provém da palavra grega “orthos” que significa “reto” e “doxa” que significa “fé”. É o que está em conformidade com a doutrina tida como verdadeira.

 

A seriedade acerca de muitas coisas corretas que foi encontrada em Éfeso, a agitação e a atividade, até mesmo de natureza religiosa, que prevaleciam em Sardes, e a ortodoxia de Laodiceia, foram todas desafiadas pelo Senhor, e nós justificamos profundamente esse desafio (Ap 2:3). O dízimo da hortelã e do endro, quando o juízo e a misericórdia eram ignorados, foi exposto pela mente divina de Cristo; e no Espírito, o santo se une à exposição: “Ou faça a árvore boa e o seu fruto bom, ou faça a árvore má e o seu fruto mau”.

 

Recusamos uma posição sem poder, assim como princípios sem prática; ou verdade, e mistérios e conhecimento sem o próprio Cristo e sem comunhão pessoal com Ele. Mas na página imaculada e perfeita da Palavra, encontramos tudo honrado, e nada está plenamente segundo Deus senão onde cada coisa e todas elas sejam honradas em seu lugar e medida. Como Ele próprio diz: “deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”. Mas aqui me afastarei por um instante do assunto para algo que é um doce alívio para a alma: que conhecê-Lo em graça é o Seu louvor e o nosso gozo. Instintivamente, pensamos n’Ele como Alguém que exige obediência e espera serviço. Mas a fé O reconhece como Aquele que comunica; que nos fala dos privilégios, e não dos deveres; do amor, da liberdade e das bênçãos do nosso relacionamento com Ele, e não das correspondentes retribuições da nossa parte.

 

Esta é a verdade, amados, de que precisamos também nos dias de hoje, embora possa estar um pouco fora do meu pensamento principal neste momento.

 

O chamado de Deus nos separa, mas precisamos do Espírito de Deus para ocupar a posição segundo Deus, e de uma mente amorosa e devotada. “Bom é o sal”, o princípio divino é a coisa boa. Mas o sal pode perder seu sabor. A posição correta ou o princípio divino podem ser entendidos e professados, mas pode não haver nenhum poder de vida neles.

 

Que variedade de ensinamentos morais são assim oferecidos à alma nas palavras do Senhor! Mas continuemos a ouvir, e continuaremos a aprender, pois a mina nunca se esgota.

 

A história das duas tribos e meia nos oferece uma lição peculiar. Elas não se assemelham a Ló, nos dias de Abraão, embora em alguns aspectos possam nos lembrar dele. Pois, como acabei de dizer, é admirável a variedade de caráter moral e de experiência Cristã que se apresenta à alma nas histórias da Escritura; as luzes e as sombras devem ser observadas, assim como as características principais. Isso nos impressiona fortemente na história desse povo. Eles não são Ló, mas nos fazem lembrar dele. Como Ló, a história deles começa fixando os olhos nas planícies bem regadas, boas para o gado. Ainda estando do lado do deserto do Jordão, eles pensam em seu gado: Abraão, seu pai, nunca havia estado naquele lado do rio. Moisés não havia dito nada a eles a respeito daquelas planícies de Gileade. Nem suas expectativas, quando chamados para fora do Egito, pararam aquém da terra de Canaã. Mas Rúben, Gade e Manassés tinham gado e reivindicaram uma herança naquela região, nas fronteiras orientais ou no deserto do rio, pois ali o gado poderia pastar com proveito.

 

Eles não tinham a menor intenção de se revoltar, de sacrificar a porção de Israel, ou de separar a si mesmos ou seus interesses do chamado de Deus. Mas seu gado estaria bem provido em Gileade, e lá desejavam permanecer, embora, é claro, apenas como israelitas sob o chamado de Deus. Quão natural! Quão comum! Eles mantêm a esperança do povo de Deus, embora não andem no lugar adequado a essa esperança. Em poder de caráter e conduta, não eram um povo morto e ressuscitado, mas eram um em fé com tal povo. Declarariam sua aliança com as tribos que atravessariam o Jordão, embora eles mesmos permaneceriam no lado deserto do rio. Eles não eram como Ló, um povo de princípios mistos, que deliberadamente molda sua vida por algo inconsistente com o chamado de Deus; mas eles eram duma geração que, reconhecendo e valorizando esse chamado, e rejeitando a ideia de qualquer esperança que não estivesse ligada ao chamado, não estava no poder dele. Novamente digo: quão comum! Esta é uma geração numerosa. Conhecemos a nós mesmos bem demais para nos surpreendermos com isso.

 

Moisés fica inquieto com esse movimento e expressa sua inquietação com muita firmeza. Ele diz ao povo que eles lhe trazem à memória a conduta dos espias que ele havia enviado anos antes de Cades-Barneia, e cujo comportamento desanimou seus irmãos e os obrigou a peregrinar por quarenta anos no deserto. Havia algo tão contrário entre o chamado de Deus para fora do Egito, na esperança de Canaã, e essa demora em qualquer trecho do caminho; e Moisés se ressente disso. E é ruim quando isso acontece, quando o primeiro pensamento instintivo de um santo, caminhando no poder da ressurreição de Cristo, é o de alarme diante do que vê ou ouve de um irmão: e, no entanto, quão comum é isso! Rúben, Gade e a meia tribo de Manassés precisam se explicar e dar novas garantias de que de modo algum se separaram da comunhão e dos interesses de seus irmãos; e fazem isso com zelo e integridade. Nisso, eles não são como Ló. Eles não teriam conquistado Gileade Oriental se isso significasse a perda de sua identidade com aqueles que estavam indo para Canaã Ocidental.

 

Mas Moisés não podia deixá-los ir como Abraão se separou de Ló; eles não deviam ser tratados dessa maneira. Nem o juízo de Deus os atingiu, como atingiu os espias incrédulos que trouxeram um relatório negativo sobre a terra. Mas Moisés os observava com temor por eles, e seus pensamentos estavam ocupados com eles de maneira ansiosa e inquieta.

 

Que nuances de diferença encontramos nessas diferentes ilustrações de caráter! Que diversas texturas podemos examinar nessas lãs e linhos! Diferentes classes entre o povo de Deus, e nuances de diferença na mesma classe. Temos Abraão, Moisés e Davi; temos Ló, Jônatas e as tribos de Gileade; temos Josafá e Obadias – e, no entanto, este é o povo de Deus. Sodoma era o lugar de Ló, a corte de Saul era o lugar de Jônatas, e o palácio de Acabe era o de Obadias; enquanto Abraão habitava em uma tenda, Davi em uma caverna na terra, e Elias com as provisões de Deus no ribeiro de Querite, ou na gentia Sarepta. Aqui havia distâncias. E assim, acontece entre Jônatas e os outros, pois Jônatas (falando de maneira estrita ou fazendo distinção entre eles) não era nem Ló nem Obadias, embora os consideremos, de maneira geral, como uma mesma classe. Obadias também não era exatamente Ló. E entre Ló, Jônatas e Obadias, de um lado, e Moisés, Abraão e Elias, e outros semelhantes, do outro lado, vemos os rubenitas, os gaditas e a meia tribo de Manassés – uma geração que não admite a ideia de se separar do chamado e do povo de Deus, mas que demonstra em ações morais aquilo que é incompatível com esse chamado.

 

E esta é, de fato, uma classe comum – aliás, esta é a classe comum (veja Números 32). O próprio coração sabe disso muito bem. Josué, que tinha o espírito de Moisés, mantém esse mesmo povo sob certo temor e suspeita, assim como Moisés fizera antes. Ele os chama para perto de si e lhes dirige uma palavra especial de exortação e advertência, quando começa o tempo de ação no arraial de Deus (Josué 1). Pequenos detalhes da Escritura às vezes são muito reveladores. Não tenho dúvidas de que isso se aplica a Josué 1. Quanto às tribos em geral, Josué apenas disse: “Provede-vos de comida, porque dentro de três dias passareis este Jordão, para que entreis a possuir a terra que vos dá o SENHOR vosso Deus, para a possuirdes”. Eles estavam livres, estavam prontos para a jornada; bastava saber a hora da partida. Como Noé, tudo estava pronto para a jornada a outro mundo, e ele só precisava de tempo para colocar a si mesmo e sua família na embarcação. As duas tribos e meia não estavam tão bem preparadas para a jornada. Estavam sobrecarregadas e, instintivamente, por assim dizer, Josué agiu com elas como se fossem uma bagagem pesada na hora de levantar acampamento. Ele teve que desafiá-las – ou pelo menos sentiu que teve – para lembrá-las de seus compromissos com Israel, pois elas não estavam sob seu olhar, como se fossem o próprio Israel. Em certa medida, ele é para elas o que o anjo que veio a Sodoma foi para Ló.

 

Então marquem essas mesmas pessoas novamente em Josué 22.

 

A arca havia atravessado, os pés dos sacerdotes que a carregavam haviam dividido as águas do Jordão, e a arca havia atravessado, conduzindo e abrigando o Israel de Deus; e é verdade que Rúben, Gade e Manassés também atravessaram. Mas Israel e a arca permaneceram lá, e as duas tribos e meia retornaram – retornaram para se estabelecer onde seus irmãos haviam apenas peregrinado – retornaram para apresentar essa visão questionável e estranha, os israelitas encontrando seu lugar e seus interesses fora dos limites naturais de sua herança prometida, encontrando um lar onde a arca jamais havia repousado.

 

Antes de partirem para o retorno, Josué parece pressentir isso e especialmente os adverte e exorta; e assim que atravessam a fronteira e chegam ao local que haviam escolhido, eles também começam a sentir isso. Não estão completamente em paz consigo mesmos e erguem um altar. Isso soa muito significativo para nós. Um israelita na terra de Gileade, nos dias de hoje, entenderia.

 

Desta mesma maneira, Josafá estava inquieto quando se viu no trono com Acabe, e sob a pressão dessa inquietação (que acomete o coração de um verdadeiro israelita em um lugar incircunciso), pediu um profeta do Senhor. Essa é a linguagem da mente renovada em terra estrangeira. As duas tribos e meia ergueram um altar e o chamaram de “Ede”. Era um testemunho, como eles pretendiam, de que o Deus de Israel era o Deus deles, de que eles tinham parte nas esperanças e no chamado do Israel de Deus. Mas por que tudo isso? Se tivessem assumido sua porção em Canaã, não precisariam disso; teriam tido o original e não um reflexo. A alma deles teria o testemunho interiormente, e “Ede” não seria necessário exteriormente.

 

Mas eles não estavam em Canaã, e sim em Gileade. Siló não estava à vista, e eles tiveram que se apoiar em algum artifício, algum recurso secundário, para sustentar sua confiança com alguma muleta criada por eles mesmos, para que se soubesse que eles e o Israel de Deus eram um. Tudo isso é repleto de significado e ainda é vivenciado até hoje. Algum testemunho do que somos e de quem somos como santos é ansiado pela alma e exigido por outros quando nos encontramos em uma posição no mundo com a qual o chamado de Deus não se harmoniza completamente. Algum testemunho artificial ou secundário se torna desejável; o apoio ou a aceitação dos outros, o exame de nossa própria condição pessoal, com muitas inquietações da alma, reflexões interiores sobre tudo isso, lembranças de tempos melhores invocadas de tempos em tempos. Algo desse caráter secundário, como o altar em Ede, é necessário quando a alma não é totalmente simples e fiel: tudo isso ainda é conhecido, e tudo isso, creio eu, está escrito nesta coluna na terra de Gileade.

 

A mulher de Ló, a coluna de sal, tem uma inscrição gravada sobre ela que o próprio Mestre divino decifrou para nós e, não duvido, o Espírito Santo, o Espírito da verdade, quer que nós, sob a Sua unção, leiamos e aprendamos a inscrição nesta coluna, que os israelitas fora dos limites naturais da herança prometida outrora ergueram. Ela pode servir de advertência à nossa alma, se amamos a tranquilidade e a segurança do coração, e a profunda paz de espírito, para não retornarmos e encontrarmos um assentamento onde a Igreja de Deus encontrou, por direito, um local de peregrinação. Será que a minha alma lê esta inscrição? Todo coração conhece a sua própria humilhação. Estas perturbações do espírito, esta exigência de Josafá por um profeta de Jeová, este altar de Ede, testemunham tanto a nosso favor quanto contra nós. Eles revelam uma mente santa ou renovada, mas revelam-na em tais condições, tais exercícios e experiências, que um amor mais sincero e pleno a Cristo teria evitado.

 

Rúben, Gade e Manassés são desafiados pela segunda vez. Josué e as tribos de Canaã precisam desafiá-los agora, assim como Moisés teve que fazer antes. O altar deles em Gileade desperta suspeitas, pois o desejo deles de se estabelecerem em Gileade despertou suspeitas na época. Isso é completamente natural, comum e sintomático. Os santos em Gileade não são daqueles que fazem “cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” no coração de seus irmãos, pelo menos não sem alguma investigação. Uma grande agitação se instaurou entre as tribos que estavam em Canaã, e que detinham a posse consciente de Siló e do tabernáculo de Deus ali, e uma embaixada foi formada para investigar o assunto. Algo, eles não sabiam o quê, chamou a atenção deles, algo que, no mínimo, parecia estar em desacordo com o chamado comum de Israel; e precisava, no mínimo, ser explicado.

 

Que imagem vívida é essa! Certamente nos sentimos à vontade em um lugar como este e conhecemos os costumes do local. Creio que o apóstolo, nas Epístolas aos Coríntios, no Novo Testamento, é muito parecido com Finéias, filho do sacerdote Eleazar, atravessando o rio para indagar sobre a coluna na terra de Gileade. Havia coisas em Corinto que alarmavam Paulo, sintomas de um triste afastamento do chamado comum dos santos celestiais. Eles pareciam estar entre os “príncipes deste mundo”, reinando como reis na Terra. Seu ministério na mansidão e gentileza de Cristo estava sendo desprezado, enquanto outros eram valorizados por causa de sua posição e vantagens no mundo. O caminho das escolas, o caminho da sabedoria dos homens, estava recuperando sua autoridade, e os santos pareciam estar retornando para se estabelecer onde a Igreja seria apenas uma estrangeira desconhecida.

 

No zelo de Josué 22, Paulo atravessa o rio e, seja qual for a descoberta, a ação é dolorosa, e a necessidade dela, um escândalo na história da Igreja. As tribos de Gileade podem satisfazer Finéias e seus irmãos mais do que os santos coríntios satisfizeram o apóstolo; todas essas diferenças e variedades nas condições do povo de Deus são conhecidas até hoje, mas há esta tristeza e humilhação comuns de que o chamado e a eleição não estão tornados firmes; e temos que ou empreender jornadas, ou provocar jornadas, para que nossos caminhos, nosso Ede, nossos altares, nossas colunas, o balido de nossos rebanhos nas planícies de Gileade, possam ser inspecionados e investigados, em vez de descansarmos e nos alimentarmos juntos, e juntos nos reunirmos em torno do tabernáculo e do altar em Siló e aprendermos os segredos deles.

 

No Novo Testamento, a Igreja em Corinto era o israelita no lado do deserto do rio. Os temores do apóstolo a respeito dos santos ali não diziam respeito a influências Judaizantes, nem se deviam à atuação da liberdade de pensamento e especulações infiéis, pelo menos na época da segunda Epístola; nem diziam respeito à transformação da graça em libertinagem. Esses temores ocupam a mente do Espírito ao se dirigir a outros santos e igrejas; mas em Corinto, era o mundo que era temido. Certo homem parece ter atraído a atenção dos santos de lá; ele era alguém que tinha, tanto por natureza quanto por circunstâncias, algo que atraía o coração meramente mundano do homem. Ele era, creio eu, como se diz na linguagem moderna, um cavalheiro. Tinha uma bela aparência e uma fortuna independente, e os santos de Corinto evidentemente haviam se deixado influenciar em grande medida por ele. Em certa medida, foram enganados. Começaram a olhar as coisas segundo a aparência exterior; estavam permitindo que um homem se vangloriasse e tomasse ocasião de ser alguém entre eles, simplesmente por causa da vantagem que tinha da natureza e das circunstâncias.

 

O apóstolo teve de resistir a uma condição tão má de coisas. A afeição e a confiança para com ele tinham sido retiradas em certa medida, porque ele não tinha tais vantagens das quais se gloriar, vantagens que eles estavam começando a valorizar. E certamente ele estava decidido a não se afetar com tais coisas de modo algum. Embora tivesse certas qualidades "na carne" das quais pudesse se orgulhar, preferia se gloriar em suas fraquezas. Ele seria "fraco em Cristo". O apóstolo expôs as vantagens naturais ou mundanas que esse homem possuía e utilizava entre os santos, assim como Moisés expôs a roupa de lã e linho ou outras misturas. "Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos" (AIBB), diz ele aos santos agora, assim como Moisés disse a Israel no passado: "Com boi e com jumento não lavrarás juntamente. Não te vestirás de diversos estofos de lã e linho juntamente”. Mas o próprio Paulo não estava preso a esse jugo nem vestido dessa maneira; de fato, não estava. Ele estava entre os primeiros da tribo de Judá a atravessar o rio.

 

Certamente posso dizer que todas essas coisas ilustram lições proveitosas para nós. Não devemos estar misturados com aquilo do qual o chamado de Deus nos separa; não devemos vestir a veste de vários estofos. Mas, se a recusarmos e vestirmos apenas o traje puro, tomando o lugar e sendo achados na relação para a qual o chamado de Deus nos conduz, devemos estar ali com uma veste cingida, assim como sem mistura, e também vigiar para que esteja sem mancha. O mundo é aquilo para cuja melhoria Cristo não nos chama, mas do qual Ele nos chama à separação. Mas, amados, se exteriormente tomarmos o lugar separado, busquemos a graça e o poder que somente podem adornar e equipar esse lugar para o Senhor! 

 

E assim é a natureza da hora que estamos atravessando. O deus e príncipe deste mundo está permitindo que os cidadãos varram e adornem a sua casa, e eles são levados a admirá-la novamente em seu estado adornado, e a se iludirem pensando que não é mais a mesma casa de antes. Mas esse erro é grave; ela continua sendo a morada do espírito imundo tanto quanto sempre foi, e ainda mais adequada para ele, por estar varrida e adornada, e em breve ele usará todas essas ações dos cidadãos para seus propósitos finais e mais terríveis. "Quem Comigo não ajunta, espalha".

 

Nosso trabalho está de acordo com o propósito de Cristo? Está de acordo com a regra de Seus pesos e medidas? Se não estiver, embora possamos trabalhar em Seu nome, estamos apenas fazendo o que o inimigo logo usará em seu proveito próprio. Na parábola, o varrer e o ornamentar acabam por se revelar, no fim, ter sido tudo para o espírito imundo, a quem a casa pertencia tanto quanto sempre pertencera, embora seja verdade que ele a tivesse deixado por um tempo. Tudo o que é feito para o aprimoramento da casa é feito para o dono da casa, e Satanás é o deus do mundo tanto quanto sempre foi e continuará sendo até o julgamento que o Cavaleiro do cavalo branco fará. A longa paz entre as nações, da qual a Europa desfrutou por tanto tempo e até recentemente, proporcionou ampla ocasião para a limpeza e o embelezamento da casa. No caminho do homem, a espada se transformou em arado. A Terra e seus recursos, o homem e sua habilidade, foram produzidos e cultivados além de tudo o que já se conheceu; e a casa tem uma aparência diferente do que era, agora que está sob o domínio desses trabalhos de limpeza e ornamentação de seus servos. O progresso nas letras, na moral, no refinamento e na religião é imenso; sociedades de paz, sociedades de temperança, literatura para milhões e música para milhões, com a confederação geral das nações, anunciam tudo isso em voz alta, assim como os alardes da época, que são ouvidos a cada hora.

 

Mas essa diligência está de acordo com a mente do verdadeiro dono da casa, ou do deus deste mundo. Esta é uma verdade séria. “Quem Comigo não ajunta, espalha”. Esta é uma palavra séria. “Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos”. É confusão. É a tecelagem ilícita de lã e linho juntos. Mas, amados, enquanto se diz isso, o coração reconhece e se humilha com a confissão de que muitos servos de Cristo, queridos e sinceros, que trabalham com um propósito equivocado e não segundo os pesos e medidas que estão de acordo com o padrão do santuário, com verdadeira afeição, zelo, sinceridade, diligência e fervor, podem estar muito à frente de outros de nós que discerniram claramente seu erro.

 

Temo a indiferença ainda mais do que a mistura. Eu evitaria Laodiceia mais do que Sardes. Que possamos aprender a lição com ambas as suas características: Sardes, com a sua agitação religiosa que lhe dava um nome de que vivia, não servirá; Laodiceia, com o seu egoísmo, frieza de coração e satisfação, também não servirá. Sejamos diligentes, mas em puro serviço; usemos os nossos talentos, mas usemo-los para um Mestre rejeitado, não esperemos nada do mundo que O expulsou, mas contemos com tudo na Sua própria presença, no futuro.

 


J. G. Bellett

 

 

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