O Que Acontece Depois da Morte?

CAPÍTULO 1 - Duas Maneiras de Morrer


“Se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” (João 8:24).


“Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor” (Apocalipse 14:13).


Quaisquer que sejam as causas de falecimento relatadas pelas estatísticas: em casa, no hospital ou na estrada...de acordo com as Escrituras há somente duas maneiras de morrer.


A primeira, aterradora, está reservada aos incrédulos. “Se não crerdes que eu sou (Jesus, o Filho de Deus), morrereis em vossos pecados” (João 8:24). Morrer em seus pecados é apresentar-se diante de Deus, que é Santo, como alguém culpado diante de seu juiz, com a certeza da condenação. Os pecados esquecidos ou minimizados (registrados, porém, fielmente por Deus), serão um dia apresentados de novo diante de cada um. Sem nenhum advogado diante daquele tribunal, senão somente um Juiz inflexível e que sabe todas as coisas. “E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:15).


Mas a graça de Deus deu ao homem a opção de morrer de outra maneira. “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos 16:31).


O que crê é revestido da justiça de Cristo, a única que pode proteger da condenação. Cristo morreu pelo pecador arrependido e este pode morrer “no Senhor” em completa paz.

Não serão as pessoas mais culpadas as que irão para o inferno, mas aquelas que não quiseram crer. E não serão as pessoas mais honradas as que terão um lugar no céu, mas somente aquelas que pela fé, tenham morrido no Senhor.


CAPÍTULO 2 - Cristo e a Morte

Introdução

O que é a morte? Para o incrédulo não há nada mais terrível do que ela. Com razão de sobra as Escrituras a chamam de “o rei dos terrores”. Do ponto de vista do juízo é o fim do primeiro Adão. Não apenas o fim da natureza física, senão que, quanto mais se considera a morte em relação com a natureza moral do homem, mais terrível ela se faz.


Tudo quanto o homem possui, seus bens, pensamentos, toda a atividade de seu ser acaba e morre para sempre, “sai-lhe o espírito perecem os seus pensamentos” (Salmos 146:4). Para o homem é o fim de toda esperança, o término de todo projeto, o desenlace de todo conselho e plano. Rompe-se o elo, o motivo íntimo de todo pensamento ou ação. A vida na qual se desenvolvia já não existe. A cena ruidosa na qual transcorreu toda a sua vida se extingue. Ele próprio se apaga e desaparece. Ninguém mais tem o que tratar com ele. Sua natureza sucumbe por não haver podido resistir à tirania da morte a quem agora pertence e que exige seus terríveis direitos.


“O Salário do Pecado é a Morte”

Isso não é tudo. Ó homem, cheio de vida neste mundo, submerge na morte. Porquê? Porque o pecado introduziu-se no mudo e despertou a consciência. Mais ainda, com o pecado veio o juízo de Deus. O salário do pecado é a morte, terror para a consciência. E o poder de Satanás sobre o homem, porquanto Satanás tem o domínio da morte.


Deus não poderia ajudar-nos com respeito a isto? Desgraçadamente a morte constitui Seu próprio juízo sobre o pecado! Poderia ter sido somente uma prova, um indício de que o pecado não deve passar sem advertência, mas é o terror e o açoite como testemunho do juízo divino, assim como é a polícia para o criminoso e como a prova de sua culpa diante do juízo que se aproxima. Há como deixar de ser terrível essa situação? E o selo posto sobre a queda, a ruína e a condenação do primeiro Adão. Não pode subsistir como homem vivo diante de Deus. A morte está escrita sobre ele, pecador que não pode livrar-se. Culpado e condenado de quem o juízo se aproxima.


Cristo Interveio Entrando na Morte

Mas Cristo interveio: entrou na morte. Que verdade maravilhosa! O Príncipe da vida penetrou ali. Então, que é a morte para o crente?


Fixemo-nos no alcance completo desta maravilhosa intervenção de Deus. Temos visto que a morte é o fim do homem, que é poder de Satanás, juízo de Deus e paga do pecado. Mas tudo isso está relacionado com o primeiro Adão, o homem natural que está debaixo da sentença de morte e do juízo, por causa do pecado. Temos visto o duplo caráter da morte: primeiro, é o fim da vida, da força vital; também, é um testemunho do juízo de Deus para o qual ela conduz.


Cristo foi feito pecado por nós; sofreu a morte e a atravessou, sendo ela o poder de Satanás e o juízo de Deus. Cristo enfrentou a morte sob todos os seus aspectos.


Cristo Padeceu o Juízo

Cristo suportou plenamente o juízo de Deus antes que o dia do juízo chegasse. Em que pese à sua inocência, sofreu a morte como paga do pecado. Assim a morte deixou, por completo, de semear o terror na alma do crente. Pode acontecer a morte física (cujo poder Cristo destruiu por completo), porém, em I Coríntios 15, lemos: “nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados... quando isto que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir de imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória” (v.51 e 54). Tal é o poder da vida em Cristo.

E um feito infinitamente precioso para nós motivo de toda consolação e de gozo inefável se formos capazes de contemplar a Cristo e dizer que Ele é a nossa vida! A morte não tem nenhum poder sobre a vida de Cristo. A fortaleza divina, atuando com poder de vida, tragando a morte, nos liberta plenamente das consequências do pecado. O mesmo poder divino que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, atua agora em nós e nos ressuscitará por meio de Jesus.

J.N. Darby


Para Onde vão os Mortos?

Não seria necessário escrever sobre este tema se os que devem explicar o que a Palavra de Deus ensina, não a alterassem e se não desconversassem. Os erros desses falsos mestres provêm, antes de tudo, do fato de não estarem convencidos da plena autoridade das Escrituras e de a substituírem pelos tristes produtos da imaginação deles. “Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe mas delira acerca de questões e contendas de palavras...(1 Timóteo 6:3,4). A Palavra de Deus qualifica, de modo justo, a essas fantasias ou ensinos de diferentes doutrinas, como fábulas profanas e de velhas (veja I Timóteo 1:3; 4:7; II Pedro 1:16).


São Muitas as Falsas Ideias que Surgiram

Não estranhemos os erros que cometem estes homens quando nos falam do “sono da alma” depois da morte, ou de seu “desenvolvimento gradual” depois de sair do corpo, ou de sua “passagem de esfera em esfera até sua perfeição final”. Os livres-pensadores universais acariciam essas ideias, ao falar das almas que voltam a encontrar no além as afeições e ocupações deste mundo.


Outro erro é falar do “aniquilamento” ou destruição da alma dos maus. Seria inútil querer esgotar a lista destas alucinações e falsas ideias, posto que não são fruto do Cristianismo e por desgraça, não podemos esperar que os que isso propagam, reconheçam sua ignorância. Queremos, sinceramente, firmar os queridos filhos de Deus nesta fé, que uma vez para sempre foi dada aos santos.


A Incredulidade é a Base de Tais Erros

A incredulidade a respeito da inspiração divina das Escrituras é, como já dissemos, a base de todos esses erros, os quais fazem parte da apostasia predita pela mesma Palavra de Deus, cujo desenlace final está chegando.


Aqueles crentes dispostos a dar ouvidos a esses falsos discursos (seja por ignorância, seja por uma confiança erroneamente depositada nos que os doutrinaram) necessitam pois, submeter à prova esses discursos, por meio das Escrituras.


CAPÍTULO 3 - Cristo e as Ressurreições


Há um fato que explica, até certo ponto, a pressa com que certos Cristãos aceitam as ideias confusas mencionadas acima. A grande verdade da ressurreição dentre os mortos, se não é ignorada, é pelo menos deixada em lamentável dúvida. Esta “primeira ressurreição” ocorrerá junto com a vinda do Senhor para arrebatar a Seus santos (I Coríntios 15:51-55; I Tessalonicenses 4:15-18). A ressurreição dentre os mortos, verdade transcendental do Cristianismo, não é outra coisa senão a ressurreição do corpo e que compreende três fases:

  1. A ressurreição de Cristo, “primícias dos que dormiram” (I Coríntios 15:20).

  2. A ressurreição de todos os santos na vinda de Cristo (I Coríntios 15:21-23).

  3. A ressurreição dos mártires de Apocalipse antes do reino milenar de Cristo (Apocalipse 20: 4-6).

A Primeira Ressurreição

Estas três fases constituem “a primeira ressurreição” ou “a ressurreição dentre os mortos”. A ressurreição dos mortos os que não tenham crido não ocorrerá senão depois do milênio (Apocalipse 20:5), em vista do juízo final. Porém, esse fato não se chama segunda ressurreição, mas “a segunda morte” (Apocalipse 20:11-15).


Até que o Senhor venha para nos arrebatar, nós os Cristãos estamos como mortos e ressuscitados com Cristo, em virtude de nossa união com Ele por meio do Espírito Santo (Colossenses 2:20; 3: 1-4).


Ao reconhecer o lugar de importância que tem a ressurreição dentre os mortos, a maioria dos Cristãos tem dado uma transcendência capital ao estado da alma depois da morte e passam a não enxergar mais a grande verdade Cristã da ressurreição dos santos. Dizemos ”Cristã” porque o Antigo Testamento pouco discerne essa verdade, e considera o porvir como bênçãos terrenas trazidas pelo Messias. Isto explica, de certo modo, como foi possível que a heresia dos Saduceus subsistisse junto à ortodoxia dos fariseus. Não que houvesse desculpa para aquela heresia, porque o Senhor lhes disse, citando Êxodo 3:6 “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus...” “Ora Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele vivem todos” (Mateus 22:29; Lucas 20:38).


Mesmo em tempos mais remotos, Jó estava convencido da ressurreição de seu corpo: “Eu sei que meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra; E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus; Vê-lo-ei por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros, o verão” (Jó 19:25-27). Do mesmo modo lemos em Daniel 12:13 “Tu, porém, vai até o fim; porque descansarás, e levantarás na tua herança, no fim dos dias” (trad.Trinitariana).

Cristo Dá Nova Importância à Ressurreição

Quando se trata do Novo Testamento é fácil comprovar que está repleto desta verdade que é consequência da obra do Senhor, o qual “...aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho” (II Timóteo 1:10). Ele introduziu a vida eterna, a qual põe a alma e o corpo além da morte e seu poder. A incorruptibilidade manifestou-se plenamente Nele, porque Deus não permitiu que sua carne visse a corrupção (Atos 2:31). Porém, quanto ao nosso corpo: “semeia-se em corrupção; ressuscitará em incorrupção...porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis” (I Coríntios 15:42,52)


A ressurreição é, pois, um estado definitivo do Cristão. A ressurreição dentre os mortos foi iniciada por Cristo (primícias da mesma) e esta é nossa porção segura em virtude de nossa união com Ele.


O Estado Intermediário

O estado da alma depois da morte não é mais do que um estado intermediário, digno, desde já, do maior apreço por parte do Cristão, mas que não deixa de ser transitório, não definitivo. Por isso, a Escritura fala relativamente pouco de tal estado, ainda que nos informe a respeito das bênçãos que se seguem à ressurreição. Em primeiro lugar, não duvidemos que uma dessas bênçãos a vida eterna - é comum a todas as fases ou épocas da vida Cristã. Como homem que está neste mundo, o Cristão já tem a vida eterna. Como alma separada do corpo, goza da mesma vida em uma nova esfera. E, como ressuscitado ou transformado a possuirá e continuará gozando de tal vida na glória.


Está Escrito que o Incrédulo Morre

O estado intermediário do qual falamos é composto de dois elementos. O corpo morre e a alma vive. Para o Cristão, a morte do corpo chama-se sono. O Antigo Testamento usa constantemente esta palavra para referir-se à morte. “Dormiu com seus pais”, tal era o termo com que se definia a morte, fosse para os bons ou para os reis maus de Israel. Enquanto que no Novo Testamento, as palavras “morrer” e “morte” caracterizam geralmente os incrédulos; os termos “dormir” ou “dormiu” , ao contrário, só são usados em relação aos crentes. O Senhor disse aos Seus discípulos: “Lázaro dorme” e acrescenta em seguida: “Lázaro está morto” (João 11:11, 14), isto ocorreu porque não entendiam Suas palavras. Esta mesma passagem nos prova que dormir não se refere ao sono da alma, mas à morte do corpo.


Convém notar que, embora o Novo Testamento empregue raramente o termo “morte”, essa mesma palavra aplica-se repetidamente ao Senhor, porque Ele levou sobre Si a morte que nós merecíamos para anulá-la. “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (I Coríntios 15:3). “(Cristo) morreu por todos. (II Coríntios 5:14, 15). Veja também, João I 1224,33; 18:32; Romanos 5:6, 8, 10; 8:34; I Coríntios 11:26; I Tessalonicenses 5:10; Hebreus 2:9. ...para que pela morte aniquilasse o tinha o império da morte, isto é, o diabo” (Hebreus 2:14). Ao entrar na morte, Cristo a aboliu (II Timóteo 1:10). Agora, tendo estado morto, tem as chaves da morte e do Inferno, isto é, o lugar invisível para o qual vão as almas depois da morte (Apocalipse 1:18).


Nem o Hades e nem a morte jamais poderão reter nossas almas ou nossos corpos. Porém, desgraçadamente, aqueles que não tenham crido continuarão sendo chamados mortos. “Aos homens está ordenado morrerem uma vez vindo depois disso o juízo” (Hebreus 9:27). “Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram” (Apocalipse 20:5). “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante do trono” (Apocalipse 20:12). Veja também I Coríntios 15:22; Romanos 6:23.


Está Escrito que o Crente Dorme

Assim, do crente não se fala que morre, mas sim que dorme: I Tessalonicenses 4:13-15; Mateus 27:52; João 11:11, 12; I Coríntios 11:30; 15:20,51. Pode-se falar que morreu, alguém que, talvez no momento de ser posto no túmulo, volte a viver? E certo que desde a morte do primeiro crente, milhares e milhares de mortos em Cristo, esperam o momento em que suas almas se unam novamente aos seus corpos ressuscitados. Porém, nem para eles, nem para nós que esperamos o Senhor, existe o menor atraso, porque sabemos o motivo dessa “demora” Deus “é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (II Pedro 3:9).

Ainda que esmigalhem nossos corpos em finíssimo pó e este seja espalhado aos quatro ventos, nada impedirá o que o Criador dos céus e da terra os ache e num abrir e fechar de olhos, formará corpos gloriosos, sobre os quais está escrito: “Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre, deste tabernáculo, se desfizer, teremos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (II Coríntios 5:1).


O sono é, pois, o termo que se usa significando a morte do Cristão, com relação ao seu corpo. Na ressurreição, sairá desse sono com um corpo glorioso semelhante ao de Cristo, para vê-Lo tal qual Ele é, e para estar sempre com Ele. O crente jamais comparecerá em juízo, enquanto que o incrédulo ressuscitará para comparecer imediatamente ante o grande trono branco, onde será julgado (Apocalipse 20:11-15).


CAPÍTULO 4 - Cristo e a glória


Para o Cristão que dormiu, despojado momentaneamente de sua morada terrena, a qual não é senão uma fraca tenda, qual será o destino de sua alma separada do corpo? A Palavra de Deus fala com clareza sobre este tema. A alma está com Cristo. “Mas de ambos os lados estou em aperto - disse o apóstolo - tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda melhor” (Filipenses 1:23). Também acrescenta: “mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor”, ainda que não deseje ser despido de seu corpo mortal, mas revestido de um corpo glorioso “para que o mortal seja absorvido pela vida” (II Coríntios 5:4,8).


Que futuro mais feliz! Pleno de paz para os Cristãos de idade madura que tenham crescido no conhecimento do Senhor, que tenham gozado durante a vida de Sua comunhão e cuja confiança tenha sido: “Para mim o viver o Cristo”. Isto alenta, conforta e traz regozijo às almas jovens na fé que, sem experiência ainda, confiam tal qual cordeiros nos braços do Bom Pastor. Porém, por outro lado, que angustiosa perspectiva para os que, mesmo sendo filhos de Deus, vivem com o mundo e para ele, sem compreender que seu único dever é viver para o Senhor!


Estar com Cristo é, pois, a primeira e suprema benção da alma do Cristão separado do corpo. Mais adiante, Cristo será seu único fim. Nada virá se interpor entre a alma e seu Salvador; a comunhão com Ele, tão facilmente destruída neste mundo, é, contínua em sua sucessão. Todavia, isto não constitui a perfeição, a qual somente será alcançada na ressurreição dentre os mortos (Filipenses 3:11, 12).


Nenhum crente chegará desacompanhado, nem se adiantará em relação aos demais, mas todos entraremos juntos. Ao falar dos crentes do Antigo Testamento, o apóstolo disse que eles “não receberam a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11: 39 40)[1]. Então, a perfeição - isto é, a mesma glória de Cristo - será alcançada ao ressuscitarmos dentre os mortos, quando seremos “semelhantes a ele; porque assim como é o veremos (I João 32). Tal estado não é o da alma depois da morte; mas o que sabemos é que ela está com Cristo.


Nos basta saber isso quando pensamos na possibilidade de morrer? Necessitamos de outra coisa? Desejaríamos substituir a suprema benção de estar com o Senhor pelas miseráveis ilusões com os quais alguns querem ocupar nossa mente? Se lhes dermos ouvidos é porque o Senhor não ocupa em nós o lugar que somente Ele deve ter; é porque não temos posto em prática: “Para mim o viver é Cristo”.


O Paraíso

“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). Estas palavras, dirigidas ao malfeitor que se converteu na cruz, nos levam a falar do lugar onde se encontram as almas depois da morte. No Antigo Testamento, este lugar está incluído num termo muito vago: “Seol”[2] 0 lugar invisível, o qual não demonstra distinção entre o lugar ao qual vão almas dos bem-aventurados e aquele ao qual vão as dos condenados. Esta indefinição se explica pelo caráter das promessas que foram feitas a Israel, tendo em vista uma glória terrena e não celestial e invisível.


Quando Jesus estava na terra, sua presença foi a revelação das coisas invisíveis. Em certa ocasião levantou um pouco o véu que escondia o Seol (ou Hades), lugar ao qual vão as almas depois da morte. O Senhor mostra em uma parábola que certas almas são consoladas em lugar de repouso e delícias, mencionando que o seio de Abraão é o melhor lugar que um judeu poderia desejar. Este lugar é para nós o seio de Jesus, desde que, ao terminar Sua obra, foi sentar-se nos lugares celestiais. Neste mesmo relato o Senhor ensinou que as almas dos que haviam recebido seus bens durante sua vida e que não se voltaram para Deus, estão num lugar de tormento, isto é, em outra região do Seol.


Finalmente, Jesus revelou que não há nenhuma ligação possível entre estas duas regiões ou partes do Seol e que a sorte dos que se acham ali está irremediavelmente determinada (leia Lucas 16: 19-31). Portanto, não se deve falar em um “desenvolvimento gradual” ou que “passou de uma esfera para outra mais elevada”. A Palavra de Deus destrói com uma só afirmação essa teorias tolas: “E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tão pouco os de lá passar para cá” (Lucas 16:26).


O Paraíso é o Terceiro Céu

Na cruz, onde o Senhor levou a cabo a expiação ou perdão, Ele não apresenta mais o lugar invisível na forma de uma parábola ou algo semelhante. Abriu em todo seu esplendor os olhos do pobre malfeitor convertido: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). O paraíso é o terceiro céu, ao qual corresponde, em figura, o lugar santíssimo do templo, porque o templo estava dividido em três partes: o átrio, o lugar santo e o lugar santíssimo.


Palavras Inefáveis

Não há um quarto céu, de modo que o paraíso é o lugar mais alto, é o céu de Deus, “o paraíso de Deus (Apocalipse 2:7). Para ali foi arrebatado o apóstolo Paulo. Como? Só Deus tem esse conhecimento; porém, Paulo estava seguro de que podia estar ali, tanto como alma separada do corpo, como no corpo. “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até ao terceiro céu...ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar” (II Coríntios 12: 2-4).


Nesse estado, o apóstolo era semelhante aos discípulos no monte da transfiguração, com a diferença de que só tinha ouvido, mas não visto. Todavia, o que ouviu foi mais do que a voz do Pai dizendo: “Este é meu Filho amado... escutai-o” (Mateus 17:5). Aquelas eram palavras inefáveis, absolutamente inexprimíveis em qualquer linguagem humana. Paulo não as podia revelar a ninguém, porquanto nenhum ser humano as haveria compreendido. Também ocorre isso com relação às almas que estão no paraíso com Jesus. Nossa curiosidade não encontra nada com que alimentar-se a respeito disso. As coisas que aquelas almas entendem não são do nosso domínio.


Paraíso e Glória

Notemos ainda, que o paraíso não é a glória. Não há a menor dúvida de que a glória está ali onde Cristo se encontra; porém nós só podemos entrar na glória como seres completos; ou seja, quando tivermos o corpo e a alma reunidos e não nos acharmos em um estado intermediário. Geralmente nós fazemos uma falsa ideia da glória ao considerá-la como um lugar. A glória é uma manifestação. E a manifestação do conjunto das perfeições divinas: majestade, magnificência, sabedoria, verdade, poder, santidade, justiça e amor. Nós contemplamos em Cristo essa glória. A mesma que tinha com o Pai antes que o mundo existisse e que recebeu dele como homem glorificado; porém, quando formos semelhantes a Cristo, teremos parte em Sua glória e esta se manifestará também em nós (João 17: 22-24). O paraíso não é a glória, mas um invisível lugar de delícias.


Vamos nos reconhecer no céu?

As vezes os Cristãos se perguntam se reconheceremos no céu aos que foram antes de nós. Pessoalmente não duvido disso; e reconheceremos também aos que não havíamos conhecido neste mundo, da mesma maneira que os discípulos reconheceram no monte da transfiguração a Moisés e a Elias em glória, enquanto que estes não faziam mais que falar com Jesus. Mas, ainda que se diga pouco de nos reunirmos, depois de nossa partida, com aqueles que temos amado (II Samuel 12:23), nos é dito, não que eles irão antes ou que nós nos adiantares a eles, mas que nós, os que vivemos, uma vez transformados, seremos arrebatados juntamente com nossos amados, ressuscitados dentre os mortos para o encontro com Senhor.


Num momento, todos os santos seremos reunidos no ar para sermos levados pelo Senhor em um abrir e fechar de olhos (I Coríntios 15:51, 52; I Tessalonicenses 4:13-18), os afetos e vínculos, tal como temos conhecido na terra, já não terão valor algum na glória.


Um mesmo amor e um sentir comum, concentrados sobre o mesmo e único objeto, se apoderarão de todas as forças, todas as aspirações e esforços de nosso ser. O que não conheça bem ao Salvador, talvez possa pensar que ali encontrará coisas que interessam mais do que o Autor de sua salvação. Porém, o Cristão entendido sabe que Jesus preenche o terceiro céu com Sua presença, como antigamente, diante do profeta, a cauda de seus vestidos enchia o templo (Isaías 6:1). E também: “Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele” (João 12:41).


Como é o Céu?

O céu tem diferentes objetos cuja enumeração se prolongaria indefinidamente se quiséssemos contar. Os capítulos 2 a 5 e 19 a 22 de Apocalipse contém, sob a forma de símbolos, uma interminável lista desses objetos.


Devemos buscar as coisas invisíveis, que são de cima e que só podem ser distinguidas pelo olhar da fé (II Coríntios 4:18). Devemos pensar nestas coisas e não nas que são aqui da terra (Colossenses 32). Porém, recordemos que a Bíblia as resume todas em uma só palavra ao dizer: “as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus” (Colossenses 3:1).


Esta deve ser nossa ocupação neste mundo, assim como é a ocupação das almas despojadas do corpo e a que será eternamente de todos os redimidos, ressuscitados e glorificados, juntos em uma perfeita unidade de amor e de línguas ao redor de nosso Salvador.


Cristãos, que nada nem ninguém nos impeça de pensarmos e ocuparmos primeiramente com nosso bendito Redentor e Senhor!


“E o que estava assentado sobre o trono disse... Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis. E disse-me mais: Está cumprido. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida. Quem vencer, herdará todas as coisas e eu serei seu Deus, e ele será meu filho. Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicários, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte” (Apocalipse 21:5-8)


H. Rossier


[1] N. do T.: Hebreus 11:39, 40 também pode ser traduzido como “para que sem nós não chegassem eles à perfeição” (versão francesa de Darby). [2] N. do T.: Conforme Gesenius-Tregelles, é “um lugar subterraneo” (de onde vem “inferno”: lugar inferior) pleno de densas trevas (Jó 10:21 ,22), lugar de sombra de morte onde moram os mortos. (Provérbios 9:18, Isaías 38: 10; Ezequiel 31:16-17).

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