O Caminho de Deus para o Descanso, Poder e Consagração





ÍNDICE


PRIMEIRA PARTE – Cristãos Infelizes

SEGUNDA PARTE – Libertação da Lei

TERCEIRA PARTE – Santa Liberdade

QUARTA PARTE – Miserável Homem

QUINTA PARTE – Temos Poder

SEXTA PARTE – Consagração

SÉTIMA PARTE – Cristo Vive em Mim



PRIMEIRA PARTE Cristãos Infelizes


É uma triste realidade que a maioria dos Cristãos não é feliz; e se esses Cristãos pudessem, confessariam que têm estado tristemente desapontados com sua vida Cristã. Quando se converteram, tinham diante de si uma perspectiva cheia de promessas: parecia-lhes a aurora de um dia sem nuvens, cheio de gozo e paz. No entanto, mal haviam iniciado sua jornada, e nuvens de todo tipo já escureciam o céu, e, exceto talvez por alguns poucos raios de sol aqui e ali, a situação continuou mais ou menos inalterada. Em muitos casos tem sido até pior do que isso. Era de se esperar que houvesse conflito, mas geralmente este termina, não em vitória, mas em derrota. O mal do lado de dentro, e o inimigo do lado de fora, têm triunfado vez após outra, a ponto de fazer com que o espírito de confiança e alegre expectativa acabe cedendo lugar a um espírito de desânimo e desespero.


A tristeza tem sido intensificada por se descobrir que uma experiência assim não está de acordo com aquilo que é mostrado na Palavra de Deus. É verdade que vivemos num ambiente hostil, onde Satanás está procurando incansavelmente nos enredar com seus ardis; é verdade que somos peregrinos e estrangeiros, que não podemos, por esta razão, esperar encontrar descanso e conforto neste cenário por onde passamos; e é também verdade que nosso corpo está exposto a sofrimentos de todos os tipos, mas nenhuma dessas coisas, e nem todas elas juntas, deveriam anuviar nossa alma, lançando-nos em trevas e negror.


Tome como exemplo o apóstolo Paulo. Depois de haver nos mostrado que sendo “justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”, e que por Ele “temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus”, ele segue dizendo que temos “não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5:1-5). Se, além disso, você desejar conhecer qual a experiência possível ao Cristão, leia a epístola aos Filipenses. Ali vemos que um crente pode perfeitamente ser feliz, ainda que esteja na prisão, correndo diariamente o risco de ser entregue à morte; que Cristo pode ser seu único motivo, seu único objeto e alvo, e que seu único desejo pode ser o de estar com Ele e ser como Ele é; e que, por conseguinte, o crente pode permanecer totalmente acima de suas circunstâncias, e que é possível aprender a viver contente em qualquer circunstância em que estiver, e ser capaz de fazer todas as coisas por meio d'Aquele que lhe fortalece.


Poderia haver um contraste maior entre esta experiência e a da maioria dos crentes? Talvez você argumente que esta era a experiência de um apóstolo, e que dificilmente podemos esperar alcançar um padrão assim. Concordamos que o padrão é elevado; mas nem mesmo Paulo, não importa o quanto ele possuía, é nosso modelo perfeito, mas sim Cristo. Tenha também em mente que o apóstolo não tinha nem mesmo uma só bênção (exceto seu dom especial de apóstolo), que não pertença igualmente ao mais humilde crente. Não era ele um filho de Deus? O mesmo somos nós. Não tinha ele o perdão dos pecados? Nós também. Não desfrutava ele da inestimável posse do Espírito que nele habitava – o Espírito de adoção? O mesmo possuímos nós. Não era ele um membro do corpo de Cristo? O mesmo somos nós. Poderíamos enumerar assim todas as bênçãos da redenção, e descobriríamos que Paulo não era, em medida alguma, uma exceção privilegiada, pois somos, juntamente com ele, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo.


Se assim é, a que se deve o fato de tão poucos desfrutarem dessa experiência – qual é a razão de um descanso permanente e uma felicidade assim serem tão pouco conhecidos? É para podermos responder a esta questão que contamos com toda a atenção do leitor.


A causa fundamental da dificuldade mencionada é a má vontade, ou a negligência do povo de Deus em procurar conhecer o que lhes foi assegurado em Cristo. Muitos descansam contentes com o fato de terem nascido de novo, outros com o conhecimento do perdão de seus pecados; de modo que a salvação acaba sendo seu principal alvo e a única meta que almejam. A consequência é que os primeiros dias de sua vida Cristã são, com frequência, os melhores; e é por isso que acabamos assistindo sempre a mesma cena de Cristãos que, outrora radiantes e fervorosos, tornaram-se descuidados e indiferentes, quando não mundanos.


Podemos dizer, com toda a clareza, ainda que com toda a ternura, que se o desejo de um Cristão não vai além do perdão dos seus pecados, ele logo descobrirá que não tem poder para resistir, seja às solicitações da carne, seja às tentações de Satanás.


Trata-se de um requisito indispensável para uma vida Cristã feliz, que a verdade da morte com Cristo seja conhecida na prática. Parar antes de se alcançar isto resultará invariavelmente em falta de descanso e num desalentador conflito.


Permita-me, então, explicar a razão disso em poucas e simples palavras. Há duas coisas que precisam ser abordadas quando o assunto é a nossa redenção: nossos pecados e a natureza que os produziu; o fruto ruim e a árvore que o produziu. Nossa necessidade quanto à primeira já foi suprida pelo precioso sangue de Cristo. Não existe outro método de nos limpar de nossa culpa (leia Hebreus 10:1 João 1:7). Mas apesar de termos sido feitos mais alvos que a neve pelo precioso sangue de Cristo, e muito embora tenhamos nascido de novo e recebido assim uma nova natureza e uma nova vida, a natureza má permanece em nós; e permanece em toda a sua corrupção, não podendo ser purificada e nem melhorada. Foi a consciência disto, e a reconhecida incapacidade da nova natureza – nela e por meio dela – em suas lutas contra a carne, que culminou no clamor de Romanos 7:24: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” O mesmo lamento amargurado sobe ainda hoje de multidões dentre os santos de Deus.


Como foi, então, que Deus atendeu a esta necessidade de Seu povo? A resposta pode ser encontrada em Romanos 6. Ali lemos: “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Rm 6:6-7). O termo “homem velho” é usado para expressar a natureza má que recebemos de Adão – a carne – como um princípio maligno que atua em nós; e o “corpo do pecado” nada mais é que o pecado em toda a sua totalidade. Deduzimos, portanto, desta passagem (leia também Romanos 8:3), que Deus já tratou com nossa natureza má na morte de Cristo, onde Deus condenou também o pecado na carne. O apóstolo diz: “Já estou crucificado com Cristo” (Gl 2:20). Não se trata apenas de haver, o Senhor Jesus, em Sua infinita graça, levado os nossos pecados sobre Seu próprio corpo no madeiro, mas de Deus, em Sua indizível misericórdia, ter nos associado com a morte de Cristo. De modo que Ele já executou juízo sobre aquilo que somos, isto é, sobre nossa carne, a raiz e o ramo. Ele fez, deste modo, uma provisão dupla na morte de Cristo, ou seja, por nossos pecados e por nossa natureza má; e ambas as coisas foram judicialmente tiradas de diante de Sua face para sempre.


É este o testemunho que Deus nos dá em Sua Palavra. E se eu aceito, por Sua graça, que o Seu testemunho é verdadeiro, no que diz respeito à eficácia do sangue de Cristo, por que não aceitar quando Ele me dá testemunho de que também me associou com a morte de Seu amado Filho? É baseado exatamente nisto que o apóstolo faz sua exortação em Romanos 6:11: “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor”. Isto é, a declaração que Deus me faz é recebida pela fé e passo a atuar sobre ela, de modo que passo a recusar as incitações da carne com base no fato de eu estar morto para ela, tendo tomado parte na morte de Cristo. Em outras palavras: aceito a minha morte com Cristo como verdade diante de Deus, e daí para frente ocupo, neste mundo, o lugar de um homem morto.


Vamos agora analisar um pouco mais detalhadamente as consequências de se aceitar uma posição assim. A primeira consequência é que somos libertados, ou justificados, do pecado (Rm 6:7). É importante notar que se trata de pecado, e não pecados. Isto é, a carne, o “pecado na carne” (Rm 8:3), o princípio maligno de nossa natureza corrupta, o “homem velho” (Rm 6:6), já não tem mais nenhum direito sobre nós. Ele continua ali, e ficará ali até o fim de nossa peregrinação, mas enquanto eu me considerar morto, enquanto eu aceitar a morte sobre aquilo que sou, sobre aquilo que é nascido da carne, ele não terá mais poder sobre mim. Eu, que antes era cativo dele, estou agora liberto – e como? Por meio da morte – minha morte com Cristo. Meu antigo senhor não tem mais nenhum direito sobre mim; saí, pela morte, de sob o seu jugo.


Por exemplo, suponha que você tivesse um homem morto deitado em sua sala e procurasse fazê-lo cativo do pecado apresentando-lhe todo tipo de fascínio ou sedução. Logo você perceberia ser uma tolice tentar uma coisa assim. Logo você diria que, não importa o que ele tivesse sido quando vivo, agora o pecado já não tem mais domínio sobre ele. O próprio Satanás não poderia tentar um homem morto. O mesmo acontecerá conosco se, pela graça, estivermos, minuto após minuto, hora após hora, considerando-nos a nós mesmos realmente mortos para o pecado, e vivos para Deus por meio de Cristo Jesus nosso Senhor.


Este é o único caminho para a vitória. Existem muitos que procuram vencer por meio de um esforço resoluto de vontade própria, enquanto outros tentam fazê-lo procurando morrer para o pecado; mas o método de Deus é este que já demonstramos. É por já estarmos mortos que nos é dito que devemos mortificar nossos membros (Cl 3:3, 5). É o mesmo que aplicar a morte a nós mesmos, o mesmo que levar em nosso corpo a mortificação de Jesus, para que cada movimento do pecado – cada movimento da carne – possa ser interceptado e condenado. O método do homem leva ao asceticismo e, no final, a uma escravidão ainda pior, mas o modo divino resulta em livramento e feliz liberdade.

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SEGUNDA PARTE Libertação da Lei


A segunda consequência é a libertação da lei. Assim Paulo escreve que estamos mortos para a lei pelo corpo de Cristo. Também, que estamos agora livres da lei, havendo morrido para aquilo a que nos encontrávamos presos (leia Romanos 7:4-6 e Gálatas 2:19). Como explica o apóstolo, a lei tem domínio sobre um homem apenas enquanto este viver. Havendo morrido com Cristo, estamos emancipados também do poder da lei; e quão bendito é para nós que seja assim, pois todos os que são das obras da lei estão debaixo da maldição (Gl 3:10). Este é deveras um evangelho de boas novas para todo crente. Somos todos legalistas por natureza, e nossa tendência ao legalismo permanece conosco depois que nos tornamos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Isto se encontra, por assim dizer, entretecido na própria malha de nosso ser, de modo que continuamente se manifesta em nossas palavras e ações. O efeito é que muitos conhecem pouco da liberdade com a qual Cristo os libertou, e ficam diariamente gemendo sob uma servidão imposta a si próprios.


Mas você poderá argumentar que não estamos debaixo da lei. Os judeus estavam, mas será que o mesmo pode ser dito de crentes dentre os gentios? É certo que não pode ser dito no mesmo sentido dos judeus, mas o princípio da lei é algo tão nativo em nós como no judeu. Por exemplo, quando depois de me converter, sinto que devo amar mais o Senhor, e procuro fazê-lo, ou acho que devo orar melhor, e acabo arrasado ou deprimido quando me vejo incapaz de cumprir um tal dever como gostaria, ou seja, de um modo mais perfeito, encontro-me em princípio tanto sob a lei quanto se encontravam os judeus. A essência da lei reside no “Farás isto ou aquilo”, e, por conseguinte, se transformo até os preceitos de nosso bendito Senhor em “Farás isto ou aquilo”, estou colocando meu pescoço sob o jugo da lei. E a partir do momento que faço assim, estou na rota certa para o fracasso, desilusão e intranquilidade de consciência.


Portanto, o que precisamos aprender é que, por meio da associação que, na graça de Deus, temos com a morte de Cristo, estamos libertos tanto da lei como do princípio da lei. Estamos casados com Outro, justamente com aqu’Ele que ressuscitou de entre os mortos a fim de que déssemos fruto (não obras, mas fruto) para Deus. Não há, no Cristianismo, “Farás isto ou aquilo”, mas sim o que substitui as obras da lei e as obras da carne, ou seja, o bendito fruto do Espírito Santo (Gl 5). E este é produzido, não como as obras, ou seja, por esforço humano, mas por divino poder.


A diferença entre estas duas coisas é a maior possível. Sabendo de antemão que o fruto para Deus não pode ser obtido por qualquer esforço ou trabalho vindo de nós, somos libertados de toda expectativa de aguardar algo vindo do eu. Ao mesmo tempo, enquanto aprendemos que o poder capaz de produzir fruto está em Outro (que seguramente está trabalhando por meio do Espírito que habita no Seu povo), nossos olhos são elevados a Ele, na confiança de que Ele irá nos usar para a Sua glória em conformidade com a Sua própria vontade. Assim, ao invés de trabalharmos, apenas confiamos; ao invés de buscarmos fruto vindo de nós mesmos, ansiamos que Cristo possa trabalhar em nós em conformidade com a energia do Seu próprio e divino poder.


Outra consequência é que somos libertos do mundo. O apóstolo, em oposição a certos legalistas que desejavam se ver livres da perseguição e se gloriar na carne, diz: “Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6:14). Como encontramos no evangelho de João, o mundo foi julgado na morte de Cristo. Sua crucificação foi a completa e cabal condenação do mundo que O rejeitou. Assim Deus julgou moralmente o mundo na cruz; e Paulo, em comunhão com o pensamento de Deus, considerou o mundo como crucificado para si pela cruz, e a si próprio, igualmente, como estando crucificado para o mundo. Ele estava assim completamente liberto do mundo; pois se ambos estavam crucificados, um para o outro, nenhuma atração poderia existir entre eles. O mundo, com todos os seus atrativos e fascínios, já não poderia seduzir alguém que o considerava como já estando moralmente julgado na morte de Cristo. Tampouco teria qualquer atração pelo mundo alguém que se considerava como crucificado por meio da cruz. Vista deste modo, a cruz é uma barreira intransponível entre o Cristão e o mundo, e não somente uma barreira, mas também o meio pelo qual o verdadeiro caráter do mundo é detectado e exposto.


Deste modo o Cristão aprende que a amizade do mundo é inimizade contra Deus, já que sempre vê o mundo em sua relação com a cruz de Cristo.


Existe ainda uma outra consequência que é a libertação do homem. “Se, pois,” diz o apóstolo, “estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis (ou estivésseis vivos) no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies?” (Cl 2:20, 21). É o homem religioso que está sendo tratado aqui – o homem religioso, cujo objetivo é a melhoria da carne, mas ao invés de consertá-la ele só a satisfaz. Esta importante passagem ensina que o crente, estando morto com Cristo, está totalmente liberto do homem e de suas reivindicações religiosas. Se as reconhecesse, então teria que tomar o lugar de alguém vivo no mundo e negar o fato de sua associação com a morte de Cristo. O Cristão perde de vista o homem – e até mesmo o rejeita – negando sua pretensa autoridade, pois encontra-se sujeito somente a Cristo. Sendo assim, até mesmo nos relacionamentos desta vida, o Cristão obedece, seja aos magistrados, senhores ou pais, porque está numa posição de sujeição ao próprio Cristo. É por esta razão que um pobre escravo Cristão, quando obedece a seu senhor, está obedecendo a Cristo, o Senhor (Cl 3:22-25).


Há, portanto, uma completa libertação para o crente que se mantém como morto com Cristo – há a libertação do pecado, da lei, do mundo e do homem. Pode-se dizer do crente, na linguagem aplicada a Israel, que ele fez cativos aqueles de quem era cativo (Isaías 14:2). Todo inimigo está subjugado, e somente Cristo é reconhecido como Senhor.


Você talvez pergunte que, se isto é verdade, por que é que são tão poucos os que entram por esta senda de livramento e santa liberdade?

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TERCEIRA PARTE Santa Liberdade


A última parte deste nosso importante assunto terminou com uma pergunta: Como é que são tão poucos os que entram por esta senda de livramento e santa liberdade? A resposta a esta pergunta nos leva à próxima parte de nosso assunto. A questão pode ser colocada da seguinte maneira, e procuraremos dar uma atenção especial a ela: Enquanto estas verdades podem ser doutrinariamente compreendidas, elas devem, necessariamente, ser aprendidas na prática, se é que se deseja desfrutar do poder delas. Há quatro coisas que devem ser adquiridas por meio da experiência, a fim de entrarmos no bendito gozo delas.


A primeira, e de grande importância, é que o caráter da carne deve ser conhecido na prática. Deus nos declarou isto até no Velho Testamento (Gn 6:11-13; 8:21), e no Novo Testamento apresentou isto vez após outra; e devemos receber o Seu testemunho, aceitando-o sem hesitação. Mas, repetimos, a menos que tenhamos conhecido a natureza da carne por experiência própria, estaremos sempre, em maior ou menor medida, esperando que algo de bom possa vir dela. É por esta razão que, com frequência, o santo pensa assim: ‘Da próxima vez vou conseguir fazer melhor’; ou, ‘Se ao menos eu tivesse outra chance, poderia evitar este erro ou aquele fracasso’. Reflexões assim só podem ser geradas pelo total esquecimento da real e incurável natureza da carne; pois se nossa natureza é integralmente corrupta, como poderia ela agir, no futuro, de modo diferente do passado? Devemos, isto sim, buscar o Senhor para nos guardar, por Sua graça, de pecados cometidos no passado; e se já detectamos o que é a carne, já nos conscientizamos, de uma vez por todas, de que se não formos guardados por divino poder, continuaremos a fazer, no futuro, exatamente o mesmo que fazíamos no passado.


Temos agora em Romanos 7 o caso de alguém que, tendo vida, porém ignorando a graça completa de Deus em redenção, está tentando, sob a lei, produzir algum fruto para Deus. E qual a conclusão a que ele chega? Que o bem que deseja, não faz, mas o mal que não quer, esse faz. E ele diz ainda que: “Se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7:15-17). Isto é, ele descobriu que a carne irá (num caso como o dele) seguir o seu próprio curso, e, por ter ela o seu próprio curso, é sempre pecado. Por isso nos diz: “Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18). Ele aprendeu a lição, e daí em diante já não irá esperar nada vindo da carne, a não ser o mal. E esta é, com certeza, uma bendita conclusão para uma alma chegar.


Há agora duas maneiras de aprendermos a mesma coisa: na presença de Deus, e em comunhão com Deus, ou na presença de Satanás, por meio do fracasso e do pecado. O próprio Paulo poderia ser visto como um exemplo da primeira. Como judeu, ele foi tão moralmente correto que, guiado pelo Espírito de Deus, pôde mais tarde dizer de si mesmo que, “segundo a justiça que há na lei”, ele era “irrepreensível” (Fp 3:6). Portanto ele tinha tudo para pensar que havia algo de bom em si mesmo. Como disse, “se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu” (Fp 3:4). Mas quando lhe foi revelado um Cristo glorificado, houve uma total reviravolta em seu ser. Ele passou então a enxergar tudo sob a verdadeira luz, a luz da glória de Deus que resplandeceu na face de Cristo, e instantaneamente percebeu a inutilidade da carne e de todos os seus mais belos feitos. Ele pôde então dizer: “O que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo” (ou “ter a Cristo como meu ganho”) (Fp 3:7-8). Sua primeira avaliação foi daquilo que ocupava o primeiro lugar em sua vida e, como consequência, ele rejeitou a carne, em todas as suas formas, como algo definitivamente mau. E o fez sabendo que, assim como a figueira no evangelho, por mais que a carne fosse educada e nutrida, jamais poderia produzir qualquer fruto para Deus.


Pedro é um exemplo de alguém que aprende, por meio do pecado, o caráter da carne. Homem sincero e impetuoso, Pedro amava seu Mestre com ardente afeição. Por esta razão, quando o Senhor avisou Seus discípulos, dizendo: “Todos vós esta noite vos escandalizareis em Mim; porque escrito está: Ferirei o Pastor, e as ovelhas se dispersarão”, Pedro respondeu: “Ainda que todos se escandalizem, nunca, porém, eu” (Mc 14:27-29). Segundo dizia, ele estava pronto a dar sua vida pelo seu Mestre (Jo 13). E o que foi que produziu essa inabalável confiança em sua própria fidelidade? Confiança na carne – em sua própria afeição. Mas qual foi o resultado? Ah! que comentário esse de nossa natureza má – Pedro foi descendo, passo a passo, no profundo abismo da completa negação de Seu Senhor. Ele tinha sido avisado e admoestado, mas a carne mostrou a corrupção que lhe é própria, arrastando Pedro pela lama do pecado e da iniquidade. A queda de Pedro foi revertida em glória para o Senhor, e em bênção para Pedro, mas há para a nossa instrução, em sua queda e humilhação, a mais clara revelação do fato de que na carne, mesmo na carne de um verdadeiro e devotado discípulo, não habita bem algum.


Portanto qualquer pessoa que deseja conhecer o que é a graça de Deus em nossa redenção, precisa também aprender, de uma destas duas maneiras, a mesma lição. Se não a aprendermos estaremos sempre esperando que algo de bom venha de nós mesmos, e seremos sempre desapontados. Uma árvore ruim deve, necessariamente, produzir fruto ruim, e quando reconhecemos esta verdade na prática, e a ela nos sujeitamos, tiramos a nós próprios de diante de nossos olhos e nada mais esperamos, a não ser aquilo que vem do Senhor. A falta de vigilância poderá eventualmente levar a carne a se manifestar, arrastando-nos para o pecado, mas não estaremos sendo enganados. Teremos aprendido nossa lição; e enquanto estivermos julgando-nos a nós mesmos na presença de Deus por nossa falta, buscaremos graça para sermos mais vigilantes no futuro.


Amado leitor, queremos, com toda a sinceridade, insistir com você neste ponto, pois enquanto você não tiver passado por esta experiência, não poderá nunca ter uma paz constante. Feche seus olhos a esta verdade, e você estará, como os filhos de Israel no deserto, expondo-se às provações, castigos e toda sorte de fracassos. Todavia, se você aceitar o testemunho de Deus acerca da carne, e deste modo aprender esta verdade em seu próprio ser, adotando como hábito ficar sempre do lado d’Ele, mesmo que isto signifique colocar-se contra si próprio, você estará entrando no alvorecer de um novo dia – um dia caracterizado pelo sol da graça e do gozo, não importa quais sejam as tribulações e as tristezas; um dia que será passado junto com Deus.


A segunda lição a ser aprendida é que não temos forças – somos completamente impotentes – no conflito contra a carne. Como diz o apóstolo, “O querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Rm 7:18-19). E porventura não é esta, amado leitor, a descrição exata da experiência de milhares de pessoas e, talvez, a sua também? O resultado disto é que muitos mergulham em um estado de apática indiferença, quando não de desânimo, a ponto de até mesmo abandonarem qualquer tentativa de remar contra a rápida correnteza que os assola, concluindo que nada mais resta senão se deixarem levar pela correnteza contra a qual não podem lutar. Ah! se as almas fossem honestas, muitas iriam confessar que vivem há anos numa condição assim, uma condição que não traz nenhuma glória a Deus, e nenhuma felicidade a elas próprias. Qual é então a razão disso? Simplesmente a ideia de que tudo depende de seus próprios esforços, ao invés de aceitarem a verdade de que estão completamente sem forças e que, por conseguinte, tudo depende de Deus.


Até o pecador tem que aprender, não só que ele é culpado e ímpio, mas também que é impotente (Rm 5); e o crente deve, de igual maneira, aprender, não apenas que em sua carne não habita bem algum, mas que ele não pode, de si próprio, fazer uma única coisa boa (Rm 7). E quando os olhos são abertos pelo Espírito de Deus, descobre-se que esta lição de Deus tem sido ensinada pela longa e ininterrupta série de enganos passados. Você lutou com unhas e dentes vez após outra, com inigualável coragem, mas nunca conquistou uma vitória. Então você entrou de novo na luta, resolvido a vencer, mas, ai! mais uma vez saiu vencido! Pare, então, por um momento, e faça a si mesmo esta simples pergunta: ‘O que foi que aprendi desta triste experiência?’ A resposta é clara como o dia. O inimigo é forte demais para você, de modo que você não pode fazer frente ao poder que ele tem. Mas você poderá perguntar: ‘E será que não podemos ficar mais fortes? Não podemos crescer na graça? E depois que conhecermos melhor o caráter do inimigo, será que não é possível que sejamos bem sucedidos?’ Não hesitamos dizer que a resposta é ‘Não’, pois se você continuar esforçando-se assim, no futuro só colherá derrotas, do mesmo modo como foi no passado. Para o seu caso, no que diz respeito à sua própria força, não há esperança.


Mas se, por outro lado, você aceitar a verdade de sua completa impotência, e chegar deste modo ao fim de suas próprias forças, encontrará descanso para sua alma, pois irá, com isso, compreender que seu auxílio, sua força e seu socorro vêm de fora, e não de dentro; em suma, vêm de Cristo e não de você mesmo. Oh, que inexprimível bênção é chegar a uma descoberta assim! Deixando, a partir de agora, de lutar, você irá conhecer o que é descansar em Outro, e será capaz de cantar com Davi: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?” (Sl 27:1). Pois se por um lado você chegou a conhecer que é impotente, por outro se regozijará ao descobrir que o Seu poder se aperfeiçoa na fraqueza.


A terceira coisa que se deve conhecer é o fato de que o crente possui duas naturezas: uma que recebeu por intermédio de Adão, a qual é chamada nas Escrituras de carne, velho homem etc.; e a outra que ele recebeu de Deus, por intermédio do novo nascimento. Estas duas naturezas são totalmente antagônicas. Ao falar da segunda, João disse: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” (1 Jo 3:9). E Paulo, falando da primeira, escreve, como já vimos, “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18). Seria difícil conceber duas afirmações mais diametralmente opostas, e agora vemos que a alma, que está passando pela experiência detalhada em Romanos 7, aprende a distinguir entre estas duas naturezas tão contrastantes. Lemos que “se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7:20). Isto é, ele aprendeu a identificar-se com a nova natureza, portanto não diz mais “eu” (compare com Gálatas 2:20 onde Cristo torna-Se o “eu” do apóstolo). Ao mesmo tempo ele avalia sua carne, sua velha natureza, como nada além de pecado; e descobre nela a origem de todo o mal que tem sofrido. Tal natureza, embora esteja nele (e permanecerá sempre ali enquanto o crente estiver neste mundo), é agora considerada por ele como um inimigo, como alguém que procura sempre impedi-lo de fazer o que é bom, e que o impele a fazer o mal. E assim ele continua: “Acho então esta lei em mim: que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus (portanto ele desejava fazer o bem). Mas vejo nos meus membros outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros” (Rm 7:21-23).


Por conseguinte, ele não é apenas impotente na luta contra o inimigo – o pecado que habita em si – mas ele fica ainda pior no conflito, e é subjugado; fica totalmente nas garras e sob o poder de seu adversário. Mesmo assim ele agora aprendeu que o “pecado”, a carne, é seu inimigo, e que ele tem prazer na lei de Deus segundo o homem interior. E esta, amado leitor, é uma feliz descoberta; a falta disso fez com que, em todas as épocas, muitas almas piedosas fossem mantidas gemendo sob a servidão, e escrevessem coisas amargas acerca de si mesmas, por suporem ser essa a experiência pela qual lhes era necessário passar por todos os dias de suas vidas.


Um exemplo disto são os diários publicados de alguns dos mais devotos servos do Senhor, diários esses que, de um modo geral, não passam de uma análise própria e uma condenação própria que brota da ocupação com o eu – ao invés de ocuparem-se com Cristo – no vão esforço de erradicarem o mal encontrado dentro do próprio coração deles. E frequentemente culminam na seguinte questão: Se somos filhos de Deus, por que é que acontece isto conosco? Ah! como acontece com muitas pessoas, eles não leram direito Romanos 7; e disso advém que, embora tenham tido seus momentos de gozo na presença e favor de Deus, esses momentos foram alternados com períodos das mais densas trevas e depressão.


Trata-se, portanto, de um bendito ganho quando tomamos conhecimento de que temos duas naturezas, e aprendemos a fazer distinção entre elas. E é ainda mais bendito quando somos levados, em meio às nossas lutas e conflitos, naquilo que compete a nós, a uma irremediável escravidão à lei do pecado que está em nossos membros. É uma experiência dolorosa, porém necessária, pois após passarmos por ela aprendemos a nos colocar a nós mesmos de lado. Por assim dizer, o fim de toda a carne é chegado para nós, como há muito tempo já chegou para Deus; e sabemos agora que é vão o socorro do homem (do eu), que estamos totalmente impotentes e, ai! à mercê de nosso inimigo interno.



QUARTA PARTE Miserável Homem


Isto prepara o caminho para a quarta lição. A carne obteve a vitória e, se podemos falar de modo figurado, tem agora o seu pé no pescoço da combativa e infortunada alma; mas sua vitória termina em derrota, e na emancipação de sua vítima. Até aqui a alma esteve batalhando na sua própria força; mas agora, na tristeza de sua derrota e inevitável escravidão, ela olha, não mais para dentro de si mesma, mas para fora, e clama em sua agonia, “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7:24). E assim a libertação é alcançada. No momento em que os olhos se voltam para o alto, e não para dentro de si, a vitória está assegurada; pois a resposta chega imediatamente: “Dou graças a Deus” pois sou liberto “por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 7:25). A libertação, assim como a salvação, é encontrada, não por intermédio do eu e do esforço próprio, mas por intermédio de Cristo. Consequentemente, há de ser observado que, enquanto nos versículos anteriores não tivemos nada além do eu, o mesmo eu agora desaparece, e em seu lugar tudo é Cristo. Bendita libertação! O eu foi rejeitado e deixado de lado; Cristo é aceito para ocupar o seu lugar, e, como ainda devemos ver, descobrimos que temos n’Ele a resposta para cada uma de nossas necessidades: pois somos de Deus, “em Jesus Cristo, O qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1 Co 1:30).


Mas antes do Espírito de Deus continuar a desvendar a bendita porção da alma libertada, é acrescentada uma palavra: “Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado” (Rm 7:25). Isto é acrescentado tanto como uma instrução, quanto como um aviso. Ensina-nos que possuiremos sempre estas duas naturezas, não importa quais sejam as nossas conquistas; e ao dar o caráter de cada uma delas, nos admoesta que elas nunca serão alteradas: que a carne, apesar de estarmos agora livres do seu senhorio, permanecerá sempre a carne, e nunca poderá ser alterada ou melhorada. O inimigo não pode ser desalojado, ou convertido em amigo; mas conhecemos o seu caráter, e a fonte de nossa força, e conservamos a vigilância necessária.


Continuamos agora a expor os maravilhosos resultados, em graça, que podem ser a porção desfrutada pela alma emancipada. Podemos citá-los: DESCANSO, PODER E CONSAGRAÇÃO. Vamos olhar para cada um deles separadamente, e em detalhes.


O DESCANSO não é apenas aquele descanso que se segue após cessar a luta contra o pecado que em nós habita, mas também há o lado positivo do descanso, que vem do conhecimento que agora é desfrutado pela alma – o conhecimento da sua libertação. Por isso as primeiras palavras do capítulo 8 de Romanos são: “Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Não é apenas a afirmação de que o crente está liberto de toda condenação; porém, mais do que isso, trata-se da descoberta de que aqueles que estão em Cristo Jesus estão livres de toda a possibilidade de condenação. É esta a bendita meta que a alma agora alcançou. Examinemos, então, um pouco mais do que está envolvido nisto. Há, portanto, agora, o conhecimento de que o crente foi tirado de sua velha posição e condição, e colocado em um novo lugar diante de Deus em Cristo – em Cristo que está ressurreto de entre os mortos – e passou para uma nova esfera que se encontra além, e do outro lado da morte, na qual nem morte nem condenação podem entrar. Por intermédio da morte com Cristo, como já foi demonstrado, o crente perdeu sua associação com o primeiro homem – com Adão; de modo que agora, considerando-se como morto para o pecado, ele considera-se também como vivo para Deus em Cristo Jesus. Na morte de Cristo Deus julgou, de uma vez para sempre, o pecado na carne – julgou a sua raiz e seus ramos; e a lei do Espírito de vida em Cristo Jesus, como ressurreto da morte, tornou o crente livre da lei do pecado e da morte. O pecado e a morte só têm a ver com aqueles que estão na carne; e já que o crente não se encontra na carne (Rm 8:9), mas no Espírito, ele tem a sua posição onde prevalece a lei do Espírito de vida em Cristo Jesus. Sim,


O Senhor ressuscitou; o Mar Vermelho do juízo,

Que sobre nós iria cair, Sobre Ele já passou;

O Senhor ressuscitou; estamos agora além do castigo,

E de todos nossos pecados Só uma tumba vazia restou.


Estamos, repetimos, em um novo lugar (porque estamos em Cristo Jesus ressuscitado) – um lugar ao qual a carne, e, portanto, a condenação, não tem nenhum acesso. O sangue de Cristo nos limpou de toda a nossa culpa; e sendo assim, na morte de Cristo (pois, pela graça de Deus, estávamos associados com Ele na Sua morte) a carne e o pecado, encontraram o seu juízo e condenação; e nós, agora em Cristo, estamos, portanto completamente libertos e, como tais, livres de toda condenação. Podemos agora descansar – descansar n'Aquele em Quem permanecemos diante de Deus.