O Apostolado e as Epístolas de Paulo - Parte 3/5
- J. G. Bellett (1795-1864)

- 13 de jan.
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ÍNDICE
O Apostolado e as Epístolas de Paulo
Parte 3/5
J. G. Bellett
Epístolas Gerais de Paulo
Nos Atos dos Apóstolos, lemos sobre o trabalho de um evangelista; nas epístolas, sobre as instruções de um mestre, dirigidas àqueles que já foram alcançados pelo evangelista.
Digo isso como a diferença característica entre os dois escritos; e, portanto, muito apropriadamente, os Atos dos Apóstolos vêm antes, ou têm precedência sobre, as epístolas dos Apóstolos.
Mas, por outro lado, cada epístola tem suas próprias características distintas. E, de modo geral, isso é fácil de perceber, e é isso que farei agora, ainda que brevemente, no que diz respeito às epístolas de Paulo às diferentes igrejas.
Na Epístola aos Romanos, encontramos um relato completo e ordenado sobre o evangelho, o mais precioso mistério ou conselho e caminho de Deus, pelo qual Ele providenciou para pecadores miseráveis e arruinados por si mesmos, manifestando a Sua própria glória, assegurando a santidade e excluindo a vanglória, ao mesmo tempo em que coloca o pecador que crê em Jesus no relacionamento mais elevado e querido Consigo mesmo. Isso é feito nos capítulos 1 a 8. Em seguida, nos capítulos 9 a 11, temos um volume maravilhoso sobre verdades proféticas ou dispensacionais; e, por fim, exortações morais aos santos, dirigidas a eles de forma pessoal e abrangente.
De forma muito apropriada, esta primeira epístola cumpre o ofício de mestre. Aos que já foram vivificados, o Espírito, por meio de Paulo nesta epístola, ensina o caminho de Deus com maior perfeição. Esta é a Epístola aos Romanos.
Nas Epístolas aos Coríntios, que se seguem, somos apresentados às corrupções nos santos e às repreensões, admoestações e correções do Espírito no apóstolo.
Os coríntios eram um povo escolástico e racional, mais saduceu do que farisaico na tendência de sua mente (se me permitem falar dos gentios na linguagem dos Judeus). Eles foram tentados a tirar proveito dos dons que desfrutavam; usando-os para se exaltarem a si mesmos, em vez de ministrarem para a edificação de seus irmãos. Haviam caído em um triste estado de relaxamento moral e discussão especulativa de doutrinas, caminhando rapidamente para a ruína; e haviam sido enganados por alguém que tinha vantagens na carne, em suas circunstâncias e condições mundanas, e que estava desviando a atenção deles de Paulo para si mesmo.
Essa situação pode ser constatada nas duas epístolas que lhes foram dirigidas. E a confrontação dessa situação, bem como a resposta a certas perguntas que lhe haviam sido enviadas (por curiosidade, ao que parece, típica de um intelecto coríntio), constituem o conteúdo dessas epístolas.
Mas a corrupção opera de diversas maneiras. O homem de Deus precisa estar atento a partir de muitas torres de vigia, se quiser conhecer, como ele deveria, todas as aproximações do inimigo.
Portanto, na Galácia vemos uma forma de corrupção muito diferente daquela que vimos em Corinto. Não havia judaização em Corinto – nenhum fermento do fariseu, como mencionei, mas muito do fermento do saduceu; sim, e também de Herodes, que é mundanismo. Mas entre os irmãos da Galácia, por outro lado, era o fermento do fariseu que estava agindo, e agindo poderosamente.
A religião das ordenanças havia sido reavivada entre eles. A lei, em algumas de suas formas sutis, foi retomada. Buscava-se uma aparência de perfeição na carne. Tendo começado no Espírito, agora seriam aperfeiçoados na carne. Eles observavam dias, meses, tempos e anos – os rudimentos do mundo, os elementos da economia legal; e o apóstolo temia isso. Ele precisava trabalhar novamente por eles, para que Cristo pudesse novamente ser tudo para eles, “formado” neles; e para que escapassem dos fascínios e embaraços de um santuário carnal e mundano.
Na Epístola aos Efésios, encontramos uma outra condição de coisas, inteiramente diferente. Não se trata de um estado de relativa ignorância que necessitava de instrução ordenada, como a que encontramos em Romanos; nem de um estado de relaxamento moral, como o contemplado na Epístola aos Coríntios; nem de um estado de erro doutrinal que se aproxima do abandono de Cristo, como na Galácia. Tudo está bem, calmo e sem distrações em Éfeso, pelo menos até onde a epístola pressupõe; e, consequentemente, o apóstolo está livre para revelar verdades mais profundas e elevadas aos santos ali presentes. E é isso que ele faz. Ele expõe as prerrogativas do nosso chamamento em Cristo, desvendando o mistério da Igreja e dirigindo-se aos santos quanto aos seus deveres, serviços e virtudes de acordo com esse chamamento, e quanto ao seu relacionamento uns com os outros.
Nesta epístola, portanto, vemos antes o profeta, aquele que, sob a inspiração do Espírito Santo, revela as profundezas de Deus e assume esse lugar e essa importância entre os dons; como lemos: “E Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”. Certamente tudo foi inspiração, mas isso assume, nesta epístola, a forma de um profeta.
Na Epístola aos Filipenses, encontramos em Paulo o pastor. Havia um vínculo pessoal muito afetuoso entre ele e eles. Pessoalmente, creio que os filipenses eram os mais próximos de Paulo, assim como João fora do Senhor. Acima de todos, os filipenses comunicaram com Paulo do início ao fim, durante sua pregação no exterior e agora em sua prisão. O coração de Paulo era profundamente afeiçoado a eles. Mas ele tinha motivos para temer que algumas desavenças tivessem começado entre eles, alguns ciúmes pessoais, reservas e distanciamento (infelizmente, algo muito comum até hoje!); e ele lhes escreve uma carta pastoral com essa apreensão no seu coração. Contudo, devido à sua intimidade com eles e à proximidade da comunhão entre eles; devido ao amor que sentia por eles e à graça que neles havia, Paulo lhes escreve com notável ternura e consideração. Em nenhuma outra epístola encontramos uma expressão tão fervorosa de afeto pessoal.
E sendo pastoral em vez de instrutiva, não há ordem de pensamento doutrinário nesta epístola. Ela foi escrita segundo um método mais livre.
Na Epístola aos Colossenses, que vem em seguida, vemos um povo que, assim como os Gálatas (pelo menos em certa medida), havia sido enredado por princípios judaizantes. Mas, no caso deles, isso não se dava de forma tão grosseira quanto entre os Gálatas. Esses princípios estavam afastando os santos da Galácia daquela fé simples no Senhor Jesus, que nós, pecadores, devemos ter n’Ele; esses mesmos princípios estavam impedindo os santos de Colossos de fazer uso de Cristo e de prosseguir com Cristo da maneira como os santos devem fazer. O apóstolo, portanto, muito oportunamente, os instrui sobre a plenitude de Cristo; advertindo-os (como era necessário), mas também ensinando-lhes sobre a perfeição deles n’Ele, que eles não precisavam de nada além do que podiam obter n’Ele; e que, tendo começado com Ele, deveriam prosseguir com Ele; estando enraizados n’Ele, assim deveriam ser edificados n’Ele.
Aqui temos o pastor e o mestre juntos (sob plena inspiração do Espírito Santo), tanto advertindo como instruindo. Que variedade! Certamente, estas Epístolas aos Romanos, aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses e aos Colossenses nos ensinam quão diversas podem ser as necessidades dos santos, quão profundas as sutilezas de seu inimigo e quantas torres de vigia o Espírito graciosamente ergueu para nosso uso, para que possamos subir nelas e obter vantagem diante das investidas de nosso adversário. E elas nos ensinam ainda que, se o Espírito de Deus é como um Evangelista em Atos, Ele se manifesta de diversas maneiras, ou preenche Seus vasos nas epístolas, como um Profeta, um Mestre ou um Pastor, de acordo com as necessidades dos santos.
Contudo, ainda temos que considerar as Epístolas aos Tessalonicenses. Elas são as últimas na série ou sucessão dessas epístolas gerais de Paulo, ou suas epístolas às igrejas, e têm seu próprio caráter, assim como cada uma das outras.
Nas pessoas a quem são dirigidas, vemos uma fé eminente e distinta – uma fé que foi provada por sofrimentos, além de qualquer outra, pela causa da verdade. Consequentemente, elas são muito encorajadoras. O apóstolo, caracteristicamente, é um exortador, como eu o chamaria, e nessas epístolas (como diz Romanos 12) “o que exorta faça-o com dedicação” (ARA). Ele encoraja a Igreja sofredora dos tessalonicenses, falando-lhes muito sobre a vinda do Senhor, que é o devido e apropriado consolo daqueles que sofrem com Ele e por Sua causa neste mundo mau e rebelde. Não há, portanto, nenhum método doutrinário nessas duas epístolas. Elas são escritas principalmente em espírito de compaixão, segundo a graça de alguém que exortava ou encorajava um povo provado e sofredor. Mas elas transmitem instrução sobre esta grande verdade da vinda do Senhor, além do que os tessalonicenses já haviam alcançado; instrução, também, muito adequada para levar adiante o ministério de conforto e empatia de um exortador, como o apóstolo é nessas epístolas.
Contudo, em meio a tudo isso, ele precisa erguer uma nova torre de vigia. Precisa advertir seus honrados tessalonicenses para que não permitam que “a bem-aventurada esperança” (a vinda do Senhor) seja corrompida ou deturpada entre eles. Pois é verdade, e não é incomum, que as melhores coisas, assim como as melhores pessoas (falo como homem), ainda estejam em perigo. Não havia um grupo de santos mais renovado, promissor e abundante em bem-aventurança do que os da Galácia. Eles teriam dado seus próprios olhos por Paulo. Mas, quando ele lhes escreveu, teve que repreendê-los severamente e dizer-lhes na cara que estava em dúvidas quanto a eles. Portanto, não há verdade mais preciosa para o santo do que aquela que os tessalonicenses sustentavam: a perspectiva da vinda do Senhor e o anseio da alma por ela. Mas até isso estava em perigo, para que a carne não se aproveitasse disso e a corrompesse, e os santos que a possuíam, e a amavam não se tornassem ociosos e negligentes quanto ao dever presente e à honesta e necessária diligência. Assim, aqui, digo novamente, temos outra torre de vigia erguida e outra voz de advertência levantada em meio às corrupções pelo Pastor de Israel, que jamais tosquenejará nem dormirá, mas vela pelo Seu rebanho dia e noite.
Assim, decidi examinar rapidamente as epístolas gerais de Paulo: refiro-me às suas epístolas dirigidas às congregações ou igrejas de santos, e não a indivíduos, como Timóteo, Tito e Filemom. Cada uma delas, como posso afirmar após analisá-las, serve a um propósito específico; mas o homem de Deus necessita de todas elas, vivendo, como deve viver, de toda palavra que procede da boca de Deus.
O caráter do autor destas epístolas transparece em cada uma delas, e a atitude de sua alma, por assim dizer, é sem dúvida moldada pela condição da Igreja à qual se dirigia. Ele ocupa a posição de mestre ao escrever aos Romanos. É o pai espiritual aflito ao se dirigir aos Coríntios. É o reprovador veemente, zeloso e indignado ao escrever aos Gálatas, resgatando e defendendo um tesouro precioso e valioso que ele percebeu que estava em perigo nas mãos daqueles que deveriam tê-lo guardado e protegido. Ele está no alto, sentado em um mundo de Glórias, contemplando-o e pensando no amor que o trouxera até ali, ao escrever aos Efésios. É o amante sincero dos Filipenses, temeroso da menor coisa que ameaçasse manchar ou perturbar um povo tão amado. É o vigia ansioso no meio dos Colossenses. E ele é o conselheiro e consolador profundamente interessado e compassivo, enquanto escreve suas cartas aos Tessalonicenses.
O estilo e o espírito que se adequariam a esses diferentes caracteres, ou a essas diferentes atitudes de alma, podem ser descobertos no apóstolo, conforme ele escreve. E tudo isso certamente nos mostra que, por meio do Espírito, ele estava atento ao seu tema, bem como o dominava – não um mero escritor, mas um escritor vivo. E isso me faz lembrar das palavras de outro autor, que muito me regozijei anteriormente. Falando dos diferentes escribas, de Moisés a João, empregados pelo Espírito de Deus para a escrita das Escrituras, ele diz: “Estamos longe de ser indiferentes a esses traços humanos que se acham por toda parte impressos nas Escrituras Sagradas. É com profunda gratidão e crescente admiração que consideramos esse caráter vivo, real, dramático e humanitário que resplandece com tanto poder e beleza por todo o Livro de Deus. Temos a simplicidade sublime e inculta de João; a energia comovente, intensa, inspiradora e argumentativa de Paulo; o fervor e a solenidade de Pedro; a grandeza poética de Isaías; a lira de Davi; as narrativas engenhosas e majestosas de Moisés; a sabedoria sentenciosa e régia de Salomão. Sim, é tudo isso. Foi Pedro, Isaías, Mateus, João ou Moisés, mas foi Deus. É Deus Quem nos fala; mas moldado em forma terrenal, também é homem. É homem, mas também é Deus. Quão grandemente nos encanta essa abundante humanidade e toda essa personalidade com a qual a divindade das Escrituras está revestida, lembrando-nos de que elas são a expressão da comovente voz do Salvador de nossa alma, Ele próprio possui um coração humano no trono de Deus, embora assentado nas alturas, onde os anjos O servem e O adoram para sempre.” E ele acrescenta: “Assim deveria ser a Palavra de Deus; como Emanuel; cheia de graça e verdade; ao mesmo tempo no seio de Deus e no coração do homem; poderosa e compassiva; celestial e humana; exaltada e humilde; imponente e familiar; Deus e homem.”
Confesso que muito me agrado disso. Mas acrescentarei agora apenas mais uma coisa, ao encerrar esta breve palavra sobre as epístolas de Paulo às igrejas. É segundo o padrão da graça divina, desde o princípio, esperar com paciência pelo homem. Essas epístolas são um testemunho mais pleno disso. O Espírito de Deus está esperando pelas igrejas, encontradas, como estavam, em diferentes formas de erro e perigo, buscando recuperá-las, corrigi-las e restaurá-las; assim como a mão de Deus estava fazendo nos primeiros dias de Israel, como vemos no Livro dos Juízes, e novamente (com a casa de Davi) em 2 Crônicas; e também como o próprio Senhor Jesus vinha fazendo com a Sua geração no Evangelho segundo Mateus, aguardando em paciente ministério a adoração ao Senhor. E assim é nessas epístolas. O mal e o erro estão presentes nas igrejas; mas o Espírito, por meio do apóstolo, admoesta, repreende, instrui, se porventura puder restaurar. A escavação e a adubação continuam. Mas há medida até mesmo na paciência de Deus. A justiça exige isso; e assim, na Segunda Epístola a Timóteo, podemos ver a casa, a grande casa (em certo sentido, a casa de Deus), arruinada e rejeitada. Mas “O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do Seu coração de geração em geração”. O vaso se estraga na roda, nas mãos do Oleiro; mas o Oleiro, em Seu direito soberano sobre o barro, faz outro vaso como Lhe aprouver.
Nota: Permitam-me acrescentar, para que não haja mal-entendidos, que quando me refiro ao apóstolo como mestre em uma epístola, como pastor em outra, como profeta em outra, e assim por diante, quero dizer simplesmente que a inspiração que o preenchia e guiava em cada pensamento e palavra, lhe conferia, em cada ocasião, o caráter que era adequado a ela. Ele escrevia não apenas como alguém com dom, mas como alguém inspirado. Disso eu tenho certeza e reconheço.
Romanos
Logo no início desta epístola, nos é dito que o que Deus busca do pecador é “a obediência da fé”. Poderíamos julgar, religiosamente, que o amor e seus serviços seriam mais aceitáveis para Ele. Mas não é a conformidade com a lei nem a demonstração de amor que Deus espera de nós, pecadores perdidos, mas sim “a obediência da fé”. E, ao refletirmos sobre isso, percebemos que esta é a única forma de obediência que um pecador pode prestar e que Deus aceita. Ele é honrado como Salvador pela nossa fé, e isso Lhe confere uma glória mais rica do que qualquer honra que pudéssemos ter prestado pela conformidade aos Seus estatutos como Legislador, pois ela O reconhece e O honra tal como Ele Se revela na graça do evangelho, e, ao obedecê-Lo, assim O honramos a Ele próprio. Os primeiros capítulos da nossa epístola abordam este tema grandioso, tratando da fé que desperta pela primeira vez em um pecador. E como o capítulo 1:5 continua a narrar, essa obediência da fé que o pecador que recebe o evangelho presta a Deus é “pelo Seu Nome”, o que certamente indica como a Sua glória está envolvida nisso, e que é a mais bem-vinda honra que o Seu Nome pode receber de um pecador arruinado que está sendo conduzido, por meio da reconciliação que é proclamada no evangelho, de volta a Si mesmo. E aprendemos ainda com essas palavras iniciais de nossa epístola (v, 17) que essa fé assim exercida possui a mais alta dignidade de que uma criatura é capaz, isto é, “a justiça de Deus”. A criatura não pode estar revestida de dignidade mais maravilhosa do que esta.
É nessa conexão que aprendemos, no capítulo 3:22-26, que o Objeto ao qual a fé se apega para obter essa justiça divina é “Jesus” e o Seu “sangue”. Um Salvador crucificado é sempre o Objeto que a fé apreende e a Quem ela se apega. Aprendemos ainda que “a justiça de Deus”, na qual este pecador crente se encontra, é encontrada “pela fé em Jesus Cristo” e é “para todos e sobre todos os que creem”. É uma grande bênção saber disso. Se Deus recebe a Sua mais alta glória vinda da fé de um pecador, esse pecador recebe vinda de Deus a mais alta dignidade que é possível um homem possuir. Isso o torna o que ele é. Isso o coloca em sua devida forma e personalidade diante de Deus. E a fé no sangue de Cristo apreende isso. Sob o olhar da fé, Deus estabeleceu uma propiciação – um propiciatório. A fé, permanecendo ali, aprende que Deus é Justo e, ao mesmo tempo, Justificador. Seu trono é mantido em justiça pelo sangue que ali é aspergido. A morte do Filho de Deus deu àquele trono tudo o que ele exigia, consumando a reconciliação ao manter a justiça e, ao mesmo tempo, respondendo pelo pecado. E assim, o Deus bendito, no evangelho da Sua graça, proclama que foi encontrada plena satisfação para atender a todas as Suas justas exigências sobre o pecador. A justiça clamava por juízo sobre o pecado, mas a graça provê ao pecador um abrigo no propiciatório manchado de sangue. E a fé faz uso dele. Ela aceita o dom de Deus. O pecador que crê invoca a Sua resposta e é salvo. E assim é que a fé se torna o primeiro elo entre Deus e a alma.
Esta doutrina nos expõe e nos humilha, pois revela quão incuravelmente e irremediavelmente maus somos em nós mesmos e sob a lei. Ela “exclui a jactância (vanglória)”, pois, embora nos assegure que somos feitos “justiça de Deus”, que temos o lugar de “filhos”, com paz, graça e gozo presentes, com a possessão do amor de Deus em sua plenitude imensurável, não deixa espaço para o pecador se vangloriar, pois tudo vem da graça. Assim, ao mesmo tempo que nos concede, também nos nega. Estes são alguns dos grandes fatos que nos são ensinados nos capítulos 1 a 5 desta epístola. Tudo isso manifesta e glorifica a Deus, e ao mesmo tempo revela as glórias morais desta preciosa doutrina da fé. O evangelho apresenta Deus na plenitude de Sua graça e justiça combinadas a toda a Sua criação nas mais elevadas formas de glória moral. Revela-O como o Autor de toda a obra e o Herdeiro de toda a glória. E O apresenta assim tanto a Judeus quanto a gentios. Pois, em resposta à pergunta: “É porventura Deus somente dos Judeus?” A palavra é: “Também dos gentios, certamente”. Essa verdade da justificação pela fé nunca é tratada como uma mera proposição escolástica. É a religião da confiança pessoal e imediata em Deus, de um pecador convicto, desfrutada por um título que o próprio Deus escreveu para ele.
Em Romanos 3-4, a morte de Cristo é apresentada como consumando a reconciliação e mantendo a justiça ao responder pelo pecado, e o pecador que se apega a isso é justificado. O capítulo 5 o coloca em paz diante de Deus, dando-lhe acesso a um estado presente de graça e proporcionando uma esperança segura de glória. Apresenta uma razão pela qual ele pode se gloriar nas tribulações do caminho; o introduz ao amor perfeito de Deus, fala sobre seu interesse na vida presente de Cristo após a morte e revela o próprio Deus como a fonte de seu regozijo.
Romanos 6-8 narra a libertação do pecador crente do pecado como senhor, da lei como marido e da carne como lei do seu ser. Em nosso estado não regenerado, o pecado era nosso senhor e nós seus servos voluntários. Mas a morte dissolveu o vínculo e libertou o cativo, “porque aquele que está morto está justificado do pecado”. O antigo senhor não tem mais poder sobre nós. Não somos mais seus servos. Este é o maravilhoso ensinamento do capítulo 6. E no capítulo 7, o crente, como alguém que morreu e ressuscitou com Cristo, é liberto da lei como marido. Pois a lei se dirige àqueles que estão vivos na carne, mas o crente, tendo morrido com Cristo, está livre de suas exigências e agora age sob as virtudes d’Aquele a Quem, na ressurreição, está unido. No capítulo 8, ele é visto “em Cristo”, onde não há condenação; liberto da lei do pecado e da morte, não mais “na carne”, mas em Cristo, com o Espírito de Deus habitando nele, vivendo em triunfo, “mais que vencedor” por meio d'Aquele em Quem agora está diante de Deus. Assim, nesta epístola, temos a glória moral do evangelho de Deus exposta e comprovada, com seus benditos resultados para a fé evidenciados na condição presente de todos os pecadores que creem.
O propósito desta grande epístola, ao menos em suas partes doutrinárias, é expor as excelências da graça de Deus e daquela fé no pecador que apreende e desfruta das bênçãos que a graça traz.
Em Romanos 1-8, vemos o conselho divino e o caminho de Deus expostos, nos quais pecadores perdidos são trazidos de volta a Deus e colocados em paz diante d’Ele, em íntima comunhão Consigo mesmo, tudo pela graça. E a linguagem ao final desta seção da epístola é um triunfo da consciência em virtude das riquezas da graça de Deus e da obra de Cristo.
Em Romanos 9-11, onde somos instruídos nos conselhos e na sabedoria de Deus em Seus atos dispensacionais, o entendimento alegre e instruído dos santos triunfa sobre as riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus. Assim, quer seja o segredo da paz que o sangue de Cristo comprou e o relacionamento que a graça concede, seja a glória que a graça coloca diante dele, tudo é de Deus e tudo é da graça sem limites.
1 Coríntios
Os santos de Corinto, embora ricamente dotados de conhecimento e com os dons do Espírito abundantemente exercidos entre eles, haviam se tornado “carnais”. Estavam dando vazão à sua mente e aos seus gostos humanos. Um apreciava a ousadia natural de uma certa classe de mestres, outro admirava a eloquência mais suave de outros; haviam permitido que a mente natural deles guiassem seus pensamentos e usassem sua língua. Um dizia: “Eu sou de Paulo”; outro, “Eu sou de Apolo”. Tudo isso era andar “segundo os homens” e se gloriar na carne. O apóstolo, portanto, expõe a inutilidade da carne e sua incapacidade por meio de vários testemunhos. Primeiro, pela Escritura, que diz de toda a sua sabedoria: “Onde está o sábio? Onde está o escriba?”. Segundo, pela Cruz de Cristo, que, quando apreendida corretamente, mostra o fim da carne. Terceiro, pelo evangelho, que ele havia pregado entre eles, que demonstrava que a sabedoria da carne havia se provado “loucura diante de Deus”. Em quarto lugar, pelos materiais com os quais Deus formou a Igreja em Corinto – “que não são muitos os sábios... nem muitos os nobres” da Terra que foram chamados. Tudo isso os gregos, com seu amor natural pelo aprendizado, haviam esquecido. O apóstolo, como pregador, não havia vindo entre eles dessa maneira. Ele não havia satisfeito seus gostos carnais, nem no conteúdo nem na forma de seu ministério entre eles. Sua mensagem era “Cristo crucificado”, que é o fim da carne. Seu ministério não se baseava na sabedoria carnal, mas no poder do Espírito de Deus. Por essa razão, os homens – os príncipes do mundo – homens em seu mais alto nível de refinamento e civilização, não haviam recebido a mensagem.
Toda a sua “glorificação na carne” era, portanto, inconsistente com tudo o que haviam ouvido dele como seu “pai em Cristo”. Eles estavam se entregando ao espírito de reis na Terra, enquanto aquele que os havia gerado por meio do evangelho era um estrangeiro e enfrentava a oposição daqueles que tinham a mentalidade com a qual eles se gloriavam. Em tudo isso, eles provaram que estavam se entregando aos seus gostos naturais e andando “segundo os homens”. Eles precisavam ser repreendidos e restaurados a uma energia renovada de vida espiritual da qual haviam se afastado. Também haviam se tornado moralmente negligentes. Se a parte intelectual de sua natureza havia sido satisfeita, assim o seu senso moral havia se tornado frouxo, como nos informa o capítulo 5. Estavam descansando tranquilos enquanto o pecado reinava em seu arraial. Acã estava lá, mas nenhum Josué havia chorado. Permitiam o mal sem que houvesse um Fineias para agir em nome de Deus para purificar a congregação. Tudo isso era maldade: revelava um baixo estado espiritual e falta de zelo pela honra de Deus entre eles.
No capítulo 6, eles demonstram o quão pouco exerciam suas funções no Senhor e suas faculdades no Espírito, no julgamento de seus irmãos, embora, em perspectiva, fossem chamados a julgar homens e anjos.
No capítulo 7, eles fizeram perguntas que demonstravam a curiosidade e o intelecto de um povo, em vez de uma espiritualidade. O apóstolo responde a essas perguntas de uma maneira que revela o quão pouco eles se comportavam como um povo celestial, vivendo acima do nível do mundo. Ele lembra a eles que “o tempo se abrevia” e que “a aparência deste mundo passa”.
Nos capítulos 8 a 10, o apóstolo os acusa de falta de consideração uns pelos outros, agindo por conta própria, como pessoas que falam, e não segundo os princípios da graça. Eles se entregavam aos prazeres que seu conhecimento lhes permitia, sem se preocuparem suficientemente com as exigências do amor. Isso era mais uma prova de uma condição de alma relaxada. O conhecimento, e não o amor, guiava seus caminhos, e isso sempre testemunha uma acomodação egoísta e uma indulgência carnal, tão contrária à energia de uma vida no Espírito. E assim, em meio a uma solene exortação sobre esse assunto (capítulos 9 e 10), ele usa as palavras: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (ARA). Ele os chama a uma vigilância e energia renovadas na corrida, lembrando-os de que, embora todos corram, “um só leva o prêmio”, e os exorta a correrem “de tal maneira que o alcanceis”, e não serem “reprovados” por falta de disciplina própria.
No capítulo 11, o apóstolo trata da maneira como eles observavam a ceia do Senhor. Aqui, novamente, eles haviam se tornado relaxados e indulgentes consigo mesmos, vivendo segundo a natureza, sem esperar uns pelos outros, mas cada um comendo a sua própria ceia, um com fome, outro embriagado; deixando de considerar o que era devido ao Senhor.
Os capítulos 12 a 14 mostram como, sendo um povo grego e intelectual, outra questão se tornou uma armadilha na qual caíram. Os dons espirituais passaram a ser valorizados de acordo com sua atratividade, em vez de seu valor para a edificação. Eles os usavam para uma mera demonstração de poder e como ocasião para rivalidade, permitindo assim que o inimigo pervertesse seu uso. O dom de “línguas” era exercitado sem levar em conta seu verdadeiro valor para a edificação piedosa. Tudo isso era mal, tinha o cheiro da carne, não do Espírito.
No capítulo 15, eles são acusados de transformar o mistério da ressurreição em assunto de filosofia especulativa. O relaxamento da alma e a indulgência na liberdade da mente carnal se manifestam em tudo isso e suscitam a repreensão do apóstolo e sua exortação revigorante para “Vigiai justamente [Acordai para a justiça – AIBB]” e retornar ao conhecimento superior de Deus, abandonando as más conversações que os corrompiam.
No capítulo 16, ele os exorta, dizendo: “portai-vos varonilmente”, e a agirem com a energia e a graça de uma mente superior, segundo a lei do amor. E se a arrogância grega os tentasse a desprezar Timóteo por causa de sua juventude e falta de ensinamentos clássicos, como eles naturalmente valorizavam, eles são advertidos a não o desprezarem, pois ele tinha credenciais superiores como alguém que havia sido diligente na “obra do Senhor”, seguindo o próprio exemplo do apóstolo. Com notável aprovação, ele menciona a “casa de Estéfanas”, cujos membros haviam se dedicado “ao ministério dos santos” com verdadeira energia – uma exceção notável à condição geralmente relaxada dos santos em Corinto.
A epístola como um todo é valiosíssima, não apenas por nos orientar em situações que ainda podem surgir entre os santos, mas também por mostrar, de modo geral, o quanto o Espírito zela para que caminhemos com diligência espiritual, não segundo a carne ou conforme os costumes do mundo, mas como os santificados em Cristo, na confissão do Seu Nome como Salvador e Senhor.
J. G. Bellett


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