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Os Patriarcas - Abraão 1 - Parte 5/18

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ÍNDICE


 

Os Patriarcas

John Gifford Bellett

 

Abraão

Parte 1

 

Nas primeiras partes do livro de Gênesis, já tracei duas histórias distintas – a dos santos antediluvianos, ou os tempos de Adão a Enoque; e a de Noé e daqueles que o seguiram, até a dispersão das nações.


A primeira dessas histórias ocupa Gênesis 1-5, a segunda, Gênesis 6-11.


No capítulo que se segue – Gênesis 12 – a história de Abraão começa e continua até Gênesis 25. Isto constitui a terceira parte ou seção do livro de Gênesis e nos apresenta uma nova era nos caminhos de Deus. E em tudo isso, tenho certeza, há uma bela ordem moral e uma revelação da sabedoria dispensacional de Deus. Pois nestas coisas os céus e a Terra são feitos, alternadamente, para captar a história maravilhosa dessa sabedoria e para relatar mistérios divinos – tais mistérios como “na plenitude dos tempos” serão cumpridos, quando, como sabemos, Ele reunir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na Terra (Ef 1:10).


Adão, na inocência, era um homem da Terra. Ele tinha que desfrutar disso, sabendo que tudo era seu, mas não conhecendo nada além do que estava ao seu redor. Mas quando foi enviado para fora do Éden, tornou-se um estranho na Terra. Ele não recebeu nenhuma comissão para melhorá-la ou equipá-la. Ele tinha simplesmente que cultivar a terra para ganhar a vida, e a trasladação de Enoque nos diz que o destino e a herança daquela primeira família de Deus eram celestiais. (A família de Caim era a contradição disso, naqueles dias antediluvianos. Eles cultivavam a terra para algo mais do que o sustento. Sua lavoura levou à cultura e ao avanço do mundo como um sistema de ganho e prazer. E desta forma as duas famílias foram distinguidas – uma foi formada pela fé, ou pela obediência à revelação de Deus, a outra pelo desprezo dela, como o mundo é até hoje).


Em Noé, porém, com o passar do tempo, o propósito de Deus é diferente. Noé é um homem da Terra novamente. Ele deixa a arca num caráter muito diferente daquele em que Adão havia deixado o jardim. Noé deixou a arca sob a missão de manter o mundo em ordem, como juiz e governante. Não era uma condição de estranho no mundo, mas a cidadania nele e o governo dele, que era agora novamente o pensamento divino. Mas uma segunda apostasia foi testemunhada entre os descendentes de Noé. Com o passar do tempo, eles buscaram independência na Terra, rejeitando o temor de Deus e procurando viver sem Ele, como Adão fez (procurando ser como Deus) no jardim da antiguidade.


Abraão chamado 

Abraão, com tudo isso, encontra graça aos olhos do Senhor. Ele é chamado para fora desta cena apóstata; e, como poderíamos esperar, a partir desta narrativa alternada dos mistérios celestiais e terrenais, depois de Noé, o homem da Terra, Abraão é chamado para ser um homem celestial.


O Senhor lhe disse: “Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai”. Este foi o caráter do chamado de Abraão. Não foi um chamado para fora da contaminação moral, ou da idolatria ou de algo semelhante; foi um chamado para fora das associações da natureza e da Terra. Restavam ídolos a serem deixados, não duvido (veja Josué 24:2-3). Mas não foi a saída deles que constituiu a natureza do chamado. No entanto, Abraão, com relação à Terra, seria como Adão fora do jardim. Ele deixa Ur dos Caldeus, assim como Adão deixou o Éden. Ele não recebeu nenhuma comissão para cultivar a Terra de Canaã para o Senhor, ou para conquistar e governar o povo de lá. Os arranjos do mundo foram deixados exatamente como estavam. Abraão nada tinha a dizer às nações pelas quais passou a caminho de Canaã; e quando chegou àquela terra, encontrou ali o cananeu, e ali o deixou como o encontrou.


O governo foi estabelecido em Noé e as nações foram organizadas; como as relações naturais foram instituídas no início, ou em Adão. Mas Abraão é chamado para fora de tudo isso. O próprio Deus é recebido pela fé; e as coisas da natureza que Adão poderia ter transmitido a ele, ou as coisas do governo que Noé poderia ter assegurado a ele, são deixadas para trás. (Em seus dias, a semente de Abraão, ou a nação de Israel, é novamente um povo terrenal; e eles exibem exatamente o oposto de tudo isso. Eles ferem as nações de Canaã; e em vez de serem chamados para fora de parentes e países, eles são chamados para todas essas coisas; homens, mulheres, crianças e até gado (pois nem um casco deveria ser deixado para trás), viajaram do Egito para Canaã – de uma terra de estranhos para sua própria herança).


Em nosso patriarca, então, vemos a eleição e o chamado de Deus. Ele pertencia à família corrompida e desviada do homem, sem uma única reivindicação sequer quanto a Deus. Mas a graça soberana (em cuja virtude todos os redimidos permanecem, de acordo com o conselho eterno) fez dele seu objeto; e sob tal graça ele é, no devido tempo, manifestado como um escolhido, e é chamado por Deus para ser um estranho celestial no mundo. A Escritura fala dele como o pai de todos os que creem (Romanos 4). Podemos, portanto, esperar encontrar nele a vida de fé demonstrada; e assim a encontramos, como este livro pretende mostrar.


Energia da fé 

Mas nesta “vida de fé” não procuramos apenas o princípio da dependência em Deus, ou da confiança n’Ele, embora esse possa ser o pensamento imediatamente sugerido por tais palavras. Ela significa muito mais. É uma vida de grandes e diversas energias; pois de acordo com Deus, ou com a Escritura, a fé é aquele princípio na alma que não apenas confia e crê n’Ele; é também aquela que apreende Seu caminho, age de acordo com Seus princípios e propósitos, recebe Suas promessas, desfruta de Seu favor, cumpre Suas ordens, busca Seu reino, em Sua força obtém vitórias e por Sua luz anda na luz; e desta forma está sempre, embora de forma variada, exibindo uma vida segundo Ele, ou formada pela comunhão com Ele.


Tudo isso fica fortemente marcado para nossa observação.


Hebreus 11 mostra-nos tudo isto – a vida de fé na sua vasta diversidade de exercício e ação. Consequentemente, encontraremos na vida de Abraão ocasiões em que a confiança em Deus foi a virtude exercida; também ocasiões em que a força foi demonstrada e o conflito foi suportado; e novamente, onde a renúncia aos direitos e a submissão às injustiças eram as virtudes. E a vida de fé é bela na sua variedade; pois esta variedade é apenas o brilho variado da mesma mente, a mente de Cristo, no santo.


Mas novamente. Não devemos entender que não obtemos nada além desta luz e poder de fé no crente ou no santo. A perfeição nesta variedade de vida de fé não pode ser encontrada exceto n’Aquele que é colocado diante de nós como “o Autor e Consumador da fé”, e cujo caminho, do começo ao fim, e em cada incidente dele, foi o grande Exemplo desta vida em pleno brilho imaculado. Ainda assim, porém, a vida de Abraão, ou de Davi, ou de José, ou de Paulo, deve ser chamada de vida de fé; pois era a vida daqueles em quem esse princípio estava, embora evidenciando repetidas vezes, e também de maneiras diferentes, a depravação da natureza, as ações da incredulidade e os conselhos de um coração propenso a interagir com carne e sangue, e seguir o caminho de um mundo revoltado.


Teste de fé 

Nesta vida de fé, nosso Abraão iniciou com bela simplicidade e seriedade. “E saiu para ir à terra de Canaã; e veio à terra de Canaã”. Ele saiu, sem saber para onde ia. Ele tomou Deus como sua segurança e sua porção; e, como alguém disse: “É nisso que repousa o Espírito de Deus, como característica de sua fé aprovada; pois, pela separação do mundo, com base na confiança implícita em Deus, ele perdeu tudo e não obteve nada além da Palavra de Deus”.


Não gostamos dessas condições. O coração se ressente delas; mas a mente renovada os aprova e justifica a Deus nelas. Os sofrimentos de Cristo vêm primeiro e depois as glórias (1 Pe 1:11). Jó estava mais perto de seu bem em Deus, quando jazia nas cinzas entre os cacos de barro, do que quando estava feliz em seu ninho. Israel não desceu o Monte Líbano e entrou em Canaã depois de uma jornada frutífera, através de uma terra de cidades e aldeias, e trigo e vinho, e rios e vinhas; mas eles caminharam lentamente, através de um deserto após outro. E então Abraão foi chamado para fora de tudo, saiu, sem saber para onde ia; mas isto ele sabia: que foi Deus Quem o chamou. E este foi o começo da fé. “Ele saiu para ir à terra de Canaã, e veio à terra de Canaã”.


Uma tenda, não um lar 

Ele veio, no entanto, mais para peregrinar do que para morar lá. Ele se move de um lugar para outro, e em cada lugar ele arma apenas uma tenda. O Deus da glória lhe dissera que a terra deveria ser mostrada a ele. Ele a teria em sua semente para sempre, mas em sua própria pessoa ele apenas veria isso. E, consequentemente, nós o encontramos examinando-a cuidadosamente, mas não se ocupando em nada com ela. Pois esta foi a resposta certa para tal promessa. Ele olhou para a terra, porque a promessa era que ela lhe seria mostrada. Ele foi primeiro a Siquém e à planície de Moré; dali, para o sul, até as vizinhanças de Betel e Ai. Mas ele era um homem da tenda, e somente da tenda, onde quer que fosse. O cananeu estava então na terra e era o ocupante da terra; e Abraão não disputou com ele nem um palmo dela. Ele a examinou e teve posse dela, o tanto quanto a fé e a esperança lhe conferiam; mas ele não buscou nenhuma herança pessoal e presente ali. A promessa vivia em seu coração, e a promessa era sua medida e também seu gozo (Gn 12).


Descida ao Egito 

Rapidamente, porém, outro homem em nosso Abraão está diante de nós; pois, como todos nós, amados, ele era um homem de natureza, assim como era um homem de Deus; e não há ninguém perfeito na vida de fé, como dissemos antes, senão o próprio Mestre. A fome atinge a terra para onde o chamado de Deus o havia trazido. Isso pode ter sido considerada uma estranha surpresa. Mas a fé teria sido suficiente para enfrentá-la. A fé em Paulo foi suficiente para uma surpresa semelhante. Chamado à Macedônia pela voz de Deus, uma prisão o aguardava. Mas Paulo suporta o impacto, embora Abraão caia diante dele. Paulo e seu companheiro cantam hinos na prisão da Macedônia; mas Abraão pratica uma mentira, buscando ajuda na fome de Canaã em outra terra, da qual seu chamado sob o Deus da glória não fez qualquer menção.


Tais coisas foram, e ainda são encontradas entre os santos. Há “pequena fé” e “grande coração” entre os eleitos, bem como carne e espírito – natureza e a nova mente em cada um deles. Mas isto podemos saber: se a natureza nos governar, a natureza nos exporá. Até o homem da terra, Faraó do Egito, faz com que Abraão se envergonhe; e sua jornada, em vez de prosseguir no testemunho de sua tenda e no gozo de seu altar, foi a de um pé cansado, porque foi a de um coração repreensível. Ele tem que fazer suas “primeiras obras”, refazer seus passos e recuperar sua posição – obras dolorosas em todos os momentos. Ele tem que sair do “prado” em direção à estrada do Rei novamente, voltando do Egito para o lugar entre Ai e Betel, onde ele havia erguido seu altar no início.


O que dizemos sobre isso, amados? Os rebanhos adquiridos no Egito o acompanharam para casa. O brilho do ouro e da prata – as oferendas de uma terra que ficava além de onde o Deus da glória o havia chamado – adorna e desencadeia seu retorno. Tudo isso é verdade. Mas o que dizemos sobre tudo isso? Novamente eu pergunto. Será que o balido e o mugido de tais rebanhos e manadas em nossos ouvidos são como a música suave de uma consciência que aprova tudo isso? Ou será esta riqueza cintilante tal como o brilho da presença divina que agora Abraão havia perdido? Sou ousado em responder por Abraão, embora não possa responder por mim mesmo, que seu espírito sabia a diferença. O coração cansado foi apenas ligeiramente aliviado por tudo o que ele trouxe consigo da terra do Egito ou da casa do Faraó, tenho certeza disso. Não poderia deixar de ser dessa maneira com um tal homem. “O que pecar contra Mim violentará a sua própria alma”, deve ter sido sua experiência; e da maneira como agiu na cena que ocorre imediatamente, a meu ver, nos diz algo sobre isso.


Restauração 

Ló, seu irmão mais novo, ou filho de seu irmão, que veio com ele de Ur para Canaã, agora se torna a ocasião de provação para Abraão, como havia sido a fome recentemente. Mas a fé em Abraão triunfa, posso dizer, com admiração. O próprio estilo com que ele dá a resposta a essa provação parece dizer que ele retornará quatro vezes à vida de fé por aquilo que a natureza tão recentemente, por assim dizer, lhe havia tirado. Os pastores dos dois irmãos, o mais velho e o mais novo, não podem alimentar os seus rebanhos juntos. Eles devem se separar. Esta foi a ocasião da provação que agora surgiu. Mas “deixe Ló escolher” é a linguagem de Abraão. Num sentido nobre, ele agirá de acordo com o oráculo divino: “o mais velho servirá ao mais moço” (ARA). Ló pode escolher e deixar a Abraão a porção que desejar. As planícies bem irrigadas podem ser dele; Abraão pode confiar no Senhor do país, embora perca essas planícies. Ele pode ter que cavar poços em vez de encontrá-los; mas é melhor cavá-los na força de Deus do que encontrá-los no caminho da cobiça; é melhor, por assim dizer, esperá-los em Canaã, do que ir atrás deles novamente até o Egito (Gn 13).


Esta é uma bela recuperação. E desta forma a fé, às vezes, exercerá julgamento sobre a incredulidade e se purificará novamente. E agora o Senhor o visita, como Ele não fez e como não pôde fazer no Egito. O Deus da glória, que chamou Abraão para Canaã, não poderia ir com ele ao Egito, mas ao homem que estava entregando o melhor da terra a seu irmão mais novo, no gozo da confiança restaurada em Deus, Ele terá prazer em mostrar a Si mesmo.


Onde estamos, então, amados? Eu vou perguntar. Onde está o nosso espírito? Em que caminho, em companhia de Abraão, estamos viajando neste momento? Estamos conhecendo o Egito na amargura da censura própria, ou uma Canaã recuperada no gozo do semblante de Deus? É uma caminhada com Deus que estamos fazendo todos os dias? A vida de fé conhece a diferença entre as restrições da mente mundana e as expansões da mente crente. Abraão sabia dessas coisas. Ele sabia, em espírito, o que era o Egito – o lugar do ouro e da prata, e da repreensão e da morte. Ele sabia o que era reconquistar Ai sem um altar no caminho; e ele sabia o que era descansar novamente, com altar e tenda, nas planícies de Manre.


Portanto, começa a variada vida de fé. Mas há muito mais nisso do que isso. E nesta variedade de ação na vida de fé, notamos a sua inteligência, o exercício da mente de Cristo, ou do sentido espiritual, que discerne as coisas que diferem, que tem capacidade de conhecer os tempos e as estações segundo Deus. Esta bela capacitação do santo encontramos em Abraão, na próxima passagem de sua história.


Tudo a seu tempo 

A batalha dos reis está registrada em Gênesis 14. Enquanto essa era uma mera disputa entre eles, Abraão não tem nada a dizer sobre isso. Deixe os cacos de barro lutarem com os cacos de barro. Mas assim que Abraão ouve que seu parente Ló está envolvido nessa luta, ele se agita.


Tudo, como lemos, é maravilhoso a seu tempo. Há um tempo para construir e um tempo para derrubar. Houve um tempo para Abraão ficar quieto e um tempo para Abraão estar ativo; um tempo para ficar em silêncio e um tempo para quebrar o silêncio. E ele entendeu o tempo. Como os homens de Issacar posteriormente, ele conheceu o tempo e o que Israel deveria fazer. Os princípios de Deus eram as regras de Abraão. Ló foi feito prisioneiro, e a parte do parente passou a ser dever de Abraão. O campo de batalha no vale de Sidim será dele agora, assim como a tenda tinha sido sua até agora nas planícies de Manre. A mente de Deus tinha para ele outra lição além daquela que aprendeu enquanto os cacos de barro estavam sozinhos no conflito; e um tempo para quebrar o silêncio o chama à frente de seus servos treinados.


Excelente e bela, de fato, em um santo é essa inteligência da mente de Cristo, e bela é tudo em seu devido tempo. Fora de tempo, a mesma ação é contaminada e desfigurada. Pois o material de uma ação não é suficiente para determinar o caráter de uma ação. É preciso que também seja oportuna. Elias, de sua elevação, pode invocar fogo do céu sobre os capitães e seus cinquenta; e assim, as duas testemunhas, no dia de Apocalipse 11. Mas não seria adequado para os companheiros do humilde e rejeitado Jesus agirem desta forma com os aldeões samaritanos (Lc 9). É apenas em seu tempo que tudo é realmente correto. Como foi o jardim do Getsêmani (tornado santo pelas aflições do Senhor Jesus) desfigurado pelo sangue que a espada de Pedro derramou ali! Que mancha naquele solo, embora o poder de Cristo estivesse presente para removê-lo! Mas outra espada estava prestando um serviço correto quando ela despedaçou Agague. Pois quando a vingança for exigida, quando a trombeta do santuário soar um alarme de guerra, a vingança ou a guerra serão tão perfeitas quanto a graça e o sofrimento. Cabe a Deus determinar o caminho dispensacional e tornar conhecida a verdade dispensacional. Feito isso, toda vida de fé é apenas aquela maneira, ordem ou caráter de vida que está de acordo com isso. “Os deveres e serviços de fé fluem de verdades confiadas. Se as verdades forem negligenciadas, os deveres ou serviços não poderão ser cumpridos”. E o beneplácito de Deus, ou Sua sabedoria revelada e dispensada, varia com a mudança e o avanço das eras. Noé, algumas gerações antes de Abraão, teria vingado o sangue de alguém feito à semelhança ou imagem de Deus, no mesmo espírito de fé, como Abraão permitiu que um exército de reis confederados matasse outro. Não é nem a “espada” nem a “veste”, como o Senhor fala em Lucas 22, que precisa ser o devido instrumento de serviço, ou símbolo de fé; mas qualquer um deles, conforme expressa respectivamente o bom prazer dispensacional de Deus no momento.


Isto é para ser bem observado; pois é esperado na vida de fé, entre outras virtudes, distinguir as coisas que diferem e manejar bem a Palavra de Deus ou a verdade. Abraão foi dotado desta excelente faculdade. Ele andou na luz daquele dia, assim como Deus estava na luz. Ele conhecia a voz da trombeta de prata; quando, por assim dizer, reunir-se no tabernáculo e quando sair para a batalha.


Duas vitórias 

Mas há mais do que isso no nosso patriarca neste momento. Duas vitórias o distinguem – uma sobre os exércitos dos reis e outra sobre as ofertas do rei de Sodoma.


Abraão obteve a primeira delas, porque desferiu o golpe exatamente no tempo de Deus. Ele saiu para a batalha nem mais cedo nem mais tarde do que Deus o teria desejado. Ele esperou, por assim dizer, até ouvir “um estrondo de marcha pelas copas das amoreiras”. A vitória era, portanto, certa; pois a batalha era do Senhor, não dele. Seu braço foi apoiado pelo Senhor; e esta vitória de Abraão foi a de uma precedente funda com uma pedra, ou da queixada de um jumento, ou de Jônatas e seu escudeiro contra um exército filisteu; pois Abraão era apenas um bando de servos treinados contra os exércitos de quatro reis confederados.


A segunda, ainda mais brilhante que a primeira, foi alcançada em virtude da comunhão com as próprias fontes da força divina. O espírito do patriarca estava em vitória aqui, como o seu braço estivera antes. Ele havia se embriagado tanto com a comunicação do rei de Salém – havia se alimentado tanto do pão e do vinho daquele estrangeiro real e sacerdotal – que o rei de Sodoma organizou seu banquete em vão. A alma de Abraão estava no céu e ele não poderia retornar ao mundo.


Essa foi a sua experiência abençoada em Savé-Quiriataim. Alma feliz, de fato! Ah, que algo mais do que traçar a imagem disso no livro! Zaqueu, em seus dias, era filho de Abraão nesta geração, ou de acordo com esta vida e poder. Zaqueu bebeu tanto do gozo e da força que devem ser conhecidas na presença de Cristo, que o mundo se tornou uma coisa morta para ele. Ele assentou-se à mesa com o verdadeiro Melquisedeque e comeu do Seu pão e bebeu do Seu vinho. Jesus havia preparado uma festa para Seu anfitrião em Jericó, como fizera em outros dias para Abraão, em Savé-Quiriataim; e, fortalecido e revigorado, este filho de Abraão, como seu pai no passado, foi capaz de abrir mão do mundo. “Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se em alguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado”. Ele poderia dar a resposta de Abraão ao rei de Sodoma, pois ele havia recebido o refrigério de Abraão do rei de Salém.


Certamente, amados, este é o caminho da vitória para todos os santos. As fontes de força e gozo são encontradas em Jesus. Que você e eu possamos olhar para Ele e dizer: “Todas as minhas fontes estão em Ti”. “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. E o que são todas as conquistas na conta de Deus senão essas?


“É interiormente que o espírito fervoroso labuta. Lá ele obtém novas conquistas sobre si mesmo, em comparação com as quais os louros que um César usa são ervas daninhas”.


Tais são, então, as vitórias da fé.


A ousadia da fé 

Mas ainda temos mais; e na cena seguinte, em Gênesis 15, vemos a ousadia da fé.


E deixe-me perguntar, para nosso conforto comum, o que é mais precioso para o próprio Deus do que isso? A inteligência da fé é brilhante e suas vitórias gloriosas; mas na consideração do Deus de toda graça, sua ousadia supera tudo.


Após a vitória de Abraão sobre o mundo, ou sobre as ofertas do rei de Sodoma, o Senhor vem a ele com grandes garantias e promessas. Depois destas coisas a palavra do Senhor veio a Abrão numa visão, dizendo: “Não temas, Abrão: Eu Sou o teu escudo e o teu grandíssimo galardão” (Gn 15:1). Depois do calor do dia anterior, foi adequado, nos caminhos da graça, que Abraão fosse novamente reconhecido e encorajado. Mas a fé é ousada, muito ousada, aparentemente visando mais alto do que os propósitos e incumbências da graça. E este é um momento maravilhoso para contemplar. Abraão parece rejeitar as palavras do Senhor. “Eu Sou o teu escudo e o teu grandíssimo galardão”, diz o Senhor. “O que você vai me dar?” Abraão responde: “Que me hás de dar? Pois ando sem filhos, e o mordomo da minha casa é o damasceno Eliézer”.


Isso foi ousado; mas, abençoado em dizê-lo, não é muito ousado para os ouvidos do Senhor, que encontra Seu mais rico gozo em uma linguagem de fé como esta.


Bom é ter uma porção; mas Abraão procurou um objeto, um objeto para o coração; algo muito mais importante para nós. Adão achou isso. Éden não era para ele o que Eva era. O jardim com todas as suas dádivas não fez por ele o que a companheira fez. Eva abriu a boca dele; somente ela fez isso, porque só ela encheu seu coração. Cristo também descobre isso. A Igreja é mais para Ele do que toda a glória do reino – assim como a pérola e o tesouro foram mais para os homens que os encontraram, do que todos os seus bens, pois eles venderam tudo para obtê-los. A ovelha desgarrada, a dracma perdida, o filho pródigo, são mais para o céu – para o Pai, para o Pastor, para o Espírito e para os anjos – como ocasiões de gozo, do que qualquer outra coisa; só porque o coração encontrou seu objeto, o amor encontrou sua resposta. Esta é a mente de Cristo. Afeição coloca o coração em marcha; e ele não pode descansar, em meio a tudo mais, sem seu objeto; e diz até mesmo ao Senhor e às Suas promessas: “Que me hás de dar, pois ando sem filhos?”.


Mas esta era, de fato, uma fé ousada, parecendo desta forma como rejeitando as palavras de Deus. Mas ela era preciosa para Ele. Sim, era preciosa para Ele sob o título mais alto; pois a fé, agindo dessa maneira e desejando dessa maneira, falou da maneira e da apreciação da própria mente divina. Pois o próprio Deus procura filhos, como fez Abraão. Não é o espírito de escravidão que encherá Sua casa, mas o de adoção; não serão servos, mas filhos que Ele terá ao Seu redor. Ele “nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo. Ele encontrou em Seus filhos um objeto para Si mesmo; e Abraão estava, portanto, apenas contando o segredo comum de seu próprio coração e do seio de Deus. E imediatamente seu desejo é atendido; e a visão dos céus estrelados é feita para prometer ao patriarca algo melhor do que todas as porções e todas as condições, pois o Senhor lhe diz: “Assim será a tua descendência”.


Quão verdadeiramente podemos dizer que a fé nunca almeja legitimamente do que quando almeja alto e segue com mão ousada. O alvo que ela coloca diante de si mesma nunca é mais do que propósito do próprio Deus. “Pede para ti ao SENHOR, teu Deus, um sinal;”, diz o profeta ao rei, “pede-o ou embaixo nas profundezas ou em cima nas alturas”; percorra os recursos divinos e use-os. Aquilo que o rei Acaz não faria, cansando o Senhor com sua reserva, incredulidade e lentidão de coração, Abraão faz e continua a fazer. Sua alma continua no mesmo poder de fé até o fim desta ação. Ele segue na mesma pista. Disse o Senhor a Abrão logo em seguida “dar-te a ti esta terra, para a herdares”. “Como saberei que irei herdá-la?” é a sua resposta ao Senhor. Esta é do mesmo caráter excelente; e sendo assim – demonstrando a ousadia de fé – é ainda infinitamente aceitável para o Senhor. Abraão busca algo além de uma promessa. Não que ele duvidasse da promessa. Ele estava certo disso. Nunca poderia falhar. O céu e a Terra passariam, antes que a promessa pudesse passar. Mas “juramento e sangue” para selá-la foram desejados por Abraão. Ele amava o título do concerto e sua fé o buscava; mas não buscou mais do que a graça, o propósito e o soberano beneplácito já havia planejado dar-lhe.


Deleite em fé decisiva 

E aí reside a mais rica e completa consolação. A fé nunca é ousada demais para agradar ao Senhor. Nos dias da Sua carne, Ele muitas vezes repreendeu as reservas e suspeitas de pequena fé, mas nunca a força e a decisão de uma fé que visava tudo e não iria sem uma bênção. Assim, o próprio estilo com que, neste belo capítulo (Gn 15), Ele responde à fé de Seu servo, nos fala do deleite com que Ele nutriu a ousadia de Seu servo. O próprio estilo da resposta fala isso aos nossos ouvidos; como posteriormente no caso do paralítico em Lucas 5; pois ali as palavras: “Homem, os teus pecados te são perdoados”, contam como o coração do mesmo Senhor, o Deus de Abraão, foi revigorado pela fé que quebrou o telhado da casa sem pedir licença, a fim de alcançá-Lo. E é o mesmo aqui. Quando uma fé excelente, ousada e inquestionável procurava um filho, o Senhor Deus levou Abraão para fora naquela mesma noite e, mostrando-lhe os céus estrelados, disse-lhe: “Assim será a tua descendência”. Quando uma fé semelhante deseja que a terra seja assegurada por algo mais do que uma palavra de promessa, o mesmo Senhor garante o concerto pela passagem de uma tocha de fogo entre as metades do sacrifício.


Esse estilo, como eu disse, é cheio de significado. Ele fala eloquentemente (posso dizer?) da mente divina. O Senhor não Se contenta em meramente prometer um filho, como uma simples palavra de boca, ou simplesmente dar alguma outra garantia a Abraão de que a terra será a herança de sua semente; mas, em cada caso, Ele realiza certas ações e as conduz com solenidades tão augustas e impressionantes, que nos permite saber instintivamente o deleite com que Ele ouviu essas exigências da fé.


Conte com o coração de Deus 

Quem dera que conhecêssemos o nosso Deus como Ele deve ser conhecido, para Seu louvor e nosso conforto! Deleites de amor para serem usados. O amor se cansa com cerimonialismo. É, à sua maneira, uma transgressão à própria natureza do amor e do seu modo essencial de agir. A afeição familiar, por exemplo, deixa a cerimônia de lado o dia todo. Ali há intimidade e não formalismo. O formalismo seria muito desajeitado para isso, assim como a armadura de Saul foi para Davi. Ele não a tinha experimentado e, portanto, não poderia usá-la. Amar é cuidar dos negócios da casa em um e em outro, e a confiança comum de todos permite que isso seja feito à maneira do amor. Assim o Senhor quer que seja Consigo mesmo. A intimidade de fé é de acordo com Sua graça, e a cerimônia é apenas um aborrecimento para Ele.


A graça, como às vezes cantamos, é “um mar sem costa”, e somos encorajados a zarpar com as velas totalmente abertas. O pote de óleo não teria fundo, se a fé da mulher ainda extraísse dele; e as vitórias do rei de Israel teriam ocorrido em rápida sucessão, até que nenhum sírio tivesse sobrado para contar a história, se sua fé tivesse pisado o campo de batalha como alguém que o conhecia apenas como um campo de conquista (2 Rs 4 e 13). Mas estamos estreitados. A ousadia da fé é um elemento muito delicado para o coração mesquinho do homem que não pode confiar no Senhor: embora, abençoado em dizê-lo, é aquilo que responde, bem como usa, a graça ilimitada de Deus.


A mente crente é a mente feliz; e é também a mente obediente, a mente que glorifica a Deus. É a mente agradecida e adoradora; a mente também que mantém o santo mais pronto para o serviço e separado das contaminações. Podemos estar vigilantes, e isso está correto; podemos estar julgando a nós mesmos, e isso está correto; podemos ter o cuidado de observar a regra da justiça em tudo o que fazemos, e isso é correto: mas em tudo, manter o coração elevado à luz do favor de Deus, pelo exercício de uma mente que crê de maneira simples, como de uma criança, isso é o que O glorifica, é isso que responde à Sua graça, é isso que acima de tudo se mostra gratidão Àquele com Quem temos de tratar. “Temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos”. Não é a realização, não é a vigilância, não são os serviços ou deveres que nos autorizam a fazer essa jornada, que dá à alma a entrada naquele lugar rico do favor divino – pela fé temos acesso a esta graça na qual permanecemos.


Mas continuamos ainda nesta história e a achamos rica em outras instruções e ilustrações da vida de fé.


Um santo traído pela natureza 

Sara agora surge pela primeira vez numa ação independente (Gn 16-17).


A fome já havia, como vimos, tentado Abraão a buscar a terra do Egito, e ele obteve os recursos daquela terra, com vergonha e tristeza, e uma cansativa jornada de volta a Canaã. Sara agora tenta Abraão a que procurasse a escrava do Egito.


Sabemos o que esta escrava egípcia é a partir do ensino divino da epístola aos Gálatas. Ela é o concerto do monte Sinai, a lei, a religião das ordenanças; e Sara, em suas sugestões a Abraão para que ele tomasse esta egípcia, representa a natureza, que sempre encontra seu alívio e seus recursos na carne e no sangue; ela encontra ali também sua religião, assim como tudo o mais.


O Espírito ainda não havia lidado com a alma de Sara. Pelo menos, não tivemos nenhuma manifestação disso. Ela era certamente uma pessoa eleita; mas a nossa eleição ocorre muito antes de nos tornarmos o objeto da obra divina; e, até agora, a vida espiritual, a vida de fé, a operação da verdade em Sara por meio do Espírito Santo, não havia sido testemunhada.


Ela ainda não havia sido mencionada pelo Senhor. Ela não tinha sido companheira de seu marido quando ele exercitava seu espírito diante de Deus, nem sua companheira na escola de Deus. Ela não foi chamada com Abraão para contar as estrelas ou para assistir ao sacrifício. Ela ainda estava, posso dizer, no lugar da natureza; e consequentemente ela convida seu marido a dar sua semente por meio de sua escrava egípcia.


Esse é o seu lugar nesta ação; e Abraão se torna o santo traído pela natureza, conduzido no caminho da natureza, surpreendido por uma tentação daquele lado agora, como havia sido antes pela pressão da fome.


Mas tudo isso é incredulidade e afastamento de Deus. É o jeito do homem, o jeito da natureza; não de fé ou do Espírito. Recorremos naturalmente à lei, à escrava, à religião das ordenanças, quando a alma sente sua necessidade; assim como naturalmente descemos ao Egito, ou buscamos o mundo, quando nossas circunstâncias são de necessidade. Trata-se de incredulidade e afastamento de Deus, como se vê até em Abraão; mas deixar Deus e as restaurações de Sua graça, quando a alma precisa, é uma ofensa mais grave e errada contra Ele, do que buscar ajuda como no Egito, quando nossas circunstâncias são de necessidade. Minha pobreza pode me tentar a usar truques e artifícios, o que já é bastante ruim; mas se minha consciência deseja cura, se brechas internas precisam ser reparadas, para que eu possa andar novamente na luz desfrutada de Seu semblante, e vou para a mera religião, ou para ordenanças, ou para qualquer coisa que não seja as provisões de Seu próprio santuário, isto é ainda pior.


Deus Todo-Suficiente 

As Agares e os Faraós, as escravas e a riqueza do Egito, são recursos pobres para os Abraãos de Deus. Mas assim tem sido, e assim é, pelo agir da natureza. Mas Abraão (veremos agora para nosso conforto) está sob o olhar de Deus, embora guiado pelas sugestões de Sara. Deus tem Seu lugar nele, assim como a natureza também tem; e Ele o afirmará para sua restauração. Ele surge em sua alma em uma nova revelação de Si mesmo, exigindo de Seu santo a nova obediência de fé. “Eu Sou o Deus Todo-poderoso; anda em Minha presença e sê perfeito”. Pois a alma de Abraão havia perdido esta verdade, a onipotência ou a total suficiência de Deus. Ele entrou a Agar; ele adquiriu confiança na carne; ele havia deixado o terreno em que havia pisado em Gênesis 15; mas o Senhor não permitirá e não pode permitir isso; e, portanto, Se levanta, em uma revelação renovada de Si mesmo, no espírito de Seu santo; e é um levantamento “trazendo curas nas suas asas” (TB); “Então, caiu Abrão sobre o seu rosto”, convencido e envergonhado, e a alma é conduzida novamente pelos caminhos da justiça.


A restauração de Deus 

Certamente existem até hoje tais momentos na história de “todos os que creem”, bem como de seu “pai Abraão”. Abraão não havia caído sobre o seu rosto quando o Senhor lhe apareceu e falou com ele em Gênesis 15. Lá estava ele, consciente de que estava na luz com o Senhor. Mas trevas agora tomaram conta de sua alma e ele não está pronto para o Senhor. Ele está caído sobre o seu rosto, calado e pasmado. Ele não está de pé, defendendo as causas da fé, como ali; mas em seu rosto, quieto e confuso. A mudança na sua experiência é grande; mas não há mudança no Senhor; pois é o mesmo amor, quer Ele repreenda ou console. Se andarmos na luz, teremos comunhão com Ele; se confessarmos os nossos pecados, temos perdão com Ele; se formos capazes de estar diante d’Ele, Ele nos alimentará e nos fortalecerá; se precisarmos cair convencidos em Sua presença, Ele nos levantará novamente.


Este é um caminho excelente e sóbrio do espírito de um santo. Há uma realidade profunda aqui. O afastamento de Deus revela-se amargura; mas Deus Se revela à alma como restauração e paz; e sob Sua mão graciosa a fé é novamente encorajada, e Abraão insiste em seu pedido, como alguém que estava novamente no vigor de Gênesis 15, e busca a Deus para que Ismael possa viver diante d’Ele.


Como se anseia por ter sua própria alma formada por essas benditas revelações da graça e pela obra interior de fé que responde a elas. A cena muda; mas Deus e a alma ainda estão juntos. Existe realidade – realidade na tristeza e no gozo, na luz do semblante divino e na ocultação do nosso próprio rosto como no pó.


Mistérios divinos 

Tudo isso pode ser dito da vida de fé, conforme visto em Gênesis 16-17. Mas ao entrar na próxima cena de ação em Gênesis 18-19, observo que na vida de Abraão obtemos algo além desses exercícios e ilustrações de fé. Também recebemos exposições de certos mistérios divinos.


Todos os fatos desta história são verdades simples. Eles aconteceram exatamente como registrados. Mas há neles um duplo propósito: ou dar exemplos da vida de fé de um santo, ou dar ilustrações de alguns grandes caminhos e propósitos de Deus.


E tais ilustrações dos conselhos e mistérios divinos são o caminho comum da sabedoria divina em toda a Escritura. O que era o tabernáculo ou templo senão um lugar para a constante repetição de mistérios, como expiação e intercessão, e a ordem variada de Deus na adoração e nos serviços de Sua casa, ou no ministério da graça? Pois tais eram os sacrifícios e os serviços ali, as festas, e os dias santos, e os jubileus. Da mesma forma, o que foi o êxodo, a jornada pelo deserto, a entrada em Canaã, as guerras ali e depois o trono do pacífico? Não eram todos estes, sejam institutos do santuário, ou fatos da história, exibições dos conselhos eternos e ocultos do seio divino?


O mundo de Sodoma 

Agora, a história de Gênesis 18-19 nos sugere essa lembrança. Esses capítulos devem ser lidos juntos e nos proporcionam uma ampla e vívida exposição de certas grandes verdades, que nos preocupam neste momento, em um sentido tão completo quanto os próprios fatos, que nos transmitem como em uma parábola, diziam respeito a Abraão e sua geração.


Sodoma, naquele dia, era o mundo. Ela havia sido avisada, mas recusou instruções. Ela provou estar incuravelmente afastada de Deus e além da correção. Sodoma foi visitada e castigada no dia da vitória dos reis confederados – como vimos em Gênesis 14; mas ainda era Sodoma, e estava, neste momento, em iniquidade avançada, em um estado de apostasia amadurecida, seu último estado pior que o primeiro.


Sodoma era o mundo neste dia. O Senhor Jesus, em Seu ensino, dá-lhe moralmente esse lugar, assim como outra geração havia sido o mundo nos dias de Noé (veja Mateus 24; Lucas 17). Elas são como figuras que apresentam aos nossos pensamentos o “presente século [mundo – ARA] mau”, que está amadurecendo para o julgamento de Deus.


Julgamento, livramento e separação 

Em tal crise, entretanto, nesse dia do julgamento de Sodoma, ou da derrubada das cidades da campina, como em qualquer outro dia, há dois assuntos incidentais a serem profundamente ponderados por nossa alma; há livramento do julgamento e há separação antes que ele chegue. Temos Ló e Abraão. Ló foi livrado, quando chegou a hora da crise; Abraão está separado antes dela chegar.


Tudo isso é muito para ser pesado em nossos pensamentos. Julgamento, livramento, separação – estes são os elementos da ação aqui, e são cheios de significado e de aplicação à nossa própria história como Igreja de Deus e ao mundo que nos rodeia.


Antes de esta ação começar, Abraão estava em um lugar celestial. Ele era um estranho na Terra, tendo apenas sua tenda e vagando de um lugar para outro sem possuir sequer um pedaço de terra seu em que pudesse pisar – e agora, quando chega o julgamento, ele está completamente separado dela, como Enoque, o Enoque celestial, em outro e anterior dia de julgamento. Cada um deles, no dia da visitação, estava do lado de fora, além ou acima do cenário da ruína; não apenas livrado dela quando a hora chegou, mas separado dela antes que viesse.


Abraão já havia estado com o próprio Senhor em uma elevação que dava vista para Sodoma, enquanto ele e o Senhor caminhavam juntos desde a planície de Manre; e agora, quando o julgamento atinge aquela cidade apóstata e contaminada, Abraão está novamente, naquele lugar alto, contemplando a desolação ao longe. Ele estava (no espírito do lugar onde estava) em companhia d’Aquele que estava executando o julgamento. Mas Ló é apenas resgatado. Ló é um homem livrado, Abraão é um homem separado. Assim como Abraão é o Enoque, Ló é o Noé destes dias posteriores, e é retirado da cidade entregue à destruição.


O dia do homem termina em julgamento 

Que mistérios são esses! Que realidades solenes, nos conselhos de Deus, são aqui encenadas para nosso aprendizado! Sabemos para o que estamos vendo em tudo isso? Não vemos os grandes propósitos de Deus, como num espelho, nesta ação variada e cheia de acontecimentos? Temos que perguntar: Onde está esse terreno místico no qual estamos aqui em pé? Certamente, amado, deveríamos saber disso. Nesta ação, o mundo, tal como Sodoma, está em figura encontrando o seu destino; o remanescente justo, como em Ló, é livrado daquela hora de ira; e a Igreja, como em Abraão, já separada e elevada, olha ao longe para o cenário da poderosa desolação. Certamente estes mistérios estão diante de nós nesta ação em Sodoma. “Conhecidas por Deus são todas as Suas obras desde o princípio do mundo [desde a eternidade – JND] (At 15:18 – KJV). O mundo, a Igreja e o reino estão aqui em mistérios ou figuras; aquilo que deve ser julgado; aquilo que será separado para a glória celestial; aquilo que deve ser entregue e, portanto, reservado novamente para a Terra após a purificação. Enoque, Noé e a criação submergida estão novamente aqui em Abraão e Ló e nas cidades condenadas da planície.


Estes são mistérios dos quais o Livro de Deus está repleto. E desta forma é-nos novamente testemunhado o que somos e onde estamos, embora viajando aparentemente na trilha comum da vida humana cotidiana, com uma geração, no espírito de sua mente, ainda, como sempre, dizendo: “Onde está a promessa da Sua vinda? Porque desde que os pais dormiram todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação”.


Muitas coisas incidentais podem ocorrer à mente nesta, como em outras seções desta maravilhosa história; como a visita do Filho de Deus a Abraão; a intercessão de Abraão por Sodoma; a reserva dos anjos para com Ló; e os caracteres contrastantes dos dois santos – o santo da tenda e o santo em Sodoma. Mas meu propósito, neste livro, não abrange tais detalhes. Mas eu perguntaria, ao encerrar esta ação nos capítulos 18-19. Será que estamos, amados, apreensivos com o momento no qual vivemos? Estará o “dia do homem” iluminando seu meridiano diante de nós, ascendendo ao seu esplendor do meio-dia? E o que pensamos disso? Estaremos nos unindo às felicitações do homem com o seu semelhante, que assim seja? Ou todo esse brilho é suspeito e desafiado por nós, como o precursor seguro do julgamento de Deus? Sabemos que o deus deste mundo encontra uma casa “varrida e adornada” como um cenário tão completo para sua energia maligna e destrutiva quanto Sodoma? Julgamos, com a nossa geração, que isso não pode acontecer? Ou temos em mente que é numa casa como essa que ele trabalhará no encerramento da história da Cristandade? E estamos esperando que o Filho de Deus nos leve até aquela mística elevação para onde antigamente Ele levou Seu Abraão? Que o Senhor nos dê graça para ocupar tal terreno! E faremos isso com mais facilidade e naturalidade se, como Abraão, formos santos da tenda e não da cidade – santos tais (novamente como Abraão) que se regozijam, “quando tinha aquecido o dia [no maior calor do dia – ARA], em manter comunhão com o Senhor da glória.


J. G. Bellett

 


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