Os Mistérios (Abril de 2011)
- Revista O Cristão

- 8 de ago.
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Revista mensal publicada originalmente em abril/2011 pela Bible Truth Publishers
ÍNDICE
Concise Bible Dictionary (adaptado)
W. J. Prost
Collected Writings of J. N. Darby, 1:175
The Christian Friend (adaptado)
W. J. Prost
The Christian Friend, 3:81 (adaptado)
J. A. Trench (adaptado)
H. F. Witherby
Things New and Old, 24:232
J. N. Darby
W. J. Prost
Things New and Old, 11:64
Os Mistérios

A palavra “mistério” descreve uma coisa oculta ou secreta, conhecida apenas pelos iniciados. Na Escritura, “mistério” contrasta com os atos manifestos ou públicos de Deus. O Senhor Jesus, tendo sido rejeitado, agora está oculto nos céus, e os caminhos de Deus são secretos para o mundo, mas são tornados conhecidos – como também Seu propósito oculto que está sendo cumprido por Seus caminhos secretos – para aqueles que têm “ouvidos para ouvir”.
O Senhor falou muitas vezes em parábolas à multidão, mas as explicou aos apóstolos, porque foi dado a eles conhecer os mistérios do reino. E ele lhes disse: “A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas”. O Cristianismo é um mistério para os não convertidos. Os apóstolos eram mordomos dos mistérios de Deus e falavam “a sabedoria de Deus, oculta em mistério”. O apóstolo Paulo falou do “mistério do evangelho”, do “mistério da fé”, do “mistério de Cristo” e do “mistério da piedade”.
O maravilhoso propósito de Deus, o mistério da Igreja, que havia estado oculto por séculos, foi revelado a Paulo, bem como sua administração atual. A inteligência disso explica como Cristo pode estar aqui em uma cena da qual Ele foi rejeitado por Judeus e gentios. Embora existam várias coisas designadas mistérios, mesmo assim Deus, em Sua graça, as tornou conhecidas aos Seus santos.
Concise Bible Dictionary (adaptado)
Os Mistérios nas Escrituras
Ao abordar o assunto dos mistérios na Palavra de Deus, é importante entendermos o que a palavra significa na Escritura. Em vez de transmitir a ideia de enigma ou algo difícil de entender, a palavra tem o sentido de algo que é conhecido por alguns, mas não por outros. Entre os gregos antigos, havia cerimônias e ritos relacionados a certas sociedades secretas, e somente aqueles iniciados no grupo possuíam o conhecimento deles. É nessa conotação que devemos entender a palavra “mistério” na Escritura. Vale ressaltar que, embora a palavra ocorra vinte e três vezes no Novo Testamento, ela nunca ocorre no Velho Testamento. Veremos que isso é significativo.
Na Escritura, a palavra também dá o pensamento daquilo que está fora do domínio da compreensão natural e que, portanto, só pode ser conhecido pela revelação divina e no momento em que Deus decide revelá-la. Está sempre conectada com algo que Deus escolheu revelar. Como alguém já disse de maneira apropriada: “No sentido comum, um mistério implica conhecimento retido; seu significado bíblico é a verdade revelada”. O Senhor Jesus primeiro usa a palavra em Mateus 13:11, ao falar dos “mistérios do reino dos céus”. Aqui Ele afirma claramente que a alguns foram dados conhecer esses mistérios, enquanto a outros não. Outros mistérios seguem no Novo Testamento, notadamente o mistério de Cristo e a Igreja, mas também o mistério da iniquidade, o mistério da piedade e outros. Nesses e em outros casos em que a palavra é usada, é uma nova revelação adequada ao caráter celestial da Igreja, ou à natureza atual do tratamento de Deus, visto como uma interrupção do curso dos eventos terrenais preditos nos profetas antigos. Esses mistérios não foram revelados em outros momentos, mas na sabedoria de Deus eles são revelados agora. No entanto, mesmo agora, eles são revelados a alguns, mas não a outros.
Os caminhos de Deus
Em vista de tudo isso, alguns podem perguntar por que Deus escolheu ter esses mistérios e revelar certas coisas em determinados momentos para alguns, mas não para outros. Além disso, por que essas coisas não foram reveladas no Velho Testamento? A resposta exalta os caminhos de Deus, de modo que somos levados a dizer, como Paulo disse: “O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos!” (Rm 11:33). Ainda que Deus certamente pudesse ter revelado, no Velho Testamento, certas verdades como fatos, elas teriam sido apenas verdades no intelecto e sem o efeito moral sobre aqueles a quem foram reveladas. A revelação completa aguardava a vinda de Cristo ao mundo. O Novo Testamento é conectado com os conselhos celestiais de Deus, enquanto o propósito das profecias do Velho Testamento é tornar conhecidos Seus conselhos terrenais. Em vez de herdar as promessas do Velho Testamento e cumprir as profecias do Velho Testamento, a Igreja forma o contraste mais absoluto com eles. São tão diferentes que os dois não podem existir juntos. Enquanto os propósitos de Deus sobre a Terra estavam sendo revelados, o mistério da Igreja estava oculto. Enquanto o mistério da Igreja está sendo revelado, os propósitos de Deus sobre a Terra estão suspensos.
Os propósitos de Deus em Cristo
Mas o desejo de Deus é sempre conectar a revelação, antes de tudo, com Sua glória, e depois com um relacionamento conhecido e desfrutado com Sua criatura. Quando Cristo veio a este mundo, Deus foi totalmente revelado, e então, por meio de Paulo, Seus propósitos em Cristo foram totalmente revelados. O entendimento dos mistérios está ligado primeiramente com essa preciosa verdade – que Deus agora é revelado em Cristo. Os mistérios revelados, em vez de serem meros fatos, estão agora conectados com Aquele que é o Objeto de todos os propósitos de Deus e em Quem “também fomos feitos herança” (Ef 1:11).
Além disso, a revelação do supremo mistério, o de Cristo e a Igreja, não foi dada até que Cristo tivesse sido glorificado e assentado à destra do Pai. Em vez de termos sido levados ao bem de uma verdade que simplesmente conhecemos, podemos agora olhar para os céus abertos e ver “a luz... para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Co 4:6). Assim, a revelação dos mistérios – e, em particular, o mistério de Cristo e a Igreja – está ligada à completa revelação de Deus em Cristo e com Cristo glorificado. Que substância e plenitude tudo isso dá à revelação de Deus! É no pleno conhecimento do mistério de Deus (que diz respeito aos Seus propósitos em Cristo) que “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2:3). Assim, a revelação desse mistério, e outros que a ele estão relacionados, não poderia ocorrer até que Cristo, e todos os propósitos de Deus n’Ele, tivessem sido manifestados.
Conhecimento e conformidade moral
Ao dizer que esses mistérios, mesmo agora, são conhecidos por alguns e não por outros, precisamos deixar claro que Deus, neste momento, não está deliberadamente mantendo alguns em ignorância, enquanto ilumina outros. Assim como foi nos dias em que nosso Senhor estava na Terra, assim é hoje; ou seja, há alguns que de boa vontade gostariam de ter o conhecimento do que Deus está fazendo, mas sem o efeito moral disso em sua vida. Havia aqueles nos dias de nosso Senhor que procuravam sinais e maravilhas, e até apreciavam Seu ensino, mas que não queriam seguir um Cristo rejeitado. Com relação a eles, nosso Senhor diria, como Ele faz hoje: “Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado” (Mt 13:12). Este versículo, com pequenas variações, é repetido cinco vezes nos quatro evangelhos, nos mostrando que não podemos ter a teoria da verdade em nossa cabeça sem o efeito prático dela em nossa vida. O mero conhecimento intelectual será tirado de nós, mas Deus está pronto para revelar esses mistérios hoje a todos que vieram com uma fé simples, reconhecendo Seu Filho como Salvador e Senhor, e desejando segui-Lo. Contudo, Deus não revelará Seus mistérios ao homem natural (que “não compreende as coisas do Espírito de Deus” – 1 Co 2:14), nem os revelará ao Cristão infiel e mundano.
Os santos do Velho Testamento
Mas aqueles santos piedosos do passado, que viveram antes de todos esses mistérios serem revelados, perderão? Não, de maneira nenhuma. Os santos do Velho Testamento, embora não estejam no local de proximidade de que a Igreja desfruta, certamente apreciarão e gozarão, como “amigos do noivo”, a revelação eterna do mistério. Quando Deus cumprir plenamente Seus propósitos em Cristo de “congregar em Cristo todas as coisas... tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Ef 1:10), todos os remidos, seja no céu ou na Terra , apreciarão o mistério. Tudo será revelado, para a glória de Deus e nossa bênção. Nós apreciamos o mistério agora; naquele dia todos os remidos entrarão nele. Em verdade, podemos dizer, com Paulo: “Porque d’Ele e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém” (Rm 11:36).
“Deus e o Cordeiro lá estarão
A luz e o templo serão,
E os exércitos radiantes pra sempre compartilharão
O mistério revelado”.
W. J. Prost
Dois Grandes Mistérios
Na Palavra de Deus, vemos dois grandes mistérios que se desenvolvem durante a presente dispensação: o mistério de Cristo e o mistério da iniquidade. Os conselhos de Deus envolvidos no primeiro têm seu cumprimento no céu. A união do corpo de Cristo Consigo mesmo em glória evidentemente terá seu cumprimento ali no alto. Mas, pelo poder do Espírito Santo, deveria haver na Terra, durante esta dispensação, a manifestação da união do corpo de Cristo. Mas aqui entra a responsabilidade do homem em sua parte nesta manifestação aqui embaixo, embora no final tudo seja para a glória de Deus. Portanto, a dispensação pode estar em estado de ruína, embora os conselhos de Deus nunca falhem; o contrário, a nossa mentira redundará em Sua glória, ainda que Ele julgue com justiça.
Nessa esfera de responsabilidade do homem, Satanás pode se apresentar no momento em que o homem falhe em se apoiar absolutamente em Deus. Sabemos disso pela experiência de todos os dias.
O mistério da iniquidade
É então revelado que o mistério da iniquidade seguirá seu curso. Aqui não se trata de conselhos, mas de um mal produzido no tempo. A questão aqui é esse mistério da iniquidade; a apostasia ou abandono não é um mistério. Não há necessidade de uma revelação para nos informar que um homem que nega Jesus Cristo não é Cristão; ele diz isso. Mas, neste caso, é um mal que começou a operar no seio da Cristandade, em relação ao Cristianismo – um mistério do qual a revelação completa será o iníquo, assim como a glória de Cristo e a Igreja será o pleno cumprimento do mistério de Jesus Cristo. As palavras traduzidas na maioria das versões “iniquidade” e “iníquo” são as mesmas no original, exceto que uma indica a coisa e a outra a pessoa. É a “iniquidade” e o “iníquo” preeminentemente. Esse mistério da iniquidade começou a trabalhar no tempo dos apóstolos; depois o véu seria removido. Viria então a apostasia, e finalmente o iníquo chegaria ao seu fim com a Aparição de Cristo. Assim, a dispensação deve ser levada ao fim: Isso é o que revelamos nessa passagem. Portanto, como vemos em outros lugares, isso será para introduzir a glória e o reino de Cristo, para que toda a Terra seja cheia do conhecimento da glória de Deus.
Collected Writings of J. N. Darby, 1:175
O Mistério de Cristo e a Igreja
A verdade do mistério de Cristo e a Igreja inclui quatro coisas:
A revelação de Deus sobre Cristo como o Segundo Homem.
A relação da Igreja com Ele como Seu corpo e noiva.
A natureza desta união.
O que é a Cabeça para o corpo e para cada membro individualmente.
Em outras palavras, é a revelação da glória da Cabeça, a graça que colocou a Igreja em relação a Ele nessa glória, e o que a Cabeça é ao corpo para sua manutenção atual enquanto estiver na Terra.
O evangelho
No final de Romanos, o apóstolo primeiro menciona o mistério, mas não o desenvolve. Nessa epístola, o Espírito de Deus dá o que deve preceder o conhecimento do mistério, isto é, o evangelho. Até que o evangelho seja conhecido em sua plenitude, a alma não pode realmente apreciar a verdade do mistério. Paulo era ministro do evangelho e também do mistério (Cl 1:23-29). Em Romanos, obtemos o que atende à necessidade de um pecador, revelando o que Deus é em graça para o homem. Quando isso é apreendido pela fé, a alma é levada a Deus em paz e liberdade, com a certeza de que todas as questões sobre o pecado foram resolvidas na cruz, de uma vez por todas. O crente é reconciliado a Deus e é levado a conhecer a Deus como Pai. Assim, a consciência e o coração são perfeitamente libertados, a alma está à vontade na presença de Deus e não precisa mais ser ocupada consigo mesma e com suas necessidades. Sendo assim libertado de todos os seus medos e preocupações, o crente está em uma condição para ser ocupado com o que está fora do alcance de suas próprias necessidades. Agora ele pode se ocupar com as glórias de Cristo e os conselhos e propósitos de Deus em relação a Cristo e para Sua glória. Então, quando a verdade em Romanos é realmente conhecida, o santo está preparado para avançar na apreensão do mistério. Isso nós temos desenvolvido em Colossenses e Efésios.
O propósito de Deus a respeito de Cristo
Antes de tudo, temos em Efésios 1 o propósito de Deus em relação a Cristo como o Segundo Homem. No versículo 10, aprendemos que Deus propôs trazer tudo no céu e na Terra sob a liderança de Cristo como o Segundo Homem. É maravilhoso ver que o propósito de Deus dá ao Homem esse lugar de liderança universal sobre toda a criação e coloca tudo no céu e na Terra sob Seu domínio. Cristo tomará esse lugar, não simplesmente em Seu direito divino como Filho de Deus, mas em Sua glória adquirida como Filho do Homem, pois o propósito de Deus era que a Igreja coerdasse com Ele, o que seria impossível se Ele não tomasse este lugar como Homem. Como o conhecimento disso deve nos preservar de tudo o que encontramos no mundo ao nosso redor, onde Cristo é rejeitado e onde vemos o homem se exaltando de todas as maneiras! O princípio do mundo é: “Os homens te louvarão quando você fizer bem a si mesmo”. Sabemos que essa exaltação do homem encontrará seu pleno desenvolvimento na manifestação do “homem do pecado”, que se exaltará acima de tudo o que se chama Deus e será destruído no julgamento daquele dia, quando todo o orgulho do homem será humilhado e quando somente o Senhor será exaltado.
A relação da Igreja
Segundo, aprendemos na revelação do mistério como Deus associou os crentes da presente dispensação com Cristo, neste lugar de honra e glória, como Seu corpo e Sua noiva. Quando ressuscitado e exaltado, Ele foi dado para ser Cabeça sobre todas as coisas para a Igreja, que é o Seu corpo. Não é dito cabeça sobre a Igreja, mas Cabeça sobre todas as coisas para a Igreja. Certamente nada poderia mostrar mais plenamente as riquezas da graça de Deus do que Ele Se agradar em associar a Igreja (ou seja, todos os santos desde o Pentecostes até a vinda do Senhor) com Cristo, Aquele em Quem é todo o Seu prazer. Todo crente habitado pelo Espírito está unido a Cristo, a Cabeça viva, como um membro de Seu corpo, e é considerado pelo Senhor como uma parte d’Ele. A Igreja é, portanto, a plenitude d’Aquele que enche tudo em todos, o assunto do propósito de Deus, isto é, Cristo, a Cabeça, e a Igreja, Seu corpo, como é dito em 1 Coríntios 12:12, formando o Cristo, um homem perfeito de acordo com o conselho de Deus, que será manifestado como tal no dia de glória. Essa é a força da expressão: “Seu corpo, a plenitude d’Aquele que cumpre (enche – ARA) tudo em todos”.
A natureza desta união
Terceiro, é importante considerar a natureza dessa união. A verdadeira natureza de nossa união com Cristo aparece em Colossenses, onde vemos que devemos ter Sua vida e natureza para nos unirmos a Ele. Como homens naturais vivos neste mundo, morremos com Cristo; nós nos despimos do corpo da carne. Era impossível para Cristo levar a carne pecaminosa à união Consigo mesmo, e era impossível mudar a carne; portanto, não havia mais nada a ser feito a não ser se despir daquilo que Deus julgou na cruz. Em Colossenses, não é apenas o pecado na carne que é julgado, mas a própria carne. Tudo em que o homem naturalmente se gloria é colocado de lado na morte de Cristo como sendo totalmente inútil para Deus. Em Cristo ressuscitado, vemos o homem segundo Deus; Ele é o único homem que Deus agora reconhece. Na ressurreição, Ele é o princípio de uma nova raça – uma nova criação. O crente está vivo agora na vida do Homem ressuscitado. Sendo ressuscitado com Cristo, ele deixou para trás a vida e a condição do primeiro homem, e sendo identificado com Cristo ressuscitado, ele é daquela nova raça, da nova criação da qual Ele é o princípio e a Cabeça.
O que a Cabeça é para o corpo
Quarto, em Colossenses temos o que a Cabeça é para o corpo, como em Efésios obtemos o que o corpo é para a Cabeça. “Porque n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” – tudo o que Deus é, é revelado e apresentado a nós, e é para nós, em Cristo, nossa Cabeça viva. Que pensamento maravilhoso com o qual podemos nos ocupar! N’Ele, que é a nossa Cabeça, habita toda a plenitude da Divindade! Certamente o homem deste mundo, com seu intelecto, sabedoria ou religião, nada pode acrescentar àquele que está cheio em Cristo! Não é de admirar, quando o apóstolo reconheceu os perigos que ameaçavam os santos, que ele desejasse tão sinceramente que eles estivessem totalmente assegurados da verdade do mistério de Deus, na qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Em Cristo, não apenas temos tudo o que nos torna completos quanto à nossa posição diante de Deus, mas também tudo o que precisamos para nossa vida e serviço aqui. À medida que aprendemos experimentalmente a fraqueza e a inutilidade de tudo o que é da carne, também apreciamos o fato de estarmos cheios em Cristo – que Cristo é tudo. Todo o suprimento para o corpo desce da Cabeça.
Cristo em nós – nós n’Ele
Vemos em Colossenses que o aspecto do mistério apresentado não é tanto o que somos em Cristo, mas Cristo em nós como vida e os resultados práticos disso: “Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai n’Ele”. A filosofia e a religião humana só podem cultivar e desenvolver a carne; eles não podem revelar Cristo e o que temos n’Ele, nem formar Cristo em nós, que é o objeto prático do Cristianismo. Também vemos como a Igreja obtém tudo de Cristo e, portanto, é independente de tudo o que é do homem.
Que Deus nos conceda não apenas que possamos entender a verdade do mistério, mas que possamos perceber mais plenamente pela fé e no poder do Espírito nossa união com Cristo.
The Christian Friend (adaptado)
O Mistério de Deus e o Mistério de Cristo
Ao falar do mistério de Cristo e a Igreja, a Palavra de Deus se refere a ele como o mistério de Deus e o mistério de Cristo. Embora seja o mesmo mistério nos dois casos, é bom reconhecer por que o Espírito de Deus faz essa distinção, pois há um tom diferente de significado nesses dois termos.
No Novo Testamento, frequentemente encontramos um termo referido a Deus em uma passagem e a Cristo em outra. Por exemplo, descobrimos que os termos “o Espírito de Deus” e “o Espírito de Cristo” são usados em Romanos 8:9. Encontramos o termo “a Palavra de Deus” usado muitas vezes, mas em Colossenses 3:16 é “a Palavra de Cristo”. Temos o termo “a paz de Deus” (Fp 4:7), mas também “a paz de Cristo” (Cl 3:15 – ARA). Em Romanos 8:39 é “o amor de Deus”, enquanto em Romanos 8:35 é “o amor de Cristo”. Existem outros, como “o evangelho de Deus” e “o evangelho de Cristo”, que podem ser adicionados a esta lista.
O que interessa a Deus e a Cristo
Embora o significado exato em cada caso deva ser determinado pelo contexto da passagem, ainda assim, de uma maneira geral, podemos dizer que quando é “Deus” que está conectado com um pensamento específico, é a Sua natureza e poder que são trazidos à tona diante de nós – a essência do que Ele é em Si mesmo. Se lermos o termo “O Espírito de Deus”, é o pensamento de Quem o Espírito é em Sua deidade essencial e em Seu poder que opera em nós. Se é o amor de Deus, é a natureza de Deus como amor e a força e poder do Seu amor que devemos considerar. Se é a paz de Deus, é uma paz conectada com o poder de Deus em todas as circunstâncias.
Quando é “Cristo” que está conectado com o assunto, o pensamento é diferente. É, antes, o lado prático das coisas, referindo-se às nossas experiências na vida e à nossa caminhada diante do Senhor, que o Espírito deseja trazer diante de nós. Assim, o termo “o Espírito de Cristo” nos ocupa com o que o Espírito está fazendo em nós e com a nossa identificação com Cristo por meio da habitação do Espírito. O “amor de Cristo” é mencionado em relação às provações que existem neste mundo, como tribulações, fome e perigo, enquanto o “amor de Deus” está conectado ao poder fora deste mundo. A paz de Cristo é mencionada em relação à nossa caminhada, enquanto a paz de Deus se refere mais ao fato de termos comprometido tudo com Deus e de fazer nossos pedidos a Ele.
As duas partes
Como entendemos então esses termos aplicados ao mistério de Cristo e a Igreja? Na verdade, existem duas partes do mistério: primeiro, que todas as coisas serão colocadas sob a liderança de Cristo; e, segundo, que a Igreja será associada a Cristo em tudo isso, como Seu corpo e Sua noiva. Quando obtemos a expressão “o mistério de Deus” em Colossenses 2:2, a plenitude da Cabeça do corpo está sendo trazida diante de nós. Colossenses, de uma maneira geral, fala do que Cristo é para a Igreja e nos dá a mais elevada verdade na Escritura, a respeito de Sua Pessoa e os propósitos de Deus em Seu Filho. Assim, o mistério de Cristo e a Igreja é aqui referido como “o mistério de Deus”, pois é o principal objetivo de Deus honrar e glorificar Seu Filho amado e colocar todas as coisas sob a liderança d’Ele, tanto no céu como na Terra. Esta é a primeira e mais importante parte do mistério, pois Deus sempre começa Consigo mesmo e com Seus conselhos, para Sua glória e a glória de Seu Filho. (Observe que as palavras em Colossenses 2:2 após a expressão “o mistério de Deus” devem ser deixadas de fora; o versículo deve terminar com essa frase. Não é o mistério de Cristo que está sendo tratado aqui).
O mistério de Cristo
O termo “o mistério de Cristo” é usado duas vezes na Escritura, uma vez em Efésios 3:4 (“minha compreensão do mistério de Cristo”) e uma vez em Colossenses 4:3 (“a fim de falarmos do mistério de Cristo”). Nos dois casos, está relacionado à nossa parte do mistério, a saber, que Deus escolheu associar Sua Igreja a Cristo em toda a Sua glória. Temos isso expressado em Efésios 1:11: “N’Ele, digo, em Quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito d’Aquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade”. Efésios, em contraste com Colossenses, traz diante de nós o que a Igreja é para Cristo e nos dá a mais elevada verdade na Escritura, a respeito das bênçãos do crente em Cristo. No capítulo 3, é o encargo do apóstolo que os santos entrem e desfrutem de todos os privilégios relacionados ao mistério de Deus revelado – para que possam ver “qual seja a dispensação (administração – JND) do mistério” (v. 9) e que possam ter seus afetos e, finalmente, suas vidas formadas por esse conhecimento. Assim, é chamado “o mistério do Cristo” (v. 4 – JND), pois a expressão “o Cristo” reúne Cristo e a Igreja como um só.
Da mesma forma, o uso do termo “o mistério de Cristo” em Colossenses 4:3 está relacionado ao desejo do apóstolo de ousadia prática para falar sobre isso, mesmo sendo ele um prisioneiro e podendo estar naturalmente um pouco reticente em expor claramente aquilo que anteriormente resultara em sua prisão. Ele poderia ter o conhecimento do mistério, mas precisava de graça prática para revelá-lo sem temor.
Nessas duas expressões, então, vemos claramente o padrão de Deus, no sentido de que Ele sempre começa Consigo mesmo, e então leva o homem à bênção com base em Seus próprios propósitos e graça. Essa bênção está sempre conectada e obtida por meio de Seu amado Filho. Em todos os nossos pensamentos, também precisamos ver tudo do ponto de vista de Deus, pois dessa maneira Deus sempre será glorificado e o homem entrará muito mais em suas bênçãos.
W. J. Prost
A Dispensação do Mistério
Os conselhos de Deus, até serem revelados, são tão secretos para Satanás quanto são para os filhos dos homens. Deve ter-lhe parecido um triunfo maravilhoso de sua diabólica engenhosidade e astúcia quando ele aparentemente conseguiu frustrar os planos dos ensinamentos proféticos de Deus, ao assegurar a rejeição e a crucificação do Rei de Deus. Era algo claramente demonstrado na Palavra que o Messias tomaria em Suas mãos as rédeas do governo terrenal e estabeleceria um reino dos céus na Terra. Que o Messias havia chegado e que nenhum reino havia sido estabelecido também estava claro pelos fatos. Que as profecias pudessem algum dia ter um cumprimento literal, de modo a vindicar a veracidade de Deus e de Sua Palavra, pareceu-lhe, sem dúvida, tão impossível quanto tem parecido a milhares dos próprios filhos de Deus, os quais abandonaram tal expectativa e a trocaram pelo esforço infrutífero de espiritualizar as profecias em uma harmonia forçada e antinatural com os eventos existentes.
Enquanto muitos ainda se apegam a esse erro, Satanás certamente há muito tempo já foi desenganado. A revelação do “mistério”, revelada em vão diante dos olhos de alguns dos filhos de Deus, tem sido vista por ele com discernimento mais claro. Isso não é mera conjectura; é o ensino da própria Palavra. Na epístola aos efésios, o apóstolo, ao abrir sua comissão “e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus”, acrescenta, “que tudo criou por meio de Jesus Cristo; para que agora, pela Igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef 3:9-10).
A demonstração da sabedoria de Deus
Aqui temos o fato de que a demonstração da multiforme sabedoria de Deus, por meio da Igreja, foi contemplada em Seu propósito antes da criação, com referência expressa aos “principados e potestades nos céus”. Agora, se em Efésios 1:21 e Colossenses 2:10, “principados e poderes” parecem empregados para designar habitantes celestiais em favor com Deus, em Efésios 6:12 o mesmo é usado para os inimigos mortais de Deus e do homem, os espíritos maus, conhecidos em outros lugares como “o diabo e seus anjos”. Por eles, essa multiforme sabedoria será aprendida para sua confusão e espanto, assim como pelos outros para sua edificação e alegria, por meio da demonstração da capacidade de Deus para obter resultados. Esse trabalho mais elevado e abençoado é realizado pela instrumentalidade dos próprios elementos que mais pareciam frustrar Seus planos e atravessar Seus propósitos.
Acaso você sonha com um evangelho gradualmente difundido, convertendo o mundo sob a ação do Espírito e anunciando um milênio de bênção espiritual, sem a presença pessoal de um Messias em glória manifestada no trono de Seu pai Davi? Nesse caso, você terá que revisar essa posição antes que possa ver “qual seja a dispensação do mistério”. Pode um filho de Deus ficar satisfeito com que tal vitória permaneça nas mãos de Satanás, como se ele tivesse frustrado o cumprimento literal da profecia e reduzido Deus à necessidade de dar a ela apenas o chamado cumprimento espiritual? Nenhum leitor simples da Palavra poderia supor que isso estivesse correto. Não; Satanás não triunfou. O propósito de Deus não foi abandonado; Seus planos não foram frustrados. Um adiamento previsto, sim, retardou o estabelecimento imediato, mas na aparente vitória de Satanás, o príncipe das trevas se enganou a si mesmo; ele cumpriu o propósito secreto de Deus de suspender, por um período, o estabelecimento do trono, a fim de preparar uma noiva para Seu Rei, para ser associada a Ele em Seu reinado. A Igreja do Deus vivo, um povo introduzido a um lugar especial de proximidade, terá parte em Sua exaltação e glória; aqueles que O reconhecem e tomam parte com Ele em Sua humilhação e rejeição, porque “sofrem” com Ele, também “reinam com Ele”. Eles preencherão esse mesmo lugar nos céus – o lugar onde Satanás e seus anjos estão agora. Eles são as potestades do ar das quais o diabo é príncipe. Essas “hostes espirituais da maldade” lutam em conflito espiritual contra os santos.
O reino na Terra
As profecias do Velho Testamento falavam apenas da Terra; não havia a sugestão de um povo para ocupar o lugar dos poderes satânicos, nem a palavra de serem despojados em favor de um povo redimido da Terra. Isso era um segredo, um mistério oculto em Deus. O aparente triunfo de Satanás deu ocasião à revelação e ao cumprimento da multiforme sabedoria de Deus, Sua graça e Sua glória. O reino que Satanás pensou frustrar ainda será estabelecido na Terra – o Milênio da profecia do Novo Testamento. O cumprimento literal de todos os detalhes da Palavra de Deus e a vindicação total da fidelidade de Deus e da veracidade de Seus profetas serão estabelecidos.
A presente dispensação
A presente dispensação é um período entre parênteses, contemplado de fato nos conselhos de Deus, mas não revelado até que fosse “dado” a Paulo que a estabeleceu.
Uma vez que essa verdade é vista, ela se torna a chave para a interpretação da Escritura e para manejar corretamente a Palavra da verdade, na distinção entre as coisas Judaicas e as Cristãs. Até que seja visto, nenhum Testamento pode ser entendido corretamente, e o Cristianismo, em vez de ter seu caráter próprio e distinto, é degradado em uma espécie de forma revisada de Judaísmo.
Cristo e a Igreja
Todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos no “mistério”, de modo que a dispensação dele, dada a Paulo, é o preenchimento ou a completação da Palavra de Deus. Cristo é o centro da verdade e dos caminhos de Deus, mas o Cristo dos conselhos de Deus não é simplesmente o Homem Cristo Jesus, mas “assim como o corpo é um, e tem muitos membros… assim é Cristo também” – o mistério – o segundo Adão, não sozinho, mas com Sua Eva unida a Ele sob um nome comum. Como Adão estava incompleto sem Eva, assim também o Cristo de Deus nos Seus conselhos e propósitos, estava incompleto sem “a Igreja, que é o Seu corpo, a plenitude d’Aquele que cumpre tudo em todos” (Ef 1:22-23) . Por uma boa razão, Paulo oraria para que fossem “iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos” (Ef 1:18).
The Christian Friend, 3:81 (adaptado)
As Duas Orações e o Mistério
A oração em Efésios 1:15‑23 é para o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, porque Ele é visto como Homem, mas o Objeto de todos os pensamentos de Deus. A oração em Efésios 3:14‑21 é ao Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, porque Ele é visto como Filho. A primeira oração se baseia em três grandes temas: (1) a esperança de Seu chamado, (2) as riquezas da glória de Sua herança nos santos e (3) a grandeza do poder que nos colocou no chamado. Para entender isso, os olhos do nosso coração devem ser iluminados. O coração do apóstolo transbordou em adoração, atribuindo bênção Àquele que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais. Observe que é o chamado d’Ele, o chamado de Deus, não o nosso chamado. A esperança de Seu chamado não é especialmente a vinda do Senhor, mas a percepção de tudo para o que Deus nos chamou, em Cristo, como fruto de Seu propósito. Assim como o chamado nos leva a olhar para o céu, a herança direciona a atenção para a Terra.
Originalmente, Sua herança estava em Israel; agora está nos santos. Nós não somos a herança, mas herdeiros de Deus. Nós obtivemos uma herança em Cristo. Esses pensamentos não devem ser confundidos um com o outro; todos eles são bem distintos. Duas grandes partes dessa oração são: primeiro, que os efésios possam conhecer o lugar e segundo, que eles possam conhecer o poder que os levou até lá. Esse poder é extremamente grande e encontra sua medida na ressurreição de Cristo dentre os mortos. Tudo ao redor estava na morte. O homem estava morto em delitos e pecados, em meio aos quais Deus operou para realizar o Seu propósito eterno e ao mesmo tempo revelar-Se a Si mesmo. As autoridades selaram o túmulo e colocaram uma guarda, decidiram que Cristo nunca mais iria interferir com a humanidade, mas Ele ressuscitou dentre os mortos pela glória de Deus Pai. Esse mesmo poder nos vivificou juntamente com Ele e nos ressuscitou e nos fez assentar juntamente nos lugares celestiais em Cristo Jesus. A primeira parte do capítulo 1 revela nosso lugar individual em Cristo diante de Deus Pai na eternidade, enquanto a segunda parte mostra nosso relacionamento corporativo com Cristo como Seu corpo em relação à obra de Deus para cumprir Seu propósito eterno.
A segunda oração
No terceiro capítulo, o apóstolo apresenta seu duplo ministério; o do evangelho e o do mistério, para fazer todos os homens verem qual é a administração desse ministério. Esse está relacionado ao tempo presente; não será necessário no céu. É esperado que a conduta do Cristão aqui seja profundamente afetada por ele. Os anjos, os poderosos poderes do céu, veem na Igreja o que não viram na criação, nem nas manifestações subsequentes de Deus. Na revelação do mistério, mostra-se um novo desdobramento nos caminhos de Deus, a saber, que os gentios devem ser coerdeiros e participantes da Sua promessa em Cristo no evangelho. Seus componentes mal ajustados (judeus e gentios) formam, todavia, um só corpo, constituído por todos os que pertencem a Cristo, unidos a Ele em glória. A oração não é para que possamos conhecer nosso lugar em Cristo (como no capítulo 1), mas que a verdade possa estar habitando de forma renovada em nosso coração na comunhão de Cristo. Existem recursos nas riquezas de Sua glória – o poder pelo qual podemos ser fortalecidos pelo Espírito no homem interior. É o Espírito Quem opera para que Aquele que habita no seio do Pai possa habitar no coração dos Cristãos pela fé! A primeira oração tem a ver com estarmos em Cristo; a segunda oração, com Ele estando em nós. Ele é o centro do propósito eterno; esse centro é trazido ao nosso coração pelo Espírito. O amor de Cristo fará com que os santos apreendam a largura, o comprimento, a altura e a profundidade da esfera ilimitada da glória (que não pode realmente ser definida), e então conheçam o próprio amor que ultrapassa o conhecimento. A primeira oração é objetiva, uma vez que o poder está operando exteriormente; na segunda oração, o poder está operando em nós interiormente e, portanto, é subjetivo em seu efeito. É muito apropriado que a oração termine com uma doxologia tão maravilhosa.
J. A. Trench (adaptado)
O Trabalho Árduo de Paulo
O apóstolo Paulo pregou perdão e paz na energia divinamente dada, mas ele fez mais. Ele tinha visto Cristo em glória; sua alma estava cheia de Cristo ali; portanto, ele pregou para o crente aqui: “Cristo em vós, esperança da glória”. Ele não estava satisfeito com o fato de que os convertidos deveriam ser salvos do inferno e seguros para o céu, mas ele trabalhou arduamente por eles para que Cristo fosse formado neles. Ele trabalhou de acordo com a obra de Deus, que trabalhou nele poderosamente, para que eles conhecessem as riquezas da glória do mistério – “Cristo em vós, a esperança da glória”. Ele ansiava que as almas salvas fossem libertadas da lei e da Terra e fossem livres para Cristo, e somente para Cristo. Em seus profundos desejos pela glória de Cristo e sua empatia pelas almas e pelo progresso delas, ele sofria grande conflito – mesmo para os convertidos que não tinha visto – para que pudesse ser “enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério”. Acaso nossas pregações trazem o próprio Cristo aos nossos ouvintes, para que eles possam “conhecê-Lo”?
H. F. Witherby
Quatro Aspectos
Existem quatro aspectos distintos da Pessoa de Cristo nos quatro Evangelhos; portanto, nas epístolas existem quatro figuras ou aspectos do “mistério”.
Em Mateus, o Senhor nos é revelado como Filho de Abraão, cumprindo toda a justiça; em Marcos, como o Servo perfeito; em Lucas, como o Homem perfeito, Filho do Homem; em João, como Filho de Deus.
Nas epístolas, “o mistério” é revelado sob quatro aspectos: o templo (“no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor”), a Igreja (ou assembleia), o corpo e a noiva.
Things New and Old, 24:232
A Parede de Separação
O mistério havia estado oculto em todos os tempos antigos, e de fato precisava ser assim, pois colocar os gentios em pé de igualdade com os Judeus teria sido demolir o Judaísmo, como o próprio Deus o havia estabelecido. No Judaísmo, Ele ergueu cuidadosamente uma parede de separação. Era dever do Judeu respeitar essa separação; ele pecava, se não a observasse estritamente. O mistério colocou a parede de lado.
J. N. Darby
De Cima para Baixo ou de Baixo para Cima?
Com o início do século XXI, parece que o mundo, para usar uma expressão comum, trocou de marcha. Enquanto a tecnologia continua a se desenvolver, os problemas e dificuldades neste mundo estão se tornando maiores, não menores. Como resultado, o homem está tentando, por assim dizer, erguer-se por suas próprias pernas e inventar soluções para problemas que em muitos casos estão além da capacidade dele. O conselho que foi considerado bom o suficiente para o século passado agora é considerado obsoleto, e novos conceitos e novas abordagens para os problemas estão sendo propostos. A Internet, por exemplo, mudou radicalmente não apenas nossa maneira de fazer negócios, mas, em última análise, toda a nossa maneira de viver. No entanto, essas abordagens às vezes invadem o reino moral e espiritual e, como sempre, os pensamentos do homem são o oposto dos pensamentos de Deus.
Em particular, o proeminente autor americano Michael Shermer fez comentários recentemente em seu último livro, A mente do mercado, no sentido de que precisamos reconhecer que quase tudo que é importante na natureza e na sociedade “acontece de baixo para cima, não de cima para baixo”. Firme defensor da teoria da evolução, ele afirma calmamente que “a vida é uma propriedade emergente auto-organizada de moléculas orgânicas, que surge de baixo para cima”. Shermer é o fundador da revista Skeptic, chefe da Sociedade de Céticos e colaborador da Scientific American. Entre outras coisas, ele também escreveu um livro sobre as chamadas origens evolutivas da moralidade e “como ser bom sem Deus”. Com uma forte ênfase na lógica, ele menospreza tudo o que não pode ser verificado pela razão.
Coisas além da razão
Ao falar sobre o homem natural e sua maneira de operar neste mundo, pode haver um certo grau de verdade na teoria de Shermer de que as coisas geralmente acontecem “de baixo para cima, não de cima para baixo”. Por exemplo, geralmente é verdade que quem trabalha mais obtém o máximo neste mundo. Contudo, raciocinar dessa maneira nas coisas morais e espirituais é deixar Deus de fora e, finalmente, tornar o homem e sua mente o limite de tudo em que acreditamos. Como alguém já disse: “Não há nada na Bíblia contrário à razão, mas há muitas coisas que estão além da razão”. Negar a existência do que está além da razão faz o homem voltar-se para si mesmo e, por fim, afastar-se de Deus.
Com o crente, tudo começa com Deus e termina com Deus (Ap 1:8). Portanto, não é “de baixo para cima”, mas “de cima para baixo”. A Bíblia começa com as palavras: “No princípio Deus”, e se o homem raciocina (e é Deus Quem deu ao homem seus poderes de raciocínio), ele deve necessariamente começar com Deus e raciocinar a partir de Deus até o homem. Começar pelo homem sempre desonrará a Deus e acabará privando o homem da bênção que Deus deseja dar a ele. Se o homem pensa que pode “ser bom sem Deus”, descobrirá que não tem base para a moralidade que deseja. Com um coração pecador e sua mente cegada por Satanás, ele sempre será arrastado para baixo, nunca levantado. Mas se o homem começa com Deus, seu raciocínio estará no caminho certo e é mais provável que suas deduções sejam corretas.
O propósito de Deus
Isso é verdade no sentido mais elevado quando consideramos o que Deus está fazendo hoje, em conexão com o mistério de Cristo e a Igreja. O homem natural que começa por si mesmo nunca conhecerá os propósitos de Deus em Cristo, ou as bênçãos que Deus tem para ele. De fato, é o objetivo do “deus deste século”, Satanás, cegar “os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Co 4:4). Observe que a cegueira se refere principalmente à glória de Cristo, não à necessidade do homem como pecador (embora seja verdadeiro). A revelação da glória de Cristo e de todos os propósitos de Deus n’Ele nunca pode vir de baixo para cima; deve vir de Deus, de “cima para baixo”. Então, ao entender essa revelação, descobrimos que Deus, em Sua bondade e graça, também propôs que sejamos levados à bênção com Cristo e participemos de tudo o que Ele herdará. Foi Deus Quem determinou “congregar em Cristo todas as coisas” e que também determinou que obteríamos uma herança n’Ele (Ef 1:10-11).
É por essa razão que Paulo, ao pregar o evangelho, começa com os propósitos de Deus em Cristo, não com a necessidade do homem – de cima para baixo! A necessidade do homem é atendida, é verdade, mas quando os propósitos de Deus têm precedência, Deus é muito mais glorificado e o homem é muito mais abençoado do que quando o homem começa consigo mesmo. Isso é verdade para os incrédulos, mas também é verdade até para o crente que não está procurando se rebelar contra Deus.
Nossa vida diária
Se esse princípio é verdadeiro quanto à nossa posição atual diante de Deus, associado a Cristo como Seu corpo e noiva, é verdade também em nossa vida cotidiana. Vivendo neste mundo, somos propensos a ser governados pelos pensamentos do homem e podemos ser tentados a pensar primeiro em nós mesmos e em nossas necessidades, em vez de começar com Deus. Vendo as muitas necessidades deste mundo, podemos, talvez até com motivos corretos, procurar atender a essas necessidades em nossa própria sabedoria, em vez de começar com Deus, que não é apenas mais sábio que o homem, mas que ama sua criatura mais do que nós. Certamente a sabedoria de Deus, que propôs a glória de Cristo em uma eternidade passada, também é a sabedoria “a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória” (1 Co 2:7). É um privilégio abençoado para nós, neste tempo da graça de Deus e quando todos os Seus conselhos são exibidos, ter “iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da Sua vocação, e quais as riquezas da glória da Sua herança nos santos” (Ef 1:18). Tudo isso deve vir de cima para baixo, não de baixo para cima!
O que suscitou o pensamento maravilhoso;
Ou quem o sugeriu?
Que nós, a Igreja, para a glória trazidos,
Tenhamos sido abençoados com o Filho.
Ó Deus! Ó Deus! O pensamento era Teu
(Teu somente poderia ser);
Fruto da sabedoria, amor divino,
Peculiar a Ti:
W. J. Prost
Tua Glória, Senhor, é Minha
Tua glória, Senhor, é minha – a luz
Que brilha em Tua fronte resplandecente;
Pois transformado em tal imagem radiante
Eu ainda serei como Tu és agora!
Tua rica herança é minha;
Coerdeiro Contigo dos mundos celestiais;
Senhor, em Teu reino eu brilharei,
E reinarei Contigo em amor sem fim.
Tua plenitude, Senhor, é minha – pois oh!
Essa plenitude é uma fonte tão livre
Quão inesgotável!
A dádiva ilimitada de Jeová para mim!
Meu Cristo! Oh, cantem, céu dos céus!
Que cada anjo levante sua voz;
Soem com dez mil harpas Seu louvor;
Comigo, hostes celestiais, alegrem-se!
Com lágrimas, com cânticos, com salmos santos,
Com amor diário, com doces odores,
Com o coração quebrantado, com os braços estendidos,
Derramarei meus louvores aos Teus pés.
Things New and Old, 11:64
"Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados"
1 Coríntios 15:51-52




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