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O Apostolado e as Epístolas de Paulo - Parte 4/5

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ÍNDICE


O Apostolado e as Epístolas de Paulo

Parte 4/5

J. G. Bellett


2 Coríntios

 

Em meio aos temores e advertências do Espírito a respeito das Igrejas, podemos observar que Ele está alarmado por elas por diversos motivos, expressos em diferentes epístolas e por diferentes apóstolos.

 

  1. Ele os adverte especialmente a respeito do Judaísmo, isto é, da religiosidade, ou da observância de ritos e ordenanças. Esse temor é expresso nas cartas à Galácia, a Colossos e a Filipos.      

  2. Ele teme por eles em relação à atuação de uma mente infiel, a mente que, corrompida pelo raciocínio, nega os mistérios. Isso é visto em 1 João 4:1; 2 Pedro 3:3-4.     

  3. Ele também teme por eles devido ao abuso da graça, ou licenciosidade, a negação prática da piedade enquanto se vangloriam da graça e da liberdade. Isso é visto em 2 Pedro 2 e em Judas.

  4. Ele também teme o mundanismo.

 

 

É essa última característica do temor que preenche a mente do Espírito em relação aos santos ou às Igrejas, e que molda o ministério apostólico, que me chamou a atenção em relação a 2 Coríntios.

 

Trata-se de um tipo específico de temor. Não é uma apreensão de religiosidade, infidelidade ou licenciosidade corrompendo as Igrejas; é algo formalmente distinto de cada uma dessas apreensões. O estilo grego pode ter exposto os coríntios especialmente a uma simples atração mundana, às pretensões de um homem de refinamento, posição e independência, que possuía muito na carne; isto é, por natureza e por circunstâncias, que era atraente e ostentoso. Isso era mundanismo.

 

O temor em relação a Corinto não se devia à influência religiosa ou judaizante. Tampouco era (pelo menos na segunda epístola) proveniente da ação de uma mente infiel, ou dos caprichos de uma natureza impura e lasciva, mas sim ao “deus deste século [mundo – TB] que o apóstolo temia.

 

Um certo homem parece ter ganho atenção, alguém que possuía muito mais, tanto por natureza quanto por circunstâncias, do que o apóstolo; e os santos de Corinto foram movidos com isso. Ele era, creio eu, como se diz na linguagem moderna, um cavalheiro. Tinha uma bela aparência e uma fortuna independente. Possuía muitas vantagens desse tipo; e os coríntios estavam sob essa má influência – em certa medida, haviam sido enganados. Estavam olhando para as coisas segundo a aparência exterior. Estavam tolerando um homem que se vangloriava de si mesmo, que os dominava e que se aproveitava de algumas vantagens mesquinhas e mundanas que possuía por natureza e circunstâncias para se sentir importante.

 

Tal era a má condição contra a qual o apóstolo teve que contender. A afeição e a confiança em relação a ele haviam diminuído em certa medida, pois ele não possuía tais vantagens para se vangloriar. E certamente ele tinha a firme intenção de não se envolver com tais coisas. É verdade que ele seria independente, assim como era o outro, mas isso deveria advir do seu trabalho com as próprias mãos, não de rendimentos da fortuna, como costumamos dizer. E embora tivesse certas coisas das quais poderia se orgulhar na carne, ele se gloriaria, antes, em suas fraquezas. Ele seria “fraco em Cristo”, isto é, em comunhão com Aquele que foi “crucificado em fraqueza”, para que toda a sua força fosse espiritual, ou seja, a força que vinha da ressurreição.

 

Esse homem aproveitou-se das vantagens naturais que possuía, atribuindo a si a importância e o valor que tais coisas têm no mundo. E alguns dos santos foram corrompidos. Mas contra tal associação, Paulo protesta pois, no capítulo 6, ele diz: “Não vos prendais a um jugo desigual”. E o modo de agir de Paulo é exposto mais detalhadamente nos capítulos 10 a 12, apresentando o seu próprio caminho como contrário ao do desse homem.

 

E ao fazer isso, ao se oferecer como testemunha prática de um caminho diferente daquele do homem do mundo, podemos notar estes detalhes:


  1. O apóstolo se recusa a conhecer a si mesmo, ou a ser conhecido pelos santos, a não ser segundo a sua medida no Espírito, e não como era por natureza ou na carne.

  2. Ele se gloria apenas em suas fraquezas ou em dignidades que o separam de toda estima mundana, como seu êxtase no paraíso; pois o mundo não entenderia tal honra.

   

O apóstolo se apresenta como alguém assim, em contraste com o homem que se gloriava na carne. Bem podemos entender quão difícil é segui-lo por um caminho tal como esse, na disposição de ser fraco para que possamos ser fortes; em sua decisão de conhecer a Cristo na fraqueza da Sua cruz, para que toda a força que ele conhecesse pudesse ser como a da ressurreição (2 Coríntios 13:4).

 

Ouso dizer que alguns foram tentados a menosprezar o ofício ou apostolado de Paulo, porque ele não tinha a mesma vantagem, segundo a carne, que os outros apóstolos tinham. Ele não havia estado com o Senhor nos dias da Sua carne; e em sua própria carne ele tinha um espinho. Isso pode tê-lo exposto ainda mais à observação daqueles que julgavam segundo a carne. Mas o apóstolo estava disposto a que seu ministério ou ofício permanecesse sem o reconhecimento de nada que o mundo pudesse apreciar. Ele valorizava apenas o poder de Deus, o poder do Espírito que acompanhava seu ministério e que era capaz de influenciar corações e consciências, poder que o ligava ao Senhor na vida ou ressurreição.[1]

[1] Essas características do ministério de Paulo mostram como a carne, com todas as suas vantagens, é agora excluída da ideia divina de ministério.

 

Todos os sinais de fraqueza segundo a avaliação humana se reuniram ao redor do bendito Senhor no dia de Sua crucificação: a deserção e a negação por parte daqueles que deveriam ter permanecido com Ele, a inimizade do homem em todas as formas em que pôde se expressar, o abandono de Deus, toda a malícia e o propósito de Satanás. Essa foi a plena demonstração de tudo o que havia de fraco, miserável e desprezível na avaliação do mundo. Ninguém estava a favor de Jesus, tudo estava contra Ele, e até mesmo a natureza parecia se unir contra Ele. Mas Paulo desejava que seu ministério estivesse em plena sintonia moral com o d’Ele.

 

De um modo geral, quanto a esta epístola, eu diria que ela poderia se distribuir da seguinte forma:

 

Capítulos 1-2:13. Nesta passagem, o apóstolo fala sobre suas provações no evangelho e responde às objeções feitas a ele por não ter visitado Corinto uma segunda vez.

 

Capítulos 2:14-7:4. Isto é um parêntese. O apóstolo apresenta seu ministério em várias de suas características.

 

Capítulo 7:5-16. Aqui o apóstolo retoma e continua o ponto de onde havia parado no capítulo 2:13. Ele expressa seu regozijo nos coríntios e na graça que havia neles.

 

Capítulos 8-9. Isto é bastante incidental.

 

Capítulos 10-13. O grande e principal propósito da epístola ocupa estes capítulos. O apóstolo contempla o caminho de um certo mestre prejudicial que havia adquirido influência em Corinto, e insinua o fruto dessa influência; em grande medida, também, exibindo seu próprio caminho como um mestre, em contradição com aquele que então corrompia os santos.

 

Acredito que isso pode ser lido como uma análise geral da epístola.

 

Gostaria de observar que o elogio do apóstolo aos coríntios no capítulo 7, anterior à sua ampla e fervorosa repreensão nos capítulos 10 a 13, pode nos lembrar da maneira como o Espírito Se manifesta em Seus discursos às sete igrejas em Apocalipse; pois em cada uma delas há um início com um elogio e, em seguida (quando necessário), um aprofundamento na repreensão e na condenação.

Gálatas

 

Creio que poderíamos descrever sucintamente esta epístola da seguinte forma: “a Escritura” pelo ministério de Paulo agora, como outrora pela voz de Sara, expulsando a escrava e seu filho da casa de Abraão.

 

O apóstolo, para isso, primeiro comprova sua autoridade. E ele o faz com perfeição nos capítulos 1 e 2, mostrando que recebeu seu evangelho, pura e imediatamente, do próprio Deus, de uma maneira que não admitia qualquer interferência humana; e que, sob a plena autoridade consciente de um evangelho assim recebido, ele já havia encontrado a escrava e seus costumes na pessoa do apóstolo Pedro em Antioquia, e resistido a ela – comprovando, assim, seu ministério presente em pequena escala, por assim dizer; ou, como Sansão matando o leão a caminho da cova dos filisteus na Galácia, quando encontraria um exército deles.

 

Além disso, ele usa a experiência da própria alma deles e as vozes das Escrituras referentes a Abraão e à lei como testemunhas adicionais. Ele as utiliza, por assim dizer, para selar sua autoridade para realizar esta grande obra em nome do Senhor (cap. 3). E, mais ainda, ele mostra que o tempo havia chegado plenamente, quando o Senhor havia amadurecido todos os Seus atos dispensacionais até este exato momento de expulsar a escrava e seu filho (cap. 4:1-7).

 

Nada poderia ser mais perfeito do que uma autorização assim entregue, assim confirmada, assim selada e assim respaldada, se posso falar assim, pelos próprios atos de Deus. O apóstolo, portanto, com total tranquilidade e autoridade consciente, encontra-se na companhia de Sara em Gênesis 21. Assim como ela então conhecia o seu direito, sem licença do seu marido ou um pedido de desculpas a quem quer que fosse, de exigir sumariamente a expulsão de Agar e Ismael da casa, assim também Paulo faz aqui. Ele mostra o que é a Agar moderna ou mística – que é a religiosidade da mera natureza, ou um sistema de observâncias e ordenanças, imposto ou revivido pelo homem nas igrejas dos santos – essa formalidade de dias, meses, tempos e anos, que gera o espírito de escravidão e impede a formação de Cristo na alma, e aquele espírito de liberdade que Ele sempre traz Consigo. E a expulsão desta Agar, esta escrava, da casa de Abraão, ou das igrejas dos santos, ele exige com a mesma decisão plena e implacável com que Sara exigiu a expulsão de Agar, a egípcia, e de seu filho zombador (caps. 4:8; 5:12).

 

Mas, se me permitem dizer, a energia do apóstolo supera até mesmo a de Sara. E isso é correto. É correto que, à medida que avançamos nos caminhos e pensamentos revelados de Deus, e passamos do tempo de Gênesis 21 ao tempo de Gálatas 5, encontremos as energias e exigências do Espírito ainda mais amplas e intensas. Frequentemente vemos isso. Estava escrito antigamente: “Não jurarás falso” (ARA); mas, em um período posterior, está escrito: “de maneira nenhuma jureis”.[2] Portanto, aqui, as exigências de Paulo são de certa forma maiores e mais intensas do que as de Sara. Ela se contentou com a expulsão de Agar e do menino, mas Paulo exige, além disso, que tudo aquilo que lhes pertencia fosse removido da casa. Ele fará o que puder para apagar todo vestígio de sua antiga residência ali. Ele desejava eliminar por completo toda lembrança deles – os próprios costumes que outrora observavam ali, seus hábitos e modos de vida, e o espírito e temperamentos que nutriam e praticavam; tudo isso ele queria que desaparecesse, assim como eles próprios. Ele purificaria até mesmo o ar que sua respiração e presença haviam difundido. Não apenas a religiosidade da carne seria rigorosamente expulsa da casa, os rudimentos fracos e pobres que mantinham a alma em cativeiro, mas também as obras da carne, seus caminhos morais, suas vanglórias e energias. Sim, e também sua presunção e altivez – seu desprezo por uma pobre alma subjugada, por meio da vã ideia de sua própria segurança. Contra tudo isso, e mais do que isso, Paulo ergue sua voz, mais do que a de Sara, sem medir esforços para exigir que a escrava, com tudo o que lhe pertence, assim como seu filho, seja expulsa das igrejas dos santos, ou da moderna casa mística de Abraão. E além disso, ele queria que aquela casa aprendesse e praticasse hábitos exatamente opostos e contrários – os caminhos do Espírito e não da carne, as coisas que convêm à nova criatura em Cristo, e não aquilo que era inseparável da carne (caps. 5:13; 6:10).

[2] Assim como todos sabemos por inúmeros casos, os propósitos dispensacionais de Deus são gradualmente revelados com maior perfeição, e as exigências santas do Espírito tornam-se cada vez mais fervorosas e intensas. Veja um exemplo disso no Salmo 8 e em 1 Coríntios 15.

 

Ele então nos dá outro testemunho da importância que atribuía a toda essa verdade, escrevendo esta epístola de próprio punho (veja Rm 16:22). Pois a defesa dela exige mais vigor do que a sua publicação (v. 11).

 

Ele, em seguida, expõe os propósitos morais ou interesseiros daqueles que os estavam conduzindo de volta à circuncisão ou à religiosidade, e ousa apresentar-se como alguém que conhecia o poder do princípio oposto (veja capítulos 1:4; 6:14), com toda a autoridade, também, como vinda de Deus, falando de paz a todos os que se apegavam a esse princípio (vs. 12-17).

 

E ele conclui com uma despedida apropriada. Pois é o espírito deles que ele encomenda à graça do Senhor (v. 18).

 

Considero que esses são os principais detalhes desta epístola. E, de modo geral, posso dizer que há nela um tom de peculiar decisão e fervor. O apóstolo sentia como se a própria cidadela estivesse em perigo. Um porta-estandarte em Antioquia quase desmaiara. Ele viera, por assim dizer, ainda sob o impacto daquela visão, e precisava empunhar o estandarte do evangelho com renovado vigor por causa disso, e avançar para a brecha como um homem.

 

Foi um momento de profundo interesse, e ele não pôde deixar de estar atento a isso. E embora não estejamos comissionados exatamente como ele estava, incumbidos da verdade da dispensação de uma maneira especial (1 Coríntios 9:17), ainda assim estamos como que no cortejo deste grande embaixador, para termos a mesma mente que ele e não darmos lugar em submissão, nem por um momento, caso as minas que ameaçam a cidadela forem colocadas novamente.

Efésios

 

O mistério da Igreja é revelado de forma especial na Epístola aos Efésios. Ali, ela é mencionada sob dois títulos que lhe são exclusivos: “o corpo de Cristo” e “a noiva de Cristo”.

 

Alguém disse de forma marcante: “Não é nos céus acima, nem na Terra abaixo, nem nos próprios anjos, por mais brilhantes que sejam as testemunhas do poder criador, que o caráter e os caminhos de Deus se manifestarão nas eras vindouras: é na nova criação redimida em Cristo, na Igreja e pela Igreja, que a multiforme sabedoria de Deus será feita conhecida. Na Igreja, emanação mais brilhante da mente divina, obra-prima da criação de Deus, toda perfeição de luz, glória e beleza será manifestada; caso contrário, ela seria indigna de seu elevado destino como a Noiva. As profundezas e as alturas da graça, do amor e do poder de Deus jamais serão conhecidas pelas hostes celestiais, até que contemplem a Igreja, escolhida dentre a raça arruinada e apóstata de Adão, não apenas trazida à mais íntima e doce intimidade da filiação a Deus, mas exaltada à mais alta dignidade no céu, participante da glória inefável de sua Cabeça ressuscitada.”

 

Certamente, essas palavras são boas para a edificação. Mas, além disso, ao desvendar a graça e a glória nesta Epístola aos Efésios (epístola que agora considerarei com um pouco mais de atenção), podemos observar que há uma peculiar acumulação de linguagem, se assim puder me expressar, como se o Escritor (o Espírito) estivesse consciente da singular importância e dignidade do tema que estava abordando. Lemos sobre “a glória da Sua graça”, “as riquezas da Sua graça”, “as abundantes riquezas da Sua graça”, “o louvor da Sua glória” e “o louvor da glória da Sua graça”. É com esse estilo que os magníficos segredos desta epístola são revelados. O cofre é conforme o tesouro.

 

E a visão dada do Senhor ascendido é apresentada a nós da mesma forma. Como já foi observado por alguém, Marcos nos diz que nosso Senhor foi elevado ao céu. A Epístola aos Hebreus nos diz que Ele passou pelos céus. Mas esta epístola nos diz que Ele ascendeu muito acima de todos os céus (Marcos 16:19 – JND; Hebreus 4:14 – JND; Efésios 4:10 – TB). Que relato variado e maravilhoso d’Ele! Mas o relato de Efésios é o mais magnífico, pois dá ao Filho do Homem o mesmo lugar que é dado ao próprio Deus em Deuteronômio 10:14.

 

E essa acumulação de linguagem, da qual falei, é preservada no segundo capítulo, onde o Espírito Santo contempla os objetivos dessa elevada vocação, e não, como antes, a natureza da própria vocação. Ele toma conhecimento de nós, pecadores, em duas condições: mortos e separados; mortos em nós mesmos e separados de Deus – e então nos vê transformados nas condições opostas de vida e proximidade. Mas Ele acumula linguagem, ao tratar dessas coisas, como fizera antes. Os termos são multiplicados, as descrições são repetidas de maneira elaborada, para que todas essas condições às quais somos apresentados, e cada uma delas separadamente, possam ser apreendidas com grande ênfase por nossa alma. O estado de morte em que jazíamos por natureza era terrivelmente completo; o estado de vida para o qual agora somos trazidos é completa e eternamente perfeito. Nossa condição de distância de Deus, na qual a graça nos encontrou, é descrita como sendo tal que nada poderia ultrapassá-la – nossa condição atual de proximidade com Ele é tal que somente o próprio Filho poderia ter desfrutado, por assim dizer, antes de nós.

 

Mas, ainda mais, a característica da bênção da Igreja é esta: que eles estão em Cristo. Os santos de tempos anteriores, como vimos, terão um destino celestial; mas a vocação da Igreja é celestial, em Cristo e com Cristo.

 

A palavra “em” aparece ali de forma notável – e está sempre em “Cristo”. No decorrer das maravilhosas revelações ali feitas, aprendemos que, tendo sido vivificados juntamente com Ele, agora estamos assentados nos lugares celestiais n’Ele.

 

Tendo ascendido dessa forma, também nos é ensinado que, lá no alto, somos abençoados com todas as bênçãos n'Ele.

 

E novamente – somos aceitos n’Ele, o Amado – feitos objetos de amor pessoal, bem como abençoados com todas as bênçãos espirituais.

 

E novamente: N’Ele, Deus fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência [inteligência – JND], revelando-nos os Seus pensamentos e o Seu beneplácito [bom prazer – JND] com relação aos séculos vindouros; dando-nos a posição de amigos.

 

Assim é conosco agora. Mas essa mesma Escritura olha para o futuro e para o passado, e nos mostra o interesse que tínhamos “em Cristo” antes que o mundo existisse, e o que teremos “n’Ele” quando o mundo tiver cumprido seu curso. Antes que o mundo existisse, aprendemos que fomos “escolhidos” n’Ele e “predestinados” à adoção como filhos. E quando o mundo acabar, e as dispensações tiverem concluído sua manifestação e encerrado sua maravilhosa história, aprenderemos que estaremos n’Ele e com Ele nesse grande novo sistema, “o mundo futuro”, no qual todas as coisas serão reunidas sob Ele como seu Cabeça.

 

Este é, de fato, um grandioso tema: nossa eterna porção em Cristo, nossa posição n’Ele, com os conselhos que a estabeleceram antes que o mundo existisse, a elevada condição e prerrogativas em que agora nos coloca, e a porção que nos será transmitida nas eras vindouras. E toda essa excelente herança nos pertence simplesmente porque agora cremos ou confiamos n’Ele.

 

Mas aquilo que fora assim “escolhido em Cristo” desde antes da fundação do mundo, estava “oculto em Deus” até ser revelado pelo Espírito aos profetas do Novo Testamento. E a revelação disso completou a Palavra de Deus (Colossenses 1:25 – JND). Foi a revelação final e culminante, feita de modo especial por meio de Paulo, o apóstolo dos gentios. A Igreja é chamada ao mais alto lugar de dignidade, e sua revelação se encontra no último, o mais recente, lugar nas comunicações de Deus. Sim, a Igreja foi revelada por último. O apostolado gentio a trouxe à luz. Embora escolhida em Cristo antes do mundo, e escondida em Deus por eras e desde os tempos antigos, agora ela se apresenta revelada, a coroa de todos os Seus propósitos, assim como é a última de todas as Suas comunicações.

 

Nesta Epístola aos Efésios, o pecador já foi resgatado pelo sangue de Jesus. Os pecados são perdoados – e os santos, assim além do julgamento, são chamados a ouvir, até que a sublime vocação da Igreja em Cristo Jesus, sob as abundantes riquezas da graça de Deus, como a salvação de Deus no Mar Vermelho, se revele aos seus ouvidos. Basta que ouçam. Se falam de responsabilidade, ela é esta: ouvir, aceitar, ser feliz e agradecido, porque tudo isso é o que é, e o Deus de toda a graça é para eles o que Ele é. E o apóstolo, que lhes ensina esses ricos e maravilhosos segredos, apenas ora por eles, para que, ao ouvirem, tenham coração capaz de entender.

 

Suas orações por eles, seja no primeiro ou no terceiro capítulo, nos dão outros exemplos dessa acumulação de linguagem, da qual já falei, e que é tão expressiva da consciência de ter que tratar com temas e pensamentos de peso e dignidade muito peculiares.

 

Ao entrarmos no quarto capítulo, deparamo-nos com algo maravilhoso à sua maneira, semelhante ao que já vimos.

 

O cativeiro do homem sob o domínio da antiga serpente, em Gênesis 3, foi completo. A mentira de Satanás foi aceita, o homem tornou-se pecador, separado de Deus e perdido; o Éden foi perdido, o solo foi amaldiçoado, o homem e a mulher submetidos à punições, e Satanás, como mentiroso e errante, percorria a face da Terra.

 

Essa história mais antiga do cativeiro do homem é mencionada brevemente em Efésios 4, como um contraste. O próprio capturador, com todo o seu exército, agora está feito cativo (uma multidão cativa), e o Libertador do homem triunfou sobre ele, expondo-o publicamente, como diz outra passagem semelhante da Escritura (Colossenses 2). Mas esse Libertador provou ser não apenas poderoso dessa maneira, mas também glorioso. Ele preenche todas as coisas. Ele desceu e ascendeu – esteve nas partes mais baixas da Terra, no sepulcro, na própria fortaleza do capturador; e Ele agora está muito acima de todos os céus. E tal Ser, esse Libertador, poderoso e glorioso, tomou sobre Si a responsabilidade de escrever a história ou assegurar a sorte do antigo cativo de Satanás. E isso é maravilhoso, como lemos mais adiante neste capítulo. Tendo realizado a libertação nas partes mais baixas da Terra, Ele agora, nos lugares mais altos, muito acima de todos os céus, recebeu dons para as antigas vítimas da serpente; e os distribuiu; e por meio deles os dotou com as mais ricas porções e as mais elevadas dignidades. Esses dons levaram o antigo cativo do grande inimigo à perfeição; tornaram-no, em um sentido divino e espiritual, independente; deram-lhe segurança contra as astúcias do enganador; e estabeleceram seus recursos dentro de si mesmo, por meio do Espírito Santo que lhe foi dado (veja versículos 8-16).

 

Pode, a princípio, nos surpreender encontrar algo assim – as ruínas do homem em Gênesis 3 sendo assim confrontadas com a restauração do homem em Efésios 4 – o ganho e o triunfo da antiga serpente ali, sendo respondidos e anulados por sua vergonha e derrota aqui. Mas assim é. E a surpresa pode cessar quando nos lembrarmos de que a Epístola aos Efésios, como vimos, é a mais maravilhosa demonstração dos resultados da redenção que a Escritura nos apresenta. Podemos, portanto, esperar encontrar Gênesis 3 confrontado em tal Epístola. É o escrito especial sobre a Igreja que é “o corpo de Cristo” e “a noiva de Cristo” – o primeiro desses títulos nos dizendo que ela está colocada no mais alto lugar de honra; o segundo, nos dizendo que ela também está colocada no lugar mais querido e íntimo de afeição e relacionamento pessoal. Ela é feita, além disso, para a criação de Deus, para os principados e potestades nos lugares celestiais, a grande testemunha, a única testemunha adequada, da graça, da glória e da sabedoria; das abundantes riquezas da Sua graça, do louvor da Sua glória e dos múltiplos recursos e segredos da sabedoria. Ela é isso – e a revelação dela, novamente nos lembramos, completou, ou encheu até a sua plena medida, a Palavra de Deus.

 

Alguém já observou que o chamado de Deus na antiguidade era para indivíduos, para que andassem com Deus, ou para uma nação (como Israel), para que observassem os estatutos e cumprissem as leis de Deus, seu Rei. Mas agora, o chamado de Deus é para um corpo. Contudo, mesmo assim, a individualidade do santo ainda é contemplada; e a Epístola aos Efésios mantém isso em vista, dirigindo-se a nós de maneira clara em nossa posiçãs pessoal e individual, no capítulo 5.

 

Esta é uma verdade adequada e oportuna para o final desta maravilhosa epístola. E certamente devemos conhecer nossa posição pessoal, nossa própria perfeição individual, antes de nos ocuparmos com o chamado da Igreja ou do corpo. Assim, em outro lugar, o apóstolo deixa claro aos santos que falaria de tal sabedoria, a sabedoria destes mistérios divinos, somente entre aqueles que são perfeitos (1 Coríntios 2:6). E assim, aqui, em Efésios, somos individualmente escolhidos, predestinados, perdoados, aceitos, instruídos, selados (de acordo com o capítulo 1); E então, somos instruídos a orar para que tenhamos aquele espírito de sabedoria e revelação que nos capacita a aprender sobre nosso chamado na Igreja, a força que nos guia e a glória que devemos alcançar: “A Igreja, como corporação, é composta por crentes individuais; e embora vista em seu caráter corporativo, ela tem um relacionamento com Cristo o qual o crente individualmente não tem – pois nenhum crente é o corpo de Cristo ou a noiva de Cristo – contudo, é nas afeições e na consciência do crente individual que as relações da Igreja com Cristo devem ser reconhecidas e produzir seu efeito.”

 

Certamente assim é. Individualmente os santos são primeiro aperfeiçoados sob o Espírito Santo que lhes foi dado, e então o corpo é edificado – como vemos no capítulo 4:12. Os preceitos, que encontramos dos capítulos 4:17 a 6:9, dirigem-se a nós individualmente; mas o estado da Igreja é assumido ou contemplado aqui e ali ao longo de todo o texto.

 

E aqui, permitam-me dizer, quanto aos preceitos, que o próprio chamado, a graça na qual nos encontramos, pode nos guiar, sem a necessidade de preceitos. Esse pensamento é corroborado por passagens como Tito 2:11-12 e 2 Pedro 3:11, 14. Os santos em Gênesis agiam sem lei ou preceito. Seu chamado sugeria seus deveres. “Como pois faria eu tamanha maldade”, disse um deles, “e pecaria contra Deus?” A graça na qual os santos do Novo Testamento se encontram pode fazer o mesmo. Ainda assim, eles são chamados a ouvir preceitos – como aqui, nesta porção da Epístola aos Efésios. Mas os preceitos honram as doutrinas de forma notável. Eles geralmente se referem às doutrinas ou as pressupõem tacitamente; e assim, como eu poderia dizer, apresentam-se como tantas expressões da virtude moral que se encontra oculta na doutrina.

 

E mais ainda. Eles nos fazem saber que a santidade deve ter um caráter dispensacional. Não é simplesmente virtude moral, como a consciência poderia sugerir; não é justiça legal, como a lei poderia exigir; nem é o que João Batista teria prescrito. É Cristã. A santidade, ou o caráter devido, de um santo, deve proceder do chamado Cristão. Ela encontra suas fontes e sanções na verdade Cristã. Ela se mede pela Palavra que agora se dirige a nós e que delineia nosso lugar e peculiaridade dispensacional. É a santificação da verdade, a lavagem da água pela Palavra que se espera. É isso que dá caráter definido à moral que Deus aceita e que o Espírito opera. E é isso que muitas vezes é negligenciado ou ignorado, mas que, para estar na luz como Deus está na luz, deve ser levado em consideração.

 

Mas há ainda outro aspecto nesta epístola. Há conflito ou luta. Vemos a caminhada de um santo em Efésios 5, sua luta em Efésios 6. Sua caminhada se dá pelos caminhos tortuosos da vida, pelas circunstâncias e relações que compõem a história humana. Sua luta é contra “as ciladas do diabo”, ou contra “as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”.

 

Esses espíritos malignos vêm dos lugares celestiais – e vêm com mentiras e enganos de infinita variedade. Vemos em 2 Crônicas 18 um testemunho direto disso. Ali, um espírito é visto vindo do céu com uma mentira na boca; ou com uma mentira que ele coloca na boca de um dos falsos profetas de Acabe. E essa mentira leva Acabe à batalha fatal de Ramote-Gileade.

 

A serpente, no princípio, entrou no jardim com mentira e, com uma de suas ciladas, arruinou o homem (Gênesis 3). Satanás, com outra cilada, tentou Davi a numerar o povo e o conduziu a um terrível dia de retribuição (1 Crônicas 21). Essa mesma característica de enganador é reconhecida em Apocalipse 12:9; 20:8. E sinais, prodígios da mentira e toda forma de engano e injustiça são mencionados como obras de Satanás em 2 Tessalonicenses 2:9-10.

 

Assim, temos espíritos malignos em lugares celestiais exercendo "ciladas" aqui em nosso meio.

 

Essas ciladas, essas mentiras dos "príncipes das trevas deste século", podem ser inúmeras; tais como sugestões de infiéis, perversões da verdade, superstições devocionais humanas, confusão de coisas que diferem dispensacionalmente, cálculos falsos a respeito do progresso do mundo e coisas semelhantes. Quão solene é essa reflexão! Mas quão bom é sermos informados sobre essas ciladas e, assim, estarmos preparados para elas. Exemplos distintos dessas ciladas são novamente observados em 2 Coríntios 2:11; 11:3 e 2 Timóteo 2:26.

 

É contra essas ciladas que temos que lutar. Em outros caracteres (como quando ele é um mentiroso ou um perseguidor), podemos ter que sucumbir ao inimigo. Pois nossa luta não é contra carne e sangue, como foi a de Josué ou Davi. Deus os enviou para tal conflito, tendo-lhes dado armaduras adequadas para enfrentar carne e sangue. Mas agora não é assim. Nenhuma peça de nossa armadura serviria para a batalha em Ai, ou para o dia do vale de Elá. Nossos inimigos não são os amorreus nem os filisteus.

 

É uma armadura feita sob medida para enfrentar o corruptor da verdade, aquele que não cessa de perverter os retos caminhos do Senhor (Atos 13:10). É o cinto da verdade, a couraça da justiça, as sandálias do evangelho da paz, o escudo da fé, o capacete da salvação e a espada do Espírito.[3]

[3] Satanás é um acusador dos irmãos no céu (Jó 1; Apocalipse 12). Na Terra, ele é um acusador de Deus (Gênesis 2) e um perseguidor dos santos (Jó 2; Apocalipse 12). Mas o apóstolo aqui fala apenas de suas ciladas ou enganos.

 

Toda a era pela qual estamos passando é considerada como “uma guerra”, com lutas ocasionais ou o “dia mau” e, portanto, o apóstolo nos diz: “para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”.

 

Essas “ciladas”, também, podem se tornar “dardos inflamados”. Ou seja: essas mentiras e enganos que estão sempre presentes podem, de vez em quando, de uma forma ou de outra, ser direcionados direta e pessoalmente a nós mesmos.

 

E é impressionante observar o que esta única epístola nos ensina sobre esses malignos principados e potestades. Ela nos diz que eles são os cativos de Cristo, os inimigos dos santos, com quem o santo precisa lutar, e os príncipes das trevas deste século (Ef 4:8; 6:11-12). Foi observado por alguém que Éfeso é apresentada de modo muito especial como tendo sido o cenário daqueles espíritos malignos que praticam suas mentiras e enganos (veja Atos 19:19).

 

Mas aqui eu poderia acrescentar (embora nossa epístola não o sugira) que o atual príncipe das trevas deste mundo está fadado a fazer uma jornada solene em breve. Ele será expulso do céu, onde agora se encontra, e atuará somente na Terra. Então, no tempo certo, será retirado da Terra e lançado no abismo. E, ao ser retirado do abismo, será entregue ao lago de fogo, ou seja, à sua condenação eterna (veja Lucas 10:18; Apocalipse 12; 20).

 

E isso, eu ainda poderia acrescentar, é exatamente o oposto da jornada do Senhor. O Senhor subiu do sepulcro como um Conquistador. Ele havia sido a “morte da morte e a destruição do inferno”.[4] Ele retornou à Terra, onde permaneceu por quarenta dias, fazendo promessas e penhores referentes ao Seu futuro reino aqui. E então, ascendeu aos mais altos céus, recebendo todo o poder e enviando o Espírito Santo para habitar em Seus santos e prepará-los para Si no dia da glória suprema, quando Ele Se manifestará cumprindo ou enchendo todas as coisas – conforme descrito nesta mesma epístola.

[4] N. do T.: Uma linha do hino “Guide me, O Thou great Redeemer” (Guia-me Tu, ó grande Redentor).

 

Aqui terminamos, exceto pela conclusão, que, no entanto, possui um aspecto que devo mencionar.

 

O apóstolo fala de si mesmo como um “embaixador em cadeias”. Que outro testemunho ele era, então, naquele momento, do caráter do mundo que ele tinha acabado de reconhecer como estando sob o domínio dos poderes das trevas? O embaixador de Deus foi aprisionado pelo mundo para o qual Ele o tinha enviado! Será que uma nação trata o representante de outra dessa maneira? Não é a pessoa de um embaixador sagrada?

 

Mas o prisioneiro do homem é o homem livre de Deus; e, no cuidado do amor atencioso, de sua prisão ele enviará mensagens de empatia, conforto e encorajamento a seus amados irmãos a centenas de quilômetros de distância, além dos mares.


J. G. Bellett

 

 

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