Luz para Almas Ansiosas

Atualizado: Mar 21

LUZ PARA AS ALMAS ANSIOSAS


INTRODUÇÃO


Se houve alguma coisa que pesou mais sobre o coração do autor ao escrever estas páginas, foi o pensamento de que a maioria dos que professam fé em Cristo praticam bem pouco essa fé. Em nossa preocupação com a ideia de levar paz às pessoas, existe um perigo especial que precisamos observar e orar para nos preservarmos dele e, ou seja, intrometer-nos (embora involuntariamente) entre Deus e os exercícios espirituais do indivíduo.


Este risco nunca foi provavelmente maior do que numa época superficial como a nossa. E fácil possuir hoje uma certa loquacidade em assuntos religiosos sem que a alma tenha sido absolutamente despertada. Ou, caso haja alguma espiritualidade, o caráter da mesma é tão pouco profundo que mal se deixa perceber em sua vida e comportamento diários.


Ao mesmo tempo, não pode haver dúvida de que através de impressões erradas quanto às próprias verdades fundamentais do evangelho, mediante hábitos de pensamento e expressão não-escriturísticos correntes em toda a Igreja professante, muitos corações se acham cheios de confusão e perplexidade realmente trágicos; embora os mesmos pudessem de outra forma estar saboreando a doçura da “alegria e paz na fé”. Isto não explica também a maneira pouco satisfatória do estilo de vida de inúmeras pessoas? Pois enquanto não tivermos um solo firme debaixo dos pés nosso andar será sempre vacilante.


Esta foi a consideração que encorajou o autor em seu objetivo de ajudar as almas, colocando estas páginas à frente delas; e sua oração é no sentido de que possam servir de bênção a muitos, sem fazer ninguém tropeçar. Quanto consolo encontramos nas palavras: “Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bens a alma faminta” (SI 107.9).


O PROBLEMA ESPIRITUAL


NÃO existe problema no mundo como o espiritual. Quem pode suportar o tormento de uma consciência culpada? “Mas ao espírito abatido quem o levantará?” (Pv 18.14).


Um pouco menor do que a angústia de acordar na eternidade e descobrir que nossa alma está “perdida”, é a amargura de fazer essa descoberta a tempo embora o grande abismo não esteja ainda completamente “fixado”, nem a condenação da alma eternamente selada.


Quando o homem despertar para a verdade de que o fim da vida pecaminosa é o inferno, sendo esse no entanto, justamente o seu estilo de vida; quando o Espírito de Deus o fizer lembrar de que o próximo bater de seu pulso e de seu coração podem ser os últimos e que o Deus contra quem por tanto tempo e tão obstinadamente rebelou-se, comanda a sua respiração com o seu poder, não será de admirar então que vá para a cama sem jantar, passando a noite em vigília silenciosa e não em sono reparador, temendo e tremendo, debatendo-se e gemendo, orando e chorando.


A condenação ou a salvação eterna da alma não é uma questão superficial, e como poderá ele descansar até que isso se resolva? Merece perfeitamente ser condenado, todavia deseja com fervor a salvação. Ele parece esperar contra toda esperança, no entanto espera e não pode escapar desse sentimento. De um lado fica a “verdade”, irradiando a luz de sua “lâmpada” sobre o futuro inevitável e o passado inegável expondo plenamente ambos. Do outro lado, por assim dizer, se coloca a “graça”, dando-lhe testemunho de que apesar de sua perversidade e inteiramente devido ao mérito de Outrem, a bênção eterna ainda pode ser sua.


Quanta intensidade nesse conflito interior, até que o perdão sobrevenha e reine a paz; até que o destino da alma na eternidade esteja garantido além de qualquer dúvida ou indagação.


Existe um outro fator de importância nesta luta feroz. Satanás com suas sugestões e mentiras, está agora em plena atividade. Ele manteve-se “quieto por longo tempo”, mas agora precisa pôr em prática todos os recursos diabólicos que possa inventar a fim de impedir, se possível, os propósitos da graça; caso contrário, seu ex-escravo obediente se transformará em outra testemunha do valor do sangue do Redentor na purificação c de seu poder para salvar.


Num momento ele murmura, “Você é bom demais para perder-se afinal”; em outro, “Você é ruim demais para ser salvo; pelo menos, ruim demais para ser salvo na condição em que se acha; espere até melhorar”. Alguém disse muito bem que o relógio de Satanás está sempre muito adiantado ou muito atrasado. Segundo os conselhos perigosos dele, sempre há “muito tempo para pensar nessas coisas”, ou ele sussurra, “Deus é muito duro e justiceiro para mostrar misericórdia a um pecador como você; é tarde demais agora”.


DIFICULDADES ESPIRITUAIS


Como poderei escapar do castigo pelos meus pecados, desde que Deus é justo e eu pecador?

ESTA pergunta é tão antiga quanto o livro de Jó. E toca as próprias bases de todo descanso e paz. “Como, pois, seria justo o homem perante Deus, e como seria puro aquele que nasce da mulher?” (Jó 25.4). Deus não poderia deixar de corresponder ao seu caráter santo e justo. O pecado o coloca no lugar de juiz e da mesma forma que Deus é justo, o pecado precisa ser plenamente castigado. Os homens sentimentalizam o amor de Deus e se esquecem da sua justiça. O Senhor, porém, será tão justo ao levar alguém para o céu através da obra de Cristo, como ao enviar o pecador para o inferno por causa de suas próprias obras perversas.


Quando Ele exaltou Cristo à sua destra na glória, declarou sua própria justiça através desse ato. Quando enviar Satanás ao castigo eterno no lago de fogo, estará conforme essa mesma justiça. De fato, se qualquer pecador for salvo, Deus será tão justo ao fazê-lo quanto o foi ao colocar Cristo na radiância da glória celestial, ou como será ao enviar Satanás para as trevas do juízo eterno.


De que modo então, depois de calar “toda boca” na família humana inteira, e pronunciar “todo homem” culpado diante dele, poderá Deus salvar qualquer um com justiça?


Ouça a resposta abençoada do Espírito de Deus: “Pois é Cristo quem morreu” (Rm 8.34). “Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).


A culpa do pecado recaiu sobre o Cordeiro, segundo os desígnios do próprio Deus. Toda indagação da consciência perturbada quanto à penalidade aplicada ao pecado é respondida por outra pergunta, a qual perdurará por toda a eternidade, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15:34).


Quem poderia responder esse “Por que?” misterioso do Calvário? Vamos fazer uma pausa e investigar.

Os demônios confessaram ser Ele o Santo de Deus. Poderiam os poderes das trevas nos dar uma razão? Impossível. O próprio Satanás viu-se frustrado toda vez que se aproximou daquele que podia dizer, “Porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim”.


Os anjos ministraram a Ele depois de sua tentação no deserto. Não sabiam que Deus se agradava dele e que fizera sempre aquilo que dava prazer ao Pai? Seria possível, no entanto, responderem a esta pergunta momentosa? Repetimos, impossível: “para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” (1 Pe 1.12).


Seus discípulos viram como a boca dos opositores fora silenciada pelo seu desafio sem resposta: “Quem dentre vós me convence de pecado?” (Jo 8.46) Eles deviam conhecer as palavras de Davi nas escrituras do Velho Testamento: “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão” (SI 37.25). Vemos agora o único Homem absolutamente justo que já pisou nesta terra, “Jesus Cristo, o justo” e Ele foi desamparado! Maravilha das maravilhas! Por que? O homem não tem resposta para essa pergunta; nem mesmo aqueles mais dedicados a Ele.


Deus o Pai, atraíra mais de uma vez a atenção do céu e da terra para o fato de que no Abençoado e Humilde, Ele encontrara perfeita satisfação e prazer. Irá Ele abrir novamente os céus para dar uma resposta a esse “Por que?” misterioso? Não. O bendito portador de pecados é deixado para sentir, como só Ele poderia sentir, em meio às trevas daquelas três horas, o terror dessa palavra: “DESAMPARADO”. Outros haviam clamado em tempos idos; suas vozes foram ouvidas, eles foram salvos; mas atente às palavras d’Ele, enquanto alcançam e ferem nosso coração, em meio àquelas trevas terríveis: “Eu clamo... e tu não me ouves” (SI 22.2). Não existe, portanto, resposta à pergunta? Bendito seja Deus, ela existe, caso contrário, adeus a qualquer esperança de paz para você e para mim. A fé encontrou uma resposta. De onde a tirou? Se os demônios, anjos, homens, não puderam fornecê-la; se Deus não o fez, qual a sua procedência? Ela saiu dos lábios d’Aquele que fora Esquecido! Ele justificou a Deus por Se esquecer d’Ele. Quão precioso! Precioso e inconcebível! Repita isso sempre e jamais deixe que essa lembrança se apague. Ele justificou Deus por desampará-lo. Ouça as suas palavras benditas no Salmo 22.3, PORÉM TU ÉS SANTO, o que habitas entre os louvores de Israel”. Foi como se dissesse: “Sois tão santo que não poderias fazer menos que isso, em toda justiça, além de voltar as costas ao pecado, mesmo quando teu amado Filho o levava sobre Si”. É verdade! Quando se trata de julgar o pecado, não pode haver alívio, nenhuma resposta, até que a taça da condenação se esgote. Quanta solenidade, todavia quanta beleza nisso tudo! Como o pecador perturbado se sente atraído para esse precioso Salvador, enchendo seu coração de paz e fazendo-o transbordar de louvor. Que maior prova podemos ter então de que os pecados dos crentes em Jesus já foram julgados com justiça, julgados na pessoa de seu adorável Substituto? Deus pode ser agora então “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3: 26) Eles não são justificados pelo fato de nada poder ser dito contra a sua pessoa, mas sim pelo sangue precioso que, de uma vez por todas, satisfez todas as acusações que o próprio Deus poderia fazer contra eles.


Adorai-Lhe, Adorai-Lhe,

Sua gloriosa obra consumou

Louvai-Lhe e Exaltai-Lhe,

Do pecador o juízo tirou

E sobre o Filho de Deus o lançou

“Está consumado”

clamou em dor na cruz ao morrer por mim

Fui culpado e pecador

Mas Cristo me salva assim.


Vemos assim que os pecados do crente não escaparam do castigo. O evangelho não fala de um Deus cujo amor foi expresso passando por alto o pecado, mas de um Deus cujo amor pelo pecador só poderia manifestar-se quando seus direitos santos contra o pecado tivessem sido rigorosamente satisfeitos e sua penalidade suportada até o fim.


“Que seja o pecado julgado”

Sobre a cruz está escrito.

“E o pecador libertado”

Oh gozo bendito!


Ao tentar ser bom, só consegui tornar-me pior.