Intercessão (Setembro de 2012)
- Revista O Cristão

- há 5 dias
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Revista mensal publicada originalmente em setembro/2012 pela Bible Truth Publishers
ÍNDICE
Tema da edição
Things New and Old (adaptado)
D. F. Rule (adaptado de uma pregação)
Bible Treasury (adaptado)
Types and Symbols of Scripture
W. W. Fereday (adaptado)
W. J. Brockmeier
D. C. Buchanan
Girdle of Truth
W. J. Prost
S. R. (Words of Truth)
Intercessão
Ontem à noite, um jovem em um centro de detenção me disse: “Vou estar com o juiz amanhã. Por favor, ore por mim para que eu consiga sair daqui”. Esta manhã, alguém me disse: “Me pediram para perguntar se poderiam pegar a van emprestada para ajudar na mudança”. No primeiro caso, pediram-me para interceder junto a Deus por alguém, e no segundo, alguém me procurou para interceder por outra pessoa. A vida está repleta da necessidade e do desejo de intercessão. Nesta edição, analisaremos brevemente dois exemplos de perfeitos Intercessores junto a Deus: o Senhor Jesus no céu e o Espírito Santo que habita em nós. Ambos nos entendem perfeitamente, entendem nossas necessidades e também a Deus, a Quem intercedem em nosso favor. Agora conhecemos a Deus, e quanto mais comunhão temos com Ele e conhecemos Seu coração e Seus caminhos, mais nós também devemos estar ocupados no serviço de intercessão uns pelos outros e por todos os homens. Ficamos humilhados ao ver como Abraão e Moisés intercederam junto a Deus e ao perceber o que é necessário para sermos um intercessor, mas o amor ao próximo nos motivará a esta importante obra. A intercessão é o exercício de um coração em comunhão com o coração de Deus – um coração santo, inocente e imaculado.
Tema da edição
Dois Intercessores Perfeitos
Em Romanos 8:26-34, aprendemos que Deus nos providenciou dois intercessores perfeitos. Um no céu e outro na Terra. Temos a intercessão do Espírito Santo em nós e a intercessão de Cristo por nós. “E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (v. 26). Aqui temos a intercessão do Espírito Santo que habita em nós para nos ajudar em nossas fraquezas e realizar Sua obra de intercessão. Ele cria desejos na alma que são profundos demais para serem expressos em palavras e não podem ser representados por linguagem humana.
Há mais do que isso. Não temos apenas o Espírito Santo habitando e agindo em nós aqui na Terra, mas temos também o Senhor Jesus Cristo vivendo e agindo por nós lá no céu. “Quem é que condena? Pois é Cristo Quem morreu, ou antes Quem ressuscitou dentre os mortos, o Qual está à direita de Deus, e também intercede por nós” (v. 34). Que provisão plena! Que consolação abundante! Que encorajamento precioso! Que misericórdia saber que, mesmo em nossos momentos mais frios, sombrios e áridos, quando mal conseguimos pronunciar uma única sílaba, o Espírito Santo geme em nós e Cristo toma esses gemidos inexprimíveis e os apresenta ao Pai, em toda a preciosidade e aceitabilidade d’Aquele que os produz e d’Aquele que os apresenta! A dupla intercessão é continua, desde a manhã, ao meio-dia, à tarde e à meia-noite, o Espírito Santo age em nós e Cristo age por nós. “E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14:16). “Portanto, (Jesus) pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7:25).
O Espírito em nós e Cristo por nós
Essa dupla ação jamais pode ser interrompida por um único instante sequer. Até mesmo o crente mais fraco é sustentado diante de Deus pelo poder divino dessa dupla intercessão. A intercessão do Espírito nele e a intercessão de Cristo por ele. Que consolo para o coração há nisso! Frequentemente acontece que o Cristão se vê afligido, em seus períodos de recolhimento, com excessiva esterilidade e desorientação. Ele tenta orar, mas não consegue. Acha impossível expressar seus desejos de forma inteligível. Ele geme, e esse gemido é fruto da poderosa operação do Espírito; ela ascende, como tal, ao trono de Deus e é apresentado ali por Aquele Bendito que vive para sempre para interceder por nós. Nada sobe senão o que é do Espírito. O gemido inexprimível é produzido em nós pelo Deus Espírito; sobe pelas mãos sacerdotais do Deus Filho e é assim apresentado a Deus Pai.
O Senhor Jesus sabe separar o precioso do vil em todas as nossas ações e práticas. Ele rejeita o vil e apresenta o precioso a Deus em nosso favor. Temos uma ilustração disso no final de Levítico 1. Ali vemos o ofertante trazendo uma oferta de aves ao sacerdote. “E o sacerdote a oferecerá sobre o altar, e tirar-lhe-á a cabeça, e a queimará sobre o altar; e o seu sangue será espremido na parede do altar; E o seu papo com as suas penas tirará e o lançará junto ao altar, para o lado do oriente, no lugar da cinza; E fendê-la-á junto às suas asas, porém não a partirá; e o sacerdote a queimará em cima do altar sobre a lenha que está no fogo; holocausto é, oferta queimada de cheiro suave ao SENHOR” (Levítico 1:15-17). O olhar do sacerdote discernia quais partes da oferta eram adequadas para o altar de Deus e quais eram para “o lugar das cinzas”. Essa era a sua função. O ofertante trazia o sacrifício ao sacerdote, e este o preparava para o altar. Ele separava o precioso do vil. O olhar e a faca do sacerdote eram necessários para que o sacrifício estivesse em condições adequadas a ser apresentado no altar do Deus de Israel.
Tudo isso é repleto de significado e conforto para o Cristão. Em nossos melhores serviços e sacrifícios, há abundância que corresponde ao “papo com suas penas”. Mas, bendito seja Deus, temos “um Grande Sumo Sacerdote” em cujas mãos podemos colocar todas as nossas ofertas, com a plena certeza de que Ele sabe o que fazer com elas. Quando passarem sob o Seu olhar sacerdotal e sob a ação de Sua mão sacerdotal, elas ascenderão ao trono de Deus em toda a fragrância do Seu nome excelentíssimo. Isso é eminentemente calculado para infundir confiança em nosso coração enquanto buscamos, apesar de nossa perceptível fraqueza, responder à exortação do apóstolo: “Por Ele, pois, ofereçamos sempre a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o Seu nome. Mas não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, porque com tais sacrifícios Deus Se agrada” (Hb 13:15-16 – AIBB). Não precisamos ter receio de trazer a menor das ofertas. Se tão somente o Espírito Santo der origem ao sacrifício, então Cristo certamente o apresentará, e Deus ficará satisfeito.
Things New and Old (adaptado)
Intercessão Uns Pelos Outros
Quando pensamos em intercessão, tendemos a pensar em Cristo e em Sua intercessão por nós, tanto como nosso Sumo Sacerdote quanto como nosso Advogado. Isso é uma verdade bendita, e quão gratos podemos ser por Sua obra nessas duas funções. Contudo, não devemos parar por aí, pois Deus certamente nos mostra em Sua Palavra, tanto por mandamento quanto por exemplo, que Ele quer que intercedamos uns pelos outros e também, em alguns casos, pelos incrédulos. Lemos em 1 Timóteo 2:1: “Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações [súplicas – ARA], orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens”. Aqui encontramos claramente que súplicas e orações se distinguem das intercessões, e que nos é dada a responsabilidade pelas três, bem como pela ação de graças. Assim, a intercessão envolve oração, mas é mais do que oração; é uma súplica com vistas à reconciliação de duas partes que estão em conflito. Em termos espirituais, é ir a Deus em favor de outra pessoa, interceder por ela.
Certamente existem apenas dois intercessores perfeitos, e eles são claramente mencionados nas Escrituras. O Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo. Lemos sobre Cristo que Ele “pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7:25). Do Espírito Santo, lemos: “E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26). Assim, temos Cristo no céu por nós e o Espírito Santo aqui na Terra, ambos intercedendo junto a Deus em nosso favor. Contudo, Deus deseja que compartilhemos Seus pensamentos sobre o Seu povo e que sejamos capazes de interceder uns pelos outros. Devido às nossas fraquezas e enfermidades, todos precisamos de intercessão; além disso, Deus nos chama a todos para sermos intercessores.
Características da intercessão
A Palavra de Deus nos mostra diversas características da verdadeira intercessão, e é importante lembrá-las. Em primeiro lugar, visto que nós mesmos temos “um Grande Sacerdote sobre a casa de Deus”, somos exortados a que “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé” (Hb 10:21-22). Devemos estar dispostos a nos aproximar do Senhor a respeito da pessoa; não podemos dizer, como tendemos a dizer, “Isso não é problema meu”.
Em segundo lugar, precisamos ter a mente de Deus a respeito da situação e, por causa do direito de nos aproximarmos de Deus, podemos ter a Sua mente a respeito disso. O Espírito Santo intercede pelos santos “segundo a vontade de Deus” (Rm 8:27 – ARA) e, se quisermos interceder eficazmente pelos outros, precisamos estar em comunhão com o Senhor, para termos os pensamentos d’Ele a respeito do Seu povo.
Em terceiro lugar, lemos sobre Cristo como nosso Sumo Sacerdote (em Hb 7:26) que Ele é “santo”. Nós também devemos ser santos em pensamento e prática, se quisermos atuar como intercessores junto a Deus. Ligada a isso está a palavra “inofensivo”, ou inocente. Não podemos deturpar as coisas para Deus e esperar que Ele nos ouça; Ele sabe de todas as coisas e sabe se estamos agindo com engano para com Ele. Cristo também era “separado dos pecadores”. É verdade que Ele era Amigo de publicanos e pecadores, mas nunca se envolveu em nada pecaminoso. Para trabalhar para Deus, nós também devemos nos separar do mal, embora intercedamos pelo malfeitor.
Em quarto lugar, devemos ter afeição comum com Deus a respeito de Seu povo. Ele os ama e deseja a sua bênção; devemos ser movidos por esse mesmo amor. Não podemos nutrir pensamentos rancorosos contra eles, não importa como possam nos tratar. Como alguém já disse: “Nunca vá para a cama com um pensamento rancoroso contra alguém no mundo, não importa como te tratem!”
Exemplos de intercessores
Existem muitos exemplos de intercessores na Palavra de Deus. Abraão, Moisés, Samuel, Jó, o apóstolo Paulo, para citar alguns. Dentre os mencionados, Abraão e Moisés se destacaram pela intercessão. Abraão intercedeu por Ló, assim como por Abimeleque. Moisés intercedeu pelo faraó durante as pragas que assolaram o Egito e também pelos filhos de Israel durante os quarenta anos no deserto. Em ambos, encontramos uma intimidade com Deus. Quando o Senhor estava prestes a julgar Sodoma e Gomorra, Ele pôde dizer: “Ocultarei Eu a Abraão o que faço?” (Gn 18:17). De Moisés está registrado: “falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo” (Êx 33:11). No Salmo 103:7, lemos que o Senhor “fez conhecidos os Seus caminhos a Moisés, e os Seus feitos aos filhos de Israel”. Um intercessor é alguém que caminha na presença de Deus, conhece a Sua mente e, portanto, tem poder diante d’Ele.
Corações sincronizados
Deus testou Moisés em seu caráter de intercessor. Em diversas ocasiões, Deus Se referiu a Israel como “teu povo”, e em uma situação, Ele até ofereceu destruí-los e fazer de Moisés uma grande nação. Em todos os casos, Moisés, ao responder ao Senhor, referiu-se a eles como “Teu povo” e intercedeu em favor deles. A intercessão sempre coloca Deus em Seu lugar e nos coloca em nosso lugar. O intercessor deseja que seu coração esteja em sintonia com o coração de Deus; então ele vê a situação como Deus a vê.
Vemos falhas em Moisés, assim como em todos nós. Chegou um momento em que o fardo se tornou tão pesado que Moisés se esqueceu de que era a força do Senhor que o capacitava a prosseguir. Ele reclamou: “Eu só não posso levar a todo este povo” (Nm 11:14) e, estando ocupado consigo mesmo, não foi capaz, naquele momento, de interceder. Ele se esqueceu de que era a graça de Deus que estava envolvida do começo ao fim e que ele era apenas um instrumento. Contudo, essa atitude foi temporária; Moisés foi restaurado e recuperou seu caráter de intercessor.
Graça e governo
Por fim, devemos lembrar que, embora o intercessor se valha da graça de Deus para interceder, isso não anula o governo de Deus. Não podemos ir a Deus em intercessão por alguém que errou e pedir que não haja consequências. Graça e governo são verdades paralelas; uma não anula a outra. O intercessor invoca a graça de Deus, mas aceita o Seu governo.
Moisés falhou de forma ainda mais grave no final da jornada pelo deserto, quando não havia água e eles “irritaram o seu espírito” (Sl 106:33). Consequentemente, em vez de falar com ela, ele golpeou a rocha com a vara. Além disso, no calor da sua ira, chamou o povo de rebeldes. As consequências foram sérias; tanto Arão quanto Moisés morreram e não puderam entrar na terra de Canaã. Isso pode parecer severo, mas é muito grave deturpar a graça de Deus. Ele ama a intercessão, e toda intercessão é baseada na graça.
D. F. Rule (adaptado de uma pregação)
A Comunicação de Deus e a Intercessão dos Santos
Em Gênesis 18, lemos como o Senhor comunicou o conhecimento do que Ele estava prestes a fazer com relação à Sodoma. O lugar que a Igreja ocupa é semelhante ao de Abraão com Deus, e esta passagem é uma descrição muito precisa da base de intimidade sobre a qual o Senhor estabelece o Seu povo. Deus nos revelou “o mistério da Sua vontade”.
Os homens se levantaram e olharam para o lado de Sodoma. O Senhor os orientou como executores do Seu julgamento, e Abraão foi com eles para lhes mostrar o caminho. O Senhor faz dos Seus santos Seus companheiros, não invariavelmente, mas ainda assim é um privilégio deles. “Quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo?... Mas nós temos a mente de Cristo” (1 Co 2:16). Assim, nas comunicações que Deus nos fez, Ele nos tornou Seus companheiros da melhor maneira, comunicando-nos Seus pensamentos e sentimentos. “Andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para Si o tomou” (Gn 5:24). Portanto, devemos andar com Cristo até que Ele venha nos levar para Si mesmo. O exercício e o caminho da fé estão aqui embaixo, mas a Igreja não é objeto de julgamento, embora não esteja acima de disciplina para o seu bem. Ló olhou para Sodoma, mas Abraão estava fora dela. Abraão, sendo companheiro do Senhor, não apenas é libertado do juízo, mas quando o Senhor estava indo julgar, Ele avisa Abraão. “Ocultarei Eu a Abraão o que faço?… Porque Eu o tenho conhecido” (Gn 18:17, 19). Assim é conosco; o fundamento desta comunicação é o pensamento que o Senhor tem a nosso respeito; Ele concentrou o Seu amor sobre nós e, portanto, nos introduz à Sua confidência. Ele uniu a Igreja a Cristo; associou-a a Cristo. Deus nos revelou o mistério da Sua vontade por causa do lugar que Ele colocou a Igreja.
“Eu o tenho conhecido”. Há grande bênção nesta palavra. É diferente para aqueles que estão sob julgamento. O Senhor não fala dessa maneira sobre aqueles que Ele vai julgar. Quando Ele fala sobre julgamento, Ele fala sobre investigação: “Descerei agora, e verei”, e até que Ele tenha investigado completamente, Ele não os tocará. O clamor de Sodoma chegou aos ouvidos de Deus, mas antes de executar o juízo, Ele descerá e verá se eles agiram de acordo com o clamor que chegou até Ele. “Então viraram aqueles homens os rostos dali, e foram-se para Sodoma; mas Abraão ficou ainda em pé diante da face do SENHOR” (Gn 18:22). Isso é bem-aventurado. Assim, o Senhor Se revela a Abraão, para que ele possa receber a bênção, e Abraão permanece com o próprio Senhor. Ele trará juízo sobre o mundo, mas não ferirá até que não possa mais evitar, mas nenhum juízo que venha sobre o mundo pode separar Abraão de Deus. O olhar de Deus repousa sobre Abraão de tal forma que Abraão repousa tranquilamente em Deus. E assim é conosco: qualquer que seja a provação que esteja vindo sobre o mundo, nosso lugar é permanecer com o próprio Senhor e, então, como Abraão, o efeito de termos bebido dessa graça será estarmos calmos, tranquilos e felizes. Nosso lugar não é descer para sondar as profundezas da iniquidade. Há muitos como Ló que afligem sua alma com essas coisas, mas estejamos com Deus no monte, permanecendo em perfeita paz com o próprio Senhor. Abraão, estando em perfeita paz, não tinha nada a pedir para si mesmo e, portanto, estava livre para interceder pelos outros. Possuir a mente do Senhor dá o poder de interceder pelos outros. Jacó procurou obter a bênção para si mesmo e, portanto, não tinha poder para obtê-la para os outros, mas Abraão tinha o conhecimento dessa comunhão que produz grande paz e alegria. “E retirou-Se o SENHOR, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou-se ao seu lugar” (Gn 18:33). A posição de Abraão é com o Senhor em perfeita paz, em confiança inquestionável, sem ter nenhuma questão a resolver com Deus, mas naquele terreno onde ele pode desfrutar de perfeita comunhão e, assim, interceder pelos outros.
Bible Treasury (adaptado)
A Intercessão de Moisés
Somos propensos a supor que a posição de um governante é fácil e invejável, e sem dúvida o seria, se alguém pudesse aceitar os seus privilégios sem sentir as suas responsabilidades. Geralmente, aqueles que cobiçam tais posições sentiriam pouco as obrigações e, portanto, seriam inadequados, e o inverso também é verdadeiro. Não sabemos nada sobre Moisés que indique que ele jamais tenha tido a menor ambição pessoal de governar Israel, mas quando foi obrigado a assumir o cargo, há muitos indícios de que ele sentiu as responsabilidades de um governante como somente uma natureza tão grandiosa e nobre poderia sentir. A ingratidão insensível e a maldade do povo, contudo, foram quase insuportáveis para ele, e parece que ele renunciaria de bom grado ao seu posto até ouvir Deus ameaçando destruí-los. Então, quando ele vê o povo em pecado e perigo, ele se entrega completamente, mesmo até a aniquilação eterna de sua existência, antes de abandoná-los. Esta é uma das facetas do mediador. Ele é o amigo na hora da necessidade, que ama em todos os momentos, que é mais chegado do que um irmão, aquele que diz: invoque-me quando estiver em apuros.
Denunciando o mal e rogando por misericórdia
Aqueles que viram Moisés no meio do povo, denunciando sua idolatria com palavras inflamadas de ira consumidora, não poderiam ter noção da compaixão com que ele acabara de interceder por eles, chegando ao ponto de se oferecer em propiciação por eles. “Fira-me o justo, será isso uma benignidade” (Sl 141:5)! O homem tolera nossas faltas diante de nós e as condena pelas nossas costas. Mas o verdadeiro Advogado inverte isso; diante dos homens, Ele disse: “Raça de víboras”, mas a Deus, Ele suspira: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”!
Alguns perguntam: Qual a utilidade da intercessão junto a Deus? Se a disposição de Deus é misericordiosa, qual a necessidade de que alguém interceda por outros? Acaso é provável que Ele se deixe influenciar por quaisquer petições nossas, desviando-Se de Seus decretos irrevogáveis e propósitos imutáveis? Este tipo de raciocínio é respondido mais prontamente na seguinte ilustração. Aqui, em Êxodo 32, a grande indignação de Deus contra Israel por sua grosseira afronta e traição nacional é perfeitamente razoável. Mas igualmente razoável é a súplica de Moisés por misericórdia para com seus irmãos pecadores. E também à misericórdia que, por fim, é concedida em resposta àquela fervorosa intercessão. É bastante razoável, portanto, que um governante deseje conceder misericórdia a um povo pecador, e ainda assim considere isso incompatível com a dignidade de seu trono e suas leis, a menos que alguém interceda por eles. Poupar o povo antes que alguém interceda pode ser percebido como fraqueza; depois, é prontamente visto como graça.
O efeito reflexivo
Além de tudo isso, há o seu efeito reflexivo. Ninguém pode orar ou interceder por outro sem receber a resposta em seu próprio íntimo, sem se tornar alargado e mais forte de alma (falando agora de nós mesmos). Permitam-me fazer esta pergunta ao leitor: Seu hábito mental é o da intercessão? Você tem a tendência de tolerar as ofensas alheias, com aquele amor que cobre uma multidão de pecados, até onde a justiça o permite, e de apelar a Deus e aos homens por seu favor? Se for sim, isso é semelhante a Cristo. Ou é o contrário?
O Árbitro, por Quem Jó suspirou na antiga escuridão, tem três funções principais: Ele é o Intérprete, daí o nome “Verbo”, porque expressa os pensamentos de Deus e também o Intérprete do homem. Em segundo lugar, Ele é o Mediador entre Deus e o homem, sendo isso amplo e universal. Terceiro, na família de Deus Ele é o Advogado junto ao Pai (1 João 2:1) daqueles a quem Ele não Se envergonha de lhes chamar de irmãos.
Há muito mais honra em realizar grandes obras com meios pequenos e aparentemente inadequados do que com instrumentos fortes e apropriados; portanto, não nos impressiona tanto o fato de Sangar e Sansão terem libertado Israel, mas sim que um o fez com uma simples aguilhada de boi e o outro com uma queixada de jumento. Deus revela a glória do Seu poder e sabedoria principalmente ao realizar obras vastas e estupendas por meio de instrumentos frágeis e desprezados.
Assim foi na história de Israel. Aqueles que Deus escolheu para propagar e preservar o conhecimento da verdadeira Deidade na Terra não era um grupo de seres angelicais, mas uma nação de homens tão pecadores quanto qualquer outra que já existiu. Eram semelhantes aos seus semelhantes, nem muito melhores, nem muito piores. A natureza humana é muito parecida onde quer que se apresente. Pouco tempo depois de Israel ser libertado do Egito, eles caíram nas mais vis orgias de idolatria. Foi com esse tipo de povo que Deus transformou a face da Terra, instrumentos que continuamente se quebravam em Suas mãos. Entender isso deveria ser um encorajamento para buscarmos perseverar fielmente por Ele, apesar de nossas fraquezas.
Na ocasião em que os filhos de Israel se prostraram diante do bezerro de ouro, Deus primeiro disse que os rejeitaria, mas ouviu a intercessão de Moisés e os conservou. Nesse ponto, a advocacia de Moisés assume um caráter diferente. Ele usa a própria maldade deles como motivo para suplicar a Jeová que os acompanhe. Ele ora para que Jeová o acompanhe entre Israel, “porque este é povo de dura cerviz; porém perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado, e toma-nos por Tua herança” (Êx 34:9). Não é que sejamos tão bons que Ele não possa viver sem nós, mas somos tão maus que não podemos viver sem Ele. Se alguém considera isso presunção, é a presunção da fé, e eu gostaria que tivéssemos mais fé.
Na verdade, este é um dos mais belos exemplos de intercessão nos registros de Deus. Primeiro, ele apoia o seu ponto com base na bondade do Juiz, quando, na realidade, era a maldade do povo que estava em questão, e então ele se volta e faz da própria maldade do povo, uma nova base para sua súplica, desta vez em busca de uma nova clemência. Moisés havia dito que não era eloquente e, de fato, cria nisso, mas isso se devia apenas à modéstia e à reserva inerentes à sua grande natureza. Ele possuía, de fato, um caráter grandioso e magnífico. Ele foi grande na intercessão.
Types and Symbols of Scripture
Um Ministério de Intercessão
Nos dias dos juízes em Israel, a infidelidade de Eli e seus filhos levou à perda da posição exaltada que o sacerdócio desfrutava desde a morte de Moisés, e o sacerdócio jamais foi restaurado à sua posição anterior. Quando o legítimo rei de Deus entrou em cena na pessoa de Davi, foi ele quem se tornou a ligação entre o povo e seu Deus. Mas foi preciso esperar muito tempo após a falha de Eli para que a nova ordem fosse estabelecida. Qual foi a providência divina nesse período? Samuel. Ele, o homem de Deus, “o homem emergencial de Deus”. Samuel preencheu a lacuna e tornou-se a ligação entre o Senhor e o Seu povo desolado. Verdadeiramente, o nosso Deus nunca fica sem recursos, pois Samuel entrou no pensamento de Deus quanto à condição das coisas; a ruína de tudo pela infidelidade do homem afligia a sua alma, e ele dedicou-se ao ministério da intercessão (1 Samuel 7:5, 8; 12:23). Isto é sempre muito precioso aos olhos de Deus. Muitos séculos mais tarde, quando a ordem real havia falhado gravemente e estava prestes a ser colocada de lado até o dia do Senhor Jesus, o Senhor fez referência a Samuel desta forma: “Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de Mim, não estaria a Minha alma com este povo; lança-os de diante da Minha face” (Jr 15:1). Observe a ligação com Moisés. Quando o povo se arruinou com a adoração do bezerro de ouro, foi salvo pela súplica de Moisés (Êxodo 32:33). Mais tarde, quando a ordem sacerdotal entrou em colapso e a ruína se abateu novamente sobre o povo, este foi sustentado diante de Deus pela intercessão de Samuel.
O valor de um ministério de intercessão é, assim, divinamente enfatizado. É o deleite de Deus. Mas este precioso ministério só pode ser verdadeiramente exercido por aqueles que entram nos pensamentos de Deus a respeito dos tempos em que vivem. Assim, somente aqueles que hoje têm diante de si o modelo divino da Igreja, tal como o Espírito Santo a estabeleceu no princípio, e que reconhecem seu completo fracasso como testemunha de Deus no mundo, são capazes de tratar com Deus a respeito disso com inteligência. Mas isso está ao alcance de todos nós. Que o Senhor, em sua graça, multiplique o número daqueles que são espiritualmente capazes de cumprir o papel de Moisés e Samuel nestes últimos dias da era Cristã.
W. W. Fereday, adaptado
Intercedendo por um Próximo
“Ah! se alguém pudesse contender com Deus pelo homem, como o homem pelo seu próximo!” (Jó 16:21).
Quando surgem tensões interpessoais e problemas na assembleia que estão fora do nosso controle imediato, o sábio conselho que costumamos ouvir é: “Deixe isso nas mãos do Senhor”. De fato, a Escritura nos adverte para não nos intrometermos em contendas que não nos dizem respeito, e quem o faz é comparado a um homem que agarra um cão pelas orelhas (Provérbios 26:17). Ele será mordido.
Embora reconheçamos a importância de não nos envolvermos em assuntos que não nos dizem respeito, devemos ter em mente que há momentos em que devemos interceder ou intervir em favor de outros, independentemente de os conhecermos ou não. Nesses casos, não podemos nos eximir da responsabilidade perante Deus, escondendo-nos atrás de chavões convenientes ou fingindo desconhecer uma injustiça. “Se tu deixares de livrar os que estão sendo levados para a morte, e aos que estão sendo levados para a matança; Se disseres: Eis que não o sabemos; porventura não o considerará Aquele que pondera os corações? Não o saberá Aquele que atenta para a tua alma? Não dará Ele ao homem conforme a sua obra?” (Pv 24:11-12).
Um doutor da lei certa vez tentou se esquivar da mensagem direta do Senhor dirigida a ele: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo", questionando o Senhor: "E quem é o meu próximo?". Depois de contar a conhecida história do "um samaritano", o Senhor mostrou que aquele que era próximo do homem ferido era aquele que lhe mostrou misericórdia.
Pensamos na intercessão principalmente em termos da intercessão do homem junto a Deus, por meio da oração, em favor de outro (1 Timóteo 2:1). Jó, em suas severas provações, sentiu profundamente a falta dessa intercessão por parte de seus três amigos. Eles começaram bem, sentando-se com ele em silenciosa compaixão por sete dias, assim como Ezequiel, que, mais tarde, sentou-se entre os cativos junto ao rio Quebar (Ezequiel 3:15). Mas então, em resposta à queixa de Jó, eles se voltaram contra ele e, em vez de se tornarem seus intercessores, tornaram-se seus acusadores, supondo erroneamente que Deus estava tratando Jó de maneira tão severa porque ele levava uma vida dupla. Na intensidade do sofrimento, ele exclamou: “Falaria eu também como vós falais, se a vossa alma estivesse em lugar da minha alma, ou amontoaria palavras contra vós, e menearia contra vós a minha cabeça?” (Jó 16:4). Não é de admirar que ele os tenha chamado de “consoladores molestos”.
Mas a Escritura também mostra exemplos de pessoas que intercederam junto ao seu próximo em favor de outro. Nesses exemplos, testemunhamos verdadeira amizade e coragem moral.
Nicodemos
No evangelho de João, o Senhor Jesus é visto como rejeitado desde o princípio (João 1:11). Conhecendo o opróbrio de ser identificado com Ele, Nicodemos foi primeiro ter com Jesus de noite. Posteriormente, quando os oficiais não prenderam nem trouxeram o Senhor Jesus aos líderes religiosos, estes, com desprezo, questionaram se os oficiais também haviam sido enganados, como, segundo a opinião deles, o fora o povo comum e ignorante. Diante dessa hostilidade e arrogância condescendente, Nicodemos levantou a questão: “Porventura condena a nossa lei um homem sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz?” A resposta zombeteira dos fariseus – “És tu também da Galileia? Examina, e verás que da Galileia nenhum profeta surgiu” – manifestou a própria falta de conhecimento que eles tinham das Escrituras, pois Jonas, o profeta cuja mensagem de juízo resultou em livramento para uma cidade gentílica, era da Galileia (compare 2 Reis 14:25; Josué 19:10, 13; Mateus 4:15). De todo modo, suas palavras foram calculadas para humilhar Nicodemos, e ele, sem dúvida, sentiu o seu golpe.
Nicodemos não intercedeu exatamente pelo Senhor Jesus; ele simplesmente fez uma pergunta honesta. Mas isso foi o suficiente para rotulá-lo como "um deles". Talvez essa experiência, nos desígnios providenciais de Deus, tenha sido usada para levar Nicodemos à luz, quando ele finalmente, corajosamente, identificou-se com Cristo (João 19:39). Podemos não ter a ousadia de um leão, mas que ao menos estejamos dispostos a fazer a pergunta incômoda, se necessário, por alguém, seja amigo ou inimigo, que esteja sendo injustamente difamado.
Jônatas
O laço de amizade entre Davi e Jônatas é notável. Após a vitória de Davi sobre Golias, a alma de Jônatas se uniu à de Davi. Anos mais tarde, ao contemplar a devastação da vitória filisteia sobre Israel e as mortes de Saul e Jônatas, Davi instruiu as mulheres de Israel a chorarem por Saul, seu rei, mas a demonstração de afeto no próprio coração de Davi ecoa em suas dolorosas palavras de tristeza: "Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas" (2 Sm 1:24-26).
Embora seja verdade que Jônatas não tenha abandonado a casa de Saul para se associar a Davi em sua rejeição, não há registro de que Davi alguma vez o tenha censurado por isso. A amizade de Davi com Jônatas era profunda, e ele sabia que Jônatas havia enfrentado o seu pai em seu favor. O relato mais comovente da lealdade de Jônatas para com Davi ocorreu quando Saul perseguia ativamente Davi.
Saul estava furioso com Jônatas por causa de sua amizade com Davi e ordenou que ele buscasse Davi, pois este deveria morrer. Jônatas desafiou seu pai: “Por que há de morrer? Que tem feito?” A inimizade e a amargura de Saul para com Davi eram tão grandes que ele perdeu a razão e atirou uma lança em Jônatas, seu próprio filho, numa aparente tentativa de matá-lo. Mas Jônatas não fugiu com medo. Pelo contrário, “Jônatas, todo encolerizado, se levantou da mesa; e no segundo dia da lua nova não comeu pão; porque se magoava por causa de Davi, porque seu pai o tinha humilhado” (1 Sm 20:30-34).
A Escritura nos exorta: “irai-vos, e não pequeis” (Ef 4:26). Lamentavelmente, às vezes esse versículo é usado erroneamente para defender a ira carnal, mas, em certas ocasiões, a ira justa é apropriada, como quando o Senhor Jesus olhou com ira para os fariseus por estarem prontos para condená-lo por curar um homem com a mão atrofiada no sábado (Marcos 3:5). É revigorante ler sobre a defesa leal e o apoio de Jônatas a seu amigo Davi, e o incidente nos serve bem como exemplo de um homem intercedendo por seu amigo.
Ester
O conselho de Mardoqueu a Ester demonstrou um claro reconhecimento da Providência em uma época em que não havia reconhecimento de Deus por parte do Seu povo, nem intervenção direta de Deus em favor do Seu povo.
“Então Mardoqueu mandou que respondessem a Ester: Não imagines no teu íntimo que por estares na casa do rei, escaparás só tu entre todos os judeus. Porque, se de todo te calares neste tempo, socorro e livramento de outra parte sairá para os judeus, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” (Et 4:13-14). De fato, era um tempo, “para tal tempo como este”, de crise para os Judeus, pois a sua própria existência estava ameaçada.
Independentemente de qualquer sentimento familiar ou vago senso de destino, a realidade para Ester de perder a vida numa tentativa de interceder em favor de seu povo era assustadora. Contudo, o seu reconhecimento de estar em posição de preservar seu povo da aniquilação a impulsionou à ação. Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de dia nem de noite, e eu e as minhas servas também assim jejuaremos. E assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e se perecer, pereci” (Et 4:16).
As ações de Ester refletem as palavras do apóstolo Paulo em sua determinação de ir a Jerusalém: “em nada tenho a minha vida por preciosa” (At 20:24). Seu compromisso de arriscar a própria vida para interceder por seu “próximo” terminou de forma muito mais favorável do que ela poderia ter esperado, e seu povo foi preservado.
O clamor de Jó para que alguém intercedesse pelo seu próximo encontra resposta, em diferentes graus, em Nicodemos, Jônatas e Ester. Eles não estavam pensando em si mesmos. E embora nossa prioridade seja interceder junto a Deus em favor de outros, que o exemplo deles também nos encoraje a estarmos dispostos a interceder por outros, quando a justiça o exigir, mesmo que isso nos traga consequências adversas e reprovação.
W. J. Brockmeier
Não Houve Intercessor
“E vendo que ninguém havia, maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; por isso o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve” (Is 59:16). “E (Jesus) estava admirado da incredulidade deles. E percorreu as aldeias vizinhas, ensinando” (Mc 6:6).
A maravilha desses dois casos merece nossa atenção. É incrível como podemos esperar tanto tempo e como as coisas podem piorar antes de chegarmos ao ponto de interceder uns pelos outros. Com o Senhor Jesus foi exatamente o oposto: depois de ter demonstrado de forma extraordinária Sua capacidade de ajudar os necessitados, Ele Se admirou da incredulidade deles em aceitar Seus ensinamentos.
Uma leitura atenta de todo o capítulo 59 de Isaías revela condições semelhantes às dos nossos dias. A condição descrita por Isaías está resumida nos versículos 14 e 15: “Por isso o direito se tornou atrás, e a justiça se pôs de longe; porque a verdade anda tropeçando pelas ruas, e a equidade não pode entrar. Sim, a verdade desfalece, e quem se desvia do mal arrisca-se a ser despojado; e o SENHOR viu, e pareceu mal aos seus olhos que não houvesse justiça”. Seria de se esperar que, em uma condição tão deplorável e degenerada, alguém tentasse interceder. Quão diferente isso é das ações de Moisés quando Israel fez o bezerro de ouro e o Senhor lhe disse que destruiria Israel por sua maldade. Moisés, a princípio, desconhecia a condição deles e, depois, ficou irado com eles. Mas, quando chegou o momento em que Deus destruiria o povo de Israel e faria uma nação a partir da família de Moisés, ele recusou a oferta e intercedeu por Israel. Seu coração foi movido por um cuidado amoroso por eles, apesar da grandeza de sua maldade. E Deus estava disposto a aceitar o pedido de misericórdia e não destruí-los. Que possamos ver no ocorrido que Deus estava procurando um israelita para interceder junto a Ele em favor deles. A intercessão possibilitaria que a grandeza da Sua misericórdia fosse conhecida por todos, sem comprometer a justiça.
Abigail foi outra que, ao ver o juízo iminente sobre a casa de seu marido, foi interceder junto a Davi. “Vendo, pois, Abigail a Davi, apressou-se… e prostrou-se sobre o seu rosto diante de Davi, e se inclinou à terra. E lançou-se a seus pés, e disse: Ah, senhor meu, minha seja a transgressão; deixa, pois, falar a tua serva aos teus ouvidos, e ouve as palavras da tua serva” (1 Sm 25:23-24). Ela estava disposta a assumir a culpa pelo erro e, ao fazê-lo, defendeu tanto a misericórdia quanto a verdade. Esses exemplos nos mostram como Deus vê a intercessão e como Ele responde àqueles que intercedem por outros. Ao observarmos as necessidades ao nosso redor, que muitas vezes são o resultado de nossa própria fraqueza e falha, que sejamos fortalecidos para, em fé, dar um passo à frente antes que as coisas se deteriorem e interceder seriamente por aqueles que nos cercam.
Admirado pela incredulidade
O Senhor Jesus Cristo, o Servo perfeito, foi o braço da salvação de Deus segundo a justiça. Ele foi enviado para suprir as necessidades daqueles que O rodeavam, demonstrando como Ele era capaz de atender a essas necessidades urgentes. Diz-se d’Ele: “E, chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-O, se admiravam, dizendo: De onde Lhe vêm estas coisas? e que sabedoria é esta que Lhe foi dada? e como se fazem tais maravilhas por Suas mãos?” (Mc 6:2). Mas, por causa da incredulidade, “não podia fazer ali obras maravilhosas; somente curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. E estava admirado da incredulidade deles” (vs. 5-6). Com Ele havia poder presente para suprir a necessidade, mas a incredulidade os impedia de se apropriarem do que estava disponível. Eles podiam contemplar as palavras e as obras com espanto, mas depois duvidavam. Isso O fez se maravilhar com a incredulidade deles. Não duvidemos. A percepção da capacidade do Senhor de suprir nossas necessidades é o que deve nos encorajar a interceder em oração. “Acaso, para o SENHOR há coisa demasiadamente difícil?” (Gn 18:14 – ARA). “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6:2). Samuel diria a Israel: “E quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós; antes vos ensinarei o caminho bom e direito” (1 Sm 12:23). Não cometamos a dupla falha de ignorar as necessidades urgentes ao nosso redor e duvidar do desejo e da capacidade do Senhor de supri-las. “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11:1).
D. C. Buchanan
O Vínculo da Intercessão
Se você estiver vivendo na percepção de sua própria necessidade, suas orações girarão em torno de si mesmo, mas quando existe aquele tipo de confiança que é achado na comunhão, além de orar por suas necessidades, você será capaz de interceder por outros; haverá o vínculo de intercessão.
Girdle of Truth
A Perda de Privacidade
Todos sabemos que, graças às viagens aéreas, o mundo se tornou muito mais familiar para muitos de nós, e regiões que antes eram visitadas apenas por alguns privilegiados agora são destinos comuns, ao alcance de uma porcentagem significativa da população mundial. Esse movimento massivo de pessoas, no entanto, teve um lado negativo, pois doenças e problemas que antes se restringiam a uma área agora são facilmente exportados para o resto do mundo. Da mesma forma, o desenvolvimento do computador e da internet nos últimos anos possibilitou a comunicação em larga escala, mas, novamente, também apresentou desvantagens. Outros desenvolvimentos desde então foram ainda mais longe. Parece que o celular se tornou uma parte indispensável da vida; não conseguimos viver sem ele e, com a queda dos preços, pessoas do mundo todo se comunicam constantemente. Alguns acham quase impossível desligar o celular, com medo de perder uma ligação. Mais recentemente, o envio de mensagens de texto se tornou muito popular entre os jovens, chegando a substituir as ligações telefônicas. Muitos adolescentes admitem enviar mais de 100 mensagens de texto por dia, e para alguns esse número se aproxima de 1.000. O iPod mudou a forma como os jovens ouvem música. Antes, havia música ambiente em lojas e outros locais públicos. Agora, é possível carregar centenas de músicas em um dispositivo muito pequeno e ouvi-las à vontade. O poder viciante dessa música faz com que algumas pessoas mal consigam ficar um momento sem ouvi-la.
O resultado disso tudo, nas palavras de outra pessoa, foi "desparafusar as fechaduras das portas" e corroer a privacidade a tal ponto que houve uma perda quase total da solitude. Todos os detalhes de nossa vida são repentinamente disponibilizados para os outros. Para citar uma conhecida revista americana: “O computador que nos permitiu olhar com admiração para o mundo permitiu que o mundo olhasse impiedosamente de volta para nós". O Facebook intensificou tudo isso, e as possibilidades são ilimitadas. Fotos e outras informações publicadas na plataforma podem ser vistas em minutos por centenas, senão milhares de pessoas. Informações que antes eram consideradas privadas agora são publicadas para todos verem.
A importância disso para nós
O que tudo isso significa para o crente? Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que não é a tecnologia em si que é ruim; o problema reside na forma como o homem a utiliza. A internet tornou possível a comunicação com outros crentes em partes do mundo onde o envio por correio postal seria difícil, ou talvez impossível. Ela nos permitiu acessar bons ensinamentos de forma rápida e fácil, sejam eles escritos ou gravados. Contudo, devemos estar atentos ao lado negativo disso tudo e reagir da maneira correta.
Precisamos encarar o fato de que, embora muita informação boa esteja disponível hoje em dia, a mesma tecnologia tornou uma quantidade enorme de informação ruim facilmente acessível. Há tentações que não existiam antes. Mesmo que não tenhamos acesso ao que é claramente errado, é evidente que os esforços de Satanás nestes últimos dias visam ocupar a mente dos homens de tal forma que eles não tenham um momento sequer para pensar em assuntos eternos. A constante enxurrada de música, mensagens de texto ou conversas tenderá a preencher nosso tempo a tal ponto que os assuntos eternos serão deixados de lado. Sejam os “cuidados da vida” ou a “sedução das riquezas”, todas são coisas que “sufocam a Palavra, e fica infrutífera”. Os eventos solenes que Deus permite, como furacões, terremotos, inundações, secas e incêndios, certamente têm o propósito de alertar os homens sobre o julgamento vindouro; contudo, Satanás usará esse bombardeio mental para embotar sua percepção e manter seu foco nesta vida.
Felizmente, alguns estão percebendo o fim de tudo isso. Steve Jobs, que foi em grande parte responsável pelo sucesso da empresa de computadores Apple, disse o seguinte pouco antes de sua morte no ano passado: “Lembrar que vou morrer em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões da vida, porque quase tudo, todas as expectativas exteriores, todo o orgulho, todo o medo de constrangimento ou fracasso, essas coisas simplesmente desaparecem diante da morte, deixando apenas o que é verdadeiramente importante”.
Espera-se que aquilo que era verdadeiramente importante para ele incluísse algum sério pensar acerca de seu destino eterno. Quando alguém lhe perguntou a respeito de suas realizações, e particularmente sobre a riqueza que havia acumulado, relata-se que ele comentou: “Não há vantagem alguma em ser o homem mais rico do cemitério.” Contudo, o crente não está imune a todos esses atrativos, embora tenha uma esperança celestial. O espírito do mundo ao redor tem forte tendência de nos influenciar, e é fácil sermos absorvidos pelas coisas “que se veem”, em vez de mantermos o foco nas coisas “que se não veem”.
Dependência de Deus
François Fénelon, um Cristão piedoso que viveu na França há mais de 300 anos, expressou muito bem o pensamento de comunhão com o Senhor quando disse: “Uma regra geral para o bom uso do tempo é acostumar-se a viver em contínua dependência de Deus, recebendo do Espírito de Deus a cada instante tudo aquilo que Ele Se agrada em nos dar, recorrendo a Ele imediatamente nas dúvidas que inevitavelmente surgem, voltando-nos para Ele na fraqueza em que a bondade se esvai por exaustão, invocando-O e elevando-nos a Ele quando o coração, levado pelas coisas materiais, se vê imperceptivelmente desviado do caminho e se encontra esquecendo-se e se afastando de Deus.”
Podemos admirar sua devoção, especialmente ao considerarmos que ele foi criado e permaneceu católico romano por toda a vida. Os diversos avanços tecnológicos de que temos falado, se usados como o mundo os usa, certamente prejudicariam essa comunhão com o Senhor e nos ocupariam primeiro com nós mesmos e depois com um mundo que em breve passará. Não há necessidade de compartilhar com um número cada vez maior de pessoas todos os detalhes de nossa vida ou de falar continuamente sobre coisas que, na melhor das hipóteses, dizem respeito à vida aqui abaixo. Somente as coisas de Cristo perdurarão pela eternidade, e nosso exercício deve ser o de usar nosso tempo da melhor maneira possível nessas coisas, a fim de sermos como aqueles que estão “lançando para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam tomar posse daquilo que é realmente vida” (1 Timóteo 6:19 – JND).
W. J. Prost
Eu quero a Ti, Senhor Jesus
Eu quero a Ti, Senhor Jesus,
Eu quero a Ti aqui, Senhor Jesus,
Em todos os momentos de necessidade;
Eu não posso ficar sem Ti
Pois sou realmente fraco.
Quero que o Teu amor me console
Ao longo do caminho desértico,
Que o Teu maravilhoso amor, Senhor Jesus,
Seja a minha força e o meu amparo.
Quero que me aconselhes
Quando não souber o que fazer,
Que me guies e me conduzas
Aonde quiseres que eu vá.
Eu te quero a cada instante, Senhor;
Sou tão fraco;
Nada consigo fazer direito
Sem buscar a Tua ajuda.
Eu também quero que Tu, “lá em cima”, Senhor,
Intercedas como Sacerdote,
Para que eu possa obter graça e ajuda
Em todos os momentos de necessidade.
Quero-Te como Advogado,
Sempre que eu falhar ou pecar,
Para me purificar da impureza
E manter a minha paz interior.
Eu também te quero, Senhor Jesus,
Naquele lar resplandecente acima,
Onde, com o teu povo redimido,
Celebrarei o teu amor.
Eu não poderia ficar sem Ti lá;
Não seria o paraíso para mim
Se somente estivesse ausente
Aquele que o comprou para mim.
S. R. (Words of Truth)
“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens”
1 Timóteo 2-1




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