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Disciplina Cristã - Parte 2 (final)

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ÍNDICE


Com que Espírito e Maneira a Disciplina Cristã Deve Ser Exercida e Aplicada?

De que modo deve ser aplicada a disciplina Cristã?

Aqueles que Causam Seitas e Divisões

Comentários Finais

 

Disciplina Cristã

Julius Anton Wilhelm Eugen von Poseck

 

3. COM QUE ESPÍRITO E MANEIRA A DISCIPLINA CRISTÃ DEVE SER EXERCIDA E APLICADA? 


A disciplina Cristã deve ser exercida no espírito de graça e verdade. Pela graça somos salvos. A graça mantém nosso homem interior assim como nosso homem exterior é mantido pelo poder de Deus em nosso caminho, através do território de um inimigo cruel e sutil, em direção ao nosso descanso final e glória com Cristo. A graça, então, deveria ser a nota tônica de toda a verdadeira disciplina Cristã, e a verdade em justiça e em santidade deveria caracterizá-la. Ao longo das Santas Escrituras, graça e verdade andam de mãos dadas, de capa a capa. “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”,

 

Ele “habitou entre nós cheio... de graça e verdade”. Mas a Escritura não diz que da Sua plenitude recebemos “graça e verdade”, mas sim “graça sobre graça”. A graça, então, deveria ser a tônica da disciplina Cristã. Estamos demasiado inclinados a tratar com graça conosco próprios (pelo menos em nossa opinião) e  com verdade com nossos companheiros Cristãos. Sempre que for necessário lidar com nossas próprias faltas, queremos que nossos irmãos nos tratem com graça e verdade; mas no caso da falha de um irmão, procedemos com muita frequência como se estivesse escrito “verdade e graça”.

 

Quando o Senhor falava da disciplina Cristã, Pedro Lhe perguntou: “Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?” Ele evidentemente pensou ter expressado a mais plena medida de graça ao dizer “sete vezes”, sendo esta a expressão da perfeição espiritual. Mas qual foi a resposta do Senhor? Ele indicou um número ainda mais perfeito. “Jesus lhe disse: Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete”, e então acrescenta a solene parábola do Rei “que quis fazer contas com seus servos”.

 

Caro leitor Cristão, talvez devamos nos perguntar: “Quantas vezes você e eu temos perdoado um irmão que pecou contra nós? Receio que, se o mesmo irmão pecasse contra nós pela sétima vez, a graça se tornaria um esforço para nós. Nesse caso, deveríamos estar inclinados a pensar que em nós “a graça teve sua obra perfeita” e que ele está transformando “a graça em dissolução [libertinagem – ARA]. Mas se você e eu, leitor, já ultrapassamos o número “sete”, sentiremos tanto prazer em exercer a graça em “perdoar uns aos outros”, “assim como Cristo nos perdoou”, que muito antes de termos alcançado o número setenta, – para não falar de setenta vezes sete, isto é, 490 – teremos deixado de contar, caso realmente tivéssemos nos esforçado com aquela tarefa desagradável “até sete vezes”.

 

No décimo terceiro capítulo do Evangelho do apóstolo João, essa graça manifesta-se em todo o seu caráter amável e comovente. Ali contemplamos Jesus como “Filho Sobre sua própria casa”, exercendo disciplina no caso mais solene de Judas Iscariotes. Ali, a traição mais sombria que já existiu ou existirá teve que ser enfrentada. E com que espírito e maneira Jesus exerceu essa disciplina? Foi com a vara, o “azorrague de cordéis”, em Sua mão, como no caso bem diferente de João 2? Não, mas em perfeita graça do início ao fim, embora o tempo todo na verdade. Pois Ele habitou entre nós em “graça e verdade”. Quantas vezes, nos casos nos quais a disciplina da Igreja se tornou necessária, estamos inclinados a tratar graciosamente o irmão que pecou, se ele não nos ofendeu pessoalmente, especialmente se for nosso amigo ou parente nosso! Estamos então muitas vezes inclinados a colocar toda a ênfase na graça em detrimento da verdade. Porém, nos casos em que ele foi aborrecedor ou pessoalmente odiado por nós, estamos inclinados a fazer o oposto, colocando toda a ênfase na verdade. Quão diferente foi Seu procedimento, que é nosso padrão assim como nosso Salvador. Quando a santidade da casa de Seu Pai estava em questão, Ele tratou com verdade aqueles que contaminaram o templo. Mas no caso da mais negra traição e ingratidão de Judas Iscariotes contra Sua própria Pessoa, Ele age com uma graça tão perfeita que, para a mente natural, quase parece que houve muita graça adiante da verdade. Mas logo veremos que este não foi, nem poderia ser, o caso de Sua parte, com Quem a graça nunca foi separada da perfeita verdade, e a verdade nunca da perfeita graça.

 

Não são poucos os que se recusam a acreditar que Jesus poderia ter lavado os pés de Judas Iscariotes; como tal graça, mostrada a um traidor inescrupuloso e endurecido, não apenas pareceria jogada fora, mas dificilmente estaria de acordo com a dignidade do Senhor. Receio que aqueles que pensam assim tenham entrado muito pouco no espírito desse capítulo glorioso. De todo o seu teor e conexão, não pode haver dúvida de que o Senhor lavou os pés de Seu traidor, assim como lavou os de Seus outros apóstolos. (Compare os versículos 10 e 11).

 

A mesma graça e amor que fizeram o “Bom Pastor” trocar o Seu glorioso lar celestial por este mundo entenebrecido pelo pecado, o lar da miséria e da morte, a fim de procurar, primeiro as ovelhas perdidas de Israel, e depois as ovelhas que “não eram daquele aprisco”, moveram Aquele que era a graça e a verdade personificadas, a esgotar todos os meios dessa graça e verdade, para alcançar o coração e a consciência até mesmo daquele que, enquanto comia Seu pão, levantou o calcanhar contra Ele,

 

“Mas por que todas essas tentativas”, alguns talvez raciocinarão: “se Jesus  sabia antes que seriam em vão, sendo Judas o filho da perdição?”

 

Seus pensamentos não são nossos pensamentos, leitor, nem Seus caminhos e Seu coração são nossos. A onisciência e o conhecimento perfeito do Filho de Deus não poderiam limitar a atividade da graça do perfeito Filho do Homem. O que poderia ser mais adequado para atingir a consciência até de um Judas e amolecer seu coração duro, do que vê-Lo, a Quem ele estava prestes a trair, inclinando-Se a seus pés para realizar o humilde serviço de lavá-los? Deveríamos ter pensado que (cada vez que aquelas mãos, que alimentaram aqueles milhares de famintos, curaram os enfermos e abençoaram as criancinhas, e durante mais de três anos deram ao Seu apóstolo o pão de cada dia e o abençoaram e o partiram com ele, com seu toque suave, aplicaram a água purificadora nos pés de Judas Iscariotes), seu coração deveria ter jorrado e descarregado através de seus olhos, até que as correntes purificadoras de lágrimas penitentes se misturassem com a água purificadora ao redor de seus pés. E quando Ele ouviu Pedro dizer: “Senhor, Tu lavas-me os pés a mim?... Nunca me lavarás os pés”, e então a voz santa, mas sempre graciosa, do Mestre dizendo: “Vós estais limpos, mas não todos” e quando Ele, a Quem Judas também chamou de Senhor e Mestre, Se agachou a seus pés para lavá-los da mesma forma, não deveríamos ter pensado que os pés trêmulos do traidor teriam recuado, trazendo-o de joelhos publicamente para assumir sua profunda queda e a cobiça que causou isso? E quando a mesma voz calma, imperturbável e ao mesmo tempo tão graciosa acrescentou aquelas palavras de advertência: “O que come o pão Comigo levantou contra Mim o seu calcanhar”; e quando Jesus, “turbou-Se em espírito e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de vós Me há de trair” (estas últimas palavras de graça e verdade, dirigidas ao coração e à consciência de Judas Iscariotes); e quando “os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem de quem Ele falava” – não deveríamos ter pensado que se a menor centelha de um sentimento melhor estivesse em seu coração, ou o menor movimento de arrependimento em sua consciência, tal palavras ditas por tal Mestre teriam evocado ali uma resposta?

 

Mas o coração e a consciência de Judas Iscariotes tornaram-se tão duros quanto as trinta moedas de prata que ele recebeu dos principais sacerdotes e dos fariseus. Por mais de três anos ele tinha caminhado ao lado do Filho de Deus. Ele tinha visto e ouvido Suas poderosas e graciosas palavras e ações. Mas enquanto caminhava dia após dia como testemunha ocular e auditiva, ou melhor, como um apóstolo ao lado d’Ele que era “Deus manifestado na carne”, seu coração era um oculto santuário de ídolos, onde o “mamon da injustiça” (Lc 16:9 – JND) estava entronizado. Somente o seu corpo, mas não o seu coração, estava na presença do Filho de Deus. Assim, todos os seus privilégios serviram apenas para endurecer inteiramente sua alma e tornar ainda maiores sua medida de responsabilidade, sua profunda queda e o julgamento que se seguiu.

 

O discípulo do seio “a quem Jesus amava”, e que em nosso capítulo mais solene e ao mesmo tempo tão abençoado Lhe pergunta com simplicidade infantil: “Senhor, quem é?” dirigiu em sua velhice a todos os filhos de Deus a solene ordem: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos”.

 

Jesus respondeu à pergunta de Seu amado discípulo com “É aquele a quem Eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão”.

 

A graça chegou ao seu ponto mais extremo possível e esgotou seu último remédio. Nada restou além do julgamento. Aquela parte das Santas Escrituras, pronunciada em solene advertência por nosso gracioso mas verdadeiro Mestre, foi cumprida: "O que come o pão Comigo levantou contra Mim o seu calcanhar”[1]. “após o bocado, entrou nele Satanás. Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa”. “E, tendo Judas tomado o bocado, saiu logo. E era já noite”. Palavras solenes! [1] Até agora nenhum árabe comeria pão com alguém contra quem nutre quaisquer intenções hostis.

 

O Senhor, o “Filho sobre Sua própria casa”, exerceu disciplina, mas não até que todos os meios da graça tivessem sido esgotados. Compare 1 Coríntios 5:2.

 

Leitor Cristão, demorei-me mais do que o habitual neste caso de disciplina, único em sua terribilidade, não para julgar um traidor, mas para julgar nosso próprio coração traiçoeiro. Judas, embora não convertido, era um homem de paixões naturais semelhantes às nossas. Quão pouco, infelizmente, temos aprendido com nosso gracioso Mestre, que mostrou tanta paciência e graça ao Seu traidor, a exercer graça e paciência para com nossos irmãos errantes em Cristo, ignorando a ordenação do apóstolo da Igreja: “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai [restaurai – TB] o tal com espírito de mansidão, olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado” (Gl 6:1).

 

Ouça as palavras do inspirado Tiago: “Irmãos, se algum de entre vós se tem desviado da verdade, e alguém o converter, saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma alma e cobrirá uma multidão de pecados” (Tg 5:19-20).

 

Quantas vezes exercemos a graça sem a verdade, ou lidamos com a verdade sem a graça! É difícil dizer qual das duas formas seria a pior.

 

De que modo deve ser aplicada a disciplina Cristã?

 

Tendo já falado sobre o modo de exercer disciplina Cristã nos seus dois primeiros aspectos, agora só temos que considerar o modo e a maneira pela qual a disciplina da assembleia deve ser aplicada.

 

Em primeiro lugar, faremos bem em lembrar que a forma de aplicar a disciplina na Igreja está intimamente ligada ao espírito com que deve ser praticada, sobre o qual me detive no artigo anterior. Pois se no exercício da disciplina da Igreja o Espírito da graça e da verdade estiver ativo dentro de nós, esse Guia divino, habitando em nós, não entristecido, Ele não deixará de guiar no caminho e na maneira de realizá-la. Apenas estejamos sempre conscientes de que este bendito Espírito da verdade pode e nunca nos levará a agir sem, e muito menos contrariamente, a Palavra ditada por Ele mesmo, que é a verdade.

 

E o que é especialmente que encontramos expresso de forma tão distinta e decidida na Palavra de Deus quanto à maneira de pôr em prática a disciplina da Igreja? Não é a responsabilidade comum dos membros de Cristo diante d’Ele, nosso Cabeça em glória, bem como a responsabilidade mútua deles, quanto a qualquer pecado não julgado que desonra a Deus, contaminando a assembleia como tal? Tomemos novamente o caso de Corinto. Aquela Igreja havia caído a uma condição espiritual tão baixa, que se tornou desatenta à sua responsabilidade de purificar-se “do fermento velho”.

 

Como agiu o apóstolo nesse caso desesperador, humanamente falando? Ele convocou uma conferência privada com Tito, Timóteo, Estéfanas, Fortunato e Acaico e alguns outros de seus companheiros de labuta, a fim de chegarem a uma conclusão e decisão neste assunto? Será que ele disse a eles: “A condição da Igreja em Corinto está tão ruim e espiritualmente tão baixa, a vida espiritual tão fraca, a carne tão forte e prevalecente, e as consciências tão sonolentas e inertes, que não resta nada além de tomar o problema em nossas próprias mãos, e nós decidirmos, em vez deles, em tirar aquela pessoa ímpia da assembleia”? Será que ele envia Tito ou Timóteo ou Estéfanas a Corinto com uma mensagem à assembleia, de que ele, como apóstolo, ou, digamos, ele e os outros irmãos com ele resolveram tomar a disciplina necessária da Igreja em suas próprias mãos, e, realizando isso por eles, expulsou aquela pessoa má do meio deles?

 

Qual teria sido o efeito de tal ação? Ora, se a Igreja de Corinto, tivesse se “curvado” a tal resolução, e, agindo de acordo com ela – tivesse considerado aquela pessoa iníqua como tendo sido expulsa do meio deles – teria agido no temor do apóstolo e dos irmãos com ele, em vez de agir sob a direção do Espírito Santo e no temor do Senhor. A consciência e o coração dos coríntios não teriam sido exercitados diante de Deus, em Sua santa e graciosa presença, quanto ao mal que haviam permitido em seu meio. Ao se livrarem de um mal, teriam apenas aberto a porta para outro mal, trocando assim um “fermento” por outro.

 

Mas o que o apóstolo fez? Em seu caráter e autoridade como tal, ele realmente disse: “Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos [reunidos – ARA, congregados  - TB] vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus”.

 

Mas antes de tudo o apóstolo diz (v. 4): “vós e o meu espírito estando juntamente reunidos, com o poder do Senhor Jesus Cristo” (JND). Embora falando como apóstolo, ele se identifica inteiramente com a Igreja de Corinto simplesmente como um membro do corpo de Cristo, dizendo: “vós e o meu espírito estando juntamente reunidos, com o poder do Senhor Jesus Cristo” (não “com meu poder apostólico”). Ele procura trazer a consciência dos coríntios para a presença de Cristo, em vez de para a sua própria presença apostólica, para que possam agir “no temor de Cristo”, e não no temor do apóstolo, isto é, no temor dos homens. Embora, em virtude de sua autoridade apostólica, ele estava entregando aquele ímpio a Satanás para a destruição da carne (Jó 2:6-7), ele ao mesmo tempo tem o cuidado de lembrar aos coríntios de sua própria responsabilidade por agirem eles próprios na aplicação da disciplina da Igreja, pois ele continua: “Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora”. Ele não diz: “Nós excluímos essa pessoa do meio de vocês, e tudo o que vocês precisam fazer é notificar isso à assembleia”, mas: “Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo”.

 

É verdade que o mesmo apóstolo escreve aos hebreus: “Obedecei a vossos pastores [guias – ARA] e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil”. Também faremos bem em lembrar que o apóstolo escreve aos Coríntios no final da mesma Epístola: “vos rogo, irmãos (sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia e que se tem dedicado ao ministério dos santos), que também vos sujeiteis aos tais e a todo aquele que auxilia na obra e trabalha”.

 

Não permita Deus que alguém diga ou escreva qualquer coisa que tenha a tendência de enfraquecer ou minar a autoridade espiritual dada pelo próprio Senhor aos que lideram, aos pastores, mestres, aos que supervisionam, e que incite ou fomente nas Igrejas um espírito de desrespeito e oposição contra qualquer verdadeira autoridade espiritual, designada por Deus. Tal espírito não vem de cima, mas de baixo, como aprendemos na Epístola de Judas, onde somos advertidos contra dois extremos malignos. Um é o de “admirando as pessoas por causa do interesse”, e o outro é o de “desprezam a dominação e maldizem as dignidades” (TB). Cada um dos dois é um grande pecado, mas enquanto o primeiro é inerente à natureza humana (embora não seja menos pecaminoso e odioso), o último é diretamente diabólico e abominável.

 

Mas quando aqueles que têm sido vistos como líderes, tornaram-se tão desatentos à sua responsabilidade para com o Senhor e à sua obrigação para com a Igreja de Deus, decorrente da posição que ocupavam ali, a ponto de tentarem, especialmente em casos da disciplina da assembleia, conduzir as consciências dos santos praticamente para longe de Cristo sob sua própria superintendência e autoridade, eles não devem mais ser considerados nem tratados como “líderes”, mas como “enganadores” ou “impostores”.

 

Apenas alguns anos atrás, o escritor destas linhas permaneceu algum tempo como visitante em um determinado distrito (não da Grã-Bretanha), onde havia numerosas reuniões constituídas por aqueles que professavam, defendiam e ensinavam as verdades simples da igreja de Deus, conforme apresentadas nas Escrituras. Entre eles, tornou-se uma prática comum que, por meio de uma certa reunião em uma grande cidade (a “Jerusalém”, por assim dizer, para todas as reuniões no país, pelo menos para tantas quantas estivessem dispostas a reconhecer tal lealdade e dificilmente havia alguma que ousasse renegá-la), casos de disciplina da assembleia eram tomados em mãos e levados a efeito, não apenas para reuniões vizinhas, mas também para reuniões distantes. Durante suas sessões privadas de sábado à noite numa casa particular, alguns “irmãos governantes”, como eram chamados, resolviam entre si qualquer caso de disciplina da assembleia que tivesse surgido em alguma reunião daquele centro metropolitano, A decisão deles então era divulgada à assembleia na manhã do Dia do Senhor como um fato consumado que não admitia contradição. Mas esses “irmãos governantes” não limitaram a sua atividade aos casos de disciplina na assembleia a qual eles pertenciam. Eles também se ocupavam de questões de disciplina da Igreja que surgiram em reuniões vizinhas e até mesmo em reuniões distantes, e então enviaram um ou dois delegados à reunião em questão, a fim de notificar aquela reunião no próximo dia do Senhor como um fato consumado que tal irmão ou irmã foi tirado fora da assembleia pelos irmãos em “Jerusalém”. Numa dessas ocasiões, ocorreu até que um irmão, que protestou contra tal procedimento, também foi excluído por “insubordinação”.

 

Onde está o temor de Deus em tais procedimentos? Onde está a Palavra de Deus para justificá-los? O que acontece com a direção do Espírito Santo na assembleia? E quanto ao devido respeito à consciência dos santos? “Dominais sobre elas com rigor e dureza” (Ez 34:4). Eu “livrarei as Minhas ovelhas da sua boca, e lhes não servirão mais de pasto” (v. 10).

 

Pode haver questões de disciplina da assembleia, como por exemplo, em casos de imoralidade, desonestidade e doutrina maligna, onde a verdadeira sabedoria, amor e cuidado piedoso pelo rebanho de Cristo proibiriam igualmente fazer com que toda uma assembleia, jovens e velhos, se familiarizasse com todos os detalhes de tais pecados graves. Tal procedimento não só não seria útil para a condição espiritual dos santos, especialmente dos jovens, mas muitas vezes seria exatamente o oposto. Dificilmente se pode imaginar algo mais prejudicial à vida espiritual, ao progresso e ao crescimento de uma assembleia do que tal procedimento. O mesmo aconteceria em casos de doutrina maligna, onde a influência envenenadora da alma muitas vezes se mostraria ainda mais desastrosa.

 

Em casos como estes, parece não apenas aconselhável, mas indispensável para o bem-estar espiritual de uma assembleia, que alguns irmãos mais velhos, de peso e inteligência espiritual, assumam os casos de disciplina mencionados acima e peneirem o todo antes de serem apresentados à assembleia para decisão. Desta forma, a consciência dos santos que formam a assembleia é devidamente exercitada diante de Deus, sem que o coração deles tenha sido contaminado por estarem ocupados com as peculiaridades do fermento que teve que ser eliminado. Tendo a assembleia então decidido quanto à necessidade da exclusão, ela é divulgada no primeiro dia da semana seguinte.

 

Esta maneira de levar a efeito o ato solene de disciplina está de acordo com Deus e Sua Palavra, e é muito diferente das formas ímpias de procedimento mencionadas acima. No primeiro caso, onde alguns “irmãos governantes” assumem sobre si a disciplina a ser exercida pela assembleia, a consciência dos santos é deixada sem exercício diante de Deus e, em vez disso, colocadas sob a autoridade humana. No último desses dois procedimentos perversos, é onde toda a reunião, jovens e velhos, são informados e, por assim dizer, familiarizados com os detalhes do fermento contaminador em todos os tipos de casos vergonhosos, há um perigo muito grande para o coração, especialmente dos tenros cordeiros do rebanho, familiarizando-se com o mal e, consequentemente, insensíveis ou indiferentes, se não forem realmente envenenados por ele. É difícil dizer qual dos dois seria o pior: o endurecimento da consciência pela falta de exercício diante de Deus; ou a contaminação e envenenamento do coração devido ao excesso de exercícios e detalhes que exigem disciplina.

 

Que o Deus de toda graça, por meio do Espírito da verdade, do poder, do amor e de uma mente sã, nos guie e abençoe com aquela sabedoria que vem do alto, para que sejamos cheios “do fruto da justiça” até o dia de Cristo, e não nos envergonhemos diante d’Ele na Sua vinda.

 

Finalmente, gostaria de observar que há dois casos em que a retirada pessoal de um santo de uma reunião seria não apenas justificada, mas imperativa. O primeiro caso é o de uma assembleia que se recusa obstinadamente a excluir aqueles que são culpados de injustiça e imoralidade. O segundo é o de uma assembleia que permanece em comunhão com pessoas culpadas de heresia e heterodoxia (doutrina maligna). Sendo a disciplina uma das características essenciais da Igreja, como “casa do Deus vivo”, uma assembleia que recusa essa disciplina, deixa de ser uma assembleia no sentido da Palavra de Deus, por abrigar voluntariamente o mal e recusar julgá-lo e excluí-lo. Somente que todo o esforço bíblico é devido em advertência e súplica antes que tal passo extremo possa ser legitimamente dado.

 

Quanto à obrigação divina de cada crente de separação absoluta em casos de heresia e heterodoxia, isto tornou-se, especialmente nestes “tempos trabalhosos” e “últimos dias”, um assunto de tão suma importância, que, antes de encerrar estas observações sobre a questão Cristã disciplina, pretendo oferecer em meu próximo artigo algumas observações distintas sobre esse assunto.

 

Aqueles que causam seitas e divisões 

Quanto ao procedimento bíblico no caso daqueles que causam seitas e divisões, a Palavra de Deus é bastante clara:

 

“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e, com suaves palavras e lisonjas, enganam o coração dos símplices” (Rm 16:16-17).

 

O dever da Igreja nesse caso é inconfundível. Pois nenhum Cristão piedoso afirma que o apóstolo aqui (como em 2 Tessalonicenses 3) se contentaria em se abster de ter comunhão pessoal com aqueles que agem de forma contrária à doutrina dos apóstolos, minando e destruindo a Igreja, o templo de Deus, causando divisões e ofensas, e enganando o coração dos simples. Uma assembleia que sancione tais pessoas no seu meio, abrindo assim a porta ao inimigo e destruidor, apenas mostraria que ela não tem noção do que é devido a Deus e ao Seu Filho, e à Igreja, como sendo a casa do Deus vivo. Se eles perseverassem, apesar dos protestos dos piedosos, em recusar exercer a disciplina da Igreja, eles finalmente perderiam o caráter de uma assembleia de Deus, e para os piedosos entre eles não restaria outra alternativa senão a separação daquilo que não mais seria uma assembleia de Deus. Mas o apóstolo começou justamente com um apelo aos fiéis a notarem esses tais, a fim de que eles se arrependam.

 

E se a separação se torna um dever para todo crente verdadeiro e fiel onde a contaminação do templo de Deus está em questão, quanto mais quando a honra de Deus e do próprio Filho está em jogo, como quando a heresia assumiu o caráter de heterodoxia, ou seja, doutrina falsa e que desonra a Deus! As determinações das Santas Escrituras, embora bastante claras no primeiro caso, são aqui ainda mais distintas e solenemente decisivas, como mostram as seguintes passagens: 1 Co 15:12-19, 33-34; Gl 5:7-12; 1 Tm 1:18-20; 2 Tm 2:16-18; Tt 3:10-11; 2 Pe 2:1-3; 1 Jo 2:18-26; 2 Jo 9-11; Jd 3-4.

 

Nenhum Cristão íntegro e sensato argumentará que as passagens citadas acima, que tratam das ferramentas de Satanás, que por meio de falsas doutrinas procuram minar os fundamentos do Cristianismo, não prosseguem até a exclusão da assembleia, quando a vontade própria rejeita toda a admoestação. A falsa doutrina, a heterodoxia, é de todos os males o pior, pois desonra diretamente a Deus e ao Seu querido Filho, nosso precioso Salvador, arruinando a alma daqueles por quem Jesus sofreu e morreu, numa extensão muito mais ampla e de uma forma muito mais destrutiva do que no caso do mal moral. E se o apóstolo ordenou aos coríntios que nem mesmo tomassem uma refeição comum na mesma mesa com aquele ímpio incestuoso, poderia ele ter pretendido dizer que eles poderiam sentar-se calmamente e partir o pão com aqueles que atacaram os próprios alicerces da fé Cristã, ou melhor, da Pessoa do próprio Cristo e de Sua obra? O quê? Associar-se e partir o pão com eles à mesa do Senhor (a Quem eles blasfemaram) para “anunciar Sua morte até que Ele venha”? A própria ideia de tal comunhão com Judas é tão revoltante para todo sentimento Cristão, que não preciso dizer mais nada sobre isso.

 

“Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes”, escreve o apóstolo aos mesmos Coríntios. Certamente ele não quis dizer com isso que eles deveriam continuar em comunhão com aqueles falsos mestres no partimento o pão, dando-lhes assim a oportunidade de envenenar gradualmente toda a assembleia. “Vigiai justamente [despertai com justiça – JND] e não pequeis”, continua o apóstolo, “porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa”. Ele começou, como deveríamos, corrigindo o erro visando o arrependimento. Mas se recusassem a correção e assim se tornassem endurecidos no mal, será que isso deveria ser tolerado sob o pretexto da unidade?

 

É de temer que não sejam poucos os Cristãos nestes dias de mornidão de Laodicéia, aos quais se aplicaria essa solene repreensão de advertência do apóstolo. Há alguns que dizem que não poderia ter sido a intenção do apóstolo insistir que os coríntios excluíssem esses falsos mestres da assembleia, porque ele não lhes ordenou expressamente que fizessem isso. Essas suas palavras: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes”, não expressam de forma suficientemente clara a advertência do Senhor e do Seu Espírito por meio do apóstolo? Será que poderíamos também dizer que a “senhora eleita”, a quem o apóstolo João adverte contra receber em sua casa qualquer pessoa que não trouxesse a doutrina de Cristo (ou melhor, ela nem mesmo deveria cumprimentá-la, porque ao fazê-lo ela se tornaria participante “nas suas más obras”), teria sido bastante livre para partir o pão com o falso mestre, tendo em vista que o apóstolo não a proibiu expressamente de fazê-lo? Quão tortuoso e enganoso é o coração natural em seus pensamentos e sentimentos, especialmente em um Cristão que abusa da graça!

 

Estas observações são válidas para outras porções das Santas Escrituras mencionadas acima, que são introdutórias.

 

Se então Cristãos individuais que recebem um mestre heterodoxo em sua casa, ou mesmo o cumprimentam, tornam-se seus cúmplices, quão mais solenemente isso é verdade para uma assembleia inteira que concede a tal pessoa um lugar à mesa do Senhor! Toda a assembleia se tornaria participante de suas más ações. “Não sabeis”, escreve o apóstolo aos Coríntios, “que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?”. Este princípio da verdade divina é válido não apenas em casos de imoralidade grosseira como em Corinto, mas também em casos de doutrina maligna; pois o Espírito Santo, o “Espírito de verdade”, aplica as mesmas palavras por meio do mesmo apóstolo aos Gálatas, onde se tratava de uma questão de doutrina maligna ou heterodoxia (Gl 5:9-10), acrescentando: “Eu quereria que fossem cortados aqueles que vos andam inquietando” (v. 12). Em 1 Coríntios 15:33 o apóstolo insiste no mesmo princípio em relação à doutrina maligna como na mesma epístola, capítulo 5, à imoralidade, apenas em palavras diferentes, como fica claro em todo o teor do capítulo 15.

 

“Mas”, alguém diria, “suponhamos que alguém tenha pertencido a uma reunião onde, sem que ele estivesse ciente disso, uma doutrina maligna tenha sido tolerada, embora talvez não tenha sido divulgada publicamente. Ele é totalmente ignorante de tudo isso. Não seria injusto, ou melhor, cruel, recusar a tal pessoa um lugar à mesa do Senhor em outras assembleias?”

 

Sim, a mesa do Senhor! Isso faz toda a diferença. É a mesa do Senhor e não a nossa; e por esta mesma razão aquilo que é devido ao Senhor, e também aos Seus santos em santa comunhão, deve ser a nossa principal consideração. Receber tais coisas seria nada menos do que nos ligarmos a eles, sendo a mesa do Senhor a expressão de um só corpo (1 Co 10:17). Assim, devemos nos tornar participantes de suas más ações. Coloquemos Cristo em primeiro lugar e os “bons Cristãos” em segundo, e não cometeremos erros, mas se colocarmos os “queridos Cristãos” em primeiro lugar e Cristo em segundo lugar, estaremos todos errados. Se magnificarmos a Cristo, tudo ficará claro. Deixe-O de fora ou torne-O –  na prática – secundário, e tudo será confusão.

 

Quanto à objeção acima mencionada, ocorreu há alguns anos um incidente que nos fornecerá uma resposta satisfatória. Uma senhora apresentou-se numa assembleia em Londres desejando partir o pão. Ela esteve em comunhão em uma dessas assembleias indiferentes, mas disse que ignorava a questão doutrinária. Os irmãos com quem ela entrou em contato acreditavam que ela era honesta.

 

Eles, no entanto, consideraram correto iniciar uma conversa com ela, para verificar se ela não poderia, talvez involuntariamente, ter absorvido algumas daquelas noções doutrinárias fatalmente errôneas. E eis que, no decorrer daquela conversa, tornou-se evidente que ela, embora involuntariamente, havia absorvido não poucas delas. É claro que ela não poderia ser admitida naquela manhã, mas primeiro teria que ser convencida e libertada desses erros, antes que pudesse ser “recebida para a glória de Deus”. Qual teria sido a consequência se ela tivesse sido recebida sem uma conversa tão proveitosa? Ela teria, tão involuntariamente como as recebeu, transmitido aquelas noções doutrinárias venenosas às mentes de outros santos naquela outra assembleia, talvez a alguns dos jovens. Assim, o veneno mortal teria sido gradualmente inculcado na assembleia,

 

O que foi dito mostra a necessidade indispensável da maior vigilância e cuidado em tais casos de doutrinas impuras e que desonram a Deus e a Cristo, com seu efeito destrutivo sobre os filhos de Deus. O verdadeiro amor pelas ovelhas e cordeiros de Cristo deveria tornar-nos ainda mais cuidadosos com eles, mesmo quando esse amor pudesse ter a aparência de aspereza, para que não fossem desviados por falsos pastores para pastagens envenenadas. Numa reunião onde a doutrina maligna é tratada com indiferença, isto é, tolerada e abrigada, a atmosfera espiritual torna-se mais ou menos impregnada de noções doutrinárias doentias, embora o ensino aberto e a confissão delas possam ser cuidadosamente evitados. O vírus doutrinário que, embora talvez inicialmente em pequenas quantidades, está flutuando no ar. O diabo não administra o veneno às almas em colheradas, mas em gotas, ou em doses homeopáticas, por assim dizer. Atua de forma mais gradual, mas ainda mais segura em seus efeitos por não ser percebida. Por exemplo, alguém em tal reunião usa uma expressão ambígua quanto à Pessoa de Cristo, falando sobre as “enfermidades sem pecado do nosso bendito Senhor”. Essa expressão não cai apenas nos ouvidos, mas penetra nas mentes e no coração dos ouvintes, que a consideram bastante inofensiva, a palavra suspeita “enfermidades”, aplicada à Pessoa de Cristo, sendo guardada pela palavra anterior “sem pecado”. Agora sabemos que todas as enfermidades humanas são o resultado da queda e do pecado do homem. Fome e sede, cansaço com suas consequências, sono – não são “enfermidades”. Adão e Eva estavam com fome e comeram antes de pecar, um sono profundo caiu sobre Adão antes de sua queda. Deus fez o homem perfeito. Mas a enfermidade implica imperfeição, que é efeito do pecado, assim como a morte é o seu salário[2]. [2] Quão sublime, em contraste com esses ataques nefastos do inimigo à dignidade de Cristo, soa a linguagem da própria palavra de Deus: “Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens fracos, mas a palavra do juramento, que veio depois da lei, constitui ao Filho, perfeito para sempre”.

 

“Mas”, alguns poderiam dizer, “você acha que algumas noções errôneas, flutuando na atmosfera de uma reunião e, portanto, recebidas de forma ignorante, poderiam ter um efeito tão prejudicial sobre a alma de Cristãos honestamente ignorantes?”

 

Na verdade, elas têm. Explicarei o que quero dizer com uma ilustração simples. Lembro-me de quando um estudante da Universidade de Berlim, um dia soube de um incidente notável que aconteceu num dos escritórios do Ministério das Finanças. Vários dos funcionários ficaram doentes. Por fim, um deles morreu repentinamente. Isso levou a um exame minucioso das paredes do escritório, pintadas de verde. Verificou-se então que a tinta continha uma grande quantidade de arsênico, e sendo as salas aquecidas a um grau elevado, a atmosfera ficou impregnada com o arsênico, com grave prejuízo para a saúde dos ocupantes dessas salas, e com fatal efeito sobre um deles, Assim, suas constituições foram gradualmente envenenadas, sem que eles percebessem. Será que ficaram menos envenenados por ignorarem a presença do veneno? É exatamente o mesmo que acontece com o efeito do veneno doutrinário sobre a constituição espiritual dos Cristãos.

 

Aqueles que procuram encobrir sua indiferença em relação à honra de nosso Salvador com o manto do amor Cristão e da largueza de coração, são os que frequentemente dizem que devemos admitir à mesa do Senhor todo aquele que tem a vida de Deus, desde que caminhe consistentemente. Mas suponhamos que alguém viesse de um país vizinho onde a pestilência assola, a questão não seria se ele está vivo ou morto, mas se está infectado ou não. Ele seria colocado em quarentena por algum tempo até que se tornasse evidente que não havia sido infectado. Seria em vão ele dizer que não sente que está infectado. Ele poderia ter carregado dentro de si o germe da doença por alguns dias, sem se dar conta disso. Além disso, é coerente que um Cristão seja indiferente a um verdadeiro Cristo?

 

Uma palavra a mais para concluir. Vejamos o caso de algum filho antinatural que escreveu e publicou uma difamação vergonhosa contra seu pai. Qual seria o efeito de sua conduta escandalosa? Ora, não só a mãe, mas todos os membros sensatos da família insistiriam na retirada imediata do papel vergonhoso por parte daquele filho degenerado, e na sua confissão penitente aos pés do pai ultrajado. O autor desse artigo pode ter sido um irmão muito gentil com seus irmãos e irmãs. Seria esse um motivo para eles fecharem os olhos ao seu terrível pecado ou para serem menos zelosos pela honra de seu pai? Pelo contrário, o seu amor pelo irmão transgressor, por mais profundamente entristecidos que estivessem, bem como a sua reverência pelo seu pai comum, iriam igualmente levá-los a insistir ou na retirada da má publicação, ou na remoção do filho vergonhoso da casa, se todas as exortações tivessem sido infrutíferas. Não seria todo membro da família que continuasse a manter relações amistosas com o ofensor iníquo, como se nada tivesse acontecido, seria corretamente considerado como tendo parte com o filho antinatural? (2 João 11). E se em tal caso um procedimento decisivo se torna imperativo numa respeitável família natural, quanto mais na família, na casa do Deus vivo, quando está em jogo a Sua própria honra e a do Seu Filho.


 

COMENTÁRIOS FINAIS


Nos casos em que a disciplina da assembleia tenha se tornado necessária, as decisões de uma assembleia, nem preciso dizer, não são infalíveis. Afirmar a infalibilidade de tais decisões seria nada menos do que estar no caminho certo para Roma, ou seja, para uma chamada Igreja infalível. Do lado de Deus – tudo é perfeição e infalibilidade. Mas e quanto ao nosso lado humano? Aqui tudo está sujeito ao fracasso, seja um único crente ou uma assembleia de crentes. O infalível Espírito de Deus habita no crente. Isso faz do crente um papa infalível? O Espírito Santo habita na Igreja ou assembleia. Isso a torna uma Igreja ou assembleia infalível? Jesus Cristo, nosso bendito e infalível Senhor e Mestre está presente no meio dos Seus dois ou três que estão reunidos ao Seu Nome. Sua presença torna Seus servos infalíveis, porque estão reunidos ao Seu Nome? Dificilmente poderia haver uma falácia maior e mais perniciosa. Podemos com certeza presumir que dois servos devotados de Cristo, como Paulo e Barnabé, na manhã do dia registrado em Atos 15, foram reunidos ao nome de seu Mestre celestial comum, orando por Sua direção, antes de iniciarem a jornada com Marcos no dia seguinte. Mesmo assim, eles se desentenderam no caminho e se separaram. Eles deixaram de se amar porque posteriormente surgiu uma forte disputa? Certamente não. Talvez o apóstolo e seus companheiros de trabalho tivessem omitido em sua oração pela jornada o importante pedido de bondade fraternal, paciência e abnegação.

 

O que quero afirmar é simplesmente isto: que o Senhor, ao prometer Sua presença graciosa aos Seus dois ou três reunidos ao Seu Nome, certamente não transmitiu a ninguém que Sua presença, por mais abençoada que fosse, tornaria aqueles dois ou três (ou qualquer número deles) infalível em suas deliberações, decisões e ações, por mais disposto e pronto que Ele esteja para guiar pelo Espírito Santo aqueles que realmente estão reunidos ao Seu Nome – que é exatamente a questão da qual tudo depende. Mas em nenhum lugar de Sua Palavra o Senhor nos promete infalibilidade, seja em relação aos nossos pensamentos ou palavras, às nossas decisões ou ações. Aquele que sonda os rins e o coração conhece muito bem o elemento romanista, tão inerente à natureza caída do homem, para nos dar tal promessa.

 

Mesmo naqueles abençoados dias de Pentecostes, quando “era um o coração e a alma” dos crentes e o Espírito de Deus habitando na Igreja com poder desimpedido, a carne e o coração maligno natural apareceram nos santos, não apenas no caso de Ananias e Safira, mas em outras partes da Igreja em Jerusalém, quando surgiu o murmúrio de ciúme entre os Cristãos gregos e hebreus (Atos 6). Não, mesmo na assembleia em Jerusalém, estando presentes os apóstolos e os presbíteros, surgiu uma não pequena disputa (cap. 15). Mas, estando então desimpedidos o poder do Espírito Santo, do amor e de uma mente sã, a carne logo foi descoberta e silenciada.

 

Mas como é em nossos dias? Dias da ruína geral da Igreja de Deus, quando mais do que nunca a verdade solene e humilhante se manifesta, a saber, que o homem foi infiel e naufragou em tudo o que Deus havia confiado à sua guarda, desde o paraíso até o Pentecostes, e desde Pentecostes até agora! Certamente seria mais conveniente deitarmos diante de Deus com o rosto em terra, com a boca no pó, em vez de abri-la para reivindicar arrogantemente a infalibilidade para as decisões da assembleia em meio às ruínas – as testemunhas mudas, mas eloquentes de nossa queda profunda! Quando nestes “últimos dias” ouvimos falar de um grupo de Cristãos afirmando a orgulhosa reivindicação de infalibilidade para suas decisões eclesiásticas, fundamentada nas falácias mencionadas acima, temos todos os motivos para tremer, por sua condição espiritual.

 

Não ouvimos falar de Cristãos de quem, de acordo com o seu conhecimento da verdade, se poderia esperar coisas melhores, alegando a infalibilidade da Igreja através de raciocínios como este? “O Espírito Santo” (dizem eles) “habita na assembleia, e o Senhor prometeu Sua presença no meio dos Seus, mesmo onde apenas dois ou três estão reunidos em Seu nome. É evidente que o Senhor não pode guiar erroneamente o Seu povo: consequentemente, as decisões de uma assembleia, sendo a voz do Espírito Santo, devem necessariamente ser infalíveis”.

 

Ao mesmo tempo, por assim dizer, e em flagrante contradição com a afirmação anterior, é acrescentado: “Mas se acontecer de uma assembleia, num caso de disciplina eclesiástica, ter cometido um erro ao excluir alguém, aquele que foi assim erroneamente excluído, no entanto, teria que aceitar isso como vindo da mão de Deus e curvar-se diante dele. Ao recusar-se a fazê-lo, ele apenas manifestaria a sua vontade insubmissa, e assim provaria que merecia o castigo” (ou seja, que a assembleia, afinal de contas, deve ser considerada guiada corretamente, mesmo que não tenha justificativa para excluí-lo!).

 

Poderia haver uma prova maior da perversidade do coração natural, mesmo nos Cristãos, a menos que fossem mantidos pela vigilância e pela oração no humilde sentido de sua total dependência da graça de Deus que estabelece o coração?

 

Disseram-me que um líder muito proeminente daquela seita religiosa disse que, se alguém, que tivesse sido injustamente excluído de uma assembleia, caísse em pecado vários anos depois, isso justificaria a assembleia por tê-lo excluído, anteriormente!

 

Eu não teria acreditado neste relatório (tal expressão sendo um ultraje aos princípios mais simples da justiça natural, para não falar da verdade e piedade Cristã), se eu próprio não tivesse lido uma expressão bastante semelhante e equivalente do mesmo mestre em um artigo escrito e assinado e distribuído por ele mesmo.

 

Não se pode, em fidelidade a Deus e ao seu precioso rebanho, pelo qual o Bom Pastor sofreu e morreu, passar em silêncio ensinamento como este, assiduamente divulgado. Ele é fiel, embora tenhamos sido infiéis. Que Sua graça ensine Seus subpastores a ser "exemplo ao rebanho", em vez de dominá-lo, como "tendo domínio sobre a herança de Deus" (1 Pe 5:3), assumindo uma autoridade e infalibilidade que não vem nem de Deus nem Sua Palavra, mas do mal que construiu o romanismo.

 

Mais uma palavra sobre o caso de uma assembleia ter opiniões divididas no que diz respeito à necessidade de disciplina da Igreja em alguns casos. Aqui, agir de acordo com o princípio da maioria, como nas reuniões seculares, seria evidentemente humano e, portanto, falso. Tem havido numerosas provas de que, nos assuntos da Igreja bem como nas questões seculares, a maioria nem sempre está certa. Ouvi falar de um caso em que um único irmão recusou seu consentimento ao julgamento unânime de todos os irmãos na assembleia. Seus irmãos tiveram graça e fé quanto à direção do Espírito Santo e esperaram, quando logo depois se tornou manifesto que o irmão único estava certo e os outros errados. A unanimidade, especialmente no caso solene de excomunhão de uma assembleia, parece muito desejável, e a espera no Senhor e na direção do Seu Espírito não será decepcionada. Mesmo nos casos em que a oposição de um ou de alguns irmãos seja efeito da carne, o Senhor manifestará isso e removerá os obstáculos.

 

A questão da disciplina Cristã é de tão grande e séria importância que não poderia ser deixada de lado com apenas algumas observações.

 

J. A. von Poseck

 


 

 




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