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Agindo em Comunhão em Assuntos de Disciplina



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ÍNDICE



 

Agindo em Comunhão em Questões de Disciplina

 Henry Forbes Witherby

(1838-1907)

 

  

Quando uma assembleia local age, ela o fará, se agir corretamente, como na presença de Deus, pela autoridade do Senhor e sendo guiada pelo Espírito Santo. Se ela agir assim, podemos corretamente assumir duas coisas: primeiro, que houve sujeição à Palavra de Deus para a formação da decisão quanto à natureza da ação adotada; segundo, que a consciência dos indivíduos que formam a assembleia esteve em contato direto com a Palavra de Deus, e foi governada por ela, quanto ao assunto em questão. O ato da assembleia assim trabalhado será de um só pensamento e será adotado em comunhão.

 

O Perigo de Lideres se Levantar


Em uma assembleia reunida para o nome do Senhor, que está sendo frequentemente ampliada pela adesão de novas pessoas, é evidentemente muito importante que sejam feitas referências à Palavra de Deus quando uma determinada ação for necessária; ou, em todas as questões, que a consciência dos recém-chegados seja exercitada pela Palavra de Deus, evitando que eles, ainda desconhecendo as Escrituras que dizem respeito à questão que está diante da assembleia, venham a tomar parte nela e sejam obrigados por uma ação que, embora correta em si mesma, não comanda a consciência deles quanto aquilo que Deus ordenou que fosse feito. Se esse cuidado não for constantemente exercitado, o resultado será – considerando alguns anos à frente – o surgimento, em algumas pessoas na assembleia, de um espírito de se seguir um líder ou uma maioria, e assim, em alguns indivíduos que compõem a assembleia, a sujeição prática de consciência quanto à ação da assembleia, estará em perigo. E quando tal estado de coisas ocorre em uma determinada assembleia, numa larga escala, certamente o resultado será o governo de líderes, e a ausência de agir em comunhão; e o próprio terreno da assembleia, como reunida para o nome do Senhor Jesus, estará em perigo. Isso não será na prática reunir-se para o nome do Senhor, e buscar a orientação do Espírito, em relação à questão que está diante da assembleia, e, em consequência, os santos agindo como um, mas será, na prática, agir sob a autoridade de A ou B, e sob a direção deste ou daquele irmão. Em resumo: será o homem, não Deus.

 

O julgamento do líder ou da maioria pode estar correto, mas é necessário mais do que apenas fazer a coisa correta. É de importância moral que a consciência de cada indivíduo da assembleia tenha a percepção da responsabilidade para com Deus, e que todos ajam juntos como se estivessem diante de Deus. Quando, por ignorância ou inércia, os membros de uma assembleia passam a seguir um líder ou a se alinhar com a maioria, há, em cada alma, um enfraquecimento muito grande, senão até um abrir mão do princípio da responsabilidade individual de cada santo para com Deus, e também da realidade da presença do Espírito Santo em uma assembleia. Eles estão meramente aceitando um estado de coisas que pertence à assembleia deles, e não estão agindo como guiados pelo Espírito. Além disso, embora a ação seja aprovada, por assim dizer, por toda a assembleia, e assim, externamente, tudo pareça tranquilo, e mesmo que a ação seja correta em si mesma, ainda há decadência espiritual quanto à comunhão e sujeição a Deus.

 

O Ministerialismo

 

Quando a consciência de cada um não está exercitada e a Palavra de Deus não é consultada, sementes estão certamente crescendo que se transformarão em ministerialismo* e na entrega do julgamento e da consciência aos ministros. *(N. do T.: Opinião daqueles que apóiam incondicionalmente um ministério ou governo). O Espírito Santo, em Sua obra em uma assembleia, é, portanto, posto de lado na prática; e quando esse estado estiver desenvolvido, apenas o nome de uma assembleia de Deus permanecerá. Indivíduos piedosos podem de fato estar unidos professamente no terreno da assembleia, mas a vitalidade de sua reunião não subsistirá mais, pois será o homem, e não Deus, que mantém as coisas juntas.

 

A verdadeira ideia de agir em comunhão se perde na alma dos que seguem um líder ou uma maioria, ou, se quisermos, uma minoria, pois o Espírito Santo não está com eles guiando o julgamento da assembleia à obediência da Palavra de Deus, mas o julgamento de A ou B, ou da parte mais influente da assembleia. Essa é uma obra extremamente triste e totalmente indigna da graça de Deus, que abriu nossos olhos para o fato de que é nosso privilégio e dever nos esforçar para manter a unidade do Espírito no vínculo da paz. A opinião de um homem não é a unidade do Espírito, e segui-la é um retrocesso, mesmo para o estado de coisas ao nosso redor, onde, desde Roma e para baixo, os homens entregam sua consciência a seus líderes quanto a questões de disciplina. E temos apenas que considerar o atual estado dividido da Cristandade para ter uma visão correta do resultado do princípio de seguir um líder ou ir com a maioria ou minoria; sim, e estejamos avisados de nosso fim evidente se fizermos como a Cristandade em geral faz.

 

Lideres Estabelecidos por Deus


Aqueles a quem Deus estabeleceu em uma assembleia como líderes ou guias são especialmente responsáveis perante Ele, em direcionar a mente de Seu povo em direção a Ele quanto a esses assuntos. É de profunda importância que a fé esteja em exercício quanto ao fato da presença do Espírito Santo em uma assembleia, e que Ele pode e quer guiar o povo de Deus para a unidade de julgamento. Dizemos que a fé deve estar sendo exercitada quanto a isso, pois se a doutrina for meramente aceita, e os resultados práticos da verdade de Deus, o Espírito Santo, estando conosco, forem ignorados, estamos simplesmente nos expondo a Satanás, mantendo intelectualmente uma verdade, porém negando-a na prática. Se houver fé na presença do Espírito Santo guiando nossa mente, haverá necessariamente também dependência em Deus e paciência. Também em proporção ao nosso grau de verdadeira fé em Deus, nossos próprios caminhos e energias carnais serão totalmente rejeitados. Esforços para obter a maioria, ou para forçar a vontade de uma minoria, ou para levar os pontos de vista especiais de um líder, são indícios certos de independência do Espírito Santo.

 

Se a responsabilidade dos líderes em uma assembleia é grande quanto a direcionar as mentes para a realidade da presença de Deus, o Espírito Santo, também é grande sua responsabilidade quanto ao estado de seu próprio espírito quando uma questão de disciplina está diante de uma assembleia. “Vós que sois espirituais” (Gl 6:1) são reconhecidos por Deus, e “ai” da assembleia, que se considera espiritual, e age contrário ao “espírito de mansidão”, ou recorre a meios, que não estão de acordo com a santidade e a verdade d’Aquele que é o Espírito Santo e o Espírito da Verdade. Atos praticados professamente no Espírito, mas que negam o caráter do Espírito de Deus, são um erro para com Ele e para com o Senhor.

 

Disciplina Revela o Estado Moral da Assembleia


De fato, atos de disciplina, ou, poderíamos dizer, tentativas de disciplina, sempre provam um corpo de Cristãos. Mesmo neste momento, mais de um grande corpo religioso está tremendo com os prováveis resultados que as tentativas de disciplina ameaçam trazer sobre eles. E nós mesmos sabemos que, se um caso de disciplina estiver presente em uma de nossas próprias assembleias, o estado de tal assembleia será revelado por esse fato. Nesse momento, serão ouvidas vozes que raramente, ou nunca, são ouvidas na oração ou na reunião de leitura, e indivíduos estarão ativos cuja atividade espiritual pública geralmente não vai além de comparecer à reunião de adoração no domingo de manhã. Essas pessoas ativas também, de um modo geral, irão causar dificuldades por sua atividade.

 

A disciplina é a coisa mais difícil com a qual uma assembleia tem que lidar, e mesmo que o julgamento do homem que desempenha um papel proeminente nela seja absolutamente correto, ainda assim, se sua alma não estiver em comunhão com Deus, ele não terá peso moral que inspiraria confiança. Suas palavras não terão poder e ele será um obstáculo; pois se deve sempre ter em mente que Cristo Se preocupa com os assuntos da assembleia, e que Seus olhos são como uma chama de fogo penetrando os pensamentos e intenções de todo coração, e que a verdadeira disciplina não pode ser realizada em nossa própria força.

 

Recursos para Agir

 

Por mais fracos que sejamos, se nos colocarmos nas mãos do Senhor e buscarmos honestamente a orientação do Espírito, haverá, para não dizer julgamento, pelo menos instinto para detectar quem está em comunhão com Deus e quem está certo, e também um senso muito forte da diferença entre direito e poder. Precisamos, de uma maneira muito especial, estar perto de Deus ao agir para a glória do Senhor em questões de disciplina, e sentir o mal como se fosse nosso, caso contrário, lidar com o mal tem o efeito de desequilibrar o espírito e prejudicar a percepção moral.

 

Satanás está ativo onde o mal está presente e a disciplina se relaciona com o mal; portanto, é um conflito, e a vitória só pode ser obtida pela obediência à Palavra de Deus e em sujeição ao Espírito Santo. E, mais, há sempre uma tendência contaminadora quando tratamos o mal, mesmo que seja para julgá-lo e colocá-lo de lado; daí a necessidade absoluta de julgamento próprio em tais momentos. Na verdade, quando estamos julgando o mal nos outros, nós mesmos estamos aptos a sermos levados pelo inimigo a uma condição de orgulho.

 

E, por causa disso, não é raro que haja uma crise em uma assembleia, ocasionada por uma dupla ação do erro nela. Por um lado, o mal específico com o qual a assembleia tem ocupado seus pensamentos, com o objetivo de lidar com ele; por outro lado, o mal daqueles que deveriam agir por Deus na questão, mas agem em sua própria força e por meios humanos e não no Espírito, buscando colocar as coisas em ordem para Deus com mãos profanas. E, portanto, Deus, que nunca nega a Si mesmo, tem uma controvérsia com a assembleia, não apenas por causa do mal que ela deveria julgar, mas também por causa da maneira como os homens estão tentando julgá-lo.

 

A disciplina sempre expõe a condição daqueles que formam uma assembleia e, nessas ocasiões, os motivos dos homens, bem como seus julgamentos, tornam-se manifestos. Suponha que um homem, ostensivamente indignado com o mal, mas, por motivos pessoais, irado com aquele que fez o mal; Será que imaginamos que Deus, que prova o coração, controla e pesa as ações, passará por tais pecados como esse? Há apenas uma maneira pela qual qualquer segurança é possível ao lidar ou buscar lidar com o mal, e é agir na luz. Se dermos ocasião à iniquidade em nosso coração, o Senhor não nos ouvirá, e usar o nome do Senhor como um manto para cobrir nossos próprios sentimentos é iniquidade. Santidade convém à Sua casa para sempre.

 

Um Mal Revela Outro Mal


Outra coisa que fica evidente quando a disciplina está diante de uma assembleia é que a detecção de um mal com muita frequência leva a descoberta de outro. Muitas vezes, é como chamar a atenção para o surgimento de uma pequena folha no solo, mas não sabemos se há uma pequena fibra ou muitas raízes grandes se espalhando sob a superfície. Deus permite que as coisas venham à luz, e abre os olhos de Seu povo para o que antes eles eram cegos, e Seu caminho parece ser trazer à luz, aos poucos, as coisas ocultas das trevas. Portanto, há ainda mais necessidade de que haja uma espera sincera n’Aquele que conhece todas as coisas. Quantas longas histórias de tristeza em uma assembleia poderiam nunca ter sido escritas, se as primeiras indicações do mal tivessem sido enfrentadas com oração e jejum!


A Honra do Senhor


Se o mal estiver presente em uma assembleia, a primeira consideração deve ser a honra do Senhor. E ela deve ser limpada a qualquer custo, mas o desejo mais intenso deveria encher cada coração de que é a honra do Senhor pura e verdadeira, que é chamada de honra do Senhor. É uma terrível ilusão quando os Cristãos começam a chamar honra do Senhor aquilo que é deles próprios. Tem havido muitos conflitos, em várias épocas na Igreja em corpos Cristãos, travados ostensivamente pela honra do Senhor, mas na realidade por motivos errados, e o que aconteceu no passado, não somente acontecerá no futuro, mas está acontecendo atualmente. Mas sendo a honra do Senhor estimada à assembleia acima de tudo, deve-se considerar que cada unidade da assembleia é uma parte viva do todo e que, portanto, em cada uma precisa haver purificação em si mesma de acordo com a Escritura e uma consciência exercitada diante de Deus quanto ao mal. Isso certamente criará um estado de humilhação e de julgamento próprio em toda a assembleia.

 

A Recuperação do Transgressor


A próxima consideração deve ser a recuperação do transgressor ou transgressores. Se estamos na luz certamente teremos um verdadeiro desejo para que aquele que cometeu o mal seja levado por Deus a ver o mal e a se arrepender. Quando este for o caso, o transgressor não terá dificuldade em reconhecer, diante da assembleia, o pecado que confessou a Deus. Aquele que confessou seu pecado a Deus e a quem Deus perdoou e purificou de toda injustiça seria o primeiro a defender a Deus contra si mesmo. Uma alma restaurada – alguém que tem estado na luz e foi perdoado – não precisa ser pressionado, a fim de que possa reconhecer seu erro. E onde há verdadeiro arrependimento – tristeza pelo pecado e afastamento dele – o caminho está aberto para a assembleia colocar seu selo sobre a obra que o Espírito Santo operou na alma do indivíduo. Onde Deus restaurou, Sua assembleia pode receber.

 

Deus é justo, e não há injustiça n’Ele. A assembleia está simplesmente agindo por Cristo. Ela está se purificando do mal em nome do Senhor; portanto, quando não houver santidade absoluta, certos problemas se seguirão; pois com a medida que medimos isso nós seremos medidos. Devemos também lembrar que um espírito calmo e imparcial é raro em uma assembleia que está preocupada com uma questão de disciplina. Pois é uma hora crucial para a alma dos homens e, a menos que descansem na presença de Deus e, portanto, em espírito, acima do mal que está em ação e que deve ser julgado, faltará a santa calma. Além disso, a menos que esteja verdadeiramente na luz, o homem é tal que não estará livre da parcialidade, e sem isso um espírito santo e imparcial, que deveria marcar nossas ações em nome do Senhor, não pode existir.

 

A Coisa Certa, da Maneira Errada


Geralmente acontece que se uma assembleia inicialmente for negligente para julgar o mal, quando começar a lidar com ele, será muito severa com o transgressor. Ela vai oscilar de um extremo ao outro. Mas Deus exige que Sua Palavra seja obedecida, e temos que seguir pacientemente em Sua Palavra. Nem a frouxidão nem a injustiça provêm d’Ele, e nenhuma delas existiriam na alma se estivéssemos em comunhão com Ele. Pode não haver grande aversão ao mal em nossa alma, mas pode haver uma repreensível severidade contra o transgressor. Os homens ainda “fora da mesa” poderiam ter sido restaurados se a própria mão que os feriu - e necessariamente feriu - tivesse sido guiada por um olhar de tristeza. Se um pai tiver que ferir seu filho com a vara da correção, o filho perderá mais da metade do valor desse ato se o pai perder a paciência. A criança receberá o castigo, mas os pais perderão sua influência. O Senhor não deseja que Seu povo faça uma obra de disciplina para Ele em Sua Assembleia, a menos que seja como orientado por Ele mesmo. E uma coisa certa não seria feita de maneira errada se houvesse sujeição ao Seu Espírito.

 

Severidade de Coração


E quando há severidade, não de ação, pois a disciplina deve ser severa, mas de coração, geralmente descobriremos que ela surge ou daqueles cuja alma não está livre do próprio tipo de mal com o qual estão tão irados contra o transgressor, ou daqueles que não se julgaram a si mesmos diante de Deus. E basta apenas observar a história daqueles cuja indigna severidade contra o transgressor cheira à vingança, para aprender, com o passar do tempo, que os mesmos homens cujo espírito duro – duro, não em relação ao mal, mas contra o transgressor – afligiram tanto seus irmãos, e acabaram tendo em seu próprio coração as sementes do mesmo tipo de erro que denunciaram em outros. Os tempos da colheita se aproximam, e como os homens semeiam, certamente assim colherão.

 

Esse é um dos sintomas que se nota da perversidade e engano do coração humano. E é uma injustiça com a qual o Senhor certamente lidará. Precisamos, ao lidar com o mal, lembrar as palavras do Senhor sobre a trave em nosso próprio olho, caso contrário, como podemos obter Sua luz para executar um julgamento justo? De fato, vendo esse assunto de qualquer ponto que possamos, somos forçados constantemente a retornar ao estado de alma daqueles que julgam e à percepção da total incapacidade de uma assembleia de agir em comunhão, a menos que haja a orientação de Deus, o Espírito Santo.

 

Responsabilidade de Cada Um


A comunhão prática, o um só pensamento, adquiridos na presença de Deus, quanto à disciplina, resultando na ação das assembleias locais, não é tão comum quanto deveria ser. E não hesitaríamos em colocar essa afirmação na forma de responsabilidade, pois devemos estar mais juntos em oração e na leitura da Escritura, quanto aos princípios de disciplina que surgem na assembleia local da qual podemos fazer parte. É mais fácil conquistar um país do que governá-lo.

 

Não é suficiente que um determinado número de homens tenha sido separado dos sistemas religiosos aos quais uma vez pertenceram, e que eles estejam vencidos pela verdade a ponto de assumir o terreno da expressão da unidade do Espírito; também é necessário que cada um e todos eles vivam sob o governo e a direção da Palavra e do Senhor. Em dias passados, essas verdades relacionadas à Igreja de Deus tinham que ser conquistadas; agora, os homens chegaram a um estado de coisas em que essas verdades são aceitas; mas onde isso e aquilo são tidos como conhecidos, raramente são verdadeiramente aprendidos, pois a consciência não está em exercício. A grande questão para nossa alma quando surge qualquer assunto em uma assembleia local é: “O que diz a Escritura?” e estamos em um estado baixo de consciência em relação a Deus, se, para obter a resposta, nos contentamos em perguntar: “o que A ou B diz?”.

 

Haverá um comportamento adequado por parte dos homens mais jovens quanto a tomar parte na deliberação sobre assuntos de disciplina, mas a consciência de todos deve estar em exercício. E é um dia triste para uma assembleia quando seus líderes, em vez de aguardar a consciência de seus irmãos, tomam a lei em suas próprias mãos e, sem consulta, impõem sua sentença sobre a assembleia. Isso é ministerialismo e negligência da consciência dos outros, e sob qualquer nome que se possa dar a isso, certamente não se está agindo em comunhão como guiado pelo Espírito.

 

Primeiro deve ser considerado aquilo que pode ser chamado de consciência coletiva de uma assembleia; e assim como deve haver um julgamento comum, também deve haver em cada assembleia tal unidade de consciência que não é algo da imaginação falar dela, em seu caráter temente a Deus, como tendo uma consciência comum; e se uma assembleia está assim diante de Deus e na luz, então podem ser somente dois, ou qualquer número. A menos que uma assembleia, como tal, esteja na presença de Deus e sujeita à Sua Palavra, o que possa ser chamado de consciência da assembleia está em um estado insatisfatório.

 

A Consciência do Outro


Não podemos apressar a consciência de um homem, e pode haver nos homens piedosos uma falta de conhecimento da Escritura, o que explicaria sua indecisão. Não é raro encontrar uma assembleia totalmente perplexa com uma questão de disciplina, por causa de alguns que a compõem demonstrar dificuldades de consciência quanto a uma linha de ação desejada por outros. O que é que unirá a consciência de todos em tal caso? A única coisa que pode ligá-las é a autoridade da Palavra de Deus.

 

Se um homem tem uma consciência sobre dias ou comidas, devemos respeitar sua consciência (Rm 14), embora ele possa ser fraco na fé. Certamente, também devemos respeitar a consciência de uma assembleia, se ela for fraca na fé, e devemos buscar paciência para andar em graça e unidade com ela. No entanto, não é a crença de uma assembleia que ela tenha sido guiada pelo Espírito Santo, mas sua obediência à Palavra de Deus que é o verdadeiro poder e aquilo que deve, no final, unir a consciência de outras assembleias. Uma assembleia pode transgredir, como um indivíduo pode, ao anunciar que foi guiada por Deus, o Espírito Santo, mas é um mal muito mais sério para uma assembleia fazer isso do que um indivíduo em particular.

 

Conselho de Outros


Se uma assembleia for fraca, e um caso muito difícil se apresentar diante dela, ou se a assembleia estiver dividida em seu julgamento, então, o conselho de um “irmão” ou “irmãos” de outra assembleia, é frequentemente procurado. E é muito comum que um irmão, com sabedoria ou não tendo interesse próprio no caso, transmita o que Deus permitiu que ele transmitisse a outros; mas uma distinção muito cuidadosa deve ser zelosamente mantida entre conselho sendo dado graciosamente e consciências sendo ignoradas. Um “irmão” que não seja da assembleia local, onde há alguma questão causando perplexidade, tem a vantagem de abordar o assunto sem estar envolvido pessoal ou emocionalmente; porém, ele também tem a desvantagem de ouvir apenas um lado da questão por aqueles com quem ele talvez esteja inicialmente em contato. Mas ai do irmão que procura resolver as coisas com sua própria sabedoria, por mais sábio que seja, ou em seu próprio poder, por mais forte que seja, pois se a consciência coletiva da assembleia local não for considerada, Deus será ignorado.

 

Alguém se Revestindo de Poder para Tratar


Quando um irmão vai a uma assembleia local se investindo a si próprio de poder, e com suposta capacidade interior de corrigir as coisas, sua missão terminará em tristeza. Por um lado, ele desafia a consciência dos homens, e por outro, a ação do Espírito. Até mesmo o apóstolo agiu inicialmente sobre a consciência dos santos em Corinto – embora usando seu poder apostólico para corrigir as coisas entre eles – enquanto que em nossos dias de fraqueza declarada, em que não há nenhum poder apostólico, o princípio de se esforçar para impor sobre a assembleia uma linha de ação, que talvez possa ser errada, e sem a sabedoria apostólica, é simplesmente contraditório com o que aceitamos ser o princípio da Escritura. Não admira, então, que onde tais coisas são feitas ou tentadas os resultados são tão miseráveis. E tal deve ser também o estado de qualquer assembleia que, quando o mal está diante dela, se contenta em deixar a consciência dormir e o ministerialismo administrar seus assuntos. O ministerialismo termina em divisão.

 

Que o mal seja enfrentado na presença de Deus, e se não houver unidade de julgamento, que a oração seja feita, e se todos forem honestos, Deus dará unidade de julgamento. Há apenas um Espírito, e onde todos são de coração simples, o único Espírito dará unidade de mente e, então, o resultado será agirem em comunhão. A principal consideração deve ser sempre a de despertar a consciência de uma assembleia vagarosa. Se uma assembleia não lidar com o mal, ela perde seu caráter como uma assembleia de Deus; mas geralmente haverá uma grande proporção de homens honestos em cada assembleia, embora alguns possam estar sonolentos e outros ignorantes; Por isso, é preciso paciência.

 

Interferência Externa


Quando uma assembleia local tenta assumir os assuntos de outra assembleia local, o resultado é a confusão, pois Deus não reconhece tal interferência. É o mesmo que um irmão individualmente vir para corrigir as coisas em outra assembleia, em uma escala maior. As coisas pioram, pois o princípio vital – de que a própria assembleia deve agir diante de Deus – é ignorado. Certamente é correto rogar para uma assembleia hesitante para agir, encorajando-a assim, a entrar na presença de Deus, mas para outra assembleia, ou para um indivíduo impor a regra, é simplesmente ignorar o estado em que a assembleia deva estar diante de Deus, e é tirar a questão das mãos de Deus.

 

A paciência também é necessária, pois, geralmente, o julgamento de uma assembleia sobre qualquer tipo de mal é apenas uma expressão do estado moral dessa assembleia. Há, por exemplo, corpos de Cristãos que olham com muita leviandade para doutrinas que são realmente subversivas da própria honra de Cristo. Por que isso acontece? Porque seus membros, geralmente, são indiferentes ao mal das doutrinas. De tempos em tempos, ouvimos falar cisões de grupos organizados de Cristãos, porque um ou outro membro não pode tolerar uma coisa má à qual o corpo, do qual ele é membro, é indiferente; mas a massa continua como antes, e encontramos também um processo gradual de fermentação na massa, e assim os Cristãos geralmente se tornam, de forma dolorosa, cada vez mais indiferentes quanto às mais graves doutrinas ensinadas pelos membros de suas denominações. Assim, quando uma encoberta doutrina maligna se revela numa assembleia local, descobrimos que raramente cada um dos membros percebe sua gravidade de imediato, e isso mostra quão baixo é o estado da assembleia local, e indica que cada um deles não está atento para a importância do mal que se manifesta.

 

Doutrina e Prática


A doutrina é, em alguns aspectos, mais fácil de lidar do que a prática. E aqui novamente o estado da alma e o caráter de consciência da assembleia são testados pela ocorrência de uma prática maligna em um daqueles que a compõe. Os instruídos e dotados coríntios eram cegos e indiferentes ao seu estado dividido, e também se vangloriavam da presença de um crime horrível em sua assembleia, e assim vemos qual era sua verdadeira condição moral. Podemos ter certeza de que a maneira pela qual encaramos o pecado é realmente a maneira na qual, na prática, estamos, ou não estamos, na luz. Se houver honestidade diante de Deus, haverá simplicidade quanto ao certo e ao errado. “Se os teus olhos forem bons [simples – TB], todo o teu corpo terá luz” (Mt 6:22). Nenhum procedimento dissimulado se recomendará à honestidade, nem o sentimento partidário para proteger o transgressor se aprovará diante daquele que está na presença de Deus. E o que se deseja sinceramente é que todos de cada assembleia estejam tão na luz para que não haja vontade alguma, a não ser aquela que fará a vontade de Deus. Mas é preciso insistir que, para isso, é da maior importância que cada indivíduo esteja diante de Deus com a consciência limpa e honesta.

 

“Heresias Entre Vós”


Sabemos que deve haver heresias entre nós para que os aprovados se manifestem e se olharmos para Éfeso (em Apocalipse 2) ou Corinto, ou lermos as epístolas posteriores, descobrimos, infelizmente, que mesmo nos tempos apostólicos, e desde os primeiros dias, os santos de Deus foram expostos a esse perigo. Todos nós devemos passar pela peneira e sofrer provação. O caminho para a glória não é um mar de rosas; felizes os que vencem.

 

Nos dias atuais não podemos enviar nossas dificuldades para “Jerusalém”, pela mão de um ou dois, “aos apóstolos e anciãos sobre esta questão” (At 15). Não há nenhum concílio divinamente designado para os santos de Deus consultar. Não há apóstolos, e onde estão os anciãos? Não dizemos que eles, como acontece com os apóstolos, não existem; pois certamente existem anciãos, mas onde estão? Agora não há nenhum apóstolo para comissionar um Tito, com autoridade e sabedoria divinamente dadas, para “que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros” (Tt 1:5). Também não há uma assembleia reunida composta por todos os crentes em qualquer cidade para nomear os anciãos. Quanto aos anciãos em si, em referência às nossas assembleias, há muitas cidades e locais onde existem nossas assembleias, em cuja cidade os anciãos não estão reunidos conosco em nome do Senhor Jesus, mas ainda estão em denominações! Estamos vivendo nos dias em que a Cristandade está em um estado de desordem e confusão, e quando a organização da Cristandade é humana; por isso, nós, que como um pequeno remanescente, como uns poucos pobres e fracos, estamos reunidos para o nome de nosso Senhor, devemos ser humildes e encontrar nossa força em nossa própria fraqueza. Com anciãos ou sem anciãos, tudo ficará bem se dependermos do Senhor e obedecermos à Sua Palavra, e mesmo que tivéssemos vivido em dias apostólicos e tivéssemos anciãos em todas as cidades, não teríamos nos dado bem se dependêssemos de anciãos. Não devemos confiar no homem, mas em Deus.

 

Assumindo Nosso Lugar na Falha Geral


E de que vale um homem no cargo, a não ser que ele próprio seja verdadeiro? Pode haver em uma assembleia local tanto anciãos quanto supervisores, mas talvez nela não haja nenhum dos dois. Assim como há conosco mestres, pastores e evangelistas, também existem anciãos e supervisores, mas não podemos dizer que os tais estão em cada assembleia, e tanto um ancião ou supervisor não pode ser estabelecido pelo homem assim como não se pode estabelecer um mestre, pastor ou evangelista. Por isso, nós, sem organização aos olhos dos homens, estamos na posição, como corpo eclesiástico, de sermos verdadeiros e honestos diante de Deus em dias de confusão e de fraqueza. O que pode ser melhor do que isso em nossos dias? Desde que sejamos honestos e verdadeiros, ocupando um lugar de fraqueza e de dependência diante de Deus.

 

Se o estado de fraqueza decorrente da condição desordenada da Cristandade for reconhecido, e uma atitude honesta de fraqueza permanecer diante de Deus, Ele guiará por Seu Espírito quanto a todas as questões que causam ansiedade. Que os irmãos da assembleia local deliberem sobre a Palavra de Deus a respeito das questões em seu meio, e busquem Sua direção. O que diz a Escritura? Essa é a pergunta mais importante, a qual, quando respondida, vincula a consciência. Quando uma assembleia, por mais fraca que seja, estiver fielmente diante do Senhor, e esperando n’Ele, Ele a apoiará e, no final, será guiada pelo Espírito Santo de acordo com a Palavra de Deus. Então a ação da assembleia será em comunhão, comunhão essa efetuada pelo Espírito de Deus, e o que eles ligarem na Terra, em governo, será ratificado no céu.


H. F. Witherby


 

 

 

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