O Propósito de Deus para a Igreja (Outubro de 2012)
- Revista O Cristão

- 16 de jan.
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Revista mensal publicada originalmente em outubro/2012 pela Bible Truth Publishers
ÍNDICE
F. G. Patterson
J. N. Darby (adaptado)
H. E. Hayhoe (adaptado)
H. Smith (adaptado)
F. G. Patterson (adaptado)
H. Smith (adaptado)
J. N. Darby
J. N. Darby
E. B. Hartt
O Propósito de Deus para a Igreja

A Igreja de Deus, próxima ao próprio Cristo, é o centro de todos os conselhos de Deus para Sua glória. É muito precioso, quando estamos na consciência de nosso relacionamento como filhos – filhos de Deus, nosso Pai – ter certeza e ser instruídos em nosso relacionamento com Cristo como “membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos”. A Igreja é aquela estrutura maravilhosa na qual Deus manifestará, em todas as eras e por toda a eternidade, as “abundantes riquezas da sua graça”.
Os propósitos e conselhos de Deus não são revelados na Escritura até que a cruz tenha passado. Ela se coloca, moralmente, no final da história do mundo. Nos tratamentos de Deus anteriores à cruz, você tem o homem responsável testado e exposto. O Senhor Jesus desceu e trouxe à tona o fato de que o homem estava irrecuperavelmente perdido. Quando a cruz é assim passada, todos os conselhos de Deus que já existiam antes da fundação do mundo se revelam para nós na Palavra, e isso pela primeira vez.
Deus tomou o Homem que tanto O glorificou e O colocou em glória na manifestação da justiça. Ele está lá, “Cabeça sobre todas as coisas” em um título quádruplo – Criador, Filho e Herdeiro, Filho do Homem e Redentor. Lá, Ele espera os coerdeiros (Sua noiva para aquele dia de glória), e quando todos estiverem reunidos, Ele manifestará Seu grande poder e, atando a Satanás, possuirá tudo, e seremos coerdeiros disso tudo com Ele.
F. G. Patterson
O que é a Igreja?
Podemos considerar a Igreja em dois pontos de vista. Primeiro, é a formação dos filhos de Deus em um corpo unido a Cristo Jesus ascendido ao céu, o Homem glorificado, e isso pelo poder do Espírito Santo. Em segundo lugar, é a casa ou habitação de Deus pelo Espírito.
O Salvador Se entregou, não apenas para salvar perfeitamente todos os que n’Ele creem, mas também para reunir em um os filhos de Deus que foram espalhados pelo mundo. Uma coisa é existir indivíduos salvos, filhos de Deus, herdeiros da glória no céu; outra é a união deles com Cristo, de modo a serem membros de Seu corpo, de Sua carne e de Seus ossos; ainda outra é a habitação de Deus por meio do Espírito. Vamos falar desses últimos pontos.
Não há nada mais claro na Escritura Sagrada da verdade de que a Igreja é o corpo de Cristo. Essa doutrina é amplamente revelada em Efésios 1‑3. O que é mais claro do que esta palavra: Deus “O constituiu como Cabeça da Igreja, que é o Seu corpo” (Ef 1:20‑23)? Esse fato maravilhoso começou assim que Cristo foi glorificado nos céus, mesmo que tudo o que está contido nesses versículos ainda não esteja cumprido. Deus nos ressuscitou com Ele e nos assentou n’Ele nos lugares celestiais – ainda não com Ele, mas “n’Ele”. E no capítulo 3, “O qual (mistério) noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são coerdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho… Para que agora, pela Igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef 3:5‑6, 10).
A Igreja formada pelo Espírito Santo
Temos aqui, então, a Igreja é formada na Terra pelo Espírito Santo que desceu do céu, após a glorificação de Cristo. Ela está unida a Cristo, seu Cabeça celestial, e todos os verdadeiros crentes são Seus membros por meio do mesmo Espírito.
Em 1 Coríntios 12, o apóstolo fala da Igreja na Terra, não de uma Igreja futura que será aperfeiçoada no céu, nem mesmo de igrejas espalhadas pelo mundo, mas da Igreja como um todo, representada, no entanto, pela Igreja em Corinto. A totalidade da Igreja é claramente vista nas palavras: “E a uns pôs Deus na Igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar”. É evidente que os apóstolos não estavam em uma Igreja específica e que os dons da cura não podiam ser exercitados no céu. Trata-se da Igreja universal na Terra. Esta Igreja é o corpo de Cristo, e os verdadeiros crentes são seus membros. São um pelo batismo do Espírito Santo. “Assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também” (v. 12). Então, depois de dizer que todos esses membros trabalham, cada um em sua própria função no corpo, ele acrescenta (v. 27): “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular”. Tenha em mente que isso aconteceu pelo batismo do Espírito Santo que desceu do céu. Consequentemente, esse corpo existe na Terra e abrange todos os Cristãos onde quer que estejam; eles receberam o Espírito Santo pelo Qual são membros de Cristo e membros um do outro. Oh, quão bonita é a unidade! Assim, “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Co 12:26).
A habitação de Deus
Há, como dissemos, outro caráter da Igreja na Terra; é a habitação de Deus na Terra. A presença do Espírito Santo é o que caracteriza os verdadeiros crentes em Cristo individualmente. O nosso “corpo é o templo do Espírito Santo” (1 Co 6:19). Mas os Cristãos tomados juntamente também são o templo de Deus, e o Espírito de Deus habita neles coletivamente (1 Co 3:16). A Igreja, então, é a habitação de Deus na Terra pelo Espírito. Que privilégio mais precioso! A presença do próprio Deus, a fonte de regozijo, força e sabedoria para o Seu povo! “Jesus Cristo… no Qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No Qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:20-22). A intenção de Deus é ter um templo formado, composto de todos os que creem, depois que Deus derrubou a parede de separação que excluía os gentios; este edifício cresce até que todos os Cristãos estejam unidos em glória. Entretanto, enquanto isso, os crentes na Terra formam um tabernáculo de Deus – Sua habitação por meio do Espírito, que habita no meio da Igreja.
Mais do que isso, em 1 Timóteo 3, o apóstolo se refere à “casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”. Vemos aqui que o Cristão é responsável por manter a verdade no mundo. A Igreja não ensina; os mestres instruem, mas o Cristão mantém a verdade sendo fiel a ela. É o testemunho da verdade no mundo.
Uma única Igreja
Qual era o estado da Igreja quando começou em Jerusalém? Achamos que o poder do Espírito de Deus foi maravilhosamente manifestado. É verdade que o mal do coração do homem logo apareceu, mas ao mesmo tempo o Espírito Santo estava na Igreja e agia lá e era suficiente para remover o mal e transformá-lo em bem. A Igreja, no entanto, era uma, conhecida pelo mundo. Uma única Igreja, cheia do Espírito Santo, prestou testemunho da salvação de Deus e de Sua presença na Terra. E a esta Igreja Deus acrescentava todos aqueles que haviam de ser salvos.
Todos os Cristãos eram conhecidos, todos admitidos publicamente na Igreja, tanto gentios quanto Judeus. A unidade era manifestada. Todos os santos eram membros de um corpo, do corpo de Cristo. A unidade do corpo era confessada e era uma verdade fundamental do Cristianismo. Em cada localidade havia a manifestação dessa unidade da Igreja de Deus na Terra, de modo que uma epístola de Paulo, dirigida à Igreja de Deus em Corinto, chegava a uma única assembleia. Se um membro do corpo de Cristo fosse de Éfeso a Corinto, ele seria igualmente e necessariamente também um membro do corpo de Cristo nesta última assembleia. Na Palavra, não encontramos a ideia de membros de uma Igreja, mas de membros de Cristo.
Os dons para o ministério
O ministério, como é apresentado na Palavra, é igualmente uma prova dessa mesma verdade. Os dons, fonte de ministério, dados pelo Espírito Santo, estavam na Igreja (1 Co 12:28, 8-12). Aqueles que os possuíam eram membros do corpo. Apolo era mestre em Corinto; ele também era mestre em Éfeso. Essa unidade e a livre atividade dos membros são encontradas sendo realizadas no tempo dos apóstolos. Cada dom era totalmente reconhecido como eficaz para realizar a obra do Senhor e era exercido livremente. Quanto mais se lê os Atos dos apóstolos, quanto mais se lê as epístolas, mais se vê esta unidade e esta verdade. Quando o Espírito Santo governa, necessariamente une irmãos e age em cada um de acordo com o objetivo que Ele propôs a Si mesmo em uni-los, isto é, de acordo com Seu próprio objetivo. Assim, a presença do Espírito Santo reúne todos os santos em um corpo e trabalha em cada um de acordo com Sua vontade, guiando-os no serviço do Senhor para a glória de Deus e a edificação do corpo.
Essa era a Igreja. Como é agora e onde é encontrada hoje na Terra? Os membros do corpo de Cristo estão agora dispersos – muitos escondidos no mundo, outros no meio da corrupção religiosa; alguns em uma seita, alguns em outra, rivalizando uns com os outros para conquistar os salvos. Muitos, graças a Deus, buscam a unidade, mas quantos a têm encontrado? “Para que todos sejam um”, diz o Senhor, “para que o mundo creia que Tu Me enviaste”. Mas a unidade do corpo não é manifestada. O testemunho que a Igreja presta agora é este: que o Espírito Santo, com Seu poder e graça, é incapaz de superar as causas das divisões. A Igreja – outrora bela, unida, celestial – perdeu seu caráter; está escondida no mundo; os próprios Cristãos são mundanos, cobiçosos, ansiosos por riquezas, honra, poder – como os filhos deste século. A maior parte do que leva o nome de Cristão é a sede do inimigo ou do infiel, e os verdadeiros Cristãos estão perdidos no meio da multidão.
A glória visível
No Velho Testamento, a glória de Deus, Sua real presença visível, já esteve em Jerusalém, e Seu trono estava sobre os querubins, mas desde o cativeiro babilônico Sua presença abandonou Jerusalém, e Sua glória, assim como Sua presença, já não mais existiam no templo no meio do povo. Esse será o desfecho do sistema Cristão, se ele não continuar na bondade de Deus. Mas ele não continuou na bondade de Deus.
Certamente todos os verdadeiros Cristãos serão preservados e arrebatados para o céu, mas, no que concerne ao testemunho da Igreja na Terra, a casa de Deus por meio do Espírito, acabará por não existir mais. Pedro já havia dito: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus” (1 Pe 4:17). E no tempo de Paulo o mistério da iniquidade já estava operando e devia ser continuado até que o homem do pecado aparecesse; já no tempo do apóstolo todos procuravam aquilo que era seu, e não as coisas que eram de Jesus Cristo. Paulo nos diz ainda que, depois de sua partida, deveriam entrar entre os Cristãos, na Igreja, lobos ferozes, não poupando o rebanho, e que nos últimos dias viriam tempos trabalhosos, homens tendo uma forma de piedade, mas negando o poder dela, que homens maus e sedutores iriam de mal a pior, enganando e sendo enganados, e que finalmente a apostasia deveria acontecer.
É verdade que seremos arrebatados para o céu, mas, junto com isso, acaso não devemos lamentar a ruína da casa de Deus? Sim, devemos lamentar o que antes era um, um belo testemunho da glória de seu Cabeça pelo poder do Espírito Santo, unido, celestial, para que o mundo pudesse reconhecer o efeito do poder do Espírito Santo que colocava o bem-estar dos homens, acima de todos os motivos humanos, e, fazendo desaparecer as distinções e diversidades entre eles, fez com que os crentes de todos os países e de todas as classes fossem uma família, um corpo, uma Igreja, um poderoso testemunho da presença de Deus na Terra no meio dos homens.
Se a casa de Deus ainda está na Terra e o Espírito Santo habita nela, será que Ele não Se entristece com o estado da Igreja? E se Ele habita em nós, nosso coração não deve ser afligido e humilhado pela desonra feita a Cristo e pela destruição do testemunho que o Espírito Santo desceu do céu para sustentar, na unidade da Igreja de Deus? Aquele que compara a Igreja como é descrita no Novo Testamento com seu estado atual, sentirá seu coração profundamente entristecido ao ver a glória da Igreja arrastada para o pó e o inimigo triunfando na confusão do povo de Deus.
A glória de Cristo
Finalmente, Cristo confiou Sua glória na Terra à Igreja. Ela foi a depositária dessa glória. Acaso a Igreja preservou esse depósito e manteve a glória de Cristo na Terra? O Senhor derramou lágrimas de tristeza sobre Jerusalém; será que não deveríamos derramar nada sobre o que ainda é mais querido ao Seu coração? Posso estar separado de toda a iniquidade que corrompe a casa de Deus, mas, no entanto, como servo de Cristo, devo me identificar com a glória de Cristo e com suas manifestações ao mundo. Em breve Deus estabelecerá Sua própria glória de acordo com Seus conselhos, mas antes de tudo, o homem é responsável onde Deus o colocou. Fomos colocados na Igreja de Deus, em Sua casa, na habitação de Sua glória na Terra.
J. N. Darby (adaptado)
A Noiva de Cristo
Vamos pensar no que a Igreja é para Cristo. “Cristo amou a Igreja, e a Si mesmo Se entregou por ela” (Ef 5:25). Seu serviço atual é separar a Igreja, por meio da revelação de Seu amor por ela, para que ela possa ser Seu tesouro peculiar (KJV – ou Sua propriedade peculiar – ACF) como a virgem desposada de Sua escolha. Ele, o Filho de Deus em Humanidade, terá uma noiva! Nós, os membros do Seu corpo, fomos escolhidos n’Ele antes da fundação do mundo, para compartilhar com Ele, em Humanidade, toda a Sua glória que Lhe foi dada, pelos séculos dos séculos.
A Igreja, como noiva, é o objeto de Seu amor. Esse amor foi provado até a morte, quando Ele, o eterno Filho de Deus, suportou a ira e o juízo de Deus, esgotando-os totalmente, para que não conhecêssemos nada daquelas ondas e vagas. Por isso, Ele revelou as profundezas do seio divino, ao mesmo tempo em que fez expiação pelos pecados de acordo com a santidade de Deus. A própria linguagem é insuficiente para descrever o sofrimento daquelas três horas de trevas quando a ira de Deus caiu sobre Ele. Ele sofreu tudo isso para que pudéssemos conhecer o seio divino em toda a sua bem-aventurança, como a fonte da qual recebemos graça e fomos feitos herdeiros juntamente com Ele. Cristo em ressurreição é o começo de uma nova criação. A Igreja, Sua noiva, compartilha Sua liderança sobre todas as coisas.
Enquanto nos regozijamos com a verdade de que “o Filho de Deus, o Qual me amou, e Se entregou a Si mesmo por mim” (Gl 2:20), como indivíduo, nunca esqueçamos o que a Igreja é para Cristo, coletivamente. Todo aquele que é habitado pelo Espírito agora faz parte do corpo de Cristo. Quão rica é a revelação dessa bem-aventurança! Paulo a recebeu por revelação de Cristo em glória (Ef 3:1-10). Ele nos fala da preciosa expressão disso no partir do pão, quando o pão está inteiro sobre a mesa fala ao nosso coração do nosso lugar como membros do Seu corpo, enquanto o pão partido nos fala da Sua morte, pois “Cristo amou a Igreja, e a Si mesmo Se entregou por ela” (Ef 5:25).
A glória de Sua herança
A Igreja, unida a Cristo em glória, é absolutamente celestial em chamado e esperança. Agora estamos reunidos a um Cristo rejeitado (Jo 12:32); na Sua vinda, seremos reunidos a um Cristo glorificado (Ef 1:10). A vida que recebemos é celestial em sua fonte (1 Jo 1:1-3). O objetivo dessa vida é Cristo em glória (Filipenses 3). A esperança dessa vida é sermos “glorificados” com Ele (Rm 8:17). A Igreja será a Eva em Seu paraíso, a rainha em Seu trono, a glória mais rica e resplandecente da herança que Ele conquistou. Ao chamar alguém para fora do mundo, Ele os confia a Seu Filho, para serem um com Ele em pensamento, desejo e esperança agora e, por fim, para serem glorificados juntamente com Ele em Sua glória! Oh, que nossa alma não perca a preciosidade do que a Igreja é para Ele!
A visão da glória vindoura
A verdade da Igreja como noiva de Cristo em glória foi “oculta em Deus” e dada ao apóstolo Paulo por revelação (Ef 3). É aquela “coisa melhor” da qual lemos em Hebreus 11:40. Não deveríamos valorizar essa preciosa revelação e irromper em louvor ao descobrir o segredo revelado de tanta graça infinita que nos tornou herdeiros com Ele de toda a vasta cena da nova criação?
Na Epístola aos Efésios, somos vistos como já assentados com Cristo em lugares celestiais, enquanto aguardamos o tempo em que Ele, “para a administração da plenitude dos tempos; encabeçar todas as coisas no Cristo, as coisas nos céus e as coisas sobre a Terra” (Ef 1:10 – JND). Oh! Amados santos de Deus, pense n’Aquele bendito Homem na glória, esperando tomar Sua herança até que Ele tenha Sua noiva! Seus santos, agora unidos a Ele como membros de Seu corpo, hão de ser apresentados a Ele como “Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante” (Ef 5:27)! Vivificados “juntamente”, temos vida em Cristo ressuscitado, “ressuscitados” pelo Espírito unido a Cristo em glória, que em breve seremos “glorificados” juntamente com Ele. Paulo então olha e vê Cristo como o Cabeça sobre toda a nova cena da glória da criação. Ele, que é o Noivo da Igreja, terá Sua noiva, como a rainha desposada de Sua maravilhosa graça, para assentar-se com Ele em Seu trono e compartilhar toda a glória dessa nova criação com Ele para todo o sempre. Então Ele será coroado com muitas coroas, enquanto louvor eterno emanará de toda a multidão redimida. O céu e a Terra irromperão em Seu louvor.
H. E. Hayhoe (adaptado)
A Verdadeira Igreja
Efésios 1 apresenta os conselhos de Deus em relação a Cristo e à Igreja. Somos levados de volta antes da fundação do mundo para rastrear a fonte de todas as nossas bênçãos no eterno propósito de Deus; somos transportados para a plenitude dos tempos, para ver a herança da glória quando todos os conselhos de Deus serão cumpridos. Em Efésios 2:1-10, temos a obra de Deus em nós, tendo em vista Seus conselhos para conosco, por meio dos quais Ele vivifica almas mortas, as eleva junto a Cristo e as assenta em Cristo nos lugares celestiais.
Em Efésios 2:11‑22, temos os caminhos de Deus conosco a tempo de realizar Seus conselhos para nós na eternidade. Existe o que Deus propôs para nós, o que Deus faz em nós, e o que Deus faz conosco. Ele trabalha em nós para que possamos ser vivificados juntos com Cristo; Ele trabalha conosco para que possamos ser ajuntados em um corpo, adequadamente ajustados em um templo santo no Senhor, e edificados juntos para morada de Deus por meio do Espírito.
Podemos entender prontamente que a epístola deve necessariamente começar com a revelação dos propósitos de Deus, pois a menos que conheçamos Seus propósitos para a eternidade, não entenderemos Seus caminhos no tempo. Confinando então nossos pensamentos à parte inicial da epístola (Ef 2:1-10), vemos a Igreja apresentada em conexão com os conselhos e a obra de Deus. O trabalho e as responsabilidades do homem não têm lugar nesta passagem. Tudo é conselhado por Deus, e tudo é realizado por Deus, e, sendo de Deus, tudo é perfeito.
Os versículos 3‑7 revelam os conselhos de Deus para Seus santos individualmente – aqueles que compõem a Igreja. Nesta grande passagem, vemos o caráter de nossas bênçãos, a fonte de nossas bênçãos, o fim que Deus tem em vista e os meios pelos quais esse fim é alcançado.
O caráter de nossas bênçãos
Quanto ao caráter de nossas bênçãos, é importante lembrar que elas são espirituais, celestiais e em Cristo. A percepção do verdadeiro caráter de nossas bênçãos terá um efeito imenso em nosso testemunho, pois Deus forma nosso testemunho instruindo-nos sobre o verdadeiro caráter de nossas bênçãos e levando-nos ao desfrute delas.
Quanto à fonte de todas as nossas bênçãos, lemos: “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo... nos elegeu n’Ele antes da fundação do mundo”. Todas as nossas bênçãos têm sua fonte nos conselhos do coração do Pai. Descobrimos que Seu coração estava colocado sobre nós antes da fundação do mundo. Ele colocou Seu amor sobre nós em vista de nossa bênção eterna, quando o mundo não existir mais. Como isso firma a alma em sua jornada pelo mundo, pois nada que ocorra nos caminhos de Deus no tempo pode tocar os conselhos de amor que foram estabelecidos em uma eternidade passada.
Também somos levados, em espírito, a contemplar o fim de todos os conselhos de Deus em glória. Assim, aprendemos que Deus tinha a intenção de ter os santos diante d’Ele em uma condição adequada a Si mesmo – “santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor”, santos em caráter, irrepreensíveis em conduta e em amor quanto à natureza. Nada menos se adequaria ao coração de Deus, e o que será realizado em sua plenitude é forjado em nossa alma pelo Espírito agora, se, no poder do Espírito, procurarmos responder aqui ao que devemos ser com perfeição lá em cima.
Aptos a Deus
Além disso, não apenas somos eleitos para estar em uma condição adequada a Deus, mas somos predestinados a desfrutar do relacionamento dos filhos diante do Pai. Os anjos, sem dúvida, estarão diante de Deus em uma condição adequada a Deus, mas eles estão lá na posição de servos. Somos predestinados de acordo com o bom prazer de Sua vontade, para o louvor da glória de Sua graça.
Além disso, em vista da realização do propósito de Deus, devemos ser redimidos e ter o perdão dos pecados por meio do sangue de Cristo, de acordo com as riquezas de Sua graça. O apóstolo conectou a predestinação com a “glória da Sua graça”; agora ele conecta redenção com “as riquezas da Sua graça”. Nossa grande necessidade é satisfeita pelas riquezas de Sua graça, mas a glória de Sua graça faz mais ainda; ela nos leva ao favor e nos dá o lugar de filhos. Em Efésios, o apóstolo vai além de nossas responsabilidades para revelar nossos privilégios; portanto, temos não apenas as riquezas de Sua graça, mas a glória de Sua graça.
O mistério de Sua vontade
Tendo, então, nos sete primeiros versículos, revelado os conselhos do coração do Pai a respeito de Seu povo, o apóstolo passa a novas maravilhas. Deus quer que conheçamos o mistério da Sua vontade, de acordo com o Seu bom prazer, que Ele propôs em Si mesmo para a administração da plenitude dos tempos. Na Escritura, um mistério é um segredo que não pode ser conhecido até que seja revelado por Deus e, quando revelado, só pode ser conhecido pelos iniciados. Aqui o mistério se refere à “plenitude dos tempos”, quando Deus terá tudo administrado de acordo com Sua mente – quando tudo o que Deus instituiu em outros momentos, e que tão completamente falhou nas mãos dos homens, será administrado em toda a sua plenitude sob Cristo. O governo, o sacerdócio e a realeza foram instituídos por Deus em outros tempos, apenas para desmoronar porque foram confiados à responsabilidade do homem. Mas está chegando o tempo em que todos serão vistos com perfeição e plenitude. Isso será trazido ao se encabeçar todas as coisas em Cristo, tanto as que estão no céu como as que estão na Terra. Atualmente, Cristo está oculto, mas quando Ele estabelecer Seu trono – quando Ele reinar – tudo será administrado sob o bom prazer de Deus.
O Velho Testamento prediz abundantemente “os sofrimentos que a Cristo haviam de vir e a glória que se lhes havia de seguir”, cujas glórias, embora cheguem aos limites mais extremos da Terra, ainda são terrenais e não celestiais. Isso não é segredo ou mistério; pelo contrário, os profetas estão cheios de descrições brilhantes do reino terrenal. Quando, no entanto, chegamos ao Novo Testamento, Deus revela-nos o grande segredo de que o domínio de Cristo se estenderá imensuravelmente além dos limites da Terra; que, como Homem, Cristo terá domínio não apenas “de mar a mar, e desde o rio até às extremidades da Terra”, mas por todo o vasto universo de Deus até os limites mais extremos da criação; que Ele deve ser colocado muito acima de todo principado, poder, potestade e domínio, e todo nome que seja nomeado, não apenas neste mundo, mas também naquele que está por vir. E há mais: que todas as coisas no céu e na Terra serão unidas sob Cristo como Cabeça. Deus nos abundou com toda sabedoria e inteligência, tornando-nos conhecidos não apenas Seu propósito para Seu povo, mas também os segredos de Seu coração em relação a Cristo; não apenas Seu propósito para a Terra, mas Seus segredos a respeito de todo o universo.
Este é o mistério de Sua vontade, mas mesmo assim não é todo o mistério, pois o mistério diz respeito a “Cristo e a Igreja” (Ef 5:32). Isso nos leva à parte mais surpreendente do mistério – que no dia de Seu domínio universal, Cristo terá uma vasta companhia de pessoas, tornadas semelhantes a Ele como resultado de Sua própria obra, unidas a Ele pelo Espírito Santo, para compartilhar com Ele toda a glória de Seu domínio universal, como Seu corpo e Sua noiva.
Cabeça sobre todas as coisas à Igreja
A parte restante deste capítulo nos traz essa verdade adicional. O apóstolo continua: “em Quem também temos obtido uma herança” (JND). Cristo reinará sobre Israel, sobre os gentios, sobre todo o universo, mas nunca se diz que Ele reinará sobre a Igreja. Cristo, de fato, será sempre o Supremo, mas para louvor de Sua glória a Igreja reinará com Ele.
Isso se torna ainda mais claramente manifesto pela oração do apóstolo que encerra o capítulo. Tendo revelado a esperança do chamado nos versículos 3‑7 e a herança nos versículos 8‑14, o apóstolo agora ora para que possamos conhecer essas coisas e, além disso, para que possamos conhecer a grandeza do Seu poder para conosco que levará essas gloriosas verdades ao seu pleno cumprimento. Esse poder foi manifestado ao ressuscitar Cristo dentre os mortos e colocá-Lo “acima” de tudo e colocar “todas as coisas a Seus pés”. Mas, embora seja dado a Cristo como Homem que seja Cabeça sobre todas as coisas, Ele é Cabeça sobre todas as coisas para a Igreja que é Seu corpo, a plenitude d’Aquele que preenche todas as coisas.
Assim, a Igreja, por sua associação com Cristo, compartilhará Seu domínio universal sobre toda a criação. E assim como foi dito de Eva ser uma companheira de ajuda para Adão, assim também se diz que a Igreja é a plenitude d’Ele que preenche tudo. À parte da Igreja, Cristo careceria de Sua plenitude. Como alguém disse: “Como Filho de Deus, Ele, é claro, não precisa de nada para completar Sua glória, mas como o Homem Ele precisa. Ele não seria mais completo, em Sua glória de ressurreição, sem a Igreja do que Adão teria sido sem Eva.”
H. Smith (adaptado)
A Esposa do Cordeiro
Desejo apresentar a vocês um pouco sobre “a noiva, a esposa do Cordeiro”, como demonstrado na glória milenar. Deus age sobre nossa alma por Sua verdade dessa maneira. Ele traz a glória futura diante de nós como uma realidade prática presente em seu poder santificador; Ele nos revela a glória preparada para nós desde a eternidade, um campo sem limites de alegria sem fim; Ele nos aponta para Aquele que subiu ao alto, o centro de tudo, Aquele que pode preencher os afetos de nosso coração como o único Objeto digno deles – Cristo, a Quem conhecemos aqui abaixo em fraqueza e tristeza, o centro daquela cena de luz e bem-aventurança. Ele toma as coisas da glória de Cristo e as coloca diante de nós agora que podemos viver nelas – viver no amor do Pai e no amor de Cristo que excede todo o entendimento. Assim, Ele revela a glória, para que nosso coração seja levado para ela e para que ela tenha seu próprio efeito santificador sobre nós.
A glória pessoal da noiva
Apocalipse 21:9‑27 nos dá a descrição da exibição milenar da noiva para o mundo. A noiva, a esposa do Cordeiro, é vista em sua glória pessoal. E o que é tão digno de nota e uma bênção para nossa alma é que toda a obra santificadora que Cristo está realizando agora em Seus santos será manifestada, e o resultado será visto na glória como aqui ilustrada. Lemos que “Cristo amou a Igreja, e a Si mesmo Se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela Palavra, para a apresentar a Si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5:25-27). Que motivo, então, para nos entregarmos a Ele, para que Sua graça não seja impedida! Ele santifica pela ação da Palavra; Ele revela tudo o que impede a comunhão Consigo mesmo naquela cena brilhante; Ele Se revela e Se manifesta ao coração de Seus santos – para desapegá-los dessa cena e encher o coração deles Consigo mesmo. Então, Ele apresentará a Sua Igreja gloriosa a Si mesmo, sem mácula, nem rugas da velhice – nem um traço da cena pela qual ela passou – a Eva celestial do último Adão para o paraíso de Deus!
Nesta demonstração de glória, o que Cristo foi pessoalmente e o que a Igreja glorificada será, ao manifestar as glórias do Cordeiro – tudo isso aparece nesta cena.
A demonstração da glória de Deus
“E tinha a glória de Deus” (Ap 21:11). Uma coisa deve nos atingir à força: É o quanto a glória de Deus está entrelaçada com a descrição da cidade celestial. Você tem isso tanto em palavras literais quanto em figuras. Você a encontra nas fundações da cidade, em seus muros, em sua luz interior e em sua aparência exterior: Tudo é glória. Ela sustenta, envolve, demonstra e ilumina toda a cena. A glória de Deus envolveu os santos, e eles habitam na glória de Deus. Sem dúvida, é sua manifestação milenar; ainda assim, confere caráter à Igreja, que mesmo agora ela está colocada neste mundo para mostrar a ele os traços morais dessa glória. “A glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada”.
Aqui ela é vista, na perfeição da glória dada de Cristo, como correspondendo a todo o caráter dela. Ela é a demonstração da glória na Terra milenar. Ela não desce à Terra, mas lança a luz dessa glória sobre Jerusalém abaixo. Como Jerusalém celestial, a Igreja ainda mantém seu caráter como a manifestação de graça; como Jerusalém abaixo será o centro do governo terrenal naquele dia.
Um grande e alto monte é a plataforma a partir da qual se pode contemplar esta Jerusalém celestial, a noiva, “que de Deus descia do céu”. Ela é trazida abaixo para que a Terra possa ver sua glória, a glória de Deus manifestada nela.
A perfeita manifestação de Cristo
Em João 17, ele diz: “a glória que a Mim Me deste, para que sejam um, como Nós somos um. Eu neles, e Tu em Mim”. É Cristo neles tão perfeitamente manifestado, como o Pai estava n’Ele. O Senhor Jesus Se volta para o dia de glória que está diante de nós. Assim, Ele pode falar sobre o fato de termos sido “aperfeiçoados em um” (TB) e “para que o mundo conheça”. Ora, nós deveríamos ter andado de maneira que o mundo pudesse ter crido, mas, infelizmente, temos falhado em manifestar Cristo ao mundo. Em que graça infinita Ele nos leva ao dia em que não haverá mais fracassos, mas Ele será perfeitamente manifestado em nós, “para que o mundo conheça que Tu Me enviaste a Mim” quando o mundo vir vocês, meus irmãos, e todos os seus santos na mesma glória que o Filho de Deus – “e que os tens amado a eles como Me tens amado a Mim”.
Esta cidade tem a glória de Deus: “E tinha a glória de Deus; e a sua luz era semelhante a uma pedra preciosíssima, como a pedra de jaspe, como o cristal resplandecente” (Ap 21:11). Este é um símbolo usado para a glória de Deus (Ap 4:3). Ela tem a glória “de Deus” e, no entanto, é chamada “a sua luz” (Ap 21:11). Deus produziu as graças de Cristo nos santos aqui – e o fez por pura graça – e, ainda assim, Ele as atribuiu a eles. Você deseja que as graças e a mente de Cristo possam ser reproduzidas em você. Bem, aquelas que são atribuídas como suas, embora Sua graça as tenha feito, como no capítulo 19:8, para Sua esposa “foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente” e é dito que “o linho fino são as justiças dos santos”, embora todas sejam absolutamente a produção de Sua própria graça nela. O que Ele era sobre a Terra, o que Ele produz em Seu povo e o que Ele manifesta em glória, tudo é visto.
Você deve se lembrar que Efésios 2:7 diz que Deus manifestará, por meio da Igreja, “nos séculos vindouros as abundantes riquezas da Sua graça pela Sua benignidade para conosco em Cristo Jesus”. Não é possível medir, por padrões humanos, aquilo pelo qual Deus revela e manifesta, por toda a eternidade, a plena extensão das riquezas de Sua graça, em Sua bondade para conosco.
A glória de Deus é a fundação, a segurança, a estabilidade e a luz da cidade celestial. Oh, como o coração adora ao contemplar tal cena! Sua glória envolve Seu povo por todos os lados.
“A praça da cidade de ouro puro, como vidro transparente”. O ouro é a justiça divina e o vidro transparente representa a pureza fixa e transparente da verdade. Assim, a própria cidade apresenta, neste maravilhoso símbolo, aquilo que Cristo era em Si mesmo e aquilo que o “novo homem”, o qual, segundo Deus, é criado em verdadeira justiça e santidade.
Sua pérola de grande valor
“As doze portas eram doze pérolas”. Aqui um belo pensamento encontra sua expressão. Nele se vê a beleza e a formosura moral que atraíram o coração de Cristo na Igreja e pelas quais Ele vai e “vende tudo o que tem”. Interiormente, descobrimos que a cidade é “ouro puro, como vidro transparente”; exteriormente, a beleza moral da pérola. Cada portão mostrava isso. O mesmo acontece com o próprio Senhor, pessoalmente, e também com o Cristão que se revestiu “do novo homem” onde “Cristo é tudo” e, externamente, o efeito é que as características humildes de Sua graça são produzidas, e assim, com a Igreja coletivamente, para que Cristo seja plenamente exibido de acordo com o pensamento de Deus, e o que será visto em plena exibição quando Ele vier “para ser glorificado nos Seus santos, e para Se fazer admirável naquele dia em todos os que creem”.
Então a descrição continua: “E nela não vi templo”. Por que isso? Porque adoração é tudo o que está aqui; caracteriza a cena. “E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”. A cidade inteira é o santuário de Sua presença.
“E a cidade não necessita de Sol nem de Lua, para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada”. É a luz disso. Mesmo agora, se há luz em nosso coração, é a luz dessa glória brilhando na face de Jesus. Toda a glória de Deus resplandece concentrada naquele rosto, e nós o contemplamos sem véu e em paz; e mais ainda, o fato de ela resplandecer na face d’Aquele que Se entregou por mim me faz estar ocupado com a glória assim revelada. Assim será para sempre.
“As nações... andarão à sua luz”. Ali Cristo é visto nos santos, que são o esplendor de Sua glória para as nações abaixo.
Deus nos revela essa cena na qual as glórias do Cordeiro habitam, para animar e encher nosso coração com seu poder santificador presente e para nos dar uma estimativa mais verdadeira de qual é a excelência da nossa vocação, pois vemos agora tudo aquilo que é tornado real para a fé e que, então, no poder do Espírito Santo, será levado ao pleno resultado em glória.
F. G. Patterson (adaptado)
A Igreja nos Caminhos de Deus
Na primeira parte da Epístola aos Efésios, capítulos 1 e 2:1-10, a Igreja é apresentada em relação a Cristo em glória, de acordo com os conselhos de Deus. Isso prepara o caminho para uma visão muito diferente da Igreja – sua formação e testemunho na Terra, de acordo com os caminhos de Deus.
Há uma vasta diferença entre os conselhos de Deus para a glória e os caminhos de Deus na Terra. Compreendendo essa distinção, veremos que não apenas a Igreja tem um destino glorioso como unida a Cristo no céu, de acordo com o propósito eterno de Deus, mas também tem uma existência na Terra e um ótimo lugar nos caminhos de Deus aqui abaixo. É esse aspecto da Igreja que nos é apresentado em Efésios 2:11-22.
Judeus e gentios
Para que possamos entender esse aspecto muito importante da Igreja, o apóstolo nos lembra a posição distinta mantida por Israel nos tempos que antecederam a cruz. Naquela época, eles desfrutavam de um lugar de privilégio ao qual o gentio era um completo estranho. Nos caminhos de Deus na Terra, Ele separou Israel dos gentios e deu a Israel um lugar de privilégio exterior especial. Os gentios não tinham tal posição no mundo, e as próprias ordenanças que regulavam a vida dos Judeus mantinham severamente os Judeus e os gentios separados.
Mas Israel falhou completamente em corresponder a seus privilégios e, como resultado, eles perderam, por enquanto, seu lugar especial de privilégio na Terra. O fato de Israel ter sido colocado de lado prepara o caminho para a maravilhosa mudança que ocorreu nos caminhos de Deus na Terra. Após a rejeição de Israel, Deus trouxe à luz a Igreja e, assim, estabeleceu um círculo inteiramente novo de bênção, totalmente fora dos círculos Judaico e gentio. Esse novo início se torna a ocasião de a graça de Deus fluir de uma maneira muito especial para os gentios. A chamada é dirigida aos gentios; não que o Judeu seja excluído do novo círculo de bênçãos, pois a Igreja é composta de crentes dentre Judeus e gentios.
Mas, para que os gentios participem da Igreja, deve ser em uma base justa. Portanto, a cruz é imediatamente trazida (v. 13). Pelo sangue de Cristo, os pecadores dentre os gentios são trazidos para perto de Deus, sendo transportados do local distante em que o pecado os havia colocado, em um local de proximidade – não uma mera proximidade exterior, por meio de ordenanças e cerimônias, mas uma proximidade vital que só é totalmente expressa no próprio Cristo, ressuscitado dentre os mortos e aparecendo diante de Deus por nós. Assim, é dito: “Em Cristo Jesus, vós... já pelo sangue de Cristo chegastes perto”. Nossos pecados nos afastam, porém o precioso sangue não apenas nos lava de nossos pecados; mas ele nos aproxima. O sangue de Cristo declara a enormidade do pecado que exigia tal preço, proclama a santidade de Deus que não poderia ser satisfeita com um preço menor e revela o amor infinito que poderia pagar o preço.
O corpo de Cristo
Mas a Igreja não é simplesmente um número de indivíduos que foram “aproximados” (ARA), pois isso será verdade para todo santo comprado pelo sangue de todas as épocas. É preciso mais; Os crentes Judeus e gentios devem ser feitos “um” (v. 14). Isso também a cruz de Cristo realizou. A inimizade entre Judeus e gentios foi causada pelas ordenanças pelas quais o Judeu poderia se aproximar de Deus de maneira exterior, enquanto os gentios não poderiam. Mas na cruz, Cristo aboliu completamente a lei das ordenanças como um meio de se aproximar de Deus e criou um novo modo de se aproximar por Seu sangue. Tanto Judeus como gentios são levados a um terreno inteiramente novo em um plano imensuravelmente mais alto.
Mas mesmo isso não expressa a verdade completa da Igreja. O apóstolo nos diz ainda que não somos apenas “aproximados” e não apenas feitos “um”, mas que fomos feitos “um novo homem” (v. 15), “um corpo” (v. 16), habitados por “um Espírito”, por Quem temos acesso ao Pai (v. 18). Isso, de fato, apresenta toda a verdade da Igreja – o corpo de Cristo que, nos caminhos de Deus, está sendo formado na Terra.
Deus não está apenas salvando Judeus e gentios com base no sangue, Ele não apenas está reunindo tais pessoas em unidade, mas Ele as está formando em um novo homem do qual Cristo é a Cabeça gloriosa, os crentes são os membros do corpo e o Espírito Santo, o poder unificador. Isso é muito mais que unidade; é união. A Igreja não é simplesmente uma companhia de crentes em feliz unidade, mas uma companhia de pessoas que são membros de Cristo e umas das outras em íntima união. E o novo homem não é meramente novo em relação ao tempo, mas é de uma ordem inteiramente nova. Antes da cruz havia dois homens, Judeus e gentios, odiando-se e em inimizade com Deus. Agora, nos maravilhosos caminhos de Deus, “um novo homem” surgiu – um novo homem que abrange todos os santos da Terra, unidos por um Espírito a Cristo, a Cabeça ressuscitada e exaltada.
Três grandes verdades
Conectadas com a formação da Igreja de Deus na Terra, há três grandes verdades às quais o apóstolo se refere: reconciliação com Deus, pregação da paz aos pecadores e acesso ao Pai por parte dos santos.
Primeiro, Judeus e gentios são reconciliados com Deus em um corpo (v. 16). Na cruz, Ele trabalhou tão maravilhosamente que ambos foram trazidos para perto d’Ele, e ambos foram trazidos para perto um do outro. Nada poderia expressar mais perfeitamente toda a remoção da inimizade do que o fato de os crentes Judeus e gentios serem formados em “um corpo”.
A segunda grande verdade é que o evangelho da paz é pregado aos gentios que estavam longe e aos Judeus que estavam dispensacionalmente próximos. Sem a cruz não poderia haver pregação, e sem a pregação não haveria Igreja. Cristo é visto como o Pregador, embora o evangelho que Ele prega seja proclamado instrumentalmente por outros. Lemos sobre os discípulos que “eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor” (Mc 16:20).
Há uma terceira verdade de grande bem-aventurança. Por um Espírito, ambos (Judeus e gentios) temos acesso ao Pai. A distância não é apenas removida do lado de Deus, mas também é removida do nosso lado. Pela obra de Cristo na cruz, Deus pode Se aproximar de nós, pregando a paz, e pela obra do Espírito em nós, podemos nos aproximar do Pai. A cruz nos dá nosso título para nos aproximarmos; o Espírito nos capacita a usar nosso título e, de forma prática, a nos aproximarmos do Pai. É pelo Espírito, mas é mais ainda, é por “um Espírito”, e, portanto, na presença do Pai, em tudo havia unanimidade.
Um templo santo – um edifício em progressão
Até agora, vimos a Igreja como o corpo de Cristo, mas nos caminhos de Deus na Terra, a Igreja é vista em outros aspectos, dois dos quais são apresentados diante de nós nos versículos finais do capítulo (vs. 19‑22). Primeiro, a Igreja é vista como um “templo santo no Senhor”; segundo, como “morada de Deus”.
No primeiro aspecto, a Igreja é comparada a um edifício em progressão que cresce até um templo santo no Senhor. Os apóstolos e profetas formam o fundamento, sendo o próprio Cristo a principal Pedra angular. Durante toda a dispensação Cristã, os crentes são acrescentados pedra por pedra até que o último crente seja edificado e o edifício completo seja manifestado em glória. Este é o edifício do qual o Senhor diz em Mateus 16: Eu “edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno [Hades – TB] não prevalecerão contra ela”. Cristo é o Construtor, não o homem; portanto, tudo é perfeito, e apenas pedras vivas fazem parte dessa santa estrutura. Pedro nos dá o significado espiritual deste edifício quando nos diz que as pedras vivas são construídas como uma casa espiritual “para oferecer sacrifícios espirituais a Deus”, por um lado, e para anunciar “as virtudes [as excelências – JND]” de Deus, por outro (1 Pedro 2:5, 9). Em Apocalipse 21, João tem uma visão do edifício completo descendo do céu, vindo de Deus e radiante com a glória de Deus. Então, de fato, daquele glorioso edifício, incessantes sacrifícios de louvor subirão a Deus, e um perfeito testemunho das excelências de Deus fluirá para o homem.
Uma casa concluída
Então o apóstolo, ainda usando a figura de um edifício, apresenta outro aspecto da Igreja (v. 22). Ele vê os santos não mais como sendo construídos em um templo em crescimento, mas como formando uma casa já completa para “morada de Deus em Espírito”. Todos os crentes na Terra, em qualquer momento que seja, são vistos como formando a morada de Deus. Mas o apóstolo não diz apenas: “Vós sois morada”, mas “vós juntamente sois edificados para morada”. Ou seja, a habitação é formada por crentes Judeus e gentios “juntamente edificados”. A morada de Deus é marcada por luz e amor; portanto, quando o apóstolo chega à parte prática da epístola, ele nos exorta como queridos filhos a andar “em amor” e a andar “como filhos da luz” (Ef 5:2, 8). A casa de Deus é, portanto, um lugar de bênção e testemunho, um lugar onde os santos são abençoados com o favor e o amor de Deus e, assim abençoados, tornam-se um testemunho para o mundo ao redor. Em Efésios, a morada de Deus é apresentada de acordo com a mente de Deus, e, portanto, apenas aquilo que é real é contemplado. Outras passagens mostrarão como, infelizmente, em nossas mãos, a morada foi corrompida até que finalmente lemos que o julgamento deve começar pela casa de Deus.
Assim, neste capítulo, temos uma apresentação tríplice da Igreja. A Igreja é vista como o corpo de Cristo, composto por crentes Judeus e gentios, unidos a Cristo em glória, formando um novo homem para mostrar tudo o que Cristo é como o Homem ressuscitado, Cabeça sobre todas as coisas.
Então a Igreja é um templo crescente composto por todos os santos de todo o período Cristão, em que os sacrifícios de louvor ascendem a Deus e as excelências de Deus são manifestadas aos homens.
Por fim, a Igreja é vista como um edifício completo na Terra, composto por todos os santos a qualquer momento, formando a morada de Deus para bênção ao Seu povo e testemunho ao mundo.
H. Smith (adaptado)
Título, Privilégios e Deveres
A Igreja está no céu quanto ao título e seus privilégios, e na Terra como fato e seus deveres. Na Terra, a Igreja deve ser a manifestação da atividade do amor de Deus e de Sua santidade, de acordo com o poder do Espírito Santo. Como temos visto, a Igreja, pela ressurreição em Cristo, está no céu, mas de fato também está na Terra. Se tivéssemos ascendido ao céu para receber o Espírito Santo, a unidade seria apenas para o céu, mas o Espírito Santo tendo descido à Terra para formar a unidade, essa unidade está aqui embaixo.
J. N. Darby
Um Cristo Tão Glorioso
O Cristo da Igreja é um Cristo tão glorioso que pode estar no céu e no meu coração.
J. N. Darby
Escolhido
Escolhidos em Cristo antes do início dos tempos,
Ou antes do lançamento dos alicerces da Terra,
Para que nós, filhos de Deus, pudéssemos agora ser
Feitos santos e irrepreensíveis.
Escolhidos em Cristo, que profundidade de graça,
Para pecadores como nós,
Redenção por meio daquele precioso sangue
Derramado no Calvário!
Escolhidos em Cristo, aceitos também,
No Filho eterno de Deus,
O objeto da alegria do Seu coração,
O Amado dos céus.
Escolhidos em Cristo, quão abençoados somos por conhecer
Todas as bênçãos espirituais reservadas
Nos lugares celestiais para os Seus,
Para aqueles que estão em Cristo, o Senhor.
Escolhidos em Cristo, para sermos para o louvor
E a glória da Sua graça,
N’Ele, o Filho amado de Deus,
Diante da face do Pai.
Escolhidos em Cristo, para que pudéssemos ser
Para o Seu louvor eterno,
E para a glória da Sua graça,
Pelos dias eternos do céu.
E. B. Hartt
“Que, pela Igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais”
Efésios 3:10




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