O Caminho de Deus para o Descanso, Poder e Consagração





ÍNDICE


PRIMEIRA PARTE – Cristãos Infelizes

SEGUNDA PARTE – Libertação da Lei

TERCEIRA PARTE – Santa Liberdade

QUARTA PARTE – Miserável Homem

QUINTA PARTE – Temos Poder

SEXTA PARTE – Consagração

SÉTIMA PARTE – Cristo Vive em Mim



PRIMEIRA PARTE Cristãos Infelizes


É uma triste realidade que a maioria dos Cristãos não é feliz; e se esses Cristãos pudessem, confessariam que têm estado tristemente desapontados com sua vida Cristã. Quando se converteram, tinham diante de si uma perspectiva cheia de promessas: parecia-lhes a aurora de um dia sem nuvens, cheio de gozo e paz. No entanto, mal haviam iniciado sua jornada, e nuvens de todo tipo já escureciam o céu, e, exceto talvez por alguns poucos raios de sol aqui e ali, a situação continuou mais ou menos inalterada. Em muitos casos tem sido até pior do que isso. Era de se esperar que houvesse conflito, mas geralmente este termina, não em vitória, mas em derrota. O mal do lado de dentro, e o inimigo do lado de fora, têm triunfado vez após outra, a ponto de fazer com que o espírito de confiança e alegre expectativa acabe cedendo lugar a um espírito de desânimo e desespero.


A tristeza tem sido intensificada por se descobrir que uma experiência assim não está de acordo com aquilo que é mostrado na Palavra de Deus. É verdade que vivemos num ambiente hostil, onde Satanás está procurando incansavelmente nos enredar com seus ardis; é verdade que somos peregrinos e estrangeiros, que não podemos, por esta razão, esperar encontrar descanso e conforto neste cenário por onde passamos; e é também verdade que nosso corpo está exposto a sofrimentos de todos os tipos, mas nenhuma dessas coisas, e nem todas elas juntas, deveriam anuviar nossa alma, lançando-nos em trevas e negror.


Tome como exemplo o apóstolo Paulo. Depois de haver nos mostrado que sendo “justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”, e que por Ele “temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus”, ele segue dizendo que temos “não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5:1-5). Se, além disso, você desejar conhecer qual a experiência possível ao Cristão, leia a epístola aos Filipenses. Ali vemos que um crente pode perfeitamente ser feliz, ainda que esteja na prisão, correndo diariamente o risco de ser entregue à morte; que Cristo pode ser seu único motivo, seu único objeto e alvo, e que seu único desejo pode ser o de estar com Ele e ser como Ele é; e que, por conseguinte, o crente pode permanecer totalmente acima de suas circunstâncias, e que é possível aprender a viver contente em qualquer circunstância em que estiver, e ser capaz de fazer todas as coisas por meio d'Aquele que lhe fortalece.


Poderia haver um contraste maior entre esta experiência e a da maioria dos crentes? Talvez você argumente que esta era a experiência de um apóstolo, e que dificilmente podemos esperar alcançar um padrão assim. Concordamos que o padrão é elevado; mas nem mesmo Paulo, não importa o quanto ele possuía, é nosso modelo perfeito, mas sim Cristo. Tenha também em mente que o apóstolo não tinha nem mesmo uma só bênção (exceto seu dom especial de apóstolo), que não pertença igualmente ao mais humilde crente. Não era ele um filho de Deus? O mesmo somos nós. Não tinha ele o perdão dos pecados? Nós também. Não desfrutava ele da inestimável posse do Espírito que nele habitava – o Espírito de adoção? O mesmo possuímos nós. Não era ele um membro do corpo de Cristo? O mesmo somos nós. Poderíamos enumerar assim todas as bênçãos da redenção, e descobriríamos que Paulo não era, em medida alguma, uma exceção privilegiada, pois somos, juntamente com ele, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo.


Se assim é, a que se deve o fato de tão poucos desfrutarem dessa experiência – qual é a razão de um descanso permanente e uma felicidade assim serem tão pouco conhecidos? É para podermos responder a esta questão que contamos com toda a atenção do leitor.


A causa fundamental da dificuldade mencionada é a má vontade, ou a negligência do povo de Deus em procurar conhecer o que lhes foi assegurado em Cristo. Muitos descansam contentes com o fato de terem nascido de novo, outros com o conhecimento do perdão de seus pecados; de modo que a salvação acaba sendo seu principal alvo e a única meta que almejam. A consequência é que os primeiros dias de sua vida Cristã são, com frequência, os melhores; e é por isso que acabamos assistindo sempre a mesma cena de Cristãos que, outrora radiantes e fervorosos, tornaram-se descuidados e indiferentes, quando não mundanos.


Podemos dizer, com toda a clareza, ainda que com toda a ternura, que se o desejo de um Cristão não vai além do perdão dos seus pecados, ele logo descobrirá que não tem poder para resistir, seja às solicitações da carne, seja às tentações de Satanás.


Trata-se de um requisito indispensável para uma vida Cristã feliz, que a verdade da morte com Cristo seja conhecida na prática. Parar antes de se alcançar isto resultará invariavelmente em falta de descanso e num desalentador conflito.


Permita-me, então, explicar a razão disso em poucas e simples palavras. Há duas coisas que precisam ser abordadas quando o assunto é a nossa redenção: nossos pecados e a natureza que os produziu; o fruto ruim e a árvore que o produziu. Nossa necessidade quanto à primeira já foi suprida pelo precioso sangue de Cristo. Não existe outro método de nos limpar de nossa culpa (leia Hebreus 10:1 João 1:7). Mas apesar de termos sido feitos mais alvos que a neve pelo precioso sangue de Cristo, e muito embora tenhamos nascido de novo e recebido assim uma nova natureza e uma nova vida, a natureza má permanece em nós; e permanece em toda a sua corrupção, não podendo ser purificada e nem melhorada. Foi a consciência disto, e a reconhecida incapacidade da nova natureza – nela e por meio dela – em suas lutas contra a carne, que culminou no clamor de Romanos 7:24: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” O mesmo lamento amargurado sobe ainda hoje de multidões dentre os santos de Deus.


Como foi, então, que Deus atendeu a esta necessidade de Seu povo? A resposta pode ser encontrada em Romanos 6. Ali lemos: “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Rm 6:6-7). O termo “homem velho” é usado para expressar a natureza má que recebemos de Adão – a carne – como um princípio maligno que atua em nós; e o “corpo do pecado” nada mais é que o pecado em toda a sua totalidade. Deduzimos, portanto, desta passagem (leia também Romanos 8:3), que Deus já tratou com nossa natureza má na morte de Cristo, onde Deus condenou também o pecado na carne. O apóstolo diz: “Já estou crucificado com Cristo” (Gl 2:20). Não se trata apenas de haver, o Senhor Jesus, em Sua infinita graça, levado os nossos pecados sobre Seu próprio corpo no madeiro, mas de Deus, em Sua indizível misericórdia, ter nos associado com a morte de Cristo. De modo que Ele já executou juízo sobre aquilo que somos, isto é, sobre nossa carne, a raiz e o ramo. Ele fez, deste modo, uma provisão dupla na morte de Cristo, ou seja, por nossos pecados e por nossa natureza má; e ambas as coisas foram judicialmente tiradas de diante de Sua face para sempre.


É este o testemunho que Deus nos dá em Sua Palavra. E se eu aceito, por Sua graça, que o Seu testemunho é verdadeiro, no que diz respeito à eficácia do sangue de Cristo, por que não aceitar quando Ele me dá testemunho de que também me associou com a morte de Seu amado Filho? É baseado exatamente nisto que o apóstolo faz sua exortação em Romanos 6:11: “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor”. Isto é, a declaração que Deus me faz é recebida pela fé e passo a atuar sobre ela, de modo que passo a recusar as incitações da carne com base no fato de eu estar morto para ela, tendo tomado parte na morte de Cristo. Em outras palavras: aceito a minha morte com Cristo como verdade diante de Deus, e daí para frente ocupo, neste mundo, o lugar de um homem morto.


Vamos agora analisar um pouco mais detalhadamente as consequências de se aceitar uma posição assim. A primeira consequência é que somos libertados, ou justificados, do pecado (Rm 6:7). É importante notar que se trata de pecado, e não pecados. Isto é, a carne, o “pecado na carne” (Rm 8:3), o princípio maligno de nossa natureza corrupta, o “homem velho” (Rm 6:6), já não tem mais nenhum direito sobre nós. Ele continua ali, e ficará ali até o fim de nossa peregrinação, mas enquanto eu me considerar morto, enquanto eu aceitar a morte sobre aquilo que sou, sobre aquilo que é nascido da carne, ele não terá mais poder sobre mim. Eu, que antes era cativo dele, estou agora liberto – e como? Por meio da morte – minha morte com Cristo. Meu antigo senhor não tem mais nenhum direito sobre mim; saí, pela morte, de sob o seu jugo.


Por exemplo, suponha que você tivesse um homem morto deitado em sua sala e procurasse fazê-lo cativo do pecado apresentando-lhe todo tipo de fascínio ou sedução. Logo você perceberia ser uma tolice tentar uma coisa assim. Logo você diria que, não importa o que ele tivesse sido quando vivo, agora o pecado já não tem mais domínio sobre ele. O próprio Satanás não poderia tentar um homem morto. O mesmo acontecerá conosco se, pela graça, estivermos, minuto após minuto, hora após hora, considerando-nos a nós mesmos realmente mortos para o pecado, e vivos para Deus por meio de Cristo Jesus nosso Senhor.


Este é o único caminho para a vitória. Existem muitos que procuram vencer por meio de um esforço resoluto de vontade própria, enquanto outros tentam fazê-lo procurando morrer para o pecado; mas o método de Deus é este que já demonstramos. É por já estarmos mortos que nos é dito que devemos mortificar nossos membros (Cl 3:3, 5). É o mesmo que aplicar a morte a nós mesmos, o mesmo que levar em nosso corpo a mortificação de Jesus, para que cada movimento do pecado – cada movimento da carne – possa ser interceptado e condenado. O método do homem leva ao asceticismo e, no final, a uma escravidão ainda pior, mas o modo divino resulta em livramento e feliz liberdade.

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SEGUNDA PARTE Libertação da Lei


A segunda consequência é a libertação da lei. Assim Paulo escreve que estamos mortos para a lei pelo corpo de Cristo. Também, que estamos agora livres da lei, havendo morrido para aquilo a que nos encontrávamos presos (leia Romanos 7:4-6 e Gálatas 2:19). Como explica o apóstolo, a lei tem domínio sobre um homem apenas enquanto este viver. Havendo morrido com Cristo, estamos emancipados também do poder da lei; e quão bendito é para nós que seja assim, pois todos os que são das obras da lei estão debaixo da maldição (Gl 3:10). Este é deveras um evangelho de boas novas para todo crente. Somos todos legalistas por natureza, e nossa tendência ao legalismo permanece conosco depois que nos tornamos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Isto se encontra, por assim dizer, entretecido na própria malha de nosso ser, de modo que continuamente se manifesta em nossas palavras e ações. O efeito é que muitos conhecem pouco da liberdade com a qual Cristo os libertou, e ficam diariamente gemendo sob uma servidão imposta a si próprios.


Mas você poderá argumentar que não estamos debaixo da lei. Os judeus estavam, mas será que o mesmo pode ser dito de crentes dentre os gentios? É certo que não pode ser dito no mesmo sentido dos judeus, mas o princípio da lei é algo tão nativo em nós como no judeu. Por exemplo, quando depois de me converter, sinto que devo amar mais o Senhor, e procuro fazê-lo, ou acho que devo orar melhor, e acabo arrasado ou deprimido quando me vejo incapaz de cumprir um tal dever como gostaria, ou seja, de um modo mais perfeito, encontro-me em princípio tanto sob a lei quanto se encontravam os judeus. A essência da lei reside no “Farás isto ou aquilo”, e, por con