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Temor e Ousadia (Setembro de 2017)



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Revista mensal publicada originalmente em setembro/2017 pela Bible Truth Publishers

 

ÍNDICE


Tema da Edição

J. T. Mawson

R. Elliott (adaptado)

W. J. Prost

J. N. Darby

W. J. Prost

Verdade Cristã

G. V. Wigram

F. T. Heath (adaptado)

J. N. Darby (adaptado)

T. Ruga

G. W. Frazer (1883)


 

Temor e Ousadia

“Tema toda a Terra ao SENHOR; temam-nO todos os moradores do mundo” (Sl 33:8).



O temor adequado é uma profunda reverência e respeito por Deus. Tal “temor” promove a confiança, como o Salmo 56:3 diz: “No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti”. Ao mesmo tempo, esse temor reverente, que dá a Deus Seu devido lugar em nosso coração, nos livra de temer o homem, como diz o versículo 11: “Em Deus tenho posto a minha confiança; não temerei o que me possa fazer o homem”. Como ilustrado mais adiante, quando a incredulidade ou a má consciência (e, por causa disso, estando fora da comunhão com Deus) entrar, então o medo ansioso e o medo do que pode acontecer certamente virá. Nosso Senhor Jesus viveu a vida mais difícil possível e sofreu na cruz além do nosso entendimento. Ele viveu e morreu com perfeito temor reverente e nunca experimentou o temor ansioso, estando perfeitamente calmo diante da ira santa e da morte iminentes.


Dar a Deus o devido lugar de reverência conhecendo o Seu coração de amor, e andando em obediência à Sua vontade, nos tira o temor e dá ousadia tanto para com Deus quanto para com o homem.

Tema da Edição

 

Servindo a Deus com Temor Reverente


No temor de Deus, seremos ouvintes reverentes da Sua Palavra; isso será para nós como a vela do Senhor, sondando nosso interior e nos levando à renúncia do coração de tudo o que nos levaria para longe de Deus. Por essa Palavra nossa alma viverá e, à nessa luz, nossos pés descobrirão caminhos retos. Estaremos em sujeição ao Espírito Santo, para que possamos conhecer a interpretação divina em vez de nos apoiar em nosso próprio entendimento, enquanto nossas almas serão preenchidas com adoração, por causa do santo privilégio a nós concedido de poder participar e cuidar de todas essas coisas.


Os dias de Malaquias foram dias de grande afastamento da verdade, mas no meio de todas as trevas que envolviam o povo, havia aqueles de quem Deus exprimia Sua especial aprovação. Estes “os que temem ao SENHOR e para os que se lembram do Seu nome”, e eles foram considerados pelo Senhor dos Exércitos como Seu “particular tesouro” (Ml 3:16-17).


Isso foi no final da última dispensação; estamos agora evidentemente perto do final do dia atual da graça; “Pelo que... retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor” (Hb 12:28 – AIBB).


J. T. Mawson

 

Coisas que Tornam as Pessoas Ansiosas


O Senhor Jesus uma vez falou sobre os “cuidados (preocupações) desta vida”, e um grande objetivo de Sua vinda ao mundo era ensinar aos homens como se livrar dessas preocupações.


Quais são algumas dessas “preocupações desta vida”? Em primeiro lugar, há a preocupação ligada ao seu sustento. O que fazer para que as coisas se encaixem traz grande pressão sobre alguns. A renda de um marido talvez seja insuficiente, e as despesas de sua família estão aumentando. Pior ainda, ele pode estar desempregado. Em outro caso, há uma viúva com filhos pequenos e o trabalho é incerto. É possível, em tais circunstâncias, estar livre de preocupações? Nós respondemos com certeza e sem hesitação que sim, porque Deus nos deu uma lição objetiva quanto a isso. Os pássaros não têm depósitos nem celeiros, mas cantam tão alegremente como se o mundo fosse deles. Como eles são alimentados? “Deus os alimenta” é a explicação divina.


O exemplo de nosso Senhor

Se pudermos ir a Ele para tudo aquilo que precisamos, não importa quão grande seja, não precisamos nos preocupar. Nós dissemos que o Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para ensinar os homens a confiar em Deus. Alguém já foi tão pobre quanto Ele, ou tão provado? E lembre-se que Ele era rico (2 Co 8:9). Possivelmente a maior preocupação não vem daqueles que eram pobres e permanecem pobres, mas sim daqueles que conheceram dias mais despreocupados. A lição que Cristo veio ensinar tem, portanto, uma aplicação especial para eles.


Ele foi “desprezado e o mais indigno entre os homens”, escarnecido. Seus seguidores mais íntimos O abandonaram. Mas havia uma coisa que afligiu mais o coração d’Ele do que tudo isso: Ele foi abandonado por Deus quando foi feito pecado por nós. E ainda assim, lendo os Salmos, existe ali um tom de confiança inabalável. Nem por um momento Sua fé vacilou, embora Ele tenha sido levado ao pó da morte. É Aquele que nos diz, no meio de todas as nossas preocupações, que nenhum pardal é esquecido diante de Deus.


Somos obrigados, é claro, a usar todos os meios apropriados. Mas geralmente se descobrirá que não é o que podemos fazer que nos traz o cuidado ou a preocupação, mas o que não podemos fazer. E é exatamente nisso que temos que confiar em Deus, simplesmente repousando nas palavras: “vosso Pai celestial bem sabe”. Faça tudo o que puder, mas nunca se preocupe com o que não pode fazer. Lembremo-nos também de que a vida de um homem não consiste na abundância das coisas que ele possui. É surpreendente, quando somos postos à prova, quão pouco da felicidade real depende das coisas ou das circunstâncias. Cristo não tinha dinheiro e às vezes não tinha onde reclinar a cabeça, e ainda assim podia falar de Seu gozo e paz.


Problemas de saúde

A doença é muitas vezes outra fonte de preocupação. Seu sucesso na vida pode depender de uma boa saúde, e isso parece ser negado. Ou pode ter outros dependendo de você, e você está se sentindo cada vez menos capaz em seu esforço. Talvez poucas coisas sejam mais difíceis do que se sentir incapaz de atender, física e mentalmente, as exigências de suas funções e, ainda assim, ser obrigado a encará-las dia após dia. Sob tais circunstâncias, tudo está propenso a ficar coberto pela escuridão. Tudo isso pode ser puramente físico, e existe o lado físico de se livrar da preocupação, bem como o espiritual, pois o homem é corpo, assim como alma e espírito. Prestar a devida atenção a cada um deles é um dos grandes problemas da vida. Mas a lembrança de que o seu sentimento de depressão não tem uma causa real nas circunstâncias, mas apenas em alguma condição transitória do seu corpo, permitirá que você se levante e se liberte dele. Existe também um texto que muitas vezes tem sido como uma âncora quando estou sob pressão deste tipo: “Não veio sobre vós tentação [provação], senão humana; mas fiel é Deus, que vos não deixará tentar [provar] acima do que podeis; antes, com a tentação [provação] dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Co 10:13).


Antecipação

Outra causa de preocupação é o hábito de antecipar problemas e enfrentar dificuldades de maneira parcial. Quanto mal é causado por isso! Seria útil mantermos um registro durante um mês das coisas que supostamente deveriam ter acontecido, mas que nunca chegaram a acontecer. Nós nunca poderíamos esgotar o número de assuntos sobre os quais nos incomodamos e todos sem nenhum propósito. Muitos de nós podem ter o mesmo testemunho do homem que colocou na parede do seu escritório as palavras: “Os maiores problemas da minha vida foram os que nunca vieram a acontecer”.


Uma vez ouvimos uma conversa que se passou entre dois Cristãos, com a qual ficamos impressionados. Um deles era idoso e tinha sido próspero, mas ao envelhecer o infortúnio da vida o acometeu pela desonestidade de outro. E vendo-o enquanto ele estava na porta, seu rosto brilhava realçado por uma abundância de cabelos brancos. Quando se separaram, seu amigo disse-lhe, citando o Salmo 34: “Bem, lembra-te: ‘Clamou este pobre, e o SENHOR o ouviu; e o salvou de todas as suas angústias’. “Ah”, ele disse (e foram as últimas palavras que o ouvimos dizer: “Ele fez algo maior por mim do que isso: “livrou-me de todos os meus temores” (veja o mesmo Salmo, versículo 4).


Sim, estes são temores que põem uma tenebrosa nuvem sobre a vida de muitos. Entretanto quantos desses temores são sem fundamento! Mas se o problema realmente acontece e a prova vem sobre nós, então lembremo-nos das palavras do Salmo já citadas: “Clamou este pobre, e o SENHOR o ouviu; e o salvou de todas as suas angústias”. Ele clamou como se tivesse caído em algum abismo ou estivesse sendo arrastado para o mar. E é assim que devemos clamar a Deus sobre nosso problema.


Nesse sentido, há três versículos que fazemos bem em guardá-los em nossa mente:


“No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti” (Sl. 56:3).

“Eu confiarei e não temerei” (Is 12:2).

“Confiai n’Ele, ó povo, em todos os tempos” (Sl 62:8).


Sofrendo

Em relação à antecipação de problemas, uma vez visitamos um Cristão idoso que sofria de uma doença debilitante, que esperava, no curso normal das coisas, durar cerca de três ou quatro meses ou mais e gradualmente se enfraquecer até que morresse. Foi uma grande provação para ele, pois ele era viúvo, morava na casa de sua filha, viúva, e ele parecia incapaz de suportar o pensamento do fardo que sua doença prolongada e consequente incapacidade de ajudar seriam para ela. Percebendo seu problema, nos ajoelhamos e pedimos a Deus que Seu filho fosse poupado dos muitos dias de cansaço que pareciam estar entre ele e sua tão esperada libertação. A resposta veio mais prontamente do que qualquer um de nós poderia ter esperado. Em vez de três meses de desgastante espera, não lhe restaram nem mesmo três horas. Nós o vimos ao meio dia. Às duas horas do mesmo dia, seu espírito estava ausente do corpo e presente com o Senhor. “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6:34). Aqui está nossa garantia de vida, como alguém disse, dentro de vinte e quatro horas. E este é um segredo de como ser livre das preocupações.


R. Elliott (adaptado)

 

Temor e Ousadia – Agradáveis a Deus


Em outro artigo desta edição, falamos dos tipos errados de temor e ousadia à luz da Palavra de Deus. Mas a Escritura também fala de ambos no bom sentido. Encorajamentos positivos!


Temor

Muitas vezes, na Palavra de Deus, lemos sobre o “Temor do Senhor”. A frase ocorre particularmente no Livro dos Provérbios, em conexão com uma caminhada de acordo com os princípios divinos. O que, então, é o temor do Senhor – um medo que é correto para a criatura humana? O temor do Senhor é o reconhecimento, em primeiro lugar, de que o homem é uma criatura e que Deus é seu Criador. É o reconhecimento do supremo poder e autoridade de Deus sobre nós e que somos, em última instância, responsáveis perante Ele. Para o crente, o temor do Senhor é reconhecer nossa dependência do Senhor e temer dar um passo sem orientação divina. É também reconhecer que, mesmo na vida do crente, existe um governo de Deus e que Ele não nos deixará escapar se temos práticas erradas.


É o temor do Senhor que preserva o homem de Satanás e, finalmente, de si mesmo, “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso” (Jr 17:9). O temor do Senhor nos traz para a presença de Deus, onde buscamos por Sua sabedoria e Seu conhecimento e não confiamos em nós mesmos. É um temor que não causa pavor ou terror no nosso coração, mas ao invés disso nos traz um respeito saudável que é próprio para a criatura diante do seu Criador. É a apreciação que nossas ações aqui nesta vida têm não somente consequências no presente mas também nas eternas.


Aqueles em Autoridade

Junto com o temor do Senhor está o temor devido àqueles que estão em posição de autoridade sobre nós, pois a Escritura nos diz que eles foram ordenados por Deus. Assim nos é dito: “dai a cada um o que deveis... a quem temor, temor” (Rm 13:7). Além disso, os servos são instruídos: “obedecei a vosso senhor segundo a carne, com temor e tremor” (Ef 6:5). É um temor que reconhece a autoridade e que a submissão a essa autoridade é submissão ao próprio Senhor, sob Quem a autoridade é exercida.


Pecado

Segundo, há um medo que está ligado ao temor do Senhor, mas ligeiramente diferente, a saber, o medo (aversão) ao pecado (não de ser tentado a pecar). Quando conhecemos o Senhor e estamos cientes de Suas reivindicações, temos um temor apropriado ao pecado. Nosso bendito Senhor Jesus não tinha a natureza pecaminosa, mas experimentou esse temor em absoluta perfeição, pois está registrado que Ele, “oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que O podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia” (Hb 5:7). Nós pisamos em solo santo aqui, pois nosso Senhor Jesus no Jardim do Getsêmani passou por toda a agonia da cruz com Seu Pai. Seu temor não era do que o homem poderia fazer, mas sim o de ser feito pecado por nós e ir à morte por causa disso. Como resultado de Sua vitória por nós na cruz, nós, como crentes, não precisamos mais temer a morte, mas devemos temer sermos levados ao pecado mais do que qualquer outra coisa, por causa do preço que foi necessário para tirá-lo.


Circunstâncias

Finalmente, há um temor de nós mesmos, quando somos levados a circunstâncias avassaladoras. Vimos isto em Josafá, quando ele viu a grande multidão de moabitas, amonitas e edomitas vindo para lutar contra ele (2 Cr 20). Isso não era realmente “o medo do homem” que “traz uma armadilha”, mas sim uma oportuna preocupação de que seu próprio poder não era igual ao daqueles inimigos naquele momento. Mas a resposta dada a ele é encontrada no mesmo capítulo, pois lemos: “parai, estai em pé e vede a salvação do SENHOR... porque o SENHOR será convosco” (2 Cr 20:17).


Quer seja nas situações sérias da vida, como a que Josafá enfrentou naquela época, ou talvez algo de muito menor importância, precisamos continuamente entender “que não é do homem o seu caminho, nem do homem que caminha, o dirigir os seus passos” (Jr 10:23). Satanás é mais forte que nós. Além disso, podemos ter medo quando nos deparamos com circunstâncias muito adversas e não temos forças para enfrentá-las. Um temor apropriado em tais casos nos leva ao Senhor, e então nossa confiança estará n’Ele e não em nós mesmos.


Ousadia

Há momentos em nossa vida como crentes, quando ousadia ou confiança é uma boa coisa e quando é correta diante de Deus. m importante versículo que imediatamente vem à mente é encontrado em Hebreus 10:19-20: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário (Santo dos Santos – ARA), pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela Sua carne”. Uma coisa é ter respeito adequado a Deus como criaturas, mas não O honramos quando hesitamos quando Ele nos trouxe para a bênção por meio da obra de Seu Filho. É uma falsa humildade fingir que não somos dignos de nos aproximar d’Ele, quando a obra de Cristo na cruz nos abriu o caminho.


Agora que o caminho para a presença de Deus está aberto para nós, Deus é honrado quando O consideramos em Sua Palavra e nos apresentamos para desfrutar do que Ele providenciou para nós. Quando José disse a seus irmãos: “Peço-vos, chegai-vos a mim” (Gn 45:4), não teria trazido honra para José se seus irmãos tivessem rejeitado isso. Da mesma forma, Deus diz: “se ele [o homem] recuar, a Minha alma não tem prazer nele” (Hb 10:38). Deus aprecia a ousadia em aceitar e desfrutar o que Ele forneceu graciosamente para nós a um grande custo. Fazer o contrário não é humildade, mas sim incredulidade.


Pregação da Palavra

Outro tipo de ousadia é o que deve ser encontrado naqueles que pregam a Palavra de Deus. Nos primeiros dias da Igreja, quando os principais dos sacerdotes viram “a ousadia de Pedro e João… se maravilharam” (At 4:13). Da mesma forma, Paulo poderia pedir por orações que “com toda a ousadia... será Cristo engrandecido no meu corpo” (Fp 1:20 – ARA). Em Efésios 6:19, ele novamente deseja a oração “para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança”.


Não devemos nos envergonhar do evangelho de Cristo, mas, antes, falar aberta e ousadamente, pois é o único meio pelo qual os homens podem ser salvos. Com a reprovação que está conectada com o nome de Cristo neste mundo, nós, como crentes, podemos ser tentados a tomar um caminho fácil e a não pregar o evangelho ou, talvez, a “adoçá-lo” para que ele não traga uma forte rejeição pelo mundo. Ao longo dos séculos, Satanás fez um bom trabalho ao trazer o Cristianismo para o nível do mundo, eliminando assim muito do “escândalo da cruz” (Gl 5:11). Mas, em fidelidade ao Senhor, devemos apresentar a Palavra de Deus com clareza e verdade, para que a trombeta não dê “sonido incerto” (1 Co 14:8).


Discernimento

Há também uma ousadia ou confiança que podemos ter, quando andamos com o Senhor, quanto ao discernimento de Sua mente. Vangloriar-se disso e dizer aos outros que estamos certos de que temos a mente do Senhor não vem de Deus, pois estamos dizendo aos outros que estamos vivendo tão perto do Senhor que não poderíamos não entender a Sua mente sobre determinado assunto. Mas em nós mesmos, podemos e devemos ter essa confiança que vem de uma caminhada próxima ao Senhor e a consequente percepção de Sua vontade. Assim Paulo, tendo a convicção em sua própria alma que ele tinha a mente do Senhor, pôde dizer aos filipenses: “E, tendo esta confiança, sei que ficarei e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé” (Fp 1:25). João pôde dizer: “E esta é a confiança que temos n’Ele: que, se pedirmos alguma coisa, segundo a Sua vontade, Ele nos ouve” (1 Jo 5:14). Foi uma ousadia que nasceu de constante comunhão com o Senhor e de ter uma percepção de Sua vontade.


Confiança no Senhor a respeito de nossos irmãos

Finalmente, há uma confiança que devemos ter em nossos irmãos que exibiram fidelidade e dedicação ao Senhor durante sua vida. Sabemos, é claro, que qualquer um de nós pode falhar, pois todos somos propensos a um ataque de Satanás. Mas devemos ter confiança naqueles que andam com o Senhor e cuja vida demonstra uma constância que é o resultado dessa caminhada.


Assim, Paulo pôde dizer aos tessalonicenses: “E confiamos de vós no Senhor que não só fazeis como fareis o que vos mandamos” (2 Ts 3:4). Da mesma forma, ele pôde dirigir-se ao seu bom amigo Filemom com um pedido, dizendo: “Escrevi-te confiado na tua obediência, sabendo que ainda farás mais do que digo” (Fm 21). Às vezes, nossa confiança pode estar equivocada, e até mesmo os melhores e mais fiéis de nossos irmãos podem falhar às vezes, mas nos é dito que devemos confiar neles, confiando no Senhor para que eles não nos desapontem.


Assim, vemos que existe um temor que é correto em seu devido lugar, assim como com a ousadia e confiança. Grande parte do problema no mundo de hoje é por causa do medo fora de lugar e da ousadia fora de lugar, pois o homem frequentemente avança quando deve temer, e teme quando Deus Se deleita em lhe dar ousadia. Somente na presença do Senhor e em uma caminhada com Ele podemos manter o temor e a ousadia em seus devidos lugares em nossa vida Cristã.


W. J. Prost

 

Temor Piedoso


Cristo “foi ouvido quanto ao que temia” (Hb 5:7).


Ele foi ouvido por causa de Seu temor. Era apropriado que Aquele que levou a morte sobre Si mesmo, respondendo pelos outros, sentisse todo o peso dela sobre a Sua alma. Ele também não escaparia das consequências daquilo que havia empreendido (compare o capítulo 2), nem falharia no justo sentido do que seria estar sob a mão de Deus em julgamento. Seu temor era Sua piedade, a estimativa correta da posição em que o homem pecador foi encontrado e o que deve vir de Deus por causa disso. Para Ele, no entanto, sofrer as consequências dessa posição era obediência. E essa obediência deveria ser perfeita e provada ao máximo.


J. N. Darby

 

Temor e Ousadia – Uso Indevido


Ouvimos muito sobre temor e ousadia em nossa vida cotidiana, e também há muito dito sobre isso na Escritura. Na Palavra de Deus, às vezes são falados em um sentido positivo, mas em outras ocasiões de maneira negativa. Neste artigo, gostaria de examinar alguns dos tipos errados de temor e ousadia, à luz da Palavra de Deus.


Temor

Antes de mais nada, lemos em Provérbios 29:25 que “O receio do homem lhe arma laços; mas o que confia no Senhor está seguro” (AIBB). Ao longo dos tempos, o medo do homem tem levado muitos a fazer o que está errado ou a evitar fazer o que está certo. No livro de Provérbios, as reivindicações do Senhor estão diante de nós, e a sabedoria de Deus é dada para nos permitir andar “pelo caminho do entendimento” (Pv 9:6). Mas o medo dos homens impediu que muitos fizessem o que sabem ser o correto – o medo da reprovação, o medo da perda material e, talvez, o medo da violência física ou mesmo da morte. Tudo isso é uma armadilha de Satanás, e somente a confiança no Senhor pode superá-la.


Pensamentos errados a respeito de Deus

Segundo, há o medo que resulta de termos pensamentos errados a respeito de Deus. Tanto na parábola dos talentos (Mt 25:14-30) como na parábola das minas (Lc 19:12-27), o servo com um talento ou uma mina negligenciou seu uso e preferiu escondê-lo, e então devolveu ao Mestre. Ambos os servos expressaram medo do Mestre, alegando que Ele pediria mais do que eles poderiam dar e exigiria deles o que era impossível de produzir.


Esse é um tipo comum e muito sério de medo [temor] – um medo que não conhece o coração de Deus. Satanás está por trás disso, assim como ele persuadiu Eva de que Deus não estava dando a eles o melhor, mas estava retendo deles algo de bom. Satanás procura persuadir os incrédulos, e até mesmo os crentes, dizendo que Deus não é um Deus amoroso, mas sim Alguém que faz exigências irracionais. Toda religião falsa retrata seu deus (ou deuses) como sendo exigente e querendo presentes e sacrifícios constantes do homem. Mas em Cristo, Deus Se revelou como um Deus de graça e verdade. Ele encontrou uma maneira de mostrar Seu amor sem comprometer Sua santidade.


É verdade que há um governo na casa de Deus, mas até isso é por causa do Seu amor. Assim como um pai sábio e amoroso ocasionalmente disciplina uma criança, Deus também não permite que Seus filhos andem de maneira errada sem corrigi-los. Mas, novamente, isso é por causa do amor, e como alguém já observou: “Se somos pecadores ou santos, sempre que temos que tratar com Deus, temos que tratar com o amor”.


Medo de culpa

Finalmente, há um tipo de medo um tanto sutil que resulta do que não é julgado em nosso coração. Nós vemos isso em homens como Adão, Jacó e Jó. Quando pecou, Adão se escondeu entre as árvores do jardim porque sua consciência lhe disse que ele havia errado. Da mesma forma, Jacó, quando fugia de Esaú e foi levado à presença de Deus em Betel, ficou com medo e exclamou: “Quão temível é este lugar!” (Gn 28:17). Jó, cujo caráter e caminhada o próprio Senhor elogiou, diria: “Por que o que eu temia me veio” (Jó 3:25). Quando todo o poder de Satanás tirou sua propriedade e até mesmo seus filhos, havia medo em seu coração, embora houvesse submissão. Em todos esses três homens, suas reações refletiram o que não estava julgado no coração deles.


Houve apenas Um que pôde Se submeter perfeitamente à vontade do Pai, até a morte da cruz e ao sofrimento pelo pecado, mas que não mostrou medo. Havia perfeita confiança e perfeito descanso, quando Ele seguiu em frente com a vontade do Pai. Quando Ele esteve diante de Pilatos, está registrado que Pilatos estava com medo, mas não nosso bendito Senhor.


Todos esses três tipos de medo são errados, mas só podem ser superados na presença de Deus. Esses tipos de medo são comuns ao homem natural e são o produto de sua natureza pecaminosa e sua falta de confiança em Deus. Nosso bendito Mestre nunca conheceu esse tipo de medo.


Ousadia

Quinze ou vinte anos atrás, pelo menos na América do Norte, era relativamente comum ver pessoas, geralmente homens jovens, vestindo camisetas com o slogan “No Fear (Sem medo)”. Este é, na verdade, o nome de uma empresa de vestuário, fundada em 1989, que comercializa produtos com essas palavras. A empresa também comercializa uma bebida energética com o mesmo nome. Seus slogans concentram-se em extremos de esportes competitivos, às vezes desprezo pelas normas sociais e até mesmo desprezo pela lei.


A atitude geral implícita no slogan “No Fear” é uma crença em si mesmo, com a confiança de que podemos fazer o que quer que decidirmos fazer, enquanto afirmamos que “o medo é uma mentira”. É a confiança do homem em si mesmo, colocando-se no centro de seus pensamentos e concentrando-se nos limites aos quais ele pode se esforçar. Essa atitude tem alguma semelhança com o pensamento por trás da sigla “yolo” (que traduzida do inglês é “você vive apenas uma vez”), que foi examinado na edição de maio de 2017 desta revista (O Cristão). Naquela época, salientamos que, embora tal atitude talvez definisse o desejo comum de um adolescente de testar os limites do comportamento aceitável, também refletia o problema mais profundo da frustração e da desilusão com o futuro do nosso mundo.


Implícito nessa ousada arrogância está o fato de que não há medo nem mesmo da morte e que é bom levar seu desempenho até o limite, mesmo que isso se torne fatal. Mas somos coercitivamente lembrados na Palavra de Deus de que “aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo” (Hb 9:27). Fingir não ter medo é ignorar a advertência bíblica de que: “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10:31). Também lemos: “Alegra-te, jovem, na tua mocidade... e anda pelos caminhos do teu coração... sabe, porém, que por todas essas coisas te trará Deus a juízo” (Ec 11:9). Expressar falta de qualquer tipo de medo é ignorar o temor do Senhor.


Junto com essa falta de medo está o reconhecimento de que existe um Deus, mas ousando aproximar-se d’Ele de maneira familiar e imprópria para uma criatura. Isso começou há muito tempo com Caim que, quando foi confrontado por causa do homicídio de Abel, ousou mentir para o Senhor, e depois reclamou da punição imposta pelo Senhor. Desde então o homem tem ousado se aproximar de Deus como se estivesse tratando com um igual, e se esquecendo da admoestação da Escritura, “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a Terra; pelo que sejam poucas as tuas palavras” (Ec 5:2).


Confiança própria

Outro tipo errado de ousadia, ou confiança, é aquela que às vezes aflige os verdadeiros crentes, quando avançamos com nossa própria força, ao invés de dependermos do Senhor. Podemos ver isso em Josué e o povo de Israel, quando tentaram avançar contra Ai (Josué 7) sem perguntar antes ao Senhor. O resultado foi que eles foram derrotados, porque havia pecado no arraial, e eles não tinham julgado isso. Da mesma forma, Pedro se vangloriava de sua fidelidade ao Senhor, quando ele não conhecia seu próprio coração, e mais tarde ele O negou com juramentos e maldições. Assim também nós, se procurarmos fazer algo com nossa própria força, descobriremos a verdade das palavras de nosso Senhor: “sem Mim nada podereis fazer” (Jo 15:5).


Assim, vemos que existem tipos de medo e ousadia que são errados, principalmente porque eles não têm relação com o Senhor ou Suas reivindicações. Mas às vezes tanto o medo quanto a ousadia (ou confiança) podem ser corretos, e nós os consideraremos em outro artigo.


W. J. Prost

 

Estabelecendo-Se


Os crentes hebreus estavam em perigo de procurar se sentir à vontade e confortável aqui na Terra. A primeira epístola aos coríntios mostra que eles não estavam sozinhos nisso. É uma armadilha muito natural para o coração do homem, mesmo para aqueles que encontraram o Salvador.


Depois de ter havido dúvida e ansiedade, a alma, sabendo o que é o julgamento de Deus sobre o pecado, e sua própria culpa e condenação quando o livramento no Senhor Jesus é encontrado uma vez, há muitas vezes um perigo de reação. A alma está apta a se acalmar, pensando que a luta acabou, porque a grande batalha foi travada e a vitória foi dada pelo Senhor Jesus Cristo. Eles acham que não pode haver mais problemas porque o sofrimento profundo da alma passou. É suficientemente claro que esses hebreus estavam em tal estado, e o apóstolo não apenas lembra-lhes quão alegremente eles receberam seus primeiros sofrimentos e espólio de seus bens, mas aqui eles são instruídos de que ainda não estão seguindo o padrão de Israel estabelecido na sua terra; em vez disso, eles eram como Israel passando pelo deserto. Consequentemente, descobrimos que todo o conteúdo da epístola não fala do templo, mas do tabernáculo, do começo ao fim, e portanto fala do arraial, não do trono ou reino estabelecido após a conquista de Canaã. Por isso, ele diz: “Temamos, pois, que, porventura, deixada a promessa de entrar no Seu repouso, pareça que algum de vós fique para trás” (Hb 4:1). Vemos imediatamente que o apóstolo não está falando em crer no Senhor Jesus para um presente descanso de consciência. Se esse tivesse sido o ponto que ele tinha em mente, ele teria ousadamente assegurado que não havia necessidade de temer.


Se falamos do sangue de Cristo, e depois exortamos ao temor, seria a negação do Cristianismo. O evangelho é a declaração de remissão completa, sim, de mais do que isso, de justificação, de reconciliação a Deus pelo Senhor Jesus. Se o perdão pelo sangue de Cristo fosse a questão, ele preferiria chamá-los para vencer todo medo; pois, como o apóstolo João diz, ao discutir sobre esse ponto, “o perfeito amor lança fora o medo”, não o “perfeito amor” da nossa parte (a lei pedia isso, e nunca pôde obtê-lo), mas o perfeito amor de Deus, que só é revelado no Senhor Jesus Cristo e por meio d’Ele. De que devemos ter medo então? Não do sangue de Cristo falhando, não de perder a remissão de pecados por qualquer mudança de mente por parte de Deus, mas de se estabelecer neste mundo, e ficar aquém da verdadeira perspectiva de peregrinos e estrangeiros a caminho de uma pátria melhor. Ter descansado no deserto teria sido fatal para um israelita; e então temos que lembrar que este não é nosso lar, e que se estabelecer seria virtualmente negar o repouso celestial.


Verdade Cristã

 

Perfeito Amor


“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento” (1 Jo 4:18 – ARA). Mas há um temor piedoso que o livra de muitas coisas más – um temor que, se um santo estivesse dizendo: “Eu gostaria de fazer isto ou aquilo”, o faria sentir que “o olho de Deus estará me sondando, e eu vou desistir”.


Que papel tenho eu a desempenhar em conexão com a redenção? Nenhum, além da absoluta submissão; constrangido a repudiar tudo que esteja ligado com o eu e receber a bênção da provisão de Deus.


A falta de uma distinta percepção da diferença entre a carne e o Espírito mantém os santos em um estado muito baixo. Eles podem estar seguros quanto à eternidade e, ainda assim, podem entristecer e extinguir o Espírito. Se você tem a salvação, mas tem noções judaicas de uma caminhada judaica, você estará incessantemente entristecendo o Espírito, confiando em algo em sua caminhada que Deus quer remover. Deus não pode aprovar o amor nas coisas presentes que Demas tinha. Ele não pode aprovar nada da carne nos Cristãos. Se o Espírito de Cristo está em mim, tudo que é do “eu” deve ser julgado.


Em um copo de água, como você pode deslocar a água? Colocando algo mais pesado que a água dentro do copo. Se você tem um coração cheio de luxúria e vaidades, como vai desistir de tudo isso? Pelo precioso ouro de Deus derramado no vaso; tudo será deslocado por ele.


Não fales do que tens deixado, se Deus te deu a Cristo. Você pode comparar qualquer coisa com Ele? Não são elas, as insondáveis riquezas, que você tem n’Ele? Você não é obrigado a dizer: “Pai, só Tu sabes qual é o Teu dom; Tu sabes da Sua cruz e glória”. Oh, que coração pode conceber o que será olhar para aquela face! O que você dirá então da beleza de Cristo! Oh, quando se imagina como Aquele ungido é pessoalmente! Quem poderá ver a plenitude da divindade n’Ele, sem se sentir como uma criancinha olhando para o Pai que Lhe deu, e sentindo, “Ele sabe tudo a respeito d’Ele”, e aí o coração descansa .


G. V. Wigram

 

José e Seus Irmãos


José, o homem tão honrado no final de sua história, poderia muito bem dizer: “Temo a Deus”, pois foi isso que o caracterizou durante toda a sua vida. Foi apenas o eco de suas primeiras palavras registradas no Egito quando ele encontrou o tentador com: “como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gn 39:9). Os irmãos de José careciam completamente desse tipo de temor. José procurou criar esse amor neles. Quando desceram pela primeira vez para comprar cereal, eles ousadamente falavam de sua retidão e fidelidade, dizendo que eram homens verdadeiros e alegavam inocência a uma acusação tão grosseira quanto a de serem “espiões”. Ele lhes disse que temia a Deus, levando-os à Sua presença que é luz, e as trevas foram imediatamente reveladas, a consciência deles foi alcançada e verdadeiros frutos são produzidos. Que mudança! Que contraste! “somos homens honestos” é a linguagem de Gênesis 42:11 (ARA); “Na verdade, somos culpados” é a confissão do versículo 21. Não poderia haver extremos maiores “homens honestos” ou “culpados”; é o entrar na presença de Deus que fez a diferença. Que estado era o deles! E as coisas só iriam piorar até que tudo estivesse na presença de José. Antes que pudesse haver comunhão, os pecados ou falhas devem ser confessados. Esses homens tinham a ver com alguém que conhecia sua história e pecado, mas não conheciam nada de comunhão com ele até que a consciência deles foi alcançada, até que ele se revelou a eles, e sendo admitido por eles todo o pecado, foi perdoado.


O medo de uma má consciência

Má consciência fez estes homens miseráveis serem covardes! Suas jumentas estavam cheias de trigo, e lhes foi dada provisão para o caminho, mas ao parar para dar provisões às jumentas em uma estalagem, um deles viu seu dinheiro em seu saco e exclamou: “Devolveram o meu dinheiro”. Se tivessem sido “homens honestos”, certamente teriam encontrado nisso motivo de gozo e gratidão. Mas, ao contrário, lemos: “Então, lhes desfaleceu o coração, e, pasmavam, dizendo um ao outro: Que é isso que Deus nos tem feito?” (Gn 42:28). Este não era o mesmo temor de Deus que José teve; o temor deles era o temor criado por uma má consciência. Eles temiam porque eram ofensores; José temia que pudesse ofender. Eles tinham o medo da distância de Deus; o de José era o temor da proximidade desfrutada e a comunhão muito valorizada para ser tratada levianamente. Eles tinham o medo do julgamento; José tinha uma qualidade em perfeita conformidade com o favor em que ele estava. Que Deus aumente este temor piedoso em todos os Seus que conhecem a proximidade e queiram mantê-la em todo seu doce prazer!


As feridas de um amigo

José havia ferido seus irmãos, mas eram “as feridas dum amigo” (Pv 27:6) que ele lhes fazia, e muito melhores que beijos, enquanto estavam em tal estado. Era o tato divino de seu paciente serviço, e ele sabiamente os feriu para que uma cura pudesse ser efetuada, o que os deixaria eternamente gratos pela ferida. A natureza poderia ter sugerido dois outros cursos para José. A vingança o teria levado a dizer-lhes o quanto eles eram ruins e, agora que ele tinha a preeminência acima deles, ele a exercitaria em sua destruição. Ou a natureza poderia ter trabalhado em seu outro caráter, exibindo apenas mel.


Medo de Deus e medo do homem

Se José houvesse tratado com seus irmãos da primeira forma mencionada, com juízo e não graça, ao invés de ter sido produzido o “temor de Deus”, somente haveria produzido “o temor do homem”, que é o que arma um laço (Pv 29:25). Por outro lado, se o amor é exibido à custa da verdade, enquanto o erro permanece sem ser confessado, esse amor reflete apenas o descrédito do seu possuidor. José não faria paz à custa da justiça.


Não pode haver verdadeira paz onde não há uma base de justiça, e tanto na justiça como na paz, a dignidade moral de José foi um tanto grandiosa. Nessas três palavras, “temo a Deus”, havia verdadeiro poder moral. O “temor de Deus” é o caminho mais elevado do Cristão para o benefício mais verdadeiro e é tudo o que precisamos para enfrentar as dificuldades ao longo do nosso caminho. Se deixarmos isso de lado, a estrada que eu chamei de “temor de Deus” é substituída pela estrada do “medo dos homens ou das circunstâncias”, onde a incredulidade produz tristeza e desapontamento.


Mas, voltando aos irmãos de José, eles foram a seu pai Jacó e contaram sua história, e quando os sacos foram abertos em sua presença e “viram as trouxinhas com seu dinheiro, eles e seu pai” temeram. Jacó manifesta o mesmo caráter de seus filhos, e ele estava cheio de temor, incredulidade e pressentimentos de calamidade. Pobre Jacó! Quando essas coisas aconteceram com ele, ele orou? Não, “todas estas coisas vieram sobre mim” foi o seu clamor de lamento, pois ele não foi capaz de ver a mão de Deus em nada disso. Mas Deus estava trabalhando em todas essas coisas para que tivesse aquele final que fez Jacó chorar de alegria, e então se ele olhasse para trás, que desperdício encontraria à sua vista! Tudo o que ele havia feito contribuiu somente para dificultar, ao invés de facilitar, o cumprimento dos propósitos de Deus.


F. T. Heath (adaptado)

 

O Espírito de Poder, Não de Medo


Em 2 Timóteo 1:6-7, Paulo lembra a Timóteo “que despertes o dom de Deus, que existe em ti... Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação”. Tais exortações jamais são dadas a menos que existam circunstâncias que requeiram tais palavras. Elas pretendem ir ao encontro a algumas tendências da carne, para que possamos estar em guarda contra elas. Devemos lembrar que o Senhor lida conosco como somos e leva em conta as circunstâncias em que nos encontramos.


Com relação aos nossos cuidados e provações, Cristo não nos tira deles. Ele nos deixa no mundo e sujeitos a tudo o que é passível ao homem, mas, pela nova natureza, nos ensina a confiar em Deus. Nosso pensamento muitas vezes é que (porque somos Cristãos) iremos escapar das provações, ou então, se estivermos nelas, não iremos senti-las. Este não é o pensamento de Deus a nosso respeito.


O Cristão teórico pode ser sereno e calmo, com bons livros e bons dizeres, mas quando algo de Deus atrapalha sua tranquilidade, você descobrirá que ele é um Cristão mais consciente das dificuldades que existem no mundo e da luta para superá-las. Quanto mais próximo de Deus um homem anda , pela graça, mais terno se torna quanto às faltas dos outros; quanto mais ele vive como um santo, mais consciente ele é da fidelidade e ternura de Deus e de como ela tem sido aplicada a si mesmo.


Jesus no Getsêmani

Na vida do Senhor Jesus, tomemos o Getsêmani: E o que nós encontramos? Nunca uma nuvem sobre Sua alma – calma uniforme. Você nunca O vê fora de Seu centro; Ele é sempre Ele mesmo. Mas tome os Salmos: Não achamos nada dentro d’Ele pronto para romper essa placidez? Os Salmos trazem o que estava se passando por dentro. Nos Evangelhos Ele é apresentado ao homem como o testemunho do poder de Deus com Ele, naquelas mesmas coisas que teriam afligido o homem. Ele falou com Deus sobre eles, e assim O encontramos em perfeita paz, dizendo com calma: “A Quem buscais?”“Sou Eu”. Quão pacífico! Quão dominante (pois a paz no meio das dificuldades comanda)! Quando sozinho, em agonia, Ele pôde suar, por assim dizer, grandes gotas de sangue; Sua calma não era porque Ele não tinha sentimentos em Seu coração. Ele sentiu a provação no espírito, mas Deus estava sempre com Ele nas circunstâncias e, portanto, Ele estava uniformemente calmo diante dos homens.


Não devemos esperar nunca ser exercitados, perturbados ou rejeitados, como se não tivéssemos sentimentos. “Deram-Me fel por mantimento, e na Minha sede Me deram a beber vinagre” (Sl 69:21). Ele sentiu tudo completamente. O ferro entrou em Sua alma. “Afrontas”, diz Ele, “Me quebrantaram o coração”. Mas há essa diferença entre Cristo, no sofrimento e aflição, e nós: Com Ele nunca houve um lapso sequer por um momento entre a provação e Sua comunhão com Deus. Esse não é o nosso caso. Temos primeiro que descobrir que somos fracos e não podemos ajudar a nós mesmos, e então nos voltamos e olhamos para Deus.


Paulo

Onde estava Paulo quando ele disse: “todos me desampararam”? Sua confiança em Deus não foi abalada, mas, olhando ao seu redor no momento em que chegou ao fim de seu ministério, seu coração se partiu por causa da infidelidade. Ele viu a inundação do mal chegando (2 Tm 3-4) e o perigo de Timóteo sendo deixado sozinho, olhando para o mal e sentindo sua própria fraqueza. Para que Timóteo não entrasse em espírito de medo, ele disse: “despertes o dom de Deus, que existe em ti... Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza (poder), e de amor, e de moderação [sábia discrição – JND]. Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes, participa das aflições do evangelho, segundo o poder de Deus” (2 Tm 1:6-8). Se temos o espírito do medo, isso não está vindo de Deus, pois Deus nos deu o espírito de poder. Em Cristo, Deus encontrou todo o poder do inimigo na fraqueza dos homens, e Cristo está agora assentado à direita da Majestade nas alturas.


Era para Timóteo ser participante de aflições? Sim, mas não haveria livramento do sentimento delas? Não; ele deveria ser participante das aflições que devem ser sentidas como um homem, mas “segundo o poder de Deus”.


Isso não quer dizer que não devemos sentir a pressão das tristezas e das fraquezas. Paulo tinha um “espinho na carne” (2 Co 12), e será que ele não o sentia? Sim, ele o sentia diariamente, e era como “um mensageiro de Satanás, para [o] esbofetear”. E o que ele disse? “De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas [naquelas coisas que eu sou mais fraco], para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Co 12:9). O poder de Deus intervindo ao nosso lado não diminui nossa percepção das fraquezas, mas podemos lançar “sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de” nós. Não que no exato momento em que consultamos a Deus, sempre obteremos uma resposta. Daniel teve que esperar três semanas completas por uma resposta de Deus, mas desde o primeiro dia que ele propôs em seu coração entender e se humilhar diante de Deus, suas palavras foram ouvidas (Dn 10). O que frequentemente fazemos é pensar sobre o problema e já começarmos a trabalhar nele sem que antes o apresentemos diante de Deus. Não havia nada desse comportamento em Cristo. “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças Te dou, ó Pai” (Mt 11). Nós acabamos nos cansando pela importância que damos aos nossos próprios caminhos.


“Não estejais inquietos por coisa alguma” (Fp 4:6)

Isso é facilmente dito, mas não deveríamos estar inquietos com o estado da Igreja ou com a pressão que vem sobre uma família? Não! Não devemos “estar inquietos [ansiosos – ARA] por coisa alguma”. Tudo o que produz inquietação [ansiedade] em nós, produz um cuidado de Deus por nós; por isso “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes, as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças” (Fp 4:6). Deste modo, “a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Fp 4:7). Note, não é que seu coração guardará a paz de Deus, mas a paz na qual o próprio Deus está – Sua paz, a estabilidade imutável de todos os pensamentos de Deus – guardará seu coração.


Além disso, quando não estamos ansiosos, a mente é colocada em liberdade; com a paz de Deus guardando o coração, Deus faz com que a alma pense em coisas felizes. “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco” (Fp 4:8-9) Deus está lá, o Companheiro da alma, não apenas “a paz de Deus”, mas “o Deus de paz”.


Quando a alma conta com Deus, o Senhor está com a alma na provação e a mente fica em perfeita calma.


J. N. Darby (adaptado)

 

Temor versus Fé


Certa vez ouvi a história de um menino que foi visitar uma fazenda com seu pai. Quando eles chegaram lá, um pequeno cachorro começou a latir furiosamente para eles. Com medo o menino pulou para cima do carro enquanto o cachorro corria ao redor e latia para ele. Seu pai riu dele, mas ele permaneceu em cima do carro, amedrontado por causa do cachorro. Agora, o que o mantinha no carro? Foi o cachorro? Não, o cachorro não poderia machucá-lo, pois era muito pequeno. Foi o seu medo que o manteve em cima do carro. Por fim, ele superou seu medo, desceu e deu àquele cão um olhar que o fez fugir, para nunca mais ser visto durante aquela visita.


Exatamente dessa maneira Satanás usa o medo para tentar controlar os crentes. O maior desses medos é o medo da morte, que Satanás tem usado para manter muitas pessoas em escravidão. O Senhor Jesus tornou-Se homem e morreu “para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2:14-15). Agora que Ele nos libertou, não devemos temer, “Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação” (2 Tm 1:7). Não tememos Satanás e também não tememos o homem, pois o Senhor prometeu: “Não te deixarei, nem te desampararei. E, assim, com confiança, ousemos dizer: O Senhor é o meu ajudador, e não temerei o que me possa fazer o homem” (Hb 13:5-6).


Não, Deus não nos deu o espírito de medo, mas Ele nos chama a uma vida de fé e confiança n’Ele. Jó sofreu as mais severas provações da parte Deus, no entanto, ele tinha uma confiança inabalável n’Ele, dizendo, “Ainda que Ele me mate, n’Ele esperarei” (Jó 13:15). Mas é o caminho de Deus para salvar e nos preservar, e assim o profeta disse: “Eis que Deus é a minha salvação; eu confiarei e não temerei” (Is 12:2). Deus é nosso Pai e Ele ama e cuida de nós.


T. Ruga

 

“Sou Eu, Não Temais”


No final deste escuro dia

Que a natureza em sua busca nada via,

Pra fé dizia uma “voz mansa” que fluía:

“Sou Eu, não temais”.


Quando altas ondas nosso barco envolve

E a irada voz da tempestade revolve,

Soa então, acima de tudo e a paz devolve:

“Sou Eu, não temais”.


Quando o problema se acumula feroz e forte

E o cansado busca a pausa que o conforte,

Ouve com o coração feliz, invés da morte:

“Sou Eu, não temais”.


Quando as tristezas e aflições permanecem

Em torno dos santos para que tropecem,

Ouvirão, pela centelha de fé que reconhecem:

“Sou Eu, não temais”.


Na dor e na doença, ou na saúde,

Na maior pobreza ou na riqueza que ilude,

Há o poder desta doce palavra em quietude:

“Sou Eu, não temais”.


Em todas as circunstâncias, nos é mostrada

Tua sabedoria, poder e graça ilimitada,

Que sussurro, na luta que é travada:

“Sou Eu, não temais”.


Oh! Bendito Senhor, deixamos de temer;

Nos problemas a Ti mais perto podemos ver,

Onde Tua voz soa a bendizer:

“Sou Eu, não temais”.


G. W. Frazer (1883)


 

“Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação”.

2 Timóteo 1:7


 



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