Santificação - O que é?

Tendo o propósito de ministrar paz e conforto àqueles que, embora verdadeiramente convertidos, ainda não se apossaram da plenitude de Cristo, e que, como consequência, não estão desfrutando da liberdade do evangelho, consideramos de grande interesse e importância escrever sobre o assunto da Santificação. Cremos que muitos, daqueles cujo bem-estar espiritual desejamos promover, sofrem por terem uma ideia errada acerca deste assunto. Na verdade, em alguns casos, a doutrina da santificação é tão mal compreendida que chega a interferir com a fé na perfeita justificação e aceitação do crente perante Deus.


Temos ouvido, com certa frequência, pessoas se referirem à santificação como se fosse um trabalho progressivo, por meio do qual nossa velha natureza seria gradativamente melhorada. Além disso, afirmam que enquanto esse processo não atingir o seu clímax, ou seja, enquanto a natureza humana, caída e arruinada, não for completamente santificada, não estaremos preparados para o céu.


Tanto as Escrituras como a experiência prática de todos os crentes são totalmente contrárias a tal pensamento. A Palavra de Deus não nos ensina que o Espírito Santo tenha como objetivo o aperfeiçoamento, mesmo que gradual ou de que forma for, de nossa velha natureza - aquela mesma natureza que herdamos, por nascimento natural, do caído Adão. O apóstolo inspirado declara expressamente que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2:14). Esta passagem é clara e conclusiva quanto a este ponto. Se o “homem natural” não pode “compreender”, nem “entender”, “as coisas do Espírito de Deus”, como poderia este mesmo “homem natural” ser santificado pelo Espírito Santo? Não está evidente que falar em santificação de nossa natureza está em oposição direta ao ensinamento de 1 Coríntios 2:14? Outras passagens poderiam ser acrescentadas para provar que o desígnio das operações do Espírito não é o de aperfeiçoar ou santificar a carne, porém não há necessidade de multiplicar as citações bíblicas. Algo que está completamente arruinado não pode nunca ser santificado Não importa o que se faça com a velha natureza ela continua arruinada, e, com toda a certeza, o Espírito Santo não desceu para santificar a ruína, mas para conduzir o arruinado a Jesus. Ao invés de encontrarmos qualquer tentativa de santificação da carne, lemos que “a carne cobiça (ou milita) contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro” (Gl 5:17). Poderia o Espírito Santo ser apresentado como efetuando um combate contra aquilo que Ele estaria gradualmente aperfeiçoando ou santificando? Acaso não cessaria o conflito tão logo o processo de aperfeiçoamento tivesse atingido o seu ponto máximo? No entanto, será que o conflito do crente alguma vez cessa enquanto ele estiver no corpo?


Isto nos leva à segunda objeção à teoria errônea da santificação progressiva da nossa natureza, a saber: A objeção criada pela sincera experiência prática de todos os crentes.


Você, que lê estas linhas, é um verdadeiro crente? Se for, acaso já notou algum aperfeiçoamento em sua velha natureza? Há nela algum aspecto que seja melhor agora do que quando começou em sua vida Cristã? Talvez agora você possa, e é certo que pela graça deverá poder, subjugá-la com maior rigor, mas será que ela melhora com isso? Se ela não for mortificada, estará sempre pronta para surgir novamente e se mostrar com a mesma vileza de sempre. A carne em um crente não é em nada melhor do que a carne em um incrédulo. E se o Cristão não tiver firme em sua mente que o eu deve ser julgado, ele logo irá aprender, por amarga experiência, que sua velha natureza é tão má agora como sempre o foi; e continuará assim até o fim.


É difícil conceber que alguém, que é levado a esperar uma melhora gradativa de sua natureza, possa desfrutar de um momento de paz, uma vez que tal pessoa não poderá deixar de ver, caso examine a si mesma à luz da Palavra de Deus, que seu velho eu - sua carne - é o mesmo de quando ele caminhava na escuridão moral de seu estado de inconverso. O seu caráter e a sua condição estão, de fato, bastante mudados pela posse de uma nova natureza, sim, de uma “natureza divina” (2 Pd 1:4), e pela incorporação do Espírito Santo para dar cumprimento à Sua vontade. Mas, no momento em que é permitido que a velha natureza volte a agir, o crente a encontrará, como sempre, em completa oposição a Deus.


Não temos qualquer dúvida de que, na sua grande maioria, a melancolia e o abatimento de que muitos crentes se queixam podem ser uma consequência da má compreensão deste importante assunto que é a santificação. Muitos estão procurando o que nunca podem encontrar; estão buscando a paz com base em uma natureza santificada ao invés de a procurarem no sacrifício perfeito; buscam-na num contínuo trabalho de santidade quando deveriam buscá-la numa completa obra de expiação. Tais pessoas consideram uma presunção crer que seus pecados estão perdoados enquanto sua natureza má não estiver completamente santificada e, ao perceberem que nunca alcançam isto, acabam por não desfrutar de uma completa certeza de perdão, vivendo, consequentemente, uma vida triste. Em poucas palavras, estão buscando um fundamento totalmente diferente daquele que Jeová afirma haver colocado, e vivem, por conseguinte, uma vida de incertezas. A única coisa que parece dar-lhes uma centelha de conforto é algum esforço aparentemente bem sucedido em sua luta por santidade pessoal. Se tiverem um bom dia, se forem favorecidos com um período de agradável comunhão, se puderem usufruir de um sentimento pacífico e devoto, estarão prontos a proclamar: “Tu, Senhor, pelo Teu favor fizeste forte a minha montanha” (Sl 30:7).


Mas, oh! quão deplorável é o fundamento para a paz de espírito que tais coisas oferecem! Tais coisas não são Cristo, e enquanto não estivermos cientes de que nossa posição diante de Deus é em Cristo, a paz não poderá se estabelecer. A alma que verdadeiramente se apossou de Cristo é deveras desejosa de santidade, porém está ciente do que Cristo é para si. Tal pessoa encontrou seu tudo em Cristo, e o desejo supremo do seu coração é crescer à Sua semelhança. Esta é a verdadeira santificação prática.


Frequentemente ocorre que pessoas, ao falarem de santificação, tenham em mente a coisa certa, apesar de não conseguirem se expressar de acordo com os ensinamentos das Sagradas Escrituras. Há também muitos que veem apenas um lado da verdade acerca da santificação, sem enxergarem o outro, e, embora possamos estar parecendo alguém que faz dos outros transgressores da Palavra, é sempre mais desejável, ao falarmos de qualquer assunto relativo à Palavra e ainda mais deste assunto de tanta importância como é a santificação, que falemos de acordo com a divina integridade da Palavra de Deus. Devemos, portanto, apresentar aos nossos leitores algumas das principais passagens do Novo Testamento nas quais esta doutrina é exposta. Estas passagens irão nos ensinar duas coisas: o que é santificação e como é efetuada.


A primeira passagem à qual chamaremos a atenção é 1 Coríntios 1:30: “Mas vós sois d’Ele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”. Aqui aprendemos que Cristo “foi feito” todas estas coisas. Deus nos tem dado, em Cristo, um precioso porta-joias, e quando o abrimos com a chave da fé, a primeira joia que resplandece aos nossos olhos, na sabedoria de Deus, é: “justiça”; então, “santificação” e, finalmente, “redenção”. Temos isso tudo em Cristo. Quando recebemos um, recebemos todos. E como recebemos um e todos? Pela fé. Então, por que o apóstolo cita redenção por último? Porque ela se cumpre no livramento final do crente de seu corpo, de sob o poder da mortalidade, quando a voz do arcanjo e a trombeta de Deus deverá levantá-lo do túmulo, ou transformá-lo, “num abrir e fechar de olhos”. O corpo está agora numa condição e, “num momento”, estará em outra. No curto espaço de tempo expressado pelo rápido movimento das pálpebras, o corpo passará da corrupção para a incorrupção; da desonra para a glória; da fraqueza para o poder. Que mudança! Será imediata, completa, eterna!


Mas o que devemos aprender do fato de a “santificação” estar colocada naquele grupo juntamente com “redenção”? Aprendemos que aquilo que a redenção será para o corpo, a santificação é agora para a alma. Em poucas palavras, santificação, no sentido em que é aqui usada, é imediata e completa - um trabalho divino. No que diz respeito à santificação e à redenção, uma não é mais progressiva do que a outra. Uma é tão completa e independente do homem quanto a outra. Sem dúvida, quando o corpo tiver passado pela gloriosa mudança, haverá picos de glória a serem atingidos, profundezas de glória a serem penetradas e extensos campos de glória a serem explorados. Todas estas coisas irão nos ocupar através da eternidade. Mas, então, a obra para nos preparar para tais cenas será feito em um momento. O mesmo sucede com relação à santificação: seus resultados práticos estão constantemente se apresentando, mas ela, em si mesma, trata-se de algo realizado em um só momento.


Que imenso alívio seria para milhares de almas zelosas, ansiosas e batalhadoras, se compreendessem isto e tivessem uma apropriada possessão de Cristo como santificação! Quantos estão se empenhando em realizar uma santificação por si mesmos! Após muitos esforços infrutíferos buscando conseguir justiça em si mesmos, foram a Cristo para obtê-la; e, no entanto, não querem fazer o mesmo quando se trata de buscar por santificação. Receberam “justiça sem obras” e esperam conseguir santificação com obras. Receberam justiça pela fé, mas acham que a santificação deve ser conseguida por esforço próprio. Não percebem que recebemos santificação exatamente da mesma maneira que recebemos justiça, visto que Cristo “para nós foi feito por Deus” tanto uma coisa como outra. Recebemos a Cristo pelo esforço? Não, mas pela fé! Pois “aquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Rm 4:5). Isto se aplica a tudo o que recebemos em Cristo. Nós não estamos autorizados a separar de 1 Coríntios 1:30 o assunto da santificação, colocando-o em um plano diferente das outras bênçãos que o versículo engloba. Também não temos sabedoria, justiça, santificação e, tampouco, redenção em nós mesmos; e nem podemos adquiri-las por algo que possamos fazer; mas Deus fez com que Cristo fosse todas estas coisas em nós. Nos dando Cristo, Ele nos deu tudo o que está em Cristo. A plenitude de Cristo é nossa, e Cristo é a plenitude de Deus.


Em Atos 26:18, é falado, com respeito aos gentios convertidos, como recebendo “a remissão dos pecados, e sorte entre os santificados pela fé”. Aqui a fé é o instrumento pelo qual nos é dito para sermos santificados, pois nos liga com Cristo. No exato momento em que o pecador crê no Senhor Jesus Cristo, é ligado a Ele. É feito um com Ele, completo n’Ele, aceito n’Ele. Isto é verdadeira santificação e justificação. Não se trata de um processo. Não é um trabalho gradual. Não é progressiva. A palavra está bem explícita. É dito: “...os santificados pela fé em Mim”. Não diz “...os que deverão ser santificados”, ou “...os que estão sendo santificados”. Se esta fosse a doutrina, assim ela seria exposta.


Não há dúvida de que o crente cresce no conhecimento de sua santificação, na consciência do poder e do valor que ela tem, na sua influência e seus resultados práticos, e na experiência e gozo dela. Tão logo a verdade derrame sua luz divina sobre a alma, o crente entra numa compreensão mais profunda daquilo que envolve o fato de se estar separado para Cristo, em meio a este mundo satânico. Isso tudo é abençoadamente verdadeiro, mas quanto mais a verdade é visualizada, mais claramente iremos entender que santificação não é meramente um trabalho progressivo operado em nós pelo Espírito Santo, mas é o resultado de nossa ligação a Cristo pela fé, por meio da qual nos tornamos participantes de tudo o que Ele é. Este é um trabalho imediato, completo e eterno. “...tudo quanto Deus faz durará eternamente: nada se lhe deve acrescentar, e nada se lhe deve tirar.” (Ec 3:14). Se Ele justifica ou santifica, “durará eternamente”. O selo da eternidade é fixado sobre todo o trabalho da mão de Deus; “nada se lhe deve acrescentar” e, louvado seja o Seu nome, “nada se lhe deve tirar”.


Há passagens que apresentam o assunto em outro aspecto, o resultado prático no crente de sua santificação em Cristo, o que pode exigir uma consideração mais apurada daqui para frente. Em 1 Tessalonicenses 5:23, o apóstolo roga aos santos aos quais se dirige: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. A palavra santifique, aqui, está no sentido de se distinguir determinadas classes de santificação. Os Tessalonicenses tiveram, assim como todos os crentes, uma perfeita santificação em Cristo, porém, no que se refere à apreciação e manifestação prática dessa santificação, isto foi apenas consumado em parte, razão pela qual o apóstolo roga para que eles fossem totalmente santificados.


É digno de nota que nesta passagem nada é dito a respeito da carne. Nossa natureza caída e corrompida é sempre tratada como algo irremediavelmente arruinado. Ela foi pesada na balança e achada em falta. Foi medida por um padrão divino e se mostrou insuficiente. Foi conferida por um fio de prumo divino e provou estar desaprumada. Deus a rejeitou. A velha natureza encontrou o seu fim perante Deus e foi por Ele condenada e entregue à morte (Rm 8:3). Nosso velho homem está crucificado, morto e sepultado (Rm 6:8). Estaremos nós, mesmo que por um momento, a imaginar que Deus - o Espírito Santo - desceria dos céus com o propósito de desenterrar algo condenado, crucificado e enterrado, a fim de podê-la santificar? Basta apenas que se identifique o que implica tal ideia para que a mesma seja abandonada para sempre por todo aquele que se sujeita à autoridade das Escrituras. Quanto mais acuradamente estudarmos a Lei, os Profetas, os Salmos e todo o Novo Testamento, iremos ver que a carne é totalmente irrecuperável. Ela não é boa para coisa alguma e o Espírito não a santifica, pelo contrário, capacita o crente a mortificá-la. Nos é dito que lancemos fora o velho homem. Tal preceito nunca nos teria sido dado se o objetivo do Espírito Santo fosse a santificação daquele velho homem.


Cremos que ninguém irá nos acusar de estarmos alimentando o desejo de rebaixar o padrão de santidade pessoal, ou enfraquecer sinceras aspirações de uma alma que tenha crescido naquela pureza que todo verdadeiro Cristão deve desejar ardentemente. Longe de nós tal pensamento! Se existe algo que desejamos promover em nós mesmos e, acima de tudo, nos outros, é uma completa pureza pessoal; uma santidade divinamente prática; uma sincera separação para Deus, de todo o mal e em todas as formas e maneiras. Por isto nós ambicionamos, por isto oramos e nisto desejamos crescer diariamente.


Porém, estamos plenamente convencidos de que um edifício de santidade verdadeira e prática nunca pode ser erigido sobre um alicerce legalista, e, por conseguinte, chamamos a atenção dos leitores para 1 Coríntios 1:30. É triste vermos que muitos daqueles que, de uma forma ou de outra, deixaram qualquer base legalista no que se refere à justiça, hesitem em fazer o mesmo para abraçar a santificação. Cremos ser este o engano de milhares de pessoas, e estamos ansiosos em vê-lo corrigido. A passagem citada poderia corrigir inteiramente este sério erro, se tão somente fosse recebida no coração pela fé.


Todos os Cristãos com algum discernimento concordam quanto à verdade fundamental da justificação sem obras. Todos admitem plenamente que não podemos, por nosso próprio esforço, produzir uma auto-justificação diante de Deus. Mas será que não está igualmente claro que a justificação e a santificação encontram-se exatamente sobre o mesmo plano na Palavra de Deus? Não podemos produzir uma santificação do mesmo modo como não podemos produzir uma justificação. Podemos tentar fazê-lo, mas cedo ou tarde descobriremos que terá sido totalmente em vão. Podemos prometer e decidir; podemos trabalhar e lutar; podemos nutrir a vã esperança de que amanhã agiremos melhor do que hoje; mas no fim acabaremos constrangidos a reconhecer, sentir e confessar que somos tão incapazes naquilo que se refere à santificação como o somos no que diz respeito à justificação.


Ah! que doce alívio para o que sofre e tem buscado por satisfação e descanso em sua própria santidade, quando descobre, após anos de luta vã, que exatamente aquilo que ele tanto ambiciona está entesourado para ele em Cristo! Ao descobrir isto, sua alma torna-se serena em uma completa santificação a ser desfrutada pela fé! Ao viver batalhando contra seus hábitos, suas concupiscências, seu mau gênio e suas paixões, esse crente tem feito o mais penoso dos esforços para subjugar sua carne e crescer em santidade interior, mas ele tem falhado (compare com Romanos 7)! Ele descobre, para seu profundo desgosto, que ele não é santo, e lê que “sem a qual (santificação) ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14). Aqui não nos fala de um certo grau ou estágio de santificação, mas sem a coisa em si, a qual todo Cristão possui desde o momento em que crê, quer ele saiba disto ou não. A perfeita santificação está tão incluída na palavra salvação quanto a justificação ou a redenção. Não se recebe a Cristo por esforço, mas pela fé, e quando se recebe a Cristo, recebe-se tudo o que está em Cristo. Conseqüentemente, é permanecendo em Cristo que se encontra poder para subjugar as concupiscências, paixões, mau gênio, maus hábitos, circunstâncias e influências nocivas. O crente deve contar com o Senhor Jesus em tudo.