Propiciação e Reconciliação (Outubro de 2011)
- Revista O Cristão

- 26 de set.
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Revista mensal publicada originalmente em outubro/2011 pela Bible Truth Publishers
ÍNDICE
Tema da edição
W. J. Hocking
J. N. Darby (adaptado)
E. Dennett (adaptado)
E. H. Chater
J. N. Darby
C. H. Mackintosh
J. N. Darby
W. J. Prost
J. G. Deck, 1870
Propiciação e Reconciliação

A cruz é a joia mais preciosa dos caminhos de Deus para com o homem. Por meio dela, Ele glorificou Sua própria natureza de luz e amor e estabeleceu o fundamento para as bênçãos do homem, apesar de sua rebelião pecaminosa. É uma obra tão grandiosa, com uma infinidade de resultados, que muitos termos diferentes são usados por Deus para nos ajudar a entender e apreciar nosso Deus e Sua obra por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Tais termos incluem expiação, justificação, redenção, perdão dos pecados, substituição, propiciação e reconciliação.
Muitos dos sacrifícios e serviços dos sacerdotes em Israel foram feitos como figuras e sombras dos diferentes aspectos da poderosa obra de Deus em Cristo. Agora, vemos neles a exibição da natureza de Deus e como Ele foi capaz de manter Sua glória e, ainda assim, abençoar aqueles que haviam pecado contra Ele. Nesta edição, examinaremos dois aspectos de Sua obra: Propiciação e Reconciliação. Vemos nelas como a natureza santa de Deus é satisfeita e, ao fazer isso, Ele fornece o fundamento para nos trazer de volta à comunhão e harmonia Consigo mesmo. Nisto, vemos que somente um, e o único, nosso Senhor Jesus Cristo, poderia realizar esta obra e dizer: “Eu glorifiquei-Te na Terra, tendo consumado a obra que Me deste a fazer” (Jo 17:4).
Tema da edição
Ele é a Propiciação Pelos Nossos Pecados
É uma característica marcante da escrita do apóstolo João que tudo o que é mostrado sobre Deus haver providenciado, em Seu amor, para Sua própria glória e para a necessidade do homem, é também mostrado como estando intimamente ligado à Pessoa de Cristo.
Podemos ver que a propiciação é, por João, associada à Pessoa do Senhor. Ele não a apresenta como obra do Senhor, isso temos em outro lugar. Mas na primeira epístola do apóstolo do amor, lemos: “Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo. E Ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 2:1-2), e novamente, “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou Seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4:10). Jesus Cristo, então, Ele mesmo é a propiciação pelos nossos pecados. Isso é algo tão infinitamente bendito quanto é simples, pois se eu, sendo um pobre pecador, precisava de uma propiciação para meus pecados e me disseram que Cristo é essa propiciação (mesmo que eu não possa explicar o significado do termo), posso ter certeza de que, sendo Cristo ela própria, ela será mais do que adequada para minha culpa.
Mas podemos extrair mais do que isso pela maneira como usamos essa verdade na epístola de João. O fato é introduzido pela primeira vez em conexão com o rompimento da comunhão de um crente por um pecado. “Se alguém pecar [ou, houver pecado], temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo. E Ele é a propiciação pelos nossos pecados”. João estava mostrando o lugar íntimo ao qual o filho de Deus é introduzido em comunhão com o Pai e o Filho! Mas quando andamos assim na luz, isso nos permite ver, como em nenhum outro lugar, o pavoroso horror do pecado. Não devemos pecar, mas se alguém pecar e for dominado pela percepção terrível da natureza do pecado na presença do Deus santo, uma provisão foi feita. Jesus Cristo, como Advogado, assume nosso caso para com o Pai, representando devidamente a confissão de nossos pecados em nosso favor; além disso, Ele próprio é a propiciação pelos nossos pecados.
Assim, qualquer satisfação que a natureza justa e santa de Deus exija por causa daqueles pecados, Jesus Cristo é essa satisfação. E o valor e o mérito da propiciação são, portanto, declarados como sendo comparáveis somente com Sua Pessoa. Se, portanto, desejamos estimar corretamente a base de nossa restauração à comunhão, devemos pensar na excelência eterna do Filho. Por mais que possamos magnificar a terribilidade do pecado (e nunca exageraremos o suficiente a verdade a esse respeito), podemos ter certeza de que ele é mais do que coberto pela propiciação do Filho de Deus, pois Ele ofereceu, e somente Ele poderia oferecer aquilo que nossos pecados necessitavam e que a glória de Deus exigia.
Mas também podemos apreender ainda mais dessas palavras em João; vemos que um caráter de santidade está estampado na propiciação. Não nos cabe atribuir a ela qualquer grau de santidade que desejarmos. O Espírito de Deus santificou a verdade da maneira mais alta possível, e de uma forma que o filhinho mais novo em Cristo pode reconhecer. O Filho de Deus é a propiciação pelos nossos pecados. “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou Seu Filho para propiciação pelos nossos pecados”. A obra de propiciação está associada a toda a glória da Divindade do Filho. Acaso somos capazes de atribuir a excessiva importância a uma doutrina que nos é apresentada em termos como estes? Na mente do Espírito, como expressa por João, a obra é ligada à Pessoa, e o valor da obra deve ser medido de acordo com o valor intrínseco do Filho.
É importante lembrarmos disso, porque a mente humana é muito apta a inferiorizar as coisas de Deus. E quão terrível é depreciar a Pessoa do Filho, a Quem ninguém conhece (Mt 11:27). Israel no deserto pecou ao limitar o Santo no que Ele faria por eles (Sl 78:41). Acaso pode o Cristão impunemente estabelecer os limites de tempo e espaço para o Filho de Deus, que é a propiciação por nossos pecados, e principalmente impondo-Lhe limitações humanas na realização dessa obra em particular? Se alguém falar ou pensar de forma leviana sobre a propiciação, lembre-se de que Ele é “a propiciação pelos nossos pecados”.
W. J. Hocking
Propiciação
Cristo permaneceu em nosso lugar, em certo sentido, em propiciação. No grande dia da expiação, Arão degolava o novilho e um bode, que era chamado de a sorte do Senhor, e aspergia o sangue sobre e diante do propiciatório e sobre o altar. O sangue era apresentado a Deus, cuja santa presença havia sido desonrada e ofendida pelo pecado. Assim, Cristo glorificou perfeitamente a Deus no lugar do pecado, por Sua perfeita obediência e amor a Seu Pai, ao ser feito pecado, Ele, que não conheceu pecado. A majestade, justiça, amor e verdade de Deus – tudo o que Ele é – foi glorificado na obra realizada por Cristo, e disso o sangue foi testemunha no próprio lugar santo. Nossos pecados deram ocasião a isso, mas o próprio Deus foi glorificado nisso. Portanto, o testemunho pode ser dado a todo o mundo que Deus está mais do que satisfeito, glorificado; quem quer que venha por meio desse sangue é livre e plenamente recebido por Deus e para Deus.
Mas não havia confissão de pecados sobre a cabeça deste bode; ele era pelo pecado por causa da pecaminosidade de Israel, mas era simplesmente sangue oferecido a Deus. O pecado havia sido tratado em juízo de acordo com a glória de Deus, sim, até a completa glorificação de Deus, pois nunca Sua majestade, amor e ódio ao pecado foram tão vistos. Deus podia resplandecer em favor do pecador que se voltava a Ele de acordo com o que Ele era; sim, na infinitude de Seu amor, ordena aos homens que voltem.
Além disso, no grande dia da expiação, o sumo sacerdote confessava os pecados do povo sobre o segundo bode, o bode expiatório, colocando as duas mãos sobre a cabeça do bode: os pecados pessoais eram transferidos para o bode por aquele que representava todo o povo, e eles se iam para sempre, nunca mais eram encontrados.
Os dois bodes são apenas um Cristo, mas há o duplo aspecto de Seu sacrifício, primeiro para com Deus (propiciação) e depois levando nossos pecados (substituição). O sangue é a testemunha da realização de tudo, e Ele entrou não sem sangue. Ele é a propiciação pelos nossos pecados. Mas nesse aspecto o mundo também entra. Ele é propiciação pelo mundo inteiro. Tudo o que era necessário foi feito. Seu sangue está disponível para o mais vil, seja quem for. Por isso, o evangelho ao mundo diz: “Quem quiser, venha”. Nesse aspecto, podemos dizer que Cristo morreu por todos, deu a Si mesmo em resgate por todos, um sacrifício adequado e disponível pelo pecado, para quem quer que venha – provou a morte por todo homem.
J. N. Darby (adaptado)
Propiciação: O Que é e Onde é Feita?
No Velho Testamento, a propiciação era feita no propiciatório no Santo dos Santos, e se nos voltarmos aos detalhes do que acontecia no grande dia da expiação, conforme descrito em Levítico 16, seremos capazes de entender sua importância. Nos ritos daquele dia solene, encontramos prescrita a maneira que Arão deveria entrar no santuário, mas precisamos nos ocupar, para o presente propósito, com o sangue da oferta pelo pecado, seja o do novilho, que era por ele e sua casa ou o do bode, que era a oferta pelo pecado pelo povo. Devemos notar, no entanto, que antes que o sangue dessas ofertas fosse tratado, Arão foi instruído: “Tomará também o incensário cheio de brasas de fogo do altar, de diante do SENHOR, e os seus punhos cheios de incenso aromático moído, e o levará para dentro do véu. E porá o incenso sobre o fogo perante o SENHOR, e a nuvem do incenso cobrirá o propiciatório, que está sobre o testemunho, para que não morra” (Lv 16:12-13). Esse incenso ardente, com os doces odores que emitia ao entrar em contato com o fogo sagrado, é uma figura das perfeições e graças perfumadas do próprio Cristo a Deus, e é, portanto, um lembrete precioso de que a Pessoa e a obra de Cristo nunca podem ser separadas. Sua obra perfeita deriva em todo o seu valor do que Ele era em Si mesmo, pois todo o valor e preciosidade de Sua Pessoa, diante de Deus, entram em Sua obra.
O sangue no propiciatório
Primeiro, o sangue era aspergido sobre o propiciatório, e era essa aspersão que constituía a propiciação, pois o propiciatório [trono de misericórdia – KJV] era o trono de Deus no meio de Israel. Jeová era santo e, como tal, reivindicou a santidade de Seu povo; a lei foi dada como o padrão de Seus requisitos. Mas, logo que a lei foi dada, ela foi transgredida, e sua justa pena de morte deveria ter sido exigida, a menos que fosse encontrado um meio de satisfazer as reivindicações de um Deus santo sobre uma nação de pecadores. O próprio Deus promulgou o fundamento justo sobre o qual a expiação poderia ser feita pelos pecados deles e sobre o qual Ele ainda podia habitar no meio deles e manter com eles um relacionamento de graça; esse fundamento foi encontrado no sangue da oferta pelo pecado, que era aspergida anualmente no grande dia da expiação sobre o propiciatório. O fogo que consumia o corpo da oferta pelo pecado fora do arraial falava de um santo julgamento contra o pecado; a gordura queimada no altar falava da perfeição interior e da aceitação da vítima, isto é, de Cristo como prefigurado por ela, enquanto o sangue aspergido sobre o propiciatório atendia, em favor do povo, a todas as santas reivindicações de Jeová que Ele tinha contra eles por causa dos pecados deles (Lv 17:11). Quando, portanto, os olhos de Deus repousaram sobre o sangue aspergido, Ele ficou satisfeito e pôde de maneira justa passar por cima dos pecados de Seu povo ano após ano, pois Ele ainda podia habitar no meio deles e manter os relacionamentos que Ele havia estabelecido.
Mas essa cerimônia anual era uma figura, prenunciando, como ela fazia, o sacrifício perfeito de Cristo (Hb 9-10; 13:11-13). O apóstolo João, portanto, nos diz que Jesus Cristo, o Justo, é a propiciação por nossos pecados e também pelos de todo o mundo (1 Jo 2:2; 4:10). A partir disso, aprendemos que o sangue de Cristo fez de uma vez por todas o que o sangue da oferta pelo pecado, em figura, realizou para todo o ano no dia da expiação; isto é, fez a propiciação. É verdade que João diz que o próprio Cristo é a propiciação, mas também lemos que Deus estabeleceu a Ele como um propiciatório por meio da fé, em Seu sangue (Rm 3:25); de onde entendemos que o sangue de Cristo, obtendo, como já vimos, todo o seu tremendo valor daquilo que Ele era em Si mesmo, tem respondido a todas as reivindicações de Deus sobre os homens pecadores e O glorificou em tudo o que Ele é quanto à questão de pecado e pecados. Portanto, agora Deus pode justificar justamente todos que creem em Jesus (Rm 3:26) e pode enviar o evangelho de Sua graça a todo o mundo.
O sangue aspergido sete vezes
Em segundo lugar, o sangue era aspergido sete vezes diante do propiciatório. Este era o lugar ao qual o sumo sacerdote se aproximava e, dessa maneira, representava sua posição diante de Deus. O sangue era ali aspergido em testemunho de que a propiciação havia sido feita, e era aspergido sete vezes para que pudesse ser um testemunho perfeito. Uma vez era suficiente para os olhos de Deus, como sinal de que todas as Suas reivindicações haviam sido satisfeitas, mas Deus deu ao homem uma perfeita certeza de que a propiciação havia sido realizada e, portanto, era aspergida diante do propiciatório sete vezes. Portanto, quem quer que receba o testemunho de Deus no evangelho e, assim, se aproxime do propiciatório (Cristo), “pela fé no Seu sangue”, encontra, na própria presença de Deus, o testemunho perfeito de que foi feita propiciação por seus pecados, bem como que eles foram levados por Outro e levados embora para sempre (Lv 16:21-22).
Onde era feita a propiciação?
Na antiga dispensação, a propiciação era claramente feita no Santo dos Santos, pois era “no Santo lugar” (TB) que “o sumo sacerdote cada ano entra no santuário com sangue alheio” (Hb 9:25). Entretanto, ao dar o que corresponde a isso na obra de nosso Senhor – isto é, a parte propiciatória de Sua obra – o Espírito Santo diz: “Mas agora na consumação dos séculos uma vez Se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de Si mesmo” (Hb 9:26). Que isso é propiciação, todos estão de acordo; assim, enquanto o sumo sacerdote de Israel fez propiciação no santuário terrestre, foi na cruz que Cristo fez propiciação. A obra de propiciação foi feita e completada na cruz; Cristo “entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas” era sob o fundamento de ter “obtido uma eterna redenção” (Hb 9:12 – ARA). Lá no Calvário, Sua obra de expiação foi concluída – terminada pelo sacrifício de Si mesmo, quando Ele, por meio do Espírito eterno, Se ofereceu a Si mesmo imaculado a Deus.
Os efeitos da propiciação
A propiciação é a base sobre a qual Deus envia a mensagem de apelo do evangelho ao mundo inteiro. Tendo sido completamente glorificado em relação ao pecado e aos pecados, Ele pode satisfazer Seu próprio coração, fazendo com que as poderosas correntes de Sua graça fluam para toda criatura sob o céu e emitindo a proclamação: “Quem quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22:17). Ele pode, portanto, ser Justo e Justificador de todos os que creem em Jesus. Por fim, nesta mesma base, o pecado do mundo (não os pecados), é totalmente retirado (Jo 1:29; Hb 9:26), e Deus Se agradou em nos revelar a cena em que isso foi realizado – no novo céu e nova Terra, onde habita a justiça. Por isso, é que então “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap 21:4). Estes céus e esta Terra serão substituídos por uma cena em que Deus será tudo em todos.
E. Dennett (adaptado)
Reconciliação
“Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus” (2 Co 5:19-20 – AIBB).
O homem se afastou de Deus e se tornou Seu inimigo. Ele precisa de reconciliação. Satanás procura levar o pecador a acreditar que Deus é contra ele e que ele precisa ser propiciado pelas boas obras – daí a vasta quantidade de ações religiosas na carne. Milhares procuram se reconciliar com Deus por seus esforços carnais de serem bons e religiosos. Mas a Palavra de Deus mostra claramente que é o homem, o pecador, que precisa se reconciliar a Deus, e não Deus com o pecador. Há uma diferença entre os dois.
Inimizade do homem
A inimizade total do homem contra Deus, na Pessoa de Cristo, veio à tona na cruz. Colocada à prova de várias maneiras por cerca de quatro mil anos ou mais, a cruz manifestou completamente a condição do pecador como inimigo de Deus. Enquanto Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo Consigo mesmo, sem lhes imputar suas ofensas, descobrimos que o mundo em geral recusou a bondade de Deus e crucificou Seu Filho. E enquanto a cruz de Cristo, por um lado, sela a condenação do mundo, por outro, é a expressão do maravilhoso amor de Deus ao homem. É a base sobre a qual Deus em justiça agora envia a palavra de reconciliação. Paulo e outros a declararam nos primeiros dias do Cristianismo, e é um privilégio dos servos de Deus anunciar agora as mesmas notícias abençoadas a todos, de acordo com a capacidade dada.
Portanto, Deus, em graça, agora adotou a atitude de suplicar aos pecadores para se reconciliarem a Ele. O apóstolo, unindo seus companheiros a si mesmo, diz: “De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com [a – JND] Deus” (2 Co 5:19-20 – AIBB). O pecador deve ser reconciliado no dia de Sua graça ou estar, em seus pecados, diante de Deus para julgamento no futuro. Será tarde demais para ser reconciliado então. “Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação” (2 Co 6:2 – ARC).
Deus glorificado
Deus, tendo sido glorificado na obra consumada da cruz, ressuscitou Seu Filho dentre os mortos. A graça agora reina, e todos os que vêm a Ele em julgamento próprio, pela fé em nome de Seu Filho, são justificados e reconciliados. Quando nosso Senhor esteve na Terra, nos deu uma ilustração marcante da maneira de nossa reconciliação a Deus, na história do filho pródigo. Nesse mundano insatisfeito e ímpio, Jesus ilustrou a condição moral dos publicanos e pecadores daquele dia, mas também expôs o estado do mundo não convertido sem Deus no presente. Reduzido à mendicância e miséria por causa de seu próprio pecado e tendo falhado em seus próprios esforços para remediar sua condição, ele decidiu voltar a seu pai e confessar seu pecado. “E, levantando-se... quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou” (Lc 15:20). Bela imagem da reconciliação do pecador a Deus! Tome seu lugar diante d’Ele, como o filho pródigo, em julgamento próprio e confissão, caso você nunca fez isso antes, e você será reconciliado da mesma maneira. Se você procura se justificar, é como os fariseus e escribas ilustrados no filho mais velho, e será encontrado fora do local de bênção. Mas se você vier a Deus, como o pródigo se levantou e veio a seu pai, você se encontrará como o objeto de Seu amor e Seu Espírito, testemunhando com seu espírito que você é um filho de Deus. E, a partir de agora, “Abba, Pai” será seu clamor.
A maneira da reconciliação
Vamos nos deter um pouco sobre a maneira dessa reconciliação. Cinco coisas podem ser especialmente notadas. O pai viu, compadeceu-se, correu para se encontrar, abraçou e beijou o filho. “E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai”. Ocupado com aquele que há muito tempo estava perdido, o pai estava à espera de seu retorno. Seus olhos se fixaram nele à distância. Reconhecendo a forma conhecida, o coração seguiu o olhar e encheu-se de compaixão por seu filho. O amor apressou imediatamente os pés e ele correu para encontrá-lo. E ali, assim como ele estava em toda a sua miséria, o amor se satisfez envolvendo o perdido em seu afetuoso abraço. Seus olhos viram, seu coração se compadeceu, seus pés se apressaram, seus braços o abraçaram e seus lábios o cobriram de beijos.
O filho confessa seu pecado, mas ele é interrompido pelo pai antes que ele possa falar sobre ser um dos empregados contratados (Lc 15:18-23). Ele foi recebido e tratado como um filho. Nenhuma palavra de censura escapou dos lábios de seu pai amoroso. Seu retorno e sua confissão testemunharam seu arrependimento e imediatamente um coração de amor concede abundantemente tudo sobre o objeto de sua afeição. Este é o modo de agir do amor.
Bendito triunfo da graça! Bela imagem da graça de nosso Deus! O que você sabe sobre tudo isso? Você já julgou e confessou o passado? Você sabe o que é ser reconciliado a Deus, abraçado por Seus braços eternos? Os beijos de paz e reconciliação foram impressos em sua bochecha? “Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado” (Rm 4:7-8). Acaso você também conhece a bem-aventurança de ser incluído nesse versículo precioso: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com [a – JND] Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida” (Rm 5:10)? Nesse caso, você também pode juntar-se a todos os Seus, acrescentando: “E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Qual agora alcançamos a reconciliação” (Rm 5:11).
E o pai disse aos servos: “Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés; E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos” (Lc 15:22-23). A graça superabunda. Somente o melhor de tudo para o reconciliado satisfará o coração do pai. Não era uma questão de seus méritos, mas um coração de amor encontrando sua gratificação na bênção de seu objeto. Maravilhosa graça! E este é o modo de agir do nosso Deus! Tudo o que o amor pode pensar e a graça conceder é colocado abundantemente sobre todo pecador que retorna a Ele. Vestido com a melhor túnica do céu, selado com o Espírito Santo para o dia da redenção, preparado para andar diante d’Ele, agora é o gozo e o privilégio de todo filho de Deus se deleitar com um Pai amoroso nas abundantes riquezas de Sua graça. “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça; Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 5:20-21).
Esta é a maneira da reconciliação do pecador a Deus. Você está reconciliado? “Se Tu, SENHOR, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?” (Sl 130:3).
E. H. Chater
Sobre Reconciliação
A reconciliação é, para usar linguagem corriqueira, tornar tudo correto, e até, principalmente, creio eu, usado na troca de dinheiro como aquela que faz a soma correta, para que haja satisfação de ambas as partes na questão e daí passar para o sentido mais comum de tornar todas as partes em desavença e reconciliar aquele que está afastado ou em inimizade. Mas não é simplesmente a mudança de mentalidade da inimizade, embora isso esteja incluído. Nem é justificação; mas é o retorno à unidade, paz e comunhão daquilo que estava dividido e afastado. O mesmo acontece entre nós e Deus, mas o afastamento era da nossa parte. Não era afastamento da parte de Deus, mas julgamento justo contra o pecado em Sua criatura, e essa justiça deve ser satisfeita a fim de trazer de volta a criatura que se afastou ao relacionamento com Deus. Só que agora é muito mais do que trazer de volta, por causa dos propósitos de Deus em Cristo e do valor infinito da obra pela qual somos trazidos de volta a Deus. Ainda assim, é o estabelecimento de um relacionamento bendito e pacífico com Deus e de nós n’Ele.
Não é Deus que é reconciliado conosco
Reconciliar Deus conosco é uma expressão e pensamento bastante contrário à Escritura. Nenhum ato ou negociação poderia mudar a mente de Deus, seja na natureza ou no propósito, mas Ele age livremente no que está diante d’Ele de acordo com essa natureza e na realização desse propósito, e embora Sua mente não seja mudada, ainda assim, confrontar, satisfazer e glorificar Sua justiça, de acordo com essa mente e a reivindicação imperiosa de Sua natureza e autoridade, é necessário no sentido mais elevado, isto é, de acordo com essa natureza. Sua santidade também está envolvida na reconciliação.
A reconciliação é o pleno estabelecimento do relacionamento com Deus, de acordo com Sua natureza e de acordo com a natureza daquilo que é reconciliado. Ela agora atua na redenção e em uma nova natureza e, no que diz respeito a tudo à nossa volta, num novo estado de coisas, de modo que é mais do que um simples restabelecimento. Ele é restabelecido na medida em que o antigo relacionamento foi rompido e perdido, mas não é o retorno àquele relacionamento. Pelo contrário, é o estabelecimento de um novo relacionamento que possui a estabilidade da redenção e é o cumprimento do propósito de Deus. Ainda assim, é o trazer de volta ao gozo do favor divino aquilo que o havia perdido. Essa reconciliação é dupla na Escritura – do estado das coisas e dos pecadores.
Assim em Colossenses 1 toda a plenitude da Divindade Se agradou em habitar n’Ele “havendo por Ele feito a paz pelo sangue da Sua cruz, por meio dele reconciliasse Consigo mesma (a Divindade – JND) todas as coisas, tanto as que estão na Terra, como as que estão nos céus. A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo [Ela – JND] vos reconciliou no corpo da Sua carne, pela morte, para perante Ele [Ela – JND] vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis”. A força da palavra é evidente desde a primeira ocorrência. Não se trata de mudar a disposição das coisas reconciliadas, porque a reconciliação proposta mencionada no versículo 20 refere-se a todas as coisas criadas e à grande maioria das quais nenhuma mudança pode ocorrer. Trata-se de trazer toda a cena criada do céu e da Terra à sua verdadeira ordem e ao correto relacionamento com Deus, e à sua correta posição e condição nesse relacionamento.
Deus reconciliando o mundo Consigo mesmo
A primeira passagem que se sugere, quando começamos a investigar o uso da palavra na Escritura, é 2 Coríntios 5:18-20, particularmente o versículo 19: “Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo”. Não é “Deus está em Cristo reconciliando”. A passagem afirma que o ministério apostólico tomou o lugar do ministério pessoal de Cristo, fundado no fato de o bendito Senhor ter sido feito pecado por nós, para que nós fossemos feitos a justiça de Deus n’Ele. É o aspecto do ministério de Cristo aqui embaixo. Deus estava em Cristo reconciliando o mundo. O homem não O queria, mas esse era o serviço e o aspecto de Seu ministério. Ele estava propondo ao mundo um retorno a Deus em ordem e bênção, sem lhes imputar seus pecados. Se o homem O tivesse recebido, teria provado que o homem em carne era recuperável, apesar de ter pecado; embora esse não fosse o pensamento de Deus, o resultado provou que ele não era, e o Senhor teve que ser feito pecado por nós. O homem teve que ser redimido do estado em que se encontrava e justificado em um novo patamar, não recuperado de sua ruína como homem ainda em carne e osso.
A iniquidade e a indiferença haviam provado que os homens eram realmente pecadores. Deus estava em Cristo dizendo: Eu não vim para julgar; voltem, e Eu perdoarei; retorne à ordem e a Deus e nada será imputado. Mas a inclinação da carne era inimizade contra Deus, e o verdadeiro estado do homem foi revelado. O pecado do mundo foi demonstrado por eles não crerem em Cristo; a justiça, ao não vê-Lo mais e Sua ida para o Pai. Sem dúvida, é necessária uma mudança em nós para estarmos em ordem e em paz diante de Deus, mas a reconciliação é mais do que um estado de sentimento; é um ser trazido de volta à condição de correto relacionamento com Deus. Em Colossenses 1, já citado, vemos que o propósito de Deus é trazer todas as coisas do céu e da Terra para essa ordem e condição. Todas as coisas foram criadas pelo Filho e para Ele, e toda a plenitude da Divindade que habitava n’Ele trará todas as coisas criadas por e para Ele em sua devida condição e ordem, em um estado normal de relacionamento Consigo mesma.
Nós somos reconciliados
Mas nós, acrescenta o apóstolo, somos reconciliados, sendo Cristo a nossa justiça e nós a justiça de Deus n’Ele. Estamos, quanto à própria natureza de Deus, em nosso lugar normal com Deus, segundo a eficácia da obra de Cristo. Sendo seres morais, uma nova mente era necessária para isso, e Cristo é a nossa vida, perfeita segundo o que Ele foi para Deus, para que possamos tê-la. O crente é reconciliado no corpo da carne de Cristo por meio da morte. Estamos diante de Deus com nossa antiga natureza rebelde em um completo afastamento de Sua vista, por uma obra e obediência que glorificou perfeitamente o próprio Deus, para que sejamos a justiça de Deus n’Ele. Nada está faltando em nosso lugar e posição em Cristo, nosso antigo estado se foi, e sendo já vivificados juntamente com Ele; mortos, e despidos do velho; ressuscitados, e revestidos do novo homem, estamos em Cristo diante de Deus, segundo o valor de Sua propiciação e obra. Nós estamos assim conscientemente pela fé e pela presença do Espírito Santo pelo Qual somos selados, para sermos apresentados “santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” aos Seus olhos.
A morte de Cristo
Portanto, em Romanos 5:10, a reconciliação é atribuída à morte de Cristo, não a uma mudança de mente em nós. “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com [ou, a] Deus pela morte de Seu Filho”. E, “por intermédio de Quem recebemos, agora, a reconciliação” (v. 11 – ARA). Note aqui que o Cristão é chamado de reconciliado. Agora é bem verdade que isso não ocorre e não pode ocorrer sem uma obra no homem pela qual a paz que Cristo fez é apropriada; não pode acontecer sem fé. O Espírito de Cristo opera em poder vivificador em nós, nos faz conhecer nosso estado, dá novos desejos, nos faz julgar nosso velho estado e, finalmente, nos mostra o valor da morte de Cristo e nossa posição n’Ele, mas a paz foi feita, Deus foi glorificado perfeitamente quando Cristo foi feito pecado, para que Seu amor possa nos buscar e a graça reinar por meio da justiça. Não que Deus seja mudado, mas Ele pode trabalhar livremente no amor, de acordo com a justiça, para Sua própria glória, em virtude daquilo que Lhe foi apresentado. A propiciação foi feita e, portanto, de acordo com a justiça e abundando em amor, Ele pode trazer de volta o pecador para Si mesmo, de acordo com estes, e, estando lá a fé trouxe de volta – reconciliou. Aquilo que é o fundamento da reconciliação foi oferecido a Deus, mas não é Deus Quem é reconciliado ou trazido de volta a um lugar normal com o homem, mas é Ele Quem reconcilia em virtude daquilo que foi feito por Cristo e apresentado a Ele.
A propiciação é o fundamento da reconciliação, a reconciliação do pecador e, no devido tempo, a do universo. Nesse momento, o evangelho suplica aos homens (as palavras “vos”, e novamente “vos” devem ser excluídas em 2 Coríntios 5:20: “Sejam reconciliados a Deus” – JND) para serem reconciliados a Deus, para retornar a Ele no verdadeiro relacionamento em Cristo, que foi feito pecado por nós. Não é então propiciação, não é de todo reconciliar Deus, nem é meramente uma mudança no homem ou em seus sentimentos, mas é a posição do homem (quando aplicado a ele) em paz com Deus de acordo com a verdade do caráter de Deus em virtude da redenção, o homem é trazido moralmente de volta a uma nova natureza que, pelo Espírito Santo, aprecia essa redenção e desfruta da paz – regozijo em Deus, assim como tem paz com Ele. É importante notar que o Cristão é sempre tratado como estando reconciliado. É mais do que estar justificado – isso é, com autoridade, ser declarado justo por Deus, seja quanto aos pecados ou agora, de fato, em Cristo. É mais do que a restauração do coração a Deus, embora ambos tenham lugar para a reconciliação, pois estar com Deus totalmente revelado em um relacionamento alegre e estabelecido Consigo mesmo, tudo em ordem entre nós, precisa ser como justificado segundo a Sua justiça e como o objeto de Seu amor como aqueles que o provaram. Fomos introduzidos em ambos pela obra de Cristo, mas com o coração vividamente renovado e provando esse amor, ou não deveríamos como seres morais estar nele. É, portanto, uma palavra de grande poder e bênção. Também não há uma expressão mais completa relacionada à nossa restauração do que a de nossa reconciliação a Deus. Ela supõe que Deus revelou, em tudo o que Ele é, e o homem em um lugar perfeito e posição com Ele segundo essa revelação – reconciliado a Deus.
J. N. Darby
Reconciliação: O que é?
O testemunho da Escritura é o mais distinto possível nesta grande questão. Ele nunca fala de Deus sendo reconciliado conosco, mas antes: “Nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho” (Rm 5:10). A morte de Cristo foi essencial para a reconciliação, mas era o homem o inimigo de Deus e precisava ser reconciliado. Então lemos em Colossenses 1:21: “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou”. O fundamento disso é declarado no versículo anterior como “o sangue da Sua cruz”. Também lemos em 2 Coríntios 5:19: “Deus estava em Cristo reconciliando o mundo Consigo mesmo” (JND) e não diz: “Reconciliando-Se ao mundo”.
Assim, para quem se inclina diante da Escritura, como todos deveriam, a verdade é tão clara quanto um raio de sol. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito”. Deus não apenas O deu, mas O moeu na cruz. “Todavia, ao SENHOR [Jeová] agradou o moê-Lo”. É da maior importância manter o verdadeiro aspecto da natureza e caráter de Deus na apresentação do evangelho. Dizer que Cristo morreu para reconciliar o Pai conosco é falsificar o caráter divino, como visto na missão e na morte de Seu Filho. Deus não era inimigo do homem, mas seu amigo. É verdade que o pecado tinha que ser condenado; a verdade, santidade e majestade de Deus tinham que ser justificadas. Tudo isso foi feito, de maneira divina, na cruz, onde lemos sobre o ódio de Deus ao pecado e Seu amor ao pecador.
A expiação é a base necessária da reconciliação, mas é da maior importância ver que é Deus Quem nos reconcilia Consigo mesmo. E isso Ele faz, bendito para sempre seja o Seu santo nome, a um custo não menor do que a “morte de Seu Filho”. Tal era Seu amor pelo homem; Sua bondade, Sua profunda compaixão que, quando não havia outra maneira possível pela qual o homem, o inimigo culpado e rebelde, pudesse se reconciliar a Deus, Ele deu o Filho do Seu seio, O fez pecado por nós e O feriu por nossas iniquidades no maldito madeiro do Calvário. Honra eterna e universal ao Seu nome!
Oh! Amado leitor, não deve toda essa magnífica demonstração de amor e graça atrair e unir nosso coração ao nosso Deus sempre gracioso com a mais doce confiança, banir todos os nossos medos e apreensões e encher nossa alma com uma liberdade e paz que nem todo o poder da Terra e do inferno, homens e demônios, podem perturbar?
C. H. Mackintosh
Você está Reconciliado?
Ele “vos reconciliou” (Cl 1:21). Esta é uma coisa para agradecer por enquanto. Se eu quiser retornar de coração e mente a Deus, preciso ser reconciliado. Deus viu a necessidade e, pela plenitude e perfeição de Seu próprio amor, Ele fez tudo. “E nós conhecemos, e cremos” nisto. Essa é a condição do Cristão, e se você pedir uma prova disso, esta é a resposta: Ele deu a Sua vida. “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou”. Não apenas temos uma natureza perversa em nós (“filhos da ira”), mas, mais do que isso, temos feito o que é errado, pensado o que é errado, falado o que é errado e, além disso, nosso coração está afastado – a inevitável consequência do pecado. Você já viu um servo ou criança fazer algo errado e ficou feliz em encontrar com seu mestre ou pai depois? Acaso a sensação de ter feito algo errado não os mantém afastados daqueles contra quem pecaram? Sim, há afastamento de coração, porque não queremos que Deus venha e diga a nós, como a Adão: “Onde estás?” Há, primeiro, a concupiscência, depois a prática do pecado, e então a mente se afasta e isso em inimizade. Então, nessa condição, Deus vem para trazê-lo de volta. Como Ele pode fazer isso? Arruinado, infeliz, miserável como sou, se Deus é por mim, posso ir a Ele. A graça pode vir e me fazer feliz. Deus vem em graça para me recuperar quando estou assim afastado e Ele me diz que Ele cuidou dos meus pecados. Isso me trará de volta. A lei convence, mas nunca ganha de volta – nunca. É como se disséssemos a Deus: minha consciência me faz não gostar de Ti, ela me deixa infeliz Consigo; tira meus pecados e eu voltarei. Isso certamente é, em essência, o que o evangelho de Deus nos diz, tanto sobre o nosso pecado quanto sobre a Sua graça.
Reconciliação concluída
E Ele reconciliará somente pela metade? Não, Ele a fez completamente: “No corpo da Sua carne, pela morte”. Lá você estava sob seus pecados. Cristo veio como um Homem real e verdadeiro sobre esses pecados que estão afligindo e mantendo você afastado de Deus. Eu O vejo sendo feito pecado, carregando o terrível cálice da ira de Deus, todos os pecados colocados sobre Ele como o bode expiatório. Jesus Cristo vindo em um corpo, não com uma mensagem de que isso será feito. Não, a obra já está consumada. Deus visitou pecadores em amor. Encontro Deus pela fé lá onde Ele me encontrou, e vejo no corpo da carne de Cristo, por meio da morte, que Ele afastou completamente o pecado. Eu não tenho nada a ver com isso. Quem poderia fazer algo para acrescentar a uma obra como essa? Os homens podem menear a cabeça em escárnio, mas a obra está feita total e completamente. Cristo subiu, e Ele foi apresentar você santo e irrepreensível e inculpáveis aos Seus olhos. Ele me fez assim e, quando terminou a obra, Se assentou.
“Havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus”. Pois bem, então, pode-se dizer: “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos”.
Se tenho paz com Deus, não há nada entre mim e Ele. A paz é feita; é algo consumado. Agora, você está reconciliado a Deus? Graça, glória e amor, então, são trazidos diante de sua alma pelo Espírito Santo, e você será transformado na mesma imagem de glória em glória. Se eu sei que serei como Ele no dia de Sua Aparição, eu me purificarei a mim mesmo agora, “como também Ele é puro”. Que o Senhor trabalhe em nosso coração por Seu próprio Espírito, conformando a nós, os que cremos, segundo a imagem de Jesus, que em breve será conformada ao Primogênito em glória.
J. N. Darby
Procurando por Amor
Estima-se que, a qualquer momento no mundo, haja aproximadamente um bilhão de pessoas conectadas à Internet. Desse número, alguns estão realizando negócios ou simplesmente compartilhando informações com amigos. É chocante perceber, no entanto, que metade está envolvida com vários sites, salas de bate-papo e indivíduos, buscando o amor e a companhia que eles não têm. Tal é o estado deste mundo, que a qualquer momento, quinhentos milhões de pessoas estão buscando alívio da solidão e do sofrimento que os envolve. A tecnologia revolucionou a comunicação nos últimos anos; as viagens de jato tornaram possível que as pessoas se visitassem como nunca; o aumento da riqueza permitiu que algumas partes do mundo tivessem um estilo de vida sem paralelo na história do mundo; no entanto, o problema de afeições insatisfeitas permanece maior do que jamais visto.
A busca pelo amor não é novidade; o músico e compositor americano Stephen Foster expressou isso quase 150 anos atrás em sua música “No one to love” (Ninguém para amar):
“Escura é a alma que não tem nada em que repousar!
Quão triste deve ser a sua hora mais brilhante!
O espírito aborrecido e solitário deve estar
Que não há ninguém para apreciar e amar.”
Embora seja extremamente duvidoso que Stephen Foster tenha se voltado ao Senhor em busca de salvação (ele morreu antes dos quarenta anos), a canção expressa uma necessidade humana fundamental – a necessidade de um relacionamento. A canção tem o título “Ninguém para amar”, mas no mundo de hoje, a procura talvez tenha degenerado ainda mais, pois muitos hoje desejam que alguém lhes mostre amor, ao invés de procurar alguém a quem possam demonstrar amor. Embora a maioria provavelmente diga estar mais do que disposta a mostrar amor, o fato é que o coração humano natural responde com mais frequência ao amor do que o inicia. Mesmo quando o amor é demonstrado, pode não ser o amor verdadeiro, pois os motivos ocultos e intenções secretas frequentemente complicam o que se apresenta como amor.
Quando Deus criou o homem, Ele disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26). Por causa de sua semelhança com o Criador, o homem tem tanto a capacidade quanto a necessidade de amor e um relacionamento. Que privilégio é esse e quão agradecidos devemos estar por Deus ter dado essa dimensão ao nosso ser! No jardim do Éden, em inocência, o homem tinha um relacionamento com Deus, mas Deus, em Sua bondade, viu que “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18). Ele então criou a mulher, que deveria complementá-lo, e assim o homem tinha a companhia de seu Criador e da mulher a quem Deus havia lhe dado.
A queda do homem fez com que ele se escondesse entre as árvores do jardim, pois sua feliz comunhão com Deus havia sido corrompida. Mais do que isso, a entrada do pecado neste mundo afetou seriamente os relacionamentos entre a raça humana e, particularmente, o relacionamento do casamento. Como alguém observou apropriadamente, “Nunca devemos ser ingênuos o suficiente para pensar no casamento como um porto seguro da queda… As lutas mais profundas da vida ocorrerão no relacionamento mais primário e que foi afetado pela queda – o casamento”.
Uma das consequências mais graves da queda foi tornar o homem caído egocêntrico e, portanto, principalmente um tomador, em vez de um doador, como seu Criador. Embora haja, sem dúvida, amizades e casamentos felizes, mesmo entre pessoas não regeneradas, permanece o fato de que relacionamentos e amizades neste mundo são frequentemente imprevisíveis e decepcionantes. O resultado de tudo isso é uma busca contínua (mas geralmente infrutífera) por aquela pessoa ilusória que acabará por responder a todas as nossas necessidades e nos fará felizes.
Qual é a resposta?
Lemos em Eclesiastes 3:11: “[Deus] também pôs o mundo no coração do homem”. A palavra aqui traduzida como “mundo” poderia ser traduzida como “o infinito” ou “o eterno”, mostrando-nos que o homem foi criado para a eternidade, e não apenas para o tempo. Por essa razão, somente Deus pode preencher o coração humano. Eclesiastes é a reflexão definitiva de um homem (Salomão) que havia tentado de tudo e teve que concluir que tudo era vaidade e correr atrás do vento. Ele descobriu que nem as coisas materiais nem os relacionamentos humanos ofereciam uma paz duradoura.
No entanto, o Deus que criou o homem pode encher o coração, pois Ele o criou de modo que somente Ele pudesse preenchê-lo. Deus quer um relacionamento com Sua criatura e abriu um caminho para que a comunhão possa ser restaurada, apesar da queda. Por meio de Cristo e Sua obra na cruz, Deus propiciou o pecado, de modo que “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85:10). O homem agora pode ser reconciliado a Deus e ter, não apenas o relacionamento que estava presente no jardim do Éden, mas um relacionamento muito mais próximo e mais íntimo.
“Embora a queda de nossa natureza em Adão
Parecesse nos afastar de Deus,
Assim foi Seu conselho que nos trouxe
Ainda mais perto, por meio do sangue de Jesus”.
O coração que é continuamente decepcionado e insatisfeito com as coisas materiais e os relacionamentos humanos agora pode ser preenchido com o próprio Deus; o coração feito para a eternidade pode ser satisfeito por Aquele que habita a eternidade.
Novo relacionamento
Esse novo relacionamento com o próprio Deus também tem efeito sobre os relacionamentos humanos, pois lemos: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19 – ARA). O homem em Cristo agora tem a capacidade para o amor divino – você tem um amor que pode continuar amando, mesmo que o objeto desse amor não responda da maneira correta. Por esse motivo, as relações humanas entre os que estão em Cristo agora podem assumir novas dimensões e ter um caráter mais profundo e gratificante, porque agora são vistas à luz do caráter de Deus e do amor de Deus.
Todos nós reconhecemos que mesmo os crentes ainda possuem uma natureza caída e pecaminosa – a que a Escritura se refere como “a carne”. Uma vez que nunca melhora, ela pode fazer com que até um verdadeiro crente faça todas as coisas características de um incrédulo, se lhe for permitida agir. É um comentário triste sobre o testemunho Cristão de que os relacionamentos entre os crentes são muitas vezes caracterizados pela atividade da carne, em vez da nova vida que temos em Cristo. No entanto, o melhor dos relacionamentos humanos, mesmo dentro da estrutura do Cristianismo, nunca será perfeito aqui embaixo e sempre decepcionará de alguma maneira. O crente que reconhece isso se aproximará continuamente do Senhor, para caminhar em comunhão e intimidade com Ele, enquanto procura pela graça trazer o espírito de Cristo a todo relacionamento humano, seja com os crentes ou em seu contato com o mundo. Seu coração, plenamente satisfeito com Cristo, pode alcançar os outros, enquanto espera pelo dia eterno em que todo relacionamento será perfeito.
W. J. Prost
Um Hino de Adoração
Meu Deus, meu Pai, quando pela primeira vez contemplei
Teu santo Cordeiro levantado no madeiro,
Meu coração, diante de Tua grande graça, foi dominado,
Por teres ferido Teu único Filho por mim:
Quão pecaminoso parecia meu pecado naquela luz pura
De justa graça e amor que condena o pecado!
Oh, como Tua graça resplandeceu em glória,
Abundante, toda-abundante, acima do pecado!
Mas agora, enquanto descanso nessa obra da graça,
E me gloriando somente em Sua cruz e em Seu nome
Seu lado aberto é a morada da minha alma
E certo de que minha esperança jamais será envergonhada;
Em minha profunda paz, muitas vezes me esqueço,
E contemplo Seu rosto para Te encontrar;
E alegrias mais profundas, mais ricas e mais santas eu obtenho,
À medida que Tu mesmo és mais revelado a mim.
Sua morte revela Teu nome, assim como salva;
Teu próprio Ser, Vida e Luz é Amor;
Quando meu espírito arrebatado banha-se neste oceano,
Ou neste céu alça voo;
E quando minha mente possui Teus atributos,
Tua sabedoria, glória, poder, todos os poderes celestiais,
E eu estou perdido em minha própria insignificância,
Aqui posso descansar que o próprio Deus é Amor.
J. G. Deck, 1870
“Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo”
2 Coríntios 5:19




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