O Apostolado e as Epístolas de Paulo - Parte 1/5
- J. G. Bellett (1795-1864)

- 30 de dez. de 2025
- 23 min de leitura

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ÍNDICE
O Apostolado e as Epístolas de Paulo
Parte 1/5
J. G. Bellett
Prefácio
Alguns dos textos aqui reunidos apareceram em diversas revistas e como livretos avulsos há muitos anos. Outros são “anotações” de leituras bíblicas, feitas por aqueles que as compartilharam e que foram repassadas para uso neste volume. Foram muito valorizados e serviram de bênção para os leitores crentes de uma geração passada, e as verdades neles apresentadas são de valor permanente para o povo de Deus dos dias atuais. Os tratamentos dispensacionais de Deus entre os homens, as variadas ações de Sua mão em meio ao pecado e à miséria humana, o presente chamado, para fora deste mundo, de um povo para o Seu Filho, por meio do evangelho pregado entre todas as nações sob o Espírito Santo enviado do céu, o caráter celestial, a posição, as possessões e as esperanças da Igreja, sua união com Cristo, a Cabeça glorificada, e sua separação do mundo, são grandes e gloriosas revelações aos santos desta dispensação, as quais, quando recebidas como a própria Palavra de Deus e permitidas operar eficazmente na alma, formando a mente e governando os caminhos dos santos, trazem bênçãos sem medida à vida e dão força e caráter ao testemunho de Deus e de Cristo entre os homens. É com o sincero desejo de que essas verdades sejam mais amplamente conhecidas e suas bênçãos mais plenamente compartilhadas que elas são aqui reproduzidas, tal como fluíram dos lábios e da pena do falecido servo do Senhor, a quem foi dada a graça de ministrá-las com tanta simplicidade e doçura.
O Editor
Os Atos dos Apóstolos
O livro dos "Atos dos Apóstolos" é, na verdade, o livro dos atos de Pedro e Paulo, o apóstolo da circuncisão e o apóstolo dos gentios. Nos eventos registrados na parte que nos apresenta o ministério de Pedro (isto é, os capítulos 1 a 12), creio que podemos discernir uma ordem e um significado que nos preparam para os propósitos futuros do Senhor entre os gentios, por meio do ministério subsequente de Paulo. Assim, irei mencionar e interpretar brevemente esses eventos.
Atos 1
Enquanto aguardavam, conforme o mandamento, pelo poder prometido vindo do alto, os discípulos, sob a liderança de Pedro (constituído chefe no ministério Judaico, Lucas 22:32; João 21:16), confiaram ao Senhor a tarefa de preencher o bispado vago de Judas. Isso era necessário, como observarei mais detalhadamente adiante, para que a ordem Judaica dos doze apóstolos se mantivesse plena e completa; e que isso foi feito com o pleno entendimento da mente de Deus fica evidente pelo fato de o Senhor parecer assumir imediatamente aquilo que Seus servos Lhe confiam, pois Ele honra as sortes que foram lançadas (a forma Judaica de revelar a vontade divina em tais assuntos, 1 Crônicas 24:5; Números 26:55; Josué 19:10), e Matias é contado entre os onze apóstolos; e o Espírito Santo, no capítulo seguinte, parece confirmar Matias em seu novo ofício, vindo sobre ele igualmente, sem qualquer repreensão.
Atos 2-7
Estando assim completado o número, o Espírito Santo é concedido conforme a promessa; e Pedro, mais uma vez, assume a liderança e prega Jesus ressuscitado aos Judeus. A inimizade dos Judeus, porém, se instala e se intensifica ao longo destes capítulos, aumentando gradualmente, assim como havia acontecido antes contra o Senhor. Os apóstolos, contudo, como seu Senhor, prosseguem com seu destemido testemunho; grande graça está sobre todos – a santa disciplina os mantém puros – e com grande poder os apóstolos dão testemunho da ressurreição. Mas, assim como a inimizade agiu contra o Senhor até que o crucificaram, agora age contra os apóstolos, até que atacam Estêvão e o apedrejam. E assim como os céus receberam o Crucificado, também se abrem para o Seu companheiro de sofrimento e testemunha. E nele a Igreja recebe uma garantia viva de que a glória celestial era para ela, assim como para o seu Senhor, pois o mundo agora rejeitava ambos.
Atos 8
Sendo assim, Jerusalém já não podia mais receber a aprovação de Deus, pois havia declarado plenamente o seu pecado e, por um tempo, deveria ser lançada fora de Sua vista. Os discípulos, portanto, são agora dispersos de Jerusalém, e a ordem Judaica é perturbada: dando-nos este capítulo os atos de alguém que não havia sido enviado, nem como procedente de Jerusalém, nem tampouco pelos apóstolos. Filipe sai – e primeiro prega Cristo em Samaria, e depois é enviado pelo Espírito “para Gaza, que está deserta”, para trazer de volta ao aprisco uma ovelha perdida que ainda estava desgarrada ali, mas que era conhecida por Deus antes da fundação do mundo. Mas logo em seguida, ele é levado pelo Espírito a Azoto (o lugar próximo ao deserto onde homens e mulheres podiam ser encontrados), para que pudesse proclamar ali, e em todos os outros lugares, a graça que diz: “e quem quiser, tome de graça da água da vida”. Assim, por sua missão a Gaza e, em seguida, por seu arrebatamento a Azoto, o ministério de Filipe simboliza a soberania e a universalidade daquela graça que o Senhor iria proclamar.
Atos 9
Os canais para que a vida e o poder que emanam do Filho de Deus fluíssem entre os gentios estavam agora plenamente abertos; pois os Judeus, os samaritanos e os prosélitos haviam sido chamados. Tudo estava pronto para a colheita das primícias dos gentios. Mas antes que isso acontecesse, e o juízo presente sobre Israel fosse assim selado publicamente, o Senhor concede, na conversão de Saulo de Tarso, um sinal da futura conversão de Israel (veja 1 Timóteo 1:16) – um exemplo, sem dúvida, daquela longanimidade que salva todo pecador. Mas Israel é destinado a se tornar a grande testemunha final dessa longanimidade, e é principalmente para Israel que este sinal se dirige; e, portanto, tudo o que acompanha este grande evento é uma prefiguração das coisas que, mais tarde, marcarão e acompanharão o arrependimento de Israel. O fato de Saulo olhar para Aquele a Quem ele traspassara – o fato de ter ficado confinado por três dias sem ver, sem ter comido nem bebido – a remoção desse juízo e o seu batismo, tudo isso nos mostra a casa de Davi e os habitantes de Jerusalém olhando para Aquele a Quem eles traspassaram e lamentando, cada família à parte, e suas esposas à parte, e então experimentando as virtudes da fonte purificadora aberta para o seu pecado e para a sua impureza. Jerusalém será então a testemunha emblemática da graça soberana, como Saulo o é agora (Zacarias 12; 13). E, como prova adicional desse caráter místico da conversão de Saulo, podemos observar que ele mesmo nos diz que obteve misericórdia porque agiu por ignorância e incredulidade; e este é o próprio fundamento da misericórdia final para Israel; como o Senhor orou por eles: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (veja também Atos 3:17).
Atos 10-11
Tendo-lhes sido assim deixada a promessa da futura conversão de Israel, a proclamação do juízo presente sobre eles é feita pelo chamado, dentre os gentios, de um povo para Deus. Isso se dá pelo ministério do apóstolo da circuncisão; e de forma muito apropriada. Pois ele havia recebido as chaves do reino dos céus e era também o representante de Jerusalém, “a qual é mãe de todos nós” (embora infiel e, como tal, afastada por um tempo). Mas, sendo assim reconhecido o título de Pedro para isso, como representante de Jerusalém, encontramos uma igreja de gentios reunida em Antioquia por outras mãos, e Barnabé e Saulo, em vez de Pedro, chamados para ajudá-la e confortá-la.
Atos 12
E agora o Senhor só precisava, publicamente, rejeitar Jerusalém por um tempo. Mas, assim como Ele havia prometido a futura conversão de Israel, Ele agora, a meu ver, promete a eles a sua futura restauração. Confesso que este capítulo tem grande beleza e significado, apresentando tanto as tristezas quanto a libertação do remanescente no último dia, e a completa e devastadora derrota de seus inimigos. Tiago é morto à espada, pois, dali em diante, em Jerusalém, a queixa será esta: “Derramaram o sangue deles como a água ao redor de Jerusalém” (Salmo 79:2-3). Pedro também, a esperança da circuncisão, é lançado na prisão, e o inimigo, assim, praticamente prevalece contra o Israel de Deus.
Atos 12 - Promessas da restauração de Israel
Mas o caso dele não deveria ir mais adiante, pois Pedro deveria aparecer como prisioneiro do Senhor, e não de Herodes. Ele dorme entre os que o guardavam. Ele jaz ali como “prisioneiro da esperança”. O inimigo é forte e poderoso, e o remanescente não tem alívio senão em Deus. Mas isso basta. Eles oram incessantemente por ele, até que, finalmente, este prisioneiro do Senhor é libertado da cova, assim como Israel será no último dia (Zacarias 9:11-12). No início, ele era como alguém que sonhava, pensando estar tendo uma visão; e assim também os seus companheiros, dizendo: “É o seu anjo”. Mas assim será Israel depois. Eles cantarão: “Quando o SENHOR trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham”. Mas, no gozo repentino do coração, eles terão que acrescentar: “Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico”; como Pedro, voltando a si, diz: “Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o Seu anjo, e me livrou da mão de Herodes, e de tudo o que o povo dos Judeus esperava”.
Tudo isso me parece doce e surpreendentemente significativo. Mas o sinal não termina aqui. Em trajes reais, Herodes senta-se em seu trono, tendo julgado conveniente estar profundamente descontente, como se a vingança lhe pertencesse. Ele faz um discurso ao povo, e eles o aclamam, dizendo: “É voz de um deus e não de um homem” (TB). Assim, ele toma para si mesmo a glória que era de Deus, e imediatamente o anjo do Senhor o feriu, “e, comido de vermes, expirou” (ARA). Assim também o iníquo se exaltará acima de todos e se assentará no monte da congregação, nos lados do norte, dizendo: “serei semelhante ao Altíssimo”. Ele fará “conforme a sua vontade”; mas chegará ao seu fim, e ninguém o ajudará. “Assim, ó SENHOR, pereçam todos os teus inimigos! Porém os que te amam sejam como o Sol quando sai na sua força”.
Assim, a misericórdia final é prometida a Israel. Sob esses sinais de sua conversão e restauração, e da derrota de seus inimigos, eles agora se encontram prisioneiros da esperança. O próprio Senhor lhes dá um sinal e, em seguida, esconde deles o Seu rosto; segue o Seu caminho por um tempo e deixa o Seu santuário. Tudo isso nos prepara para um ministério além das fronteiras de Israel; e, consequentemente, na abertura do próximo capítulo, encontramos a Palavra enviada aos gentios, Jerusalém como fonte de graça e ministério é esquecida, e os nomes de Judeu e gentio são deixados sem distinção.
Julgo ser assim o curso e o significado dos eventos que ocorreram durante o ministério da circuncisão, sob a liderança de Pedro, conforme registrados nestes capítulos[1]. Qual era a natureza do próprio ministério? Quais eram as esperanças que ele transmitia a Israel? E qual era o chamado que ele fazia a Israel? Descobriremos, em resposta a essas perguntas, que os apóstolos falaram das próprias esperanças nacionais de Israel, chamando-os ao arrependimento para que pudessem alcançá-las e serem abençoados na Terra. Eles declaram o pecado de Israel ao crucificar o Príncipe da Vida; a aceitação de Deus desse Crucificado e, mediante o arrependimento, a remissão dos pecados de Israel e o cumprimento de suas esperanças.
[1] Como prova disso, o nome judaico de nosso apóstolo, “Saulo”, foi transformado na forma gentia, “Paulo”. Isso foi obra do Espírito Santo, que queria que se soubesse, mesmo que parecesse insignificante, que a distinção entre Judeus e gentios seria perdida durante aquela dispensação, cujo testemunho agora estava sendo divulgado. Assim como antes em Antioquia (veja capítulo 11:26), quando a Igreja se tornou gentia, ou mista, tendo sido retirada de seu caráter Judaico estrito, os discípulos foram chamados pela primeira vez de “Cristãos”; o Espírito Santo, ao tornar isso conhecido, indicava que um corpo estava agora se preparando para Cristo, que seria ungido n'Ele, com Ele e por meio d'Ele.
Atos 2-3 - Um testemunho para Israel
Assim, no sermão de Pedro no segundo capítulo, seu testemunho a Israel foi este: que a ressurreição assegurou as promessas feitas ao trono de Davi; que a ascensão era a fonte do Espírito Santo concedido; que Jesus permaneceria no lugar ascendido até que Seus inimigos fossem feitos escabelo dos Seus pés; e sobre tudo isso ele chama Israel ao arrependimento. Mas ele nada diz sobre a Igreja ascender após a sua Cabeça e a consequente glória celestial dela. Portanto, no terceiro capítulo (depois que ele e João reconheceram a casa de Deus em Jerusalém), em sua pregação, Pedro chama Israel ao arrependimento para que viessem “os tempos do refrigério pela presença do Senhor”, quando Jesus retornaria a eles e todas as coisas prometidas por Moisés e pelos profetas se cumpririam. Mas tudo isso, da mesma forma, era um testemunho das esperanças de Israel e da Terra, e não um testemunho da glória celestial. Era uma publicação dos atos e promessas do Deus de Abraão, Isaque e Jacó aos filhos dos profetas e aos filhos da aliança. Assim, no capítulo 5, encontramos isto: “a este elevou Deus com a Sua destra a Príncipe e Salvador, para dar arrependimento a Israel e remissão de pecados” (TB) – palavras que demonstram, de modo muito claro, o valor que o Espírito Santo, em Pedro, atribuiu à ressurreição do Senhor, aplicando-a exclusivamente a Israel como nação de Deus.
E como fruto próprio desta pregação e destas esperanças, encontramos na conduta e prática dos santos o seguinte: demonstram uma bela ordem e graça na administração de suas possessões terrenais; alcançavam favor de todo o povo, como Jesus o teve em Sua infância em Nazaré; eles perseveram diariamente no templo, como se não soubessem quão breve o Senhor poderia retornar ao templo; e curam todas as doenças entre o povo, como o Senhor fizera quando caminhava pelas cidades e aldeias da Judeia. Mas além de tudo isso, por mais perfeito que tudo isso fosse a seu tempo, ainda havia algo a mais. A Igreja ainda precisava assumir com Jesus seu caráter de rejeitada pela Terra e daquela que rejeita a Terra. A cidadania celestial, a morte quanto à Terra e a vida escondida com Cristo em Deus; o olhar voltado para as coisas que estão dentro do véu, seguindo após o glorioso Precursor, eram ainda coisas grandes e novas a serem tiradas do tesouro. Nem o testemunho de Pedro, nem a conduta da Igreja, eram tais que as manifestassem. A glória dentro do véu começa a transparecer quando o rosto de Estêvão resplandece como o de um anjo. E isso também foi belo a seu tempo, pois Estêvão logo se tornaria a primeira testemunha do chamado celestial. O martírio era o fundamento necessário para a plena manifestação desse chamado. Os apóstolos podem ter sofrido afronta, açoites e prisões, mas ainda havia espaço para o arrependimento de Israel, assim como houve durante o ministério do Senhor (embora Ele, da mesma forma, tenha sofrido afronta e rejeição), até Sua última visita a Jerusalém. A cruz, porém, havia fechado a Terra para o Senhor; e o martírio de Estêvão agora fecha a Terra para a Igreja; e uma terrível separação, por um tempo, se estabeleceu entre todos os que pertencem ao Senhor e este presente mundo (século) mau.
Assim, até essa morte deste santo após a ressurreição, não havia chegado o tempo para a revelação disso (a vocação celestial da Igreja) do tesouro dos conselhos divinos. Figuras e outras indicações a respeito disso já existiam desde o princípio. Nosso Senhor havia dado a visão disso no monte santo, mas era obscura aos olhos até mesmo dos apóstolos. Ele aludiu às “coisas celestiais” das quais somente o Filho do Homem poderia falar (João 3:12), mas elas não foram percebidas. O “um pouco de tempo” até Sua ida para habitar com o Pai era tão estranho aos discípulos quanto era aos Judeus. Seu ministério acerca dessas coisas era para eles parábolas (João 16:25). E assim, nem mesmo a ascensão do Senhor, por si só, era fundamento suficiente para a manifestação dessa glória. Pois ela era necessária para que o Senhor formasse a Igreja Judaica, para uma cidadania piedosa na Terra, sendo o Espírito Santo recebido por meio da ascensão, “para os rebeldes”, isto é, para Israel, “para que o SENHOR Deus habitasse entre eles” – habitasse entre eles aqui. Mas, com o martírio de um crente no Senhor assim ressuscitado e ascendido, chegara plenamente o tempo da manifestação do chamado celestial, da revelação deste mistério: que Cristo teria um corpo que compartilharia com Ele em glória nas alturas para a qual Ele próprio ascendeu, cuja cidadania não seria em Jerusalém, mas no céu.
Na “regeneração”, como diz o Senhor, isto é, no vindouro reino do Filho do Homem, haverá novamente um povo que encontrará o seu devido lugar na Terra – o Israel de Deus. E então os doze apóstolos se manifestarão em conexão com as doze tribos, e os santos com o mundo (veja Mt 19:28; 1 Co 6:2-3). Tudo isso será a glória e o gozo daquele tempo feliz, e o mais belo e perfeito em sua estação. O Filho do Homem assentado em Seu trono de glória – os apóstolos julgando as doze tribos – e os santos julgando o mundo. Os servos então participarão do reino do seu Senhor, tendo autoridade com Ele e sob Ele sobre as cidades do Seu domínio. Mas esse tempo está agora adiado, pois a Terra o rejeitou. Israel expulsou o herdeiro da vinha e matou os que lhe foram enviados (1 Ts 2:16). Outro testemunho agora estava prestes a ser proferido, um testemunho da perda das esperanças de Israel e da Terra no presente, e do chamado de um povo eleito da Terra para o céu. E Saulo, o perseguidor, isto é, Paulo, o apóstolo, foi designado como seu portador especial.
Atos 9 – A conversão de Paulo
E quão rica foi a graça demonstrada pelo Senhor ao escolher Saulo para ser o vaso desse tesouro celestial! Naquele exato momento, ele estava em plena inimizade contra Deus e Seu Ungido. Aos seus pés, as testemunhas, cujas mãos haviam sido as primeiras contra Estêvão, depuseram suas capas. Mas este é o homem que seria feito o vaso escolhido de Deus; e tal é o caminho do Senhor em abundante misericórdia. Antes disso, a mais completa inimizade do homem havia sido enfrentada pelo mais completo amor de Deus; pois a cruz era, naquele mesmo instante, o testemunho de ambos, assim como a pessoa de Saulo é agora. “A lança do soldado”, como alguém já observou, “fez sair o sangue e a água – o pecado fez sair a graça”. E agora, como podemos dizer, a jornada de Saulo para Damasco foi a lança perfurando pela segunda vez o lado de Cristo; pois ele agora caminhava com a missão de matar o rebanho de Deus. Mas foi nessa jornada que a luz vinda do céu o deteve. Assim, o sangue de Jesus encontrou novamente a lança cruel do soldado, e Saulo é um exemplo de toda a Sua longanimidade.
A graça soberana que salva a Igreja foi assim manifestada em Saulo. Mas a glória celestial que está reservada à Igreja também lhe foi revelada, pois ele vê Jesus nela. E por meio dessas coisas, seu futuro ministério é formado.
Marcos 16:15 – Novos ministérios são chamados à luz
E aqui posso observar, em relação a isso, que nos momentos de convocação de novos ministérios, geralmente houve manifestações características de Cristo. Assim, quando Moisés foi chamado em Horebe, ele viu uma sarça ardente, mas que não se consumia, do meio da qual Jeová lhe falou. E o ministério que ele então recebeu foi, de acordo com essa visão, ir e libertar Israel da aflição do Egito, em meio à qual Deus estivera com eles, preservando-os apesar de tudo. Quando ele e o povo estavam depois sob o Sinai, o monte estava completamente envolto em fumaça, de modo que até mesmo Moisés ficou todo assombrado, e tremendo. Mas tudo isso aconteceu porque estava prestes a surgir dali aquela lei que o pobre homem caído jamais poderá cumprir e que, portanto, é apenas o ministério da morte e da condenação para ele, ainda que fosse alguém como o próprio Moisés. Quando Moisés se aproximou de Deus, interpondo-se entre Ele e o povo, ele recebeu (de acordo com a posição de mediador que ocupava) sua comissão de entregar, como mediador nacional, as leis e os decretos do Rei. Mas quando, finalmente, ele sobe ao topo do monte, muito além da região do fogo terrível e do lugar intermediário que ocupava como mediador da nação, onde tudo era calmo e a presença do Senhor o envolvia, ele recebe os sinais da graça, as figuras de Cristo, o Salvador e Sacerdote, e dali é designado para ministrar a Israel, “as sombras dos bens vindouros”. Em tudo isso, vemos muito do que era expressivo do ministério que estava prestes a ser designado.
Então, posteriormente, embora de forma mais limitada, quando Josué estava prestes a receber a missão de cercar Jericó com homens de guerra, o Senhor lhe aparece como um Guerreiro com uma espada desembainhada na mão.
Quando Isaías foi chamado para ir como profeta de julgamento contra Israel, o Senhor foi visto em Seu templo com tamanha majestade terrível, que até os batentes da porta se moveram à Sua voz, e a casa se encheu de fumaça (Isaías 6).
Quando nosso Senhor estava na terra de Israel como Ministro da circuncisão, de acordo com esse lugar e caráter, Ele designou doze para irem às ovelhas perdidas da casa de Israel. Mas, após a ressurreição, quando Ele Se estabeleceu na Terra com um caráter maior, sendo então Seu todo o poder no céu e na Terra, Ele comissionou Seus apóstolos da seguinte forma: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”. E assim agora, ascendido ao céu, e tendo recebido a Igreja para Si, Ele aparece a Saulo desde essa glória; e nele designa um ministério formado segundo o princípio dessa manifestação. O céu foi o berço do apostolado de Paulo; e, de acordo com isso, ele foi enviado para chamar para fora e elevar acima um povo da Terra para o céu.
Assim, a partir do lugar de onde partiu seu chamado para o ofício, nós, desde o princípio, poderíamos estar preparados para algo novo e celestial. Mas seu apostolado veio fora de tempo, bem como fora de lugar (1 Coríntios 15:8). Não só não veio de Jerusalém, como surgiu depois que o apostolado ali já havia sido aperfeiçoado. O bispado perdido por Judas foi preenchido por Matias, e assim o corpo dos doze, conforme ordenado pelo Senhor no princípio, estava novamente completo; e o apostolado de Paulo é, portanto, algo que nasceu “fora de tempo” (ARA).
Mas, embora neste aspecto fosse “fora de tempo”, não o era em todos os outros aspectos. Os tempos e as estações que o Senhor escolheu para a revelação dos Seus desígnios são, sem dúvida, todos apropriados e corretamente ordenados; e tendo “a mente de Cristo” (a herança presente, pela graça, de todo homem espiritual), podemos procurar conhecer isso, lembrando-nos, antes de tudo, de a Quem pertencem os conselhos que estamos perscrutando e de como nos convém andar diante d’Ele com os pés descalços. Que Ele nos guarde, irmãos, trilhando assim o Seu caminho, e que a pressa dos inquisidores jamais nos afaste do lugar e da atitude de adoradores. Lembremo-nos de que é no Seu templo que devemos inquirir (Salmo 27:4).
Estágios sucessivos no Apocalipse
Assim como naquela época, para estes tempos e estações, observo que nosso Senhor marca estágios sucessivos no procedimento divino com Israel, quando Ele diz: “A lei e os profetas duraram até João”. Aqui Ele destaca três ministérios: a lei, os profetas e João. Mas estes se estenderam apenas até o próprio ministério de nosso Senhor e, portanto, agora, no avanço subsequente dos conselhos divinos, podemos acrescentar outros a estes.
A lei – Esta dispensação colocou Israel sob uma aliança que exigia obediência como condição para que permanecessem na terra e nas bênçãos que Jeová lhes havia concedido. Mas sabemos que eles a quebraram.
Os profetas – Após surgirem ofensas e transgressões, profetas foram levantados; entre outros serviços, para advertir e encorajar Israel a retornar Àquele de Quem eles e seus pais haviam se revoltado, para que pudessem recuperar seu lugar e bênção sob a aliança. Mas Israel, como sabemos, rejeitou suas palavras, apedrejando alguns e matando outros.
João Batista é então levantado, não apenas como um dos profetas, para chamar Israel de volta à antiga aliança e à obediência que ela exigia, mas para ser o arauto de um reino que estava às portas, o precursor d’Aquele que viria com a bênção segura de Sua própria presença. Ele convocou o povo a estar preparado para o Messias. Mas eles decapitaram João.
O Senhor – Assim apresentado por João a Israel, o Senhor vem a público e, em consequência disso, oferece o reino em Sua própria Pessoa, e Israel é convocado a reconhecê-Lo e adorá-Lo. Mas sabemos que o Herdeiro da vinha foi rejeitado pelos lavradores. “Os seus não O receberam”. Os construtores rejeitaram a Pedra. Crucificaram o Príncipe da Vida; mas Deus O ressuscitou dos mortos e O fez assentar à Sua direita nos lugares celestiais.
Os doze apóstolos – Eles acompanharam nosso Senhor durante todo o tempo em que Ele esteve entre eles, desde o batismo de João até o dia em que foi elevado ao céu, e agora foram chamados (sendo revestidos do Espírito Santo) para serem testemunhas da ressurreição a Israel. E essas testemunhas dizem a Israel que os tempos de refrigério, os tempos de cumprimento de todas as boas promessas feitas a eles, aguardavam apenas o seu arrependimento; pois Jesus agora fora exaltado como Príncipe e Salvador para eles. E agora chegara a provação final de Israel. O que mais poderia ser feito além do que já havia sido feito? A transgressão contra o Filho do Homem havia sido perdoada, pelo menos, e o caminho de escape do julgamento que ela acarretara havia agora sido aberto a Israel pelo testemunho do Espírito Santo nos apóstolos; mas o que poderia trazer alívio, se esse testemunho fosse agora desprezado? (veja Mateus 12:32.) Mas o Espírito Santo é resistido, o testemunho dos doze é desprezado pelo martírio de Estêvão, e os tratamentos do Senhor com Israel e a Terra são, portanto, necessariamente interrompidos por um tempo.
O apostolado de Paulo
O apóstolo dos gentios então surge, repleto de mais tesouros da sabedoria divina, revelando propósitos que até então (enquanto Deus tratava com Israel e a Terra) estavam ocultos em Deus. Ele apresenta este testemunho: que Cristo e a Igreja são um; que o céu era a herança comum de ambos, e o evangelho que lhe foi confiado era o evangelho, como ele mesmo expressa, de “Cristo em vós (nós), esperança da glória”. Este evangelho ele agora tinha que pregar entre os gentios (Gálatas 1:16; Colossenses 1:28).
Assim, somos capacitados a ver a plenitude dos tempos em que os mistérios de Deus foram revelados. Sabemos que assim deve ser, pois Deus é Deus. Mas, por meio de Sua abundante sabedoria e prudência para conosco, Ele nos dá a graça de vislumbrar algo disso, para que possamos adorá-Lo, amá-Lo e ansiar pelo dia em que O veremos face a face e O conheceremos como somos conhecidos. Pois todos os Seus caminhos são formosos a seu tempo. Israel era o povo terrenal favorecido, e cabia a eles provar se a fonte seria aberta em Jerusalém, de onde regaria a Terra. Mas essa dívida de Israel já havia sido paga pelo ministério do Senhor, selada pelo ministério dos doze; e o discurso de Estêvão no capítulo 7 de Atos é a convicção de Deus quanto à rejeição de Israel, de todos os caminhos que o Seu amor havia trilhado com eles. Eles silenciaram a voz já falada por Deus por meio de José, como Ele os acusa ali; rejeitaram Moisés, o libertador; perseguiram os profetas; mataram João e outros, que haviam anunciado anteriormente a vinda do Justo; foram os traidores e homicidas do próprio Justo; e, finalmente, resistiram até o fim ao Espírito Santo em Sua Pessoa, como sempre haviam feito. O Senhor, portanto, só precisou abandonar Seu santuário, e com ele a Terra, e o mártir vê o Senhor no céu sob uma forma que deixa claro que os santos agora teriam sua cidadania celestial e sua morada na glória lá, e não na Terra.
O martírio de Estêvão foi, portanto, uma crise ou um tempo de julgamento, o último para Israel; e, por isso, uma nova testemunha de Deus foi chamada. Já haviam existido tempos semelhantes na história de Israel. Siló havia sido o cenário da primeira crise. A arca que ali se encontrava foi levada para a terra do inimigo – o sacerdote e seus filhos morreram ingloriamente; Icabô era caráter central do sistema de então, e Samuel foi chamado como a nova testemunha de Jeová – o auxílio de Israel, aquele que ergueu a pedra Ebenézer. Jerusalém foi, posteriormente, o cenário de outra crise. A casa de Davi havia enchido a medida de seu pecado; o rei e o povo, com todos os seus tesouros, foram levados para a Babilônia, e a cidade foi reduzida a escombros, e Jesus (pois o intervalo até esse propósito não precisa ser estimado) foi chamado, a nova Testemunha de Deus – a misericórdia e a esperança seguras de Israel. Mas Ele foi rejeitado e, em julgamento, Ele voltou Suas costas para Jerusalém, dizendo: “Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta”. Essa foi também uma época de julgamento – o julgamento de Israel pela rejeição do Filho do Homem; e então surge outra testemunha – os doze apóstolos, que testificam, como tenho observado, no Espírito Santo, a respeito da ressurreição do Senhor rejeitado, e que o arrependimento e a remissão dos pecados foram providenciados n’Ele para Israel. Mas eles também são rejeitados e expulsos. Então vem a crise final – Estêvão é o representante deles, e ele convence Israel da plena resistência ao Espírito Santo; e então surge uma nova testemunha celestial. Tal testemunha é a Igreja, e da Igreja, e do chamado e glória especiais da Igreja, Paulo é tornado o ministro, em um sentido eminente.
O Filho Revelado nos Santos
“aprouve a Deus... revelar Seu Filho em mim”, diz ele. Este é o fundamento da dignidade especial da Igreja e do evangelho que Paulo pregou. Não era o evangelho do Messias, a Esperança de Israel, nem o evangelho d’Aquele que havia sido crucificado, agora exaltado a “Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados”; mas era o evangelho do Filho de Deus revelado nele.
O Filho já havia sido revelado aos discípulos pelo Pai (Mateus 16:17); mas agora Ele Se revela em Paulo. Ele tinha o Espírito de adoção. O Espírito Santo nele era o Espírito do Filho. E ungido com este óleo de alegria, ele tinha que sair e espalhar o cheiro dele por toda parte. E sobre o Filho assim revelado interiormente, depende tudo o que é peculiar, como observei, à vocação e à glória da Igreja. Assim lemos: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo: se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos glorificados” (Romanos 8:16-17). E novamente, lemos: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo”, isto é, como Paulo aqui fala de si mesmo, para termos o Filho revelado em nós. E sendo esta a condição predestinada da Igreja, surgem, como consequência disso, todas as santas prerrogativas da Igreja: a aceitação no Amado, com o perdão dos pecados por meio do Seu sangue; a entrada nos tesouros da sabedoria e do conhecimento, para que nos seja revelado o mistério da vontade de Deus; a herança futura n'Ele e com Ele, em Quem todas as coisas nos céus e na Terra serão reunidas; e o selo e penhor presente desta herança no Espírito Santo. Esta brilhante lista de privilégios é descrita pelo apóstolo assim: “as bênçãos espirituais nos lugares celestiais”; e de fato o são, bênçãos que, por meio do Espírito, fluem de Cristo e nos unem a Ele, que é o Senhor nos céus (Ef 1:4-12).
Tudo isso decorre da revelação do Filho em nós, pela qual a Igreja se reveste de Cristo, de modo a ser uma com Ele em cada estágio de Seu caminho maravilhoso: mortos, vivificados, ressuscitados e assentados no céu n’Ele (Ef 2:6).
A mordomia de Paulo
Desse mistério, Paulo era especialmente o mordomo. O Senhor havia insinuado isso na parábola da videira e das varas. Ele falou sobre isso como aquilo que a presença do Consolador realizaria, dizendo: “Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim, e Eu em vós”. Ele também falou disso aos Seus discípulos por meio de Maria Madalena após a ressurreição, dizendo: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”; dizendo-lhes, assim, que seriam um com Ele em amor e gozo diante do trono, durante toda esta dispensação. Mas esse mistério não se revelou plenamente até que Paulo fosse enviado para declará-lo. É um chamado de abundantes riquezas de graça, mas nada menos do que isso poderia satisfazer a vontade de Deus para com os Seus eleitos; pois Aquele que santifica e aqueles que são santificados seriam “todos de um” (Hebreus 2:11). Assim se estabeleceu a aliança de amor antes da criação do mundo. Um mediador como Moisés, cujo maior serviço foi manter Jeová e o povo separados (veja Deuteronômio 5:5), não poderia cumprir o propósito deste maravilhoso amor de nosso Deus. Mas no Filho, os eleitos são aceitos; e embora Sua obra e Seu mérito sejam todo o título que eles têm a qualquer coisa, eles possuem tudo por sua unidade com o próprio Mediador (João 17:26). Nada menos que isso poderia satisfazer o desejo do coração de nosso Pai celestial para conosco.
O muro de separação, seja entre Deus e os pecadores, seja entre Judeus e gentios, é derrubado; e nós, pecadores, permanecemos juntos sobre suas ruínas, triunfando sobre elas em Cristo, com nosso Pai celestial Se regozijando também sobre nós. Esta é a maravilhosa obra do amor de Deus, e a formação e consumação desta união entre Cristo e a Igreja é a lavoura que Deus agora está cultivando. Ele não está, como antes estava, cuidando de uma terra de trigo, azeite e romãs, para que o Seu povo pudesse se alimentar do fruto do campo sem escassez (Deuteronômio 11:12); mas Ele é o Lavrador da Videira e dos ramos. Ele está treinando a Igreja na união com o Filho do Seu amor até que todos cheguem ao conhecimento d’Ele e a um homem perfeito. É essa união que nos torna da mesma família do Senhor Jesus e nos dá o direito de ouvir a respeito d’Ele “o Primogênito” (Romanos 8:29). É essa união que nos dá a mesma glória com o Senhor Jesus e nos dá o direito de olhar para Ele como “o Precursor” (Hebreus 6:20). É isso que dá caráter à vida que temos agora e à glória na qual seremos manifestados quando Aquele que é a nossa vida aparecer.
J. G. Bellett


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