Luz para Almas Ansiosas

Atualizado: Mar 21

LUZ PARA AS ALMAS ANSIOSAS


INTRODUÇÃO


Se houve alguma coisa que pesou mais sobre o coração do autor ao escrever estas páginas, foi o pensamento de que a maioria dos que professam fé em Cristo praticam bem pouco essa fé. Em nossa preocupação com a ideia de levar paz às pessoas, existe um perigo especial que precisamos observar e orar para nos preservarmos dele e, ou seja, intrometer-nos (embora involuntariamente) entre Deus e os exercícios espirituais do indivíduo.


Este risco nunca foi provavelmente maior do que numa época superficial como a nossa. E fácil possuir hoje uma certa loquacidade em assuntos religiosos sem que a alma tenha sido absolutamente despertada. Ou, caso haja alguma espiritualidade, o caráter da mesma é tão pouco profundo que mal se deixa perceber em sua vida e comportamento diários.


Ao mesmo tempo, não pode haver dúvida de que através de impressões erradas quanto às próprias verdades fundamentais do evangelho, mediante hábitos de pensamento e expressão não-escriturísticos correntes em toda a Igreja professante, muitos corações se acham cheios de confusão e perplexidade realmente trágicos; embora os mesmos pudessem de outra forma estar saboreando a doçura da “alegria e paz na fé”. Isto não explica também a maneira pouco satisfatória do estilo de vida de inúmeras pessoas? Pois enquanto não tivermos um solo firme debaixo dos pés nosso andar será sempre vacilante.


Esta foi a consideração que encorajou o autor em seu objetivo de ajudar as almas, colocando estas páginas à frente delas; e sua oração é no sentido de que possam servir de bênção a muitos, sem fazer ninguém tropeçar. Quanto consolo encontramos nas palavras: “Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bens a alma faminta” (SI 107.9).


O PROBLEMA ESPIRITUAL


NÃO existe problema no mundo como o espiritual. Quem pode suportar o tormento de uma consciência culpada? “Mas ao espírito abatido quem o levantará?” (Pv 18.14).


Um pouco menor do que a angústia de acordar na eternidade e descobrir que nossa alma está “perdida”, é a amargura de fazer essa descoberta a tempo embora o grande abismo não esteja ainda completamente “fixado”, nem a condenação da alma eternamente selada.


Quando o homem despertar para a verdade de que o fim da vida pecaminosa é o inferno, sendo esse no entanto, justamente o seu estilo de vida; quando o Espírito de Deus o fizer lembrar de que o próximo bater de seu pulso e de seu coração podem ser os últimos e que o Deus contra quem por tanto tempo e tão obstinadamente rebelou-se, comanda a sua respiração com o seu poder, não será de admirar então que vá para a cama sem jantar, passando a noite em vigília silenciosa e não em sono reparador, temendo e tremendo, debatendo-se e gemendo, orando e chorando.


A condenação ou a salvação eterna da alma não é uma questão superficial, e como poderá ele descansar até que isso se resolva? Merece perfeitamente ser condenado, todavia deseja com fervor a salvação. Ele parece esperar contra toda esperança, no entanto espera e não pode escapar desse sentimento. De um lado fica a “verdade”, irradiando a luz de sua “lâmpada” sobre o futuro inevitável e o passado inegável expondo plenamente ambos. Do outro lado, por assim dizer, se coloca a “graça”, dando-lhe testemunho de que apesar de sua perversidade e inteiramente devido ao mérito de Outrem, a bênção eterna ainda pode ser sua.


Quanta intensidade nesse conflito interior, até que o perdão sobrevenha e reine a paz; até que o destino da alma na eternidade esteja garantido além de qualquer dúvida ou indagação.


Existe um outro fator de importância nesta luta feroz. Satanás com suas sugestões e mentiras, está agora em plena atividade. Ele manteve-se “quieto por longo tempo”, mas agora precisa pôr em prática todos os recursos diabólicos que possa inventar a fim de impedir, se possível, os propósitos da graça; caso contrário, seu ex-escravo obediente se transformará em outra testemunha do valor do sangue do Redentor na purificação c de seu poder para salvar.


Num momento ele murmura, “Você é bom demais para perder-se afinal”; em outro, “Você é ruim demais para ser salvo; pelo menos, ruim demais para ser salvo na condição em que se acha; espere até melhorar”. Alguém disse muito bem que o relógio de Satanás está sempre muito adiantado ou muito atrasado. Segundo os conselhos perigosos dele, sempre há “muito tempo para pensar nessas coisas”, ou ele sussurra, “Deus é muito duro e justiceiro para mostrar misericórdia a um pecador como você; é tarde demais agora”.


DIFICULDADES ESPIRITUAIS


Como poderei escapar do castigo pelos meus pecados, desde que Deus é justo e eu pecador?

ESTA pergunta é tão antiga quanto o livro de Jó. E toca as próprias bases de todo descanso e paz. “Como, pois, seria justo o homem perante Deus, e como seria puro aquele que nasce da mulher?” (Jó 25.4). Deus não poderia deixar de corresponder ao seu caráter santo e justo. O pecado o coloca no lugar de juiz e da mesma forma que Deus é justo, o pecado precisa ser plenamente castigado. Os homens sentimentalizam o amor de Deus e se esquecem da sua justiça. O Senhor, porém, será tão justo ao levar alguém para o céu através da obra de Cristo, como ao enviar o pecador para o inferno por causa de suas próprias obras perversas.


Quando Ele exaltou Cristo à sua destra na glória, declarou sua própria justiça através desse ato. Quando enviar Satanás ao castigo eterno no lago de fogo, estará conforme essa mesma justiça. De fato, se qualquer pecador for salvo, Deus será tão justo ao fazê-lo quanto o foi ao colocar Cristo na radiância da glória celestial, ou como será ao enviar Satanás para as trevas do juízo eterno.


De que modo então, depois de calar “toda boca” na família humana inteira, e pronunciar “todo homem” culpado diante dele, poderá Deus salvar qualquer um com justiça?


Ouça a resposta abençoada do Espírito de Deus: “Pois é Cristo quem morreu” (Rm 8.34). “Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).


A culpa do pecado recaiu sobre o Cordeiro, segundo os desígnios do próprio Deus. Toda indagação da consciência perturbada quanto à penalidade aplicada ao pecado é respondida por outra pergunta, a qual perdurará por toda a eternidade, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15:34).


Quem poderia responder esse “Por que?” misterioso do Calvário? Vamos fazer uma pausa e investigar.

Os demônios confessaram ser Ele o Santo de Deus. Poderiam os poderes das trevas nos dar uma razão? Impossível. O próprio Satanás viu-se frustrado toda vez que se aproximou daquele que podia dizer, “Porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim”.


Os anjos ministraram a Ele depois de sua tentação no deserto. Não sabiam que Deus se agradava dele e que fizera sempre aquilo que dava prazer ao Pai? Seria possível, no entanto, responderem a esta pergunta momentosa? Repetimos, impossível: “para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” (1 Pe 1.12).


Seus discípulos viram como a boca dos opositores fora silenciada pelo seu desafio sem resposta: “Quem dentre vós me convence de pecado?” (Jo 8.46) Eles deviam conhecer as palavras de Davi nas escrituras do Velho Testamento: “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão” (SI 37.25). Vemos agora o único Homem absolutamente justo que já pisou nesta terra, “Jesus Cristo, o justo” e Ele foi desamparado! Maravilha das maravilhas! Por que? O homem não tem resposta para essa pergunta; nem mesmo aqueles mais dedicados a Ele.


Deus o Pai, atraíra mais de uma vez a atenção do céu e da terra para o fato de que no Abençoado e Humilde, Ele encontrara perfeita satisfação e prazer. Irá Ele abrir novamente os céus para dar uma resposta a esse “Por que?” misterioso? Não. O bendito portador de pecados é deixado para sentir, como só Ele poderia sentir, em meio às trevas daquelas três horas, o terror dessa palavra: “DESAMPARADO”. Outros haviam clamado em tempos idos; suas vozes foram ouvidas, eles foram salvos; mas atente às palavras d’Ele, enquanto alcançam e ferem nosso coração, em meio àquelas trevas terríveis: “Eu clamo... e tu não me ouves” (SI 22.2). Não existe, portanto, resposta à pergunta? Bendito seja Deus, ela existe, caso contrário, adeus a qualquer esperança de paz para você e para mim. A fé encontrou uma resposta. De onde a tirou? Se os demônios, anjos, homens, não puderam fornecê-la; se Deus não o fez, qual a sua procedência? Ela saiu dos lábios d’Aquele que fora Esquecido! Ele justificou a Deus por Se esquecer d’Ele. Quão precioso! Precioso e inconcebível! Repita isso sempre e jamais deixe que essa lembrança se apague. Ele justificou Deus por desampará-lo. Ouça as suas palavras benditas no Salmo 22.3, PORÉM TU ÉS SANTO, o que habitas entre os louvores de Israel”. Foi como se dissesse: “Sois tão santo que não poderias fazer menos que isso, em toda justiça, além de voltar as costas ao pecado, mesmo quando teu amado Filho o levava sobre Si”. É verdade! Quando se trata de julgar o pecado, não pode haver alívio, nenhuma resposta, até que a taça da condenação se esgote. Quanta solenidade, todavia quanta beleza nisso tudo! Como o pecador perturbado se sente atraído para esse precioso Salvador, enchendo seu coração de paz e fazendo-o transbordar de louvor. Que maior prova podemos ter então de que os pecados dos crentes em Jesus já foram julgados com justiça, julgados na pessoa de seu adorável Substituto? Deus pode ser agora então “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3: 26) Eles não são justificados pelo fato de nada poder ser dito contra a sua pessoa, mas sim pelo sangue precioso que, de uma vez por todas, satisfez todas as acusações que o próprio Deus poderia fazer contra eles.


Adorai-Lhe, Adorai-Lhe,

Sua gloriosa obra consumou

Louvai-Lhe e Exaltai-Lhe,

Do pecador o juízo tirou

E sobre o Filho de Deus o lançou

“Está consumado”

clamou em dor na cruz ao morrer por mim

Fui culpado e pecador

Mas Cristo me salva assim.


Vemos assim que os pecados do crente não escaparam do castigo. O evangelho não fala de um Deus cujo amor foi expresso passando por alto o pecado, mas de um Deus cujo amor pelo pecador só poderia manifestar-se quando seus direitos santos contra o pecado tivessem sido rigorosamente satisfeitos e sua penalidade suportada até o fim.


“Que seja o pecado julgado”

Sobre a cruz está escrito.

“E o pecador libertado”

Oh gozo bendito!


Ao tentar ser bom, só consegui tornar-me pior.

Não encontramos talvez um erro mais comum do que supor que salvação significa um aperfeiçoamento gradual do indivíduo, uma melhora, até que ele se encontre finalmente cm condições para estar na presença de Deus, pronto para o céu.


Mas a Bíblia torna claro que a salvação vem somente pela fé na obra de Cristo, consumada na cruz de uma vez por todas.


Sabemos que o apóstolo Pedro ficou “cheio do Espírito Santo” quando testemunhou corajosamente diante das autoridades e anciãos de Israel, “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4.12).


Torna-se necessário entender claramente que o Espírito Santo jamais é apresentado como nosso Salvador, como se Ele tivesse morrido pelos nossos pecados. Através do Espírito Eterno é que Cristo ofereceu-se, sem mácula, a Deus (Hb 9.14). Mediante a obra do Espírito em nossas almas nos tornamos sensíveis à nossa necessidade de Cristo e de Seu sacrifício. O Espírito é que efetivamente aponta a obra de Cristo a toda alma despertada. No entanto, o trabalho do Espírito em nós não é a base da paz. “Sendo pois justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1), pois foi Ele que “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4.25). Vamos examinar a ideia simples de “sede” usada repetidamente nas Escrituras para descrever a necessidade de um pobre pecador: “Se alguém tem sede”, disse o Senhor bendito, “venha a mim, e beba” (Jo 7.37). Até uma criança, se lhe perguntássemos isso, poderia dizer que a sede é o resultado de algo produzido no interior de nosso corpo; o que mata essa sede é algo provido exteriormente e quando esta provisão externa é aplicada à necessidade interna, a sede é extinta.


Quando o testemunho da palavra de Deus, quanto à morte de Cristo, é recebido pela fé por parte de um pecador com a consciência atormentada, o resultado é paz. Eu merecia a morte e a condenação, ele lhe dirá, mas Cristo bebeu a taça do juízo e morreu em meu lugar; meus pecados eram inúmeros, mas Deus, que os conhecia, colocou os mesmos sobre o Seu Filho amado, como meu substituto, e o juízo completo sobre eles recaiu sobre a Sua bendita cabeça. Toda a minha perversidade foi exposta; nada ficou oculto; nada escapou ao julgamento. “Ele foi ferido pelas nossas transgressões”, “Foi entregue pelas nossas ofensas”, Deus ressuscitou-o dentre os mortos e a paz da alma é obtida através da fé n’Ele e no Deus que o ressuscitou.


Não se trata de um “aperfeiçoamento cada vez maior” da nossa parte. Se Deus não pudesse salvar-nos até que fôssemos suficientemente bons para merecê-lo, não haveria esperança para nós. Em lugar de estabelecer um determinado padrão de mérito a ser atingido pelo homem, Ele nos ensina dois fatos bem dolorosos sobre a nossa natureza:

  1. Nossa condição de pecadores.

  2. Nossa incapacidade de salvar-nos a nós mesmos.

Devemos aprender que não somos apenas culpados e ímpios, mas também que não temos poder para nos tornar aquilo que desejaríamos ser.


Só depois de repetidos esforços de reforma, após inúmeras decisões não levadas a termo, é que o versículo 6 do capítulo 5 de Romanos foi aplicado à alma sequiosa do escritor, “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”; assim como a água satisfaz a necessidade de um viajante sedento perdido no deserto, esse versículo satisfez a sua necessidade. O seu passado dera provas abundantes de que era “ímpio”, enquanto todos os seus esforços infrutíferos para ser o que um cristão deveria ser provaram apenas que era “fraco”. Mas agora, “Minha sede foi saciada, minha alma reviveu, E vivo hoje n’Ele”.


Não é necessário crescer na graça até que sejamos salvos; i.e., até que estejamos preparados para o céu?


Esta dificuldade se assemelha à que acabamos de tratar. A resposta será simplificada se lembrarmos que em vista da salvação da nossa alma apoiar-se inteiramente nos méritos da obra de Cristo na cruz a nosso favor, não pode haver progresso na segurança do crente, nenhum progresso na libertação “da ira vindoura”, desde que não existe progresso numa obra já “consumada”.


“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2.11); “Eis aqui agora o dia da salvação” (2 Co 6.2); “Hoje veio a salvação a esta casa” (Lc 19.9); “Que nos salvou” (2 Tm 1.9); “Porque pela graça sois salvos” (Ef 2.8).


Deve ser notado, porém, que existe além deste, um outro aspecto da salvação, embora não seja o tema tratado por nós aqui a salvação futura do corpo na vinda do Senhor (Fp 3.21), e a proteção diária dos que são reconciliados com Deus (Rm 5.10).


Deus havia declarado em tempos idos: NÃO SUBIRÁS POR DEGRAUS AO MEU ALTAR.


“Não o farás de pedras lavradas; se sobre ele levantares o teu buril, profana-lo-ás. Não subirás também por degraus ao meu altar” (Êx 20:25-26). Tome nota! Nenhuma obra artesanal, nenhum progresso na obra dos pés, é o que aprendemos aqui. Em linguagem figurada, o significado é este, “Estai quietos, e vede o livramento do Senhor”. Como um altar desse tipo era conveniente para um ladrão agonizante!


O que poderia ele ler feito caso houvesse necessidade de qualquer atividade das mãos e dos pés? Só podia olhar para Cristo, e isso era tudo. Seu pecado levou-o à presença do Cordeiro de Deus sobre o altar. A Luz da Vida despertou a sua consciência; o amor atraiu seu coração; sem necessidade de aguardar o progresso de um dia sequer, ele foi preparado para o paraíso naquele mesmo momento. E, mais ainda, com base na maior Autoridade, ele sabia disso.


Podemos então perguntar: Não existe algo como o progresso ou crescimento cristão? Graças a Deus há, mas (e repetimos com nova ênfase) nenhum progresso em nosso preparo para o céu, nem nosso livramento do juízo vindouro. Que “nos livra da ira futura” (1 Ts 1.10). “Que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz. Que nos tirou da potestade das trevas” (Cl 1.12,13).


Vejamos uma ilustração. Um homem que não sabia nadar caiu num rio profundo. Um senhor, desconhecido do indivíduo que se afogava, se apressa ao longo da margem até onde ele se acha lutando e afundando. Tirando o casado e o chapéu, ele corajosamente mergulha para salvá-lo. Sua coragem é recompensada. O homem é salvo. Algumas palavras de agradecimento sincero são trocadas de um lado e cumprimentos alegres do outro. O salvador e o salvo se despedem então, seguindo cada um o seu caminho.


Uma terceira pessoa que testemunhara o incidente seguiu o homem salvo e lhe disse: Você sabe quem foi que lhe salvou a vida?

“Ele me disse o seu nome”, replicou este, “mas gostaria de conhecê-lo melhor”.

“Você quer que vá visitá-lo um dia desses e lhe fale sobre ele? É uma excelente pessoa.”

“Quero sim. Venha e passe comigo algum tempo esta noite.”


O convite foi aceito e repetido para cada noite daquele mês. O tema da conversa foi sempre a pessoa que o salvara de morrer afogado. No fim desse período, aquele homem não estaria conhecendo muito melhor o seu bondoso salvador, do que o conhecia no primeiro dia? Claro que sim. Mas, teria havido algum progresso na salvação propriamente dita? Não. Todavia, houve crescimento. Ele cresceu no conhecimento de seu salvador.


Vamos aplicar agora nosso exemplo. O Filho bendito de Deus viu, em sua presciência, que se não interferisse a nosso favor, nos afogaríamos para sempre nas profundezas do juízo de Deus sobre o pecado. Não havia outro olhar misericordioso, nenhum outro braço que pudesse salvar. Mas “o amor levou-o a morrer”, e na plenitude do tempo Ele veio:


Desde os céus Ele veio, alta glória


Ao Calvário morrer, linda história.




Ele empreendeu a obra da nossa salvação. Foi batizado nas águas escuras da morte. As enchentes do juízo levantaram a sua voz. As ondas da ira rolaram com força esmagadora sobre Ele; de modo que para Ele e seu povo protegido nada resta a sofrer. A justiça foi satisfeita: Deus recebeu glória nesse sacrifício de expiação de pecados. Através dessa obra consumada, todo culpado que n’Ele confia, ficou tão livre da condenação quanto Aquele que a suportou em seu lugar. Ele está “livre da ira futura”. Foi feito filho de Deus mediante a fé em Cristo Jesus (Gl 3..26), e por ser filho, Deus lhe envia o Espírito de seu Filho ao seu coração, clamando Abba, Pai (G1 4.6). Note que não recebemos o Espírito para tornar-nos filhos, mas porque somos filhos. Nossos corpos se tornam então o templo do Espírito Santo. (Veja 1 Co 6.19.) Ele habita em nós e nos sela para o “dia da redenção”, i.e., a “redenção de nosso corpo”. (Compare Ef 4.30 com Rm 8.23.)


Não se trata de um simples visitante, que aparece ocasionalmente como o homem na ilustração; Ele permanece; fica para sempre”, foi a promessa fiel (Jo 14.16). E qual o seu grande tema como habitante permanente? Cristo. “Ele testificará de mim” (Jo 15.26). “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.14).


No ano de 1888 um idoso cristão morreu em Lincolnshire. Ele fora convertido em 1813 e servira como pregador local durante 50 anos. Andara a serviço do Mestre cerca de 24.000km cálculo feito por baixo. Todavia, não possuía maior mérito para a salvação, depois de todos esses anos de serviço, do que no dia em que deu o primeiro passo nela. Não há dúvida que durante 75 anos ele atravessara com segurança muitas dificuldades, fora salvo de muitas armadilhas, ajudado em inúmeras situações complexas; aprendera também bastante a respeito de si mesmo e de seu Mestre, cujo conhecimento não tinha no princípio. Mas só o sangue era o seu direito ao céu no início e também só ele tinha valor no fim. Seu crescimento na graça durante todos aqueles longos anos dependeria da medida em que andara na companhia do Espírito. Todavia, a não ser que pudesse haver qualquer acréscimo ao valor do sangue precioso, seu título para a glória não tinha condições de crescer. Impossível Se o homem salvo em nosso exemplo tivesse mantido o visitante ocupado todo o tempo, ou a maior parte dele, em corrigir seu procedimento errado, teria havido pouco desenvolvimento no que se refere a conhecer melhor a pessoa que salvara. Não é isso que acontece com muitos de nós?


Nosso comportamento é tal que entristecemos o Espírito Santo, pois Ele tem de ocupar-se mais em corrigir nossas más tendências do que em exercer sua missão agradável de desvendar as glórias de Cristo. É por isso que não crescemos. Embora salvo deva crescer, o crescimento na graça não representa salvação do juízo devido aos nossos pecados.


Devemos notar que o apóstolo Pedro não só nos exorta “aperfeiçoar-nos”, mas também nos ensina como conseguir isso “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” (1 Pe 2.2). E se alguém perguntar, “Como crescemos, alimentando-nos da Palavra?”


E porque as Escrituras falam de Cristo. “As Escrituras ... de mim testificam” (Jo 5.39).

Assim sendo:

  • O Espírito dá testemunho de Cristo.

  • As Escrituras testificam de Cristo.

Ambos trazem Cristo à nossa presença, ou seja, o Espírito usa a Palavra para isso, fazendo que cresçamos no conhecimento pessoal de Cristo. Repetimos, no entanto, não existe progresso em nossa segurança. O homem na água necessitava salvação teria perecido caso não a recebesse; fora da água, na terra seca estava salvo.

Em nossos pecados não estamos salvos.


Fora de nossos pecados, mediante o sangue precioso de Cristo, estamos salvos. A partir de então, o Espírito Santo passa a habitar em nós. Que maior testemunho poderíamos ter de estarmos preparados para a presença de Deus do que a habitação do Espírito Santo em nós? Lembre-se, porém, Ele não faz isso em vista daquilo que somos por nós mesmos, mas devido ao valor do sangue. O azeite (tipo do Espírito) foi colocado em cima do sangue da expiação da culpa, quando o leproso foi purificado (Lv 14.17) e não diretamente sobre o carne dele.


Penso que sou pecador demais para ser salvo, perverso demais para merecer o favor de Deus, não tendo mérito algum para ter qualquer relacionamento com Ele.


Ouça bem! Talvez existam milhares no inferno que se julgam bons demais para se “perderem”, até que provaram a amarga realidade dessa palavra terrível, além do ocaso de seu dia da graça. Mas é certo que entre as incontáveis miríades dos remidos na glória, não se pode encontrar um que diga, “Estou aqui gozando o céu porque na terra fui suficientemente bom para ser salvo”. O apóstolo Pedro lá se encontra, mas ele se declara um homem “pecador”, indigno de estar na presença do Mestre.


Paulo confessou ser “o principal dos pecadores” e assim todos os outros. “Pela graça” e só por ela, cada um deles foi salvo.


O fato é que o pensamento de merecer a salvação é tão natural ao coração humano quanto as ervas daninhas ao seu jardim; e Satanás sabe muito bem como tirar proveito disto, ocultando de seus olhos o caráter amoroso da “multiforme graça de Deus”, através da qual ele recebe a salvação. Satanás odeia a história da graça de Deus, pois ela não pode ser contada sem registrar a glória redentora de Cristo. É a “graça” que reina através da justiça — uma justiça declarada na cruz, onde o castigo devido ao pecado recaiu sobre o Substituto voluntário. Só por causa desse sangue precioso derramado é que o perdão livre e imerecido poderia ser pregado aos pecadores culpados.


O mérito é então todo d’Ele, e a culpa nossa. Nós, suficientemente perversos para merecer o juízo: e Ele, bom o bastante para vir e livrar-nos da morte, suficientemente bondoso para beber a taça do juízo por nós. Ele bebeu-a até o fim e disse, “Está consumado”. Deus só tem dois métodos para tratar com os homens culpados. Ele lhes dará (com base em seus próprios méritos) tudo o que merecem, até a última gota; ou, achegando-se a Cristo como culpados e perdidos, Ele lhes dará, completamente, aquilo que Cristo merece. Felizes, portanto, os que podem cantar:


Sou salvo por seu mérito, não há outro mais fiel, Nem mesmo onde a glória habita, na terra de Emanuel”.


Se o leitor tivesse apenas um vislumbre do que é a graça, ele jamais falaria de ser perverso demais para receber a salvação.


Suponhamos que alguém tivesse de colocar sobre a sua porta estas palavras (vamos chamar essa porta de No. 2):


CAFÉ DA MANHÃ NESTA CASA.


BILHETES ENTREGUES NA PORTA AO LADO (No. 1) SÓ PARA NEGROS. NINGUÉM PODE ENTRAR DEPOIS DAS NOVE HORAS.


Qual o negro, velho ou jovem, escravo ou livre, que seria tão tolo a ponto de ficar tremendo do lado de fora daquela porta até passar do horário de entrar, com medo de ser “negro demais” para conseguir um bilhete grátis para o café da manhã? Nada disso, quanto mais negra a pele, tanto mais inegável seu direito à entrada.